Amor Sobrenatural
2 Comunicado
Naquela semana, o assunto "internato" parecia ter morrido. Cheguei a pensar que tinham esquecido, mas o comportamento da minha mãe me deixava em alerta; ela andava esquisita, mais sentimental do que o costume. Já Alexandre continuava o mesmo: impenetrável e gélido.
O silêncio acabou no dia em que cheguei da escola e encontrei os dois me esperando na sala de jantar.
— Fox, venha cá — minha mãe chamou.
Meus pés pesavam enquanto eu me "arrastava" até eles. Minha mãe estava de pé ao lado do marido, segurando uma folha de papel com as pontas dos dedos trêmulas.
— Algum problema? — perguntei.
Ela caminhou em minha direção, a voz forçadamente calma: — Não, por que seria?
— Você andou aprontando no colégio? — Alexandre disparou. Ele adorava me provocar, plantando sementes de desconfiança na cabeça da minha mãe.
— Não! — respondi, fuzilando-o com o olhar. — Mãe, por que seu marido vive tentando me incriminar?
— Parem, os dois. Filha, sente-se. Quero lhe contar uma história. — Ela segurou minha mão, conduzindo-me ao sofá. — Querida, lembra do que me perguntou na outra noite?
— Eu sabia! — Tentei me levantar, sentindo a armadilha se fechar, mas ela me segurou
pelo pulso.
— Fox, deixe-me terminar... — Esperei, o coração batendo na garganta. — Alexandre queria mandá-la para um internato, mas eu o fiz mudar de ideia.
Ela olhou para ele, depois para o papel dobrado, e esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Mãe, o que tem nesse papel?
— Se você calar a boca e ouvir, saberá! — Alexandre interveio.
Ignorei-o, focando apenas nela. Foi então que o segredo começou a desmoronar:
— Fox, eu tenho uma irmã mais nova no Brasil.
— O quê? Eu tenho uma tia? Como eu nunca soube disso?
Os dois me encararam e eu fiz o sinal de "zíper" na boca, forçando-me a ouvir.
— Vocês nunca souberam porque eu rompi com minha família. Eu saí de Serra Azul — que, na verdade, é uma reserva — e me recusei a olhar para trás por muito tempo. O ponto é: mandei um telegrama para ela, e ela aceitou recebê-la.
O choque me atingiu como um soco.
— Calma... Você morava em uma reserva... indígena? — Ela assentiu. Meu queixo caiu. — Por que nunca me contou? O papai sabia?
— Sim, ele era o único. Eu queria esquecer meu passado, Fox.
— Esquecer por quê?
— Outra hora conversamos sobre isso. O importante é que pedi a Laura para você passar uns dias na casa dela.
— Uns dias? — ecoei, já sentindo a manobra. Olhei para Alexandre, que permanecia imóvel como uma estátua de gelo. — Por que não posso ficar com o meu pai?
— Eu tentei falar com ele, mas não consegui contato. Pensei na minha irmã... ela adoraria conhecê-la!
— Então você vem comigo? — Um fio de esperança surgiu em minha voz.
— Sua mãe não irá a lugar algum — Alexandre respondeu friamente.
Levantei-me, encarando-o com desprezo, mas minha mãe se colocou entre nós, bloqueando minha visão.
— Eu adoraria, filha, mas... vai ser bom você passar uns meses longe.
— Meses? — A confusão tomou conta de mim. — Você disse dias agora há pouco! E por que está me mandando para um lugar que, pelo que entendi, você odeia?
— Eu não odeio Serra Azul. Pelo contrário... — Ela hesitou, o olhar perdido em alguma memória dolorosa. — A história é longa, mas, resumindo, eu fugi do que a minha família estava me obrigando a fazer.
— E o que era? O que fizeram com você?
— Eu sou nativa da tribo Makah e... — Ela travou. O brilho de tristeza em seus olhos me calou por um segundo. — Isso não tem importância agora.
— Como não importa? — rebati. — Se vou morar com estranhos, mereço a verdade!
— Chega de blá-blá-blá! — Alexandre segurou os ombros da minha mãe com força excessiva. — Você vai e ponto final. É isso ou o internato. A vaga ainda está de pé, Fox. Escolha.
— Mãe! — supliquei, esperando que ela me defendesse daquele tom autoritário.
— Alexandre está sendo generoso, Fox. Você deveria agradecê-lo. Você odiaria o internato.
Engoli em seco. Era doloroso ver minha mãe se anular daquela forma, mas entendi que a batalha estava perdida.
— Ok. Eu vou. Só digam quando.
— Assim que começarem as férias. Daqui a três dias — Alexandre sentenciou.
Três dias. Eu tinha três dias para sair de um inferno conhecido e mergulhar em um mistério no Brasil. Minha mãe tentou tocar minha mão, mas eu recuei. Vi seus olhos marejarem, mas meu peito agora só tinha espaço para o rancor.
— Só mais uma pergunta: como são essas pessoas?
Ela me deu uma descrição vaga do que esperar em Serra Azul. Saí da sala sem dizer mais nada. No quarto, o choro veio pesado — uma mistura de ódio, medo e saudade antecipada do meu pai. Chamei por ele em pensamento, esperando um milagre que não veio. Quando ela me chamou para jantar, o silêncio foi minha única resposta. Troquei o uniforme escolar pelo pijama e me encolhi na cama, rezando para que, de alguma forma, eu sobrevivesse ao que estava por vir.
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