Amor Selvagem!
3 Capítulo 3 BALAIO DE GATOS...
Notas iniciais
Atendendo prontamente à solicitação de Camus, Jonas buscou a bagagem de Milo e providenciou que o quarto de hóspedes estivesse em condições de receber o jovem.
Espaçoso e mobiliado com primor, possuía quase a mesma dimensão da cabana que Milo construíra para si. Duas poltronas finamente trabalhadas descansavam sobre um tapete oriental de tons vibrantes, a cama com dossel era ampla e estava posicionada de forma a receber o calor vindo da imensa lareira. Obras de arte enfeitavam as paredes mostrando cenas românticas e bucólicas, enquanto a janela alta e coberta de vitrais criava efeitos belíssimos ao refletir a luz. A mansão era luxuosa e o quarto de hóspedes não ficava atrás, constatou Milo.
O senhor Camus é mesmo um homem de posses e bom gosto. Pensou o jovem cavalariço, enquanto circulava pelo aposento.
Duas leves batidas na porta interromperam os pensamentos de Milo. O rosto que surgiu logo o fez sorrir.
— Com licença, senhor Milo. Vim trazer-lhe uns quitutes que Verena mandou quando soube que o senhor se hospedaria aqui. – disse Jonas com uma bandeja com dois pães, generosamente recheados com carne, e um copo de cerveja escura.
— Fico muito grato! Pode me levar até a cozinha para eu agradecer? – falou Milo.
— É claro, me acompanhe, por favor!
No caminho para a cozinha, Milo viu uma sombra ágil mover-se e ser seguida por outras quatro.
— O senhor Camus tem animais aqui? – perguntou o jovem.
— Ah! Esses aí vieram de Village Mall são ariscos e só obedecem ao duque! – respondeu Jonas.
Village Mall? Será que? Ao ouvir o nome, Milo logo se lembrou da gata selvagem que encontrara no estábulo abandonado. Curioso, andou mais rápido até ver a imensa gata amarela receber iscas de carne de uma senhora rechonchuda e sorridente.
— Senhora gata! – exclamou Milo já se agachando.
No mesmo instante, Camus surgiu presenciando a cena. Sabendo que a gata era selvagem e só obedecia a ele, foi alertar Milo para que não se ferisse. No entanto, percebeu boquiaberto que o animal corria para perto de seu pupilo e deixava-o acariciá-la com visível prazer.
— Pelo visto, ela gostou do senhor. – disse Camus.
Milo olhou para cima e viu o olhar do duque. Ele parecia sério e intrigado.
— Nós dois já nos conhecemos, não é senhora gata? Como ela veio parar aqui? Eu a deixei na porta de uma mansão, porque achei-a em um estábulo abandonado e sem sinal de comida por perto.— falou Milo coçando a cabecinha da gata que agora ronronava e se atirava ao solo expondo a barriga.
— Então foi o senhor que deixou-a em um cesto... – disse Camus lembrando-se da visão dos cabelos loiros ao vento.
— Sim fui eu! Mas, isso não explica como ela veio parar aqui... Espere aí! Não me diga que...
— Eu sou o proprietário de Village Mall.
— Que coincidência! Puxa, obrigado por tê-la recolhido. Sabia que eu a vi ter os filhotes? Eu sou louco por animais. Às vezes, acho que eles são mais capazes de amar que nós. – disse Milo levantando.
— Confesso que pouco tenho contato com outros animais que não sejam os cavalos, mas uma fêmea com filhotes despertou meu instinto de proteção.
— Seus filhos terão muita sorte, Sua Graça. Pessoas que gostam de animais se revelam pessoas boas. – falou Milo sorrindo.
Camus deu um meio sorriso que mais pareceu uma careta. Filhos! Se ele soubesse...
— Bem, espero que esteja bem instalado e confortável. Se precisar de algo, peça ao Jonas. Vou sair e volto para o jantar. – falou Camus.
— Está bem! Vou aproveitar e dar os parabéns à rainha desta cozinha! – disse Milo rindo ao ver a gata roçando em suas pernas.
Verena sorriu e depois ficou séria ao olhar para o duque. Como mulher experiente que era, percebeu que o senhor daquela casa estava perturbado. Conhecia-o desde criança e o via como se ele fosse as águas de um lago. Calmo e plácido na superfície, mas denso em suas profundezas. O jovem que ele acolhia era como o mar, agitado e forte e ela intuía que havia uma coisa entre os dois.
Por alguns segundos, os olhos bondosos e escuros de Verena encontraram os do duque e ele piscou, parecendo o menino que adentrava a cozinha quando estava com seu avô. Em seguida ele deu mais uma olhada para Milo e a gata e se foi com a mente fervilhando e o coração inquieto.
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Saga ergueu a cabeça quando June entrou em seu aposento. Estava sentado a uma mesinha e lia um livro. O sorriso aberto denotava contentamento e a visão da amante adentrando sua intimidade, apenas completava a cumplicidade que ambos possuíam.
— Pode haver prazer maior que ler uma obra fantástica e intrigante? — Disse ele mostrando o livro que mandara vir da América do Norte.
— Edgar Alan Poe... Hum, interessante. É um romance? – perguntou June tocando-lhe o ombro.
— Não do tipo que as mulheres gostam. – disse Saga fechando o livro, após marcar a página lida.
— Sua Graça se surpreenderia com o gosto feminino. – disse ela rindo.
— Você, talvez. Mas a grande maioria prefere os romances açucarados e com final feliz, algo que não podemos esperar nas obras de Poe. Bem, mas não vou atormentá-la com teorias sobre o gosto literário das mulheres. Veio buscar seu numerário, não é mesmo?
— Sua Graça sabe que não gosto dessa palavra. Eu diria que vim buscar a doação generosa que permite uma vida plena e satisfatória para nós dois. – respondeu June sorrindo.
Saga riu e passou a jovem mulher uma bolsa de veludo negro, onde constavam quinhentas libras, o pagamento que a bela dama recebia, mensalmente, para fingir ser amante do duque e assim permitir que sua reputação permanecesse intacta, já que sua preferência seria vista como algo hediondo e imoral.
— Tome, este mês haverá um adicional para ser vista comigo no entediante Baile Sublime. Dou-lhe, até, permissão para flertar com algum homem que ache interessante. Desde que, mantenha-se fiel ao seu amante, isto é, eu. – disse o duque.
Os dois estavam rindo quando o ruído da porta aberta chamou a atenção de ambos.
— Kanon! – disse o duque com severidade e, ao mesmo tempo, um olhar intenso e cheio de desejo.
— Oh, perdão. Não sabia que sua amante se encontrava aqui, em seu quarto. Se soubesse não estaria em trajes sumários. – disse o gêmeo com uma expressão maliciosa e divertida.
— Bem, acho que estou sobrando. Nos vemos amanhã à noite? – disse June olhando discretamente para o corpo escultural de Kanon e pensando: Oh, Deus! Como a natureza pode ser tão cruel... Dois belos espécimes desses e nenhuma possibilidade de tê-los na cama.
— Sim, minha lady... – respondeu Saga beijando a mão delicada.
Quando June saiu, Kanon aproximou-se do irmão, beijando-o no pescoço.
— Humm... Lendo Poe. Gosto dele, principalmente no clima deliciosamente proibido. – falou Kanon descendo os lábios devagar, enquanto sussurrava.
Saga fechou os olhos, sentindo a vibração no corpo, o calor se espalhando como uma praga por todos os seus sentidos. Kanon tocou-o por dentro da roupa, enquanto encostava o corpo seminu no de Saga e o fazia sentir sua excitação.
— Temos um jantar... não podemos... – murmurou Saga sentindo-se enrijecer, a ereção latejando junto com todo o seu corpo.
— Sim, temos um jantar... Mas, como eu sempre digo, o que me faz gostar de ser um nobre é poder saborear uma boa entrada, antes das demais iguarias.
Saga sorriu. – Pensei que eu era o prato principal. Que decepção!
Kanon riu alto e roçou a face na do irmão.
— Você não fez a barba. – disse Saga.
— Quer que eu faça? – perguntou Kanon com a voz, agora baixa e rouca.
Saga negou com a cabeça. Sempre que Kanon o tomava nos braços, esquecia-se de tudo e só ansiava pelo corpo dele em contato com o seu. Perderam-se em carícias, as respirações quentes sendo trocadas por meio dos beijos...
Coberto, somente com uma toalha envolta nos quadris, Kanon sentiu a mão de Saga tocar-lhe a ereção e pressionou-se contra os dedos dele.
— Livre-se dessas roupas... – sussurrou Kanon.
Saga obedeceu, despindo-se sem afastar-se da boca que amava beijar.
Os corpos se uniram, tão ávidos como se fosse a primeira vez. Não havia posição que não houvessem experimentado, nem carícias inéditas. Repetiam o que já tinha feito desde a descoberta do amor proibido e isso não diminuía o desvario que sentiam um pelo outro. Exibir uma fachada exigia, de ambos, um preço. Porém, tanto Saga, quanto Kanon pagavam com muito prazer.
Amaram-se com vigor e entusiasmo, até o tremor atingi-los tão profundamente que o mundo pareceu evanescer...
— Kanon! – gritou Saga quando o orgasmo varreu seu corpo e sentiu, dentro de si, a liberação quente do irmão.
Pouco depois, Kanon acariciou o rosto de Saga que estava um pouco avermelhado pelos arranhões de sua barba por fazer.
— Vou me barbear. Não quero arranhar seu rosto, novamente...
Saga olhou-o, profundamente, dentro dos olhos e, sorrindo malicioso, disse:
— Não precisa... porque agora, que vai possuir você, sou eu!
Kanon sorriu, daquele jeito provocante e, ao mesmo tempo, quase angelical. E então, começaram tudo outra vez...
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A carruagem parou diante de uma mansão fora dos limites da cidade. Era uma construção discretamente recuada, oculta por uma cerca viva e grades altas. Belos jardins exibiam roseiras bem cuidadas e arbustos podados em forma de labirinto criavam um efeito simétrico e interessante na paisagem da mansão.
— Que lugar é esse? – perguntou Pandora.
Hades olhou-a com um brilho predatório nos olhos frios.
— Um lugar que, certamente, lhe trará muito prazer...
Completamente, inocente, Pandora sorriu e deslizou porta afora, percorrendo de braços dados com o conde, a trilha em direção aos degraus da entrada. A porta alta e finamente esculpida e a aldrava em formato de cabeça de gárgula fazia a mansão parecer quase um castelo medieval.
Nem bem ambos alcançaram a porta, um mordomo enorme e musculoso abriu-a, como se soubesse de antemão que estariam ali. À simples visão de Pandora, as feições rudes se transformaram em um sorriso.
— Conde Hades, condessa Pandora... Sejam bem-vindos.
O homem os conduziu pelo amplo salão com arabescos em dourado e vermelho. Um lustre imenso pendia do teto criando efeitos de luz e sombra nas obras de arte que permeavam todo o ambiente. Os móveis estavam distribuídos em recantos separados por biombos, ricamente, decorados no estilo oriental e possuíam uma coloração escura. Em sua maioria eram chaises e bérgers que pareciam ser muito cômodas, quase que preparadas para serem usadas como camas.
Por um momento, Pandora se deteve em uma escultura, em especial, que mostrava um casal nu beijando-se com muita intimidade. Depois, deparou-se com a escultura de uma mulher nua, com as pernas abertas exibindo sua genitália e também um casal de homens que se olhava de forma tão intensa que parecia duas pessoas de carne e osso.
Hades percebeu-lhe as reações que passavam do constrangido ao maravilhado.
— Que obras são essas? – sussurrou ela ao conde.
— As em mármore e bronze são de um renomado artista chamado Auguste Rodin. Aquela em granito, de um artista ainda desconhecido que costuma manter-se incógnito, mas que, em minha opinião é tão genial quanto Rodin. – respondeu ele. – Desagradou-a?
— Imagine. Muito antes pelo contrário... Pode me achar devassa, mas senti uma pontada de desejo só em olhá-las. – respondeu ela sorrindo com o rosto em fogo.
A resposta fez Hades exultar, porém ainda havia outros pormenores que haveriam de dizer se Pandora seria a mulher certa para si. Logo, um casal veio cumprimentá-los. A mulher era madura, mas ainda impressionantemente bonita. O homem mais jovem sorriu e estendeu a mão para cumprimentar o conde.
— Sejam bem-vindos à nossa casa. Eu sou o conde Minos de Griffon e essa é minha esposa, a viscondessa Valery. Tenho muito prazer em recebê-los.
Pandora sorriu e Hades apertou a mão de Minos, demoradamente. Valery sorriu e deu o braço para Pandora.
— Venha, minha querida! Vou apresentá-la aos demais. Deixemos os homens conversando.
Maravilhada com tanta opulência e atenção, Pandora aceitou sob o olhar de aprovação de Hades. Assim que as mulheres deixaram o salão, o rosto do conde inclinou-se e os lábios finos tomaram os de Minos num beijo exigente. O jovem fechou os olhos e gemeu quando a língua cálida tocou a sua. Hades continuou a exploração como se não houvesse mais ninguém ali e Minos entregou-se ao redemoinho de sensações que sentia com seu amante.
— Você demorou... – gemeu ele junto à boca de Hades.
— Estou aqui, agora... E hoje, saberemos se encontrei a pessoa certa para nós. – respondeu o conde mordiscando os lábios desenhados daquele que o enlouquecia.
Minos sorriu, os olhos castanhos dourados brilhando de excitação.
— Então vamos... – disse pegando Hades pela mão e levando-o escadaria acima.
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Chacoalhando na carruagem, Camus deixou escapar um longo suspiro. A noite estava densa e uma garoa fina cobria a cidade. Sua mente fervilhava de pensamentos indesejados e muitos deles referiam-se ao seu mais novo pupilo. Tentava dizer a si mesmo que a presença dele em sua casa em nada afetaria as lições e que logo cuidasse das roupas adequadas, o jovem seria encaminhado a um hotel.
No entanto, sendo sincero consigo, experimentava uma sensação inquietante quando junto do jovem. Passava da exasperação à admiração pelo aprendizado rápido que Milo demonstrava e, pior que tudo, começava a vivenciar algo que estivera adormecido por muito tempo: desejo.
Levou a mão ao canto dos olhos e apertou-os. Estava com a cabeça cheia e ainda recebera um pedido de ajuda que não desejava atender, mas sua consideração pela memória do avô pedia que, ao menos, escutasse o que aquela mulher tinha de tão urgente que se sujeitara a pedir-lhe que a visitasse.
A Taberna Chance era uma pousada modesta na periferia de Londres. Estreita, com uma janela em arco e um jardim bem cuidado, poderia passar-se por um local familiar não fosse pelo detalhe de, além de servir como hospedaria, funcionar como um local para encontros entre amantes.
A dona do estabelecimento era nada menos que a amante viúva de seu avô, a bela e geniosa Shina. Após quase arruinar o duque, ela conseguira manter a casa e iniciar um negócio de caráter duvidoso.
Camus comprimiu os lábios. Mesmo sendo muito jovem, quando o avô falecera, assim que se viu sozinho e com a responsabilidade de administrar os bens da família, recebera a mulher que parecia ter a sua idade e lhe permitira ficar com aquela pequena propriedade para que pudesse sustentar-se. Agora, já não tinha tanta certeza de ter feito a coisa certa.
Com outro suspiro, aproximou-se da porta da pousada. Não podia ficar na rua a noite inteira. Ainda assim, foi com relutância que ergueu a alça de ferro e bateu contra a madeira. Foi logo atendido por um homem alto, cujo rosto anguloso e corpo musculoso fazia pensar que ele era um lutador ou algo do gênero.
— Sim? – o inesperado atendente o fitou com desconfiança.
Inesperadamente, Camus lembrou-se da expressão debochada de Milo ao perguntar se ele frequentava aquela casa. Pois bem, senhor Milo, na próxima vez que me questionar, a resposta será afirmativa. Pensou o duque, inspirando fundo, mais uma vez.
— Por favor, gostaria de falar com a Sra. Shina, ela está me esperando. – disse Camus.
O homem estudou-o por um segundo antes de recuar um passo.
— Vou avisar que Sua Graça chegou.
Conforme adentrou o hall, Camus percebeu que era tudo muito limpo e silencioso, apesar da fama. Sinceramente, não esperava que o lugar fosse discreto e com aspecto familiar.
— Tem um cavalheiro procurando a senhora. – anunciou o homem, colocando a cabeça para dentro de um pequeno escritório.
— Obrigada, Tatsumi. Mande-o entrar, sim? – respondeu uma mulher lá de dentro.
Abrindo espaço para ele, Tatsumi fez um gesto displicente e se retirou.
O escritório era simples, porém delicadamente decorado. Camus viu que as paredes em tom creme possuíam pinturas do período renascentista. Observando, detalhadamente, reconheceu alguns objetos que fora de sua família servindo como decoração: vasos, esculturas, pinturas e até mesmo o tapete persa que forrava quase todo o chão.
— Não roubei nada se é isso que está pensando. – disse a jovem que aguardava em pé, no meio da sala.
Camus sentiu-se constrangido, porém manteve-se ereto e sério. Diante dele, a jovem esguia de feições bonitas, mas fortes o fitava com dois enormes olhos verdes. Embora trajasse um vestido azul bem cortado, poderia ser considerada uma modesta criada de algum nobre, a não ser pela esmeralda que lhe pendia de uma corrente de ouro até o início do decote.
— Não vim aqui para ofendê-la e sim saber a razão de ter me enviado isso. – disse Camus estendendo um envelope à jovem.
— Isso é uma parte do dinheiro que seu pupilo deixou como pagamento. Já que vai hospedar-se em sua casa, achei justo devolvê-lo.
— E porque tinha de ser, diretamente a mim?
Um breve silêncio se instalou no ambiente, enquanto Shina apertava os lábios antes de responder.
— Todos me acham uma devassa oportunista por ter sido amante de seu avô. Eu era pouco mais que uma menina, mas, a verdade é que eu fui... muito feliz e respeitada, naquela época. Não tenho chifres e rabo para ser considerada um demônio em pessoa. Fiz coisas das quais não me orgulho, entretanto acho que já paguei por boa parte delas Tento manter-me como posso e se concedo que usem esse lugar para alguns encontros é porque minhas despesas são altas e precisam ser pagas. Tudo o que vê nesta sala, me foi dado de presente e eu não me desfaço de nada, nem que precise. Assim como não sou injusta ou aproveitadora.
O rosto de Camus estava fechado numa máscara de total isenção de sentimentos.
— Não me deve satisfações, senhora. – devolveu com calculada frieza.
Shina nem sequer se abalou.
— Eu sei disso, mas queria esclarecer algumas coisas há muito tempo. Na verdade, ao aconselhar seu pupilo que este ambiente não era apropriado, Sua Graça deu-me a oportunidade para tal.
Antes que um dos dois falasse algo, um homem atarracado com uma mancha avermelhada no rosto entrou com uma bandeja e dois cálices.
— Sua Graça...— disse ele oferecendo a bebida.
Camus hesitou, pensando se não deveria encerrar o assunto e bater em retirada, como diria seu pai. Mas, optou por aceitar o cálice de conhaque.
— Obrigado. – murmurou, seco, mas de forma educada.
— Por favor, sente-se. – disse Shina mostrando a poltrona de brocado.
Assim que Camus sentou, Shina tomou assento à sua frente e olhou-o nos olhos.
— Agora que já se passou bastante tempo, quero que saiba que seu avô jamais tocou um dedo em mim. Na verdade, o papel de amante foi apenas para que ele pudesse aproveitar o restante de sua vida com maior liberdade. Ele estava doente... Na verdade, o médico não soube dizer que doença ele havia contraído. Era estranho, porque ele sentia dores e fraqueza, porém não apresentava uma debilidade visível e condizente com as enfermidades conhecidas. Só soube dizer que aquilo o estava matando. Eu havia perdido meus pais e tinha poucas condições de sustentar-me sozinha. Ele gostou de mim, mas dizia que estava muito velho para certos prazeres. Então fizemos um acordo. Ele não queria que sua família soubesse da doença e eu precisava de um protetor. Sinto-me culpada, porque em alguns momentos, acho que o desvario provocado pela doença o fez ir longe demais... Seu avô era um homem bom.
Camus piscou diante da revelação, porém sabia que uma mulher bela e forte como Shina poderia muito bem manipular e mentir. Afinal, a derrocada dos bens e a quase falência de seu avô não fora, apenas, uma encenação.
— Torno a dizer que não me deve satisfação nenhuma. Tem seu negócio e consegui manter os bens da família. Creio que tudo está em seu lugar.— disse Camus.
— Não acredita em mim, não é mesmo? Bem, paciência. Só queria que soubesse que os gastos e extravagâncias de seu avô não foram apenas em dívidas e jogatina. Ele também despendeu parte de sua fortuna para ajudar crianças órfãs e também aquelas ilegítimas que eram abandonadas.
Camus fitou os olhos de Shina, totalmente desconcertado, embora continuasse com sua máscara de serenidade. Notou que ela mantinha as mãos entrelaçadas sobre o colo e que, em nenhum momento, desviara o olhar do seu. O queixo delicado mantinha-se erguido e esse detalhe só serviu para provar-lhe uma coisa: ela falava a verdade!
— Tudo isso pertence ao passado, Sra. Sinto dizer que, mesmo sendo verdade, todos foram levados a crer na antiga versão e a forma como administra seus negócios contribui para confirmar o que aconteceu no passado. – disse Camus.
— Não me importa a opinião alheia, Sua Graça. Eu queria que o senhor soubesse, afinal o avô era seu e creio que, apesar da sua impassibilidade, deve ter-lhe afetado ouvir sobre os defeitos de quem amava. – respondeu Shina com audácia.
Por um breve instante, Camus fulminou-a com o olhar, ultrajado pela entonação dada à última frase. Então, inesperadamente, lembrou-se de Milo e sentiu uma ponta de admiração pelo fato de ela não se intimidar, assim como seu pupilo.
— Obrigado. Fico-lhe grato pela sensibilidade, mas saiba que jamais julguei meu avô. Tudo o que fiz foi manter aquilo que era possível e inaugurar uma nova fase em nossa família. Não temo o trabalho, nem quero viver como um aristocrata fútil que só se interessa em gastar e falar sobre a vida alheia. No entanto, Sra. Shina, espero que reveja suas metas. Mesmo desprezando a opinião da sociedade, terá mais prejuízo que lucro mantendo uma falsa reputação.
Shina abriu um sorriso e estreitou os olhos.
— Não é o que meu livro-caixa diz, mas obrigada por acreditar.
Camus levantou-se e, fitando Shina nos olhos, tomou-lhe a mão e a levou aos lábios.
— É uma mulher inteligente, Sra. Shina. Espero que use sua perspicácia para manter algo mais importante que dinheiro. Mais uma vez, obrigado pelas revelações.
A jovem mulher engoliu em seco e, antes que pudesse se recuperar do inesperado elogio e da atitude cavalheiresca do duque, Camus se afastou e deixou a casa.
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