Amor Selvagem!
4 Capítulo 4 EM ALGUM LUGAR DO PASSADO...
Notas iniciais
O vento soprava implacável nas janelas da pequena sala, fazendo um barulho semelhante a um lamento. Rajadas ocasionais batiam de encontro às frestas, agitando as cortinas de fino brocado inglês.
Dohko Dewhurst estava acomodado a uma poltrona, arrastada perigosamente para perto da lareira. Observava a dança do fogo, enquanto marcava a página de um livro que não se cansava de reler, porque era a única lembrança que permanecera de um tempo feliz...
Era um homem jovem, na casa dos 32 anos, mas a doença lhe tirara o vigor e trouxera alguns fios brancos aos fartos cabelos castanhos. Ou seria a tristeza que guardava para si, escondida a sete chaves desde que vivenciara a verdadeira expressão do amor e o perdera por conta da hipocrisia e do preconceito, dominantes naquela sociedade?
De repente, piscou com o vento uivante e deu-se conta que tinha cochilado com os olhos abertos e o livro nas mãos. Voltou a olhar as chamas vibrantes e deixou-se divagar. Dali a pouco, Marin viria dar-lhe o remédio e a refeição. Ele fingiria tomar o tônico de gosto amargo e comeria uma porção ínfima da excelente comida que ela preparava. A rotina já era conhecida há vários meses...
Após a partida de Pandora, ele fora deixando a vida passar. Não sentia tristeza pela solidão imposta a si e sim um grande alívio. Nunca devia ter me casado com ela. Pensou enquanto recordava o arranjo que sua família fizera para que o escândalo de sua juventude não fosse exposto.
Ergueu um pouco a cabeça da poltrona, virando-a para a escrivaninha ao lado, a fim de olhar para Marin que chegava com a bandeja. A jovem lhe sorriu e já foi servindo o remédio e, em seguida, uma xícara de chá.
— Pronto! Aqui está o seu tônico e o seu chá. Como está se sentindo? – perguntou ela.
— Bem melhor. – respondeu Dohko com um breve sorriso. A mesma reposta para a mesma pergunta...
Marin sorriu-lhe de volta com um misto de compaixão e tristeza disfarçada. O conde era um homem bonito e, nem mesmo a doença pudera destruir-lhe as feições atraentes e fortes. Vê-lo definhar, dia após dia, era difícil e inaceitável para si. Sabia que ele fingia estar melhorando quando na verdade, deixava-se tomar pela fraqueza e pela falta de vontade de viver.
— Como será que Milo está se saindo? – falou ela para puxar assunto.
— Deve estar bem... Milo é um rapaz de fibra, foi feito para superar desafios. Creio que, rápido como ele é, já assimilou muitas coisas.
— Perdoe-me por perguntar, mas... a condessa já sabe da sua decisão?
Dohko deu um suspiro longo.
— Pandora circula na corte e é claro que, há essa hora, todos já devem estar comentando sobre a ida de Milo e sua posição como meu herdeiro.
— E o senhor não teme que ela... Bem, ela é sua esposa e pode exigir seus direitos.
— Pandora e eu casamos com base em um contrato nupcial que prevê questões relacionadas à herança. Há muito tempo que ela é minha esposa apenas no papel, mas não de fato. Eu a libertei de ficar ao meu lado. Portanto, agora é a minha vez de fazer valer a minha vontade. Pelo menos uma vez na vida, mesmo que seja antes de morrer, eu tomarei as decisões certas!
Marin franziu o cenho, não conseguia entender aquele tipo de relação e nem como o conde mantinha-se impassível com as atitudes da esposa. No papel ou na vida real, a verdade era que ele era corno, isso sim!
Dohko olhou com uma expressão divertida ao ver a expressão preocupada de Marin. É claro que ela tentava entender, mas lhe faltava a peça principal, aquela que daria sentido a tanta permissividade de sua parte e à total liberdade de Pandora em desfilar com seu amante à vista de todos.
A verdade pura e simples era que jamais amara Pandora ou qualquer outra mulher. O grande amor da sua vida fora um homem, seu melhor amigo, seu confidente e primeiro amante. Por ele, aceitara casar-se às pressas ou a desgraça se abateria sobre a família do jovem que não tinha títulos ou uma situação financeira adequada para se defender de um escândalo daquele porte.
— Estou cansado... Ajude-me a ir par o quarto. – disse ele fazendo um esforço para levantar-se e já sentindo a febre dominar-lhe o corpo.
A jovem aproximou-se e permitiu que o conde se apoiasse em seus ombros. Lentamente, deixaram a saleta e se encaminharam para os aposentos que já tinham sido arejados e agora aguardavam que Dohko os utilizasse. O conde deitou-se e fechou os olhos, trazendo de volta o dia em que quebrara as regras da família e fora obrigado a salvaguardar a honra dos pais e a segurança do amante, aceitando casar-se com alguém que jamais iria amar...
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Camus retornou para casa encontrando tudo providenciado para o jantar. Naquela noite cearia com alguns amigos e, mesmo tendo acolhido Milo por força das circunstâncias, a ocasião seria propícia para testá-lo e prepará-lo para os jantares e festas que viriam a seguir.
— Sua Graça, os duques, Saga e Kanon, assim como o conde Aiolia já estão aguardando na sala de visitas. – disse Jonas recebendo seu patrão.
— Ótimo. E o senhor Milo? – perguntou Camus.
— Ah, o senhor Milo está conversando com os convidados e me parece bem à vontade.
— Claro. Vindo do senhor Milo, não me surpreende. – disse Camus.
— O rapaz é animado e atrai a simpatia das pessoas. – disse Jonas sorrindo.
Com uma sobrancelha levantada, Camus olhou para o criado.
— Vejo que ele o conquistou também.
— Perdoe-me dizer isso, mas ele é mais interessante e muito diferente dos seus pupilos habituais. Há nele uma energia e uma generosidade muito rara, hoje em dia. – falou Jonas.
Embora concordasse com Jonas, Camus nada disse, apenas retirou seu sobretudo úmido, dando-o para criado. Quando entrou na sala de visitas, logo percebeu as risadas e o ambiente alegre.
— Sua Graça!— falaram três vozes ao mesmo tempo.
— Boa noite, senhores. Vejo que estão se divertindo bastante na minha ausência. – disse o duque com um discreto sorriso.
— Mas é claro! Estávamos conversando com seu mais novo pupilo. – disse o jovem de cabelos acobreados e expressão vivaz levantando-se e estendendo a mão.
— Aiolia. Que prazer tê-lo conosco. – disse Camus apertando a mão do amigo.
Saga e Kanon também se levantaram e mais apertos de mão foram distribuídos. Milo ficou observando o modo como Camus agia. Mesmo com amigos que pareciam íntimos, ele mantinha certa formalidade e sorria de forma contida. No entanto, havia nele uma educação e gentileza que aprendera a admirar, assim como gostava de estar com ele e aprender. Nunca pensara que seria dessa forma. Imaginava um daqueles preceptores rígidos e desagradáveis, porém Camus era diferente. Era firme e exigente, porém estimulava-o com palavras de incentivo e fazia-o sentir-se bem.
— Bem, vejo então que já se conhecem. O jovem Milo está para herdar um título de nobreza e hospedado em minha casa. Ele já fez muitos progressos e será muito bom para ele estarmos todos reunidos neste jantar. – disse Camus.
Milo sorriu largo e o olhar de Camus recaiu sobre a face bela que parecia encantá-lo com aquela vivacidade natural e intensa. Logo se deu conta que o estava encarando e desviou.
— Ah, Camus... Eu tomei a liberdade de convidar uma pessoa para vir aqui. É um médico que chegou, recentemente, das Américas e de outros lugares exóticos. Nós nos conhecemos em uma viagem e eu queria muito que você o conhecesse. Sei que não gosta muito de surpresas, mas amanhã estarei partindo para ficar dois dias fora e preciso de um favor seu, em relação a este amigo. – disse Aiolia.
— Quem é ele?
— O nome dele é Shion. Shion Middleton. A história dele é bem interessante, um exemplo de superação. Mas, sabe como é... ele não é de origem nobre e precisa de contatos na corte, para se estabelecer em Londres.
— Muito bem, esperemos o Sr. Middleton para cear conosco. – disse Camus.
A conversa voltou a ficar animada, com Camus participando dos assuntos até a chegada do médico que Aiolia havia convidado. Assim que ele chegou, as atenções se voltaram para as histórias que ele contava sobre suas andanças pela América do norte e sul, assim como a sua formação nada ortodoxa. Shion havia aprendido técnicas médicas em lugares ainda não totalmente desbravados como Índia e Tibete.
Milo ouvia, atentamente, cada detalhe da história do médico, absorvendo os detalhes e pensando. Esse médico não é como os outros... Ele pesquisa muito e viaja, também! Será que ele aceitaria um desafio? Uma ideia luminosa cruzou sua mente com rapidez e antes de todos se dirigirem à mesa do jantar, o jovem interpelou Shion com um olhar sério e grave.
— Lorde Shion, será que... – iniciou Milo procurando as palavras certas para expor seu pensamento.
— Não precisa me chamar de Lorde, meu caro rapaz. Sou apenas um médico. – disse Shion.
— Está bem. Sabe, eu estou aqui para aprender como ser um nobre, embora não faça a mínima questão disso. No entanto, o homem que me fez vir aqui é muito importante para mim e eu faria qualquer sacrifício, qualquer coisa por ele, sabe? No entanto, ele está muito doente e os médicos daqui têm sempre as mesmas explicações e remédios. Disseram que não há nada mais a ser feito. O senhor me parece alguém evoluído e eu pensei se... o senhor não poderia visitar o conde e ver se pode fazer algo por ele.
— E quem é esta pessoa que o senhor estima tanto? – perguntou Shion.
— Ele se chama Dohko, senhor. Conde Dohko Dewhurst.
Ao ouvir aquele nome, Shion empalideceu e por pouco não teve de atender a si mesmo.
— O senhor está me dizendo que é protegido do conde Dohko? – perguntou o médico.
— Sim, sou. Ele não teve filhos e depois que meu pai morreu ele me adotou como se fosse da sua família.
Shion afrouxou o nó da gravata e respirou lenta e profundamente.
— O senhor está bem? O senhor o conhece? – perguntou Milo preocupado com a visível palidez daquele homem de tez muito clara.
— Estou. E sim, eu conheço o conde e muito bem. – respondeu Shion tentando regularizar as batidas descompassadas de seu coração.
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A chuva torrencial os tinha pegado desprevenidos. Fortes rajadas de vento obrigaram-nos a buscar abrigo nos estábulos e os dois riam, enquanto passavam as mãos nos cabelos molhados.
— Estou encharcado, não devíamos ter saído com este tempo! – disse Shion.
— Um pouco de aventura antes de adentrarmos a vida adulta! – falou Dohko com um tom de desafio.
— Você é louco... — respondeu Shion balançando a cabeça.
Dohko sacudiu os cabelos e depois tirou a camisa, exibindo um tórax belo e musculoso para um jovem de 17 anos. Shion sentiu a boca secar, porém disfarçou e desviou o olhar. Ambos tinham a mesma idade, porém seu amigo sempre fora de uma energia solar e seu físico acompanhava, desenvolvendo-se de forma bela e viril.
— O que foi? – perguntou Dohko vendo que o amigo parecia constrangido ao vê-lo sem camisa.
— N-Nada. – respondeu Shion sorrindo sem graça.
Dohko encarou-o com o cenho franzido.
— Olhe prá mim e me diga se está acontecendo com você o mesmo que acontece comigo?
— C-Como assim? Eu... Eu não sei do que você está falando...
— Sabe sim... – disse Dohko acariciando aquele rosto belo e delicado, rodeando suas formas com o dedo polegar, sentindo a respiração ofegante dele e o disparar do seu próprio coração.
— Dohko... não faça isso... – sussurrou Shion fechando os olhos e tocando a mão que permanecia em seu rosto.
— Eu sinto, Shion... Eu sinto vontade de te beijar e acariciar até a exaustão. Antes eu achava errado, que estava ficando louco, mas... não adianta mais negar o que eu sinto. – disse Dohko se aproximando ainda mais, colando seu corpo ao do amigo.
O jovem belo e de pele clara não disse nada, apenas fitou-o com aqueles olhos violáceos que eram a sua perdição e encantamento... De repente, os lábios se encontraram, as mãos deslizaram pelos corpos ansiosos, o desejo aflorou tão intenso e selvagem que nenhum dos dois quis ou conseguiu impedir.
Despidos, experimentaram o gosto um do outro e rolaram na palha seca, mesmo que mais tarde pagassem caro pelo ato prazeroso que os iniciara no sexo e na paixão.
Não foi a coceira, o pior de tudo e sim sucumbir ao torpor do orgasmo, após vivenciarem seu primeiro ato de amor e serem descobertos pelo criado que saíra à procura deles...
O homem com cara de raposa encontrou-os nus e abraçados, a expressão zombeteira mesclada com algo cruel...
— Por favor, Edward! Não conte aos meus pais! – pedira Dohko, ainda ofegante.
— Isso não é certo, meu senhor. Seu pai exige saber de tudo e... – respondera reticente e, propositalmente, o homenzinho franzino e ambicioso.
— Por favor, eu pago! Pago pelo seu silêncio. — gritou Dohko.
Um sorrisinho malicioso insinuou-se nos lábios finos e ressecados. E por alguns meses o segredo dos jovens foi guardado e trocado por xelins e presentes caros... Até o dia em que a desconfiança de sua família foi maior e a ganância do criado também.
Após uma tarde de prazer, os dois jovens adormeceram em seu lugar secreto e foram pegos pelo pai de Dohko. Imediatamente, Shion foi expulso da propriedade e proibido de se aproximar do amante. Dohko foi enviado a Londres para casar-se com a filha de um comerciante rico que queria um título para a filha. Pandora era o nome dela e, apesar de parecer dócil, a jovem era ambiciosa e tinha uma grande paixão pelos prazeres da vida.
Tudo foi feito de forma rápida, apesar dos protestos de Dohko. O jovem perdeu a conta das surras que levou para voltar ao “normal” e acabou concordando em casar-se não por covardia, mas por medo que seu pai cumprisse a promessa de acabar com o futuro de Shion.
O jovem não possuía origem nobre e fora criado por uma viúva de poucas posses que se apaixonara pela criança exótica abandonada em um orfanato e o registrara como seu. Ele sonhava estudar na universidade e seguir uma profissão que ajudasse as outras pessoas.
Shion sumiu no mundo e Dohko subiu ao altar com Pandora. Nunca mais se encontraram e ambos e seguiram suas vidas, rumo à dura realidade do mundo adulto.
Com a morte de seu pai, Dohko herdou título e fortuna. Uma fortuna que não impediu que se encontrasse doente e desenganado pelos médicos, uma fortuna que nunca lhe trouxe felicidade...
O barulho da chuva que começava a cair fez Dohko despertar de seu sono atribulado pela febre. Fazia muito tempo que não sonhava ou apenas não se lembrava dos seus sonhos... Por que agora?Será que estou tão próximo da morte que o passado me visita, novamente? Pensou o conde detendo-se na água que escorria pela vidraça.
Marin entrou no aposento com mais uma dose de remédio, porém Dohko recusou. Pacientemente, ela tentou convencê-lo até que, resignada, deixou o quarto e não mais insistiu. O conde fechou os olhos e tentou dormir. Desejava ver Shion mais uma vez, nem que fosse, apenas, em seus sonhos...
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— O jantar já está servido. – disse Jonas, solenemente.
Camus encaminhou os amigos até a mesa bela e farta. Faisão ao molho de cogumelos, foie grass com trufas, uma iguaria francesa, pasta de cebolinha verde com manjericão, mousse de salmão defumado com especiarias, um consommé como entrada e pães salgados e doces foram alguns dos pratos servidos para o jantar especial.
Milo notou que todos pareciam felizes com aquela comida e tentou não transparecer que achara tudo sem graça e com aparência estranha. A única coisa decente ali, em sua opinião, era o faisão e também aquela sopa esquisita que todos comiam com pequenas colheradas. De resto, o fino jantar parecia pobre comparado ao que costumava comer em casa: pães salgados recheados com ervas, bifes enormes e malpassados, arroz solto e fumegante com molho de carne por cima.
Aiolia sorriu ao ver Milo tendo dificuldades em cortar o faisão sem destrinchá-lo por completo.
— Sabem de uma coisa? Creio que uma das regras de etiqueta que deveriam mudar é essa que diz que não podemos pegar a coxa de faisão com a mão! – disse o conde arrancando uma das coxas da ave com a mão.
Milo sorriu e olhou para Camus que permanecia impassível. No entanto, mesmo simpatizando com o conde Aiolia e até sentindo gratidão pelo ato dele, continuou a usar os talheres até conseguir.
— Eu também concordo, mas como aprendi que certas facilidades podem parecer grosseiras, seguirei as instruções do meu mestre. – disse Milo olhando para o duque.
As palavras inesperadas de seu pupilo o fizeram sentir uma emoção nova e uma admiração ainda maior. Seria fácil para Milo desistir e seguir o comportamento de um nobre que abria uma exceção. No entanto, o jovem era do tipo persistente e dava valor aos seus ensinamentos. Aquilo o comoveu e agradou.
Ao ver os olhos de Camus olhá-lo de forma intensa, Milo sentiu a respiração ficar presa e sorriu, recebendo um raro sorriso de seu mestre em retribuição.
— Ora, vejam só! Não é que Camus tem mesmo o dom de subverter as pessoas para o obscuro mundo da nobreza! Assim como o nosso jovem tem o fantástico poder de fazer o duque sorrir! — disse Aiolia rindo.
Todos na mesa riram e até Camus se permitiu sorrir de forma mais aberta. O jantar transcorreu no mesmo clima alegre das conversas, no entanto Shion se mantinha sério e um tanto ausente. Ao saber que Dohko estava doente e desenganado trazia dor ao seu coração. Nunca o esquecera e as viagens que fazia, em parte eram para tentar tirar da cabeça e do coração aquele sentimento enraizado desde a adolescência.
— Perdoe-me ser um tanto insistente, mas pensou na minha proposta? O senhor poderá visitá-lo? – perguntou Milo se aproximando do médico enquanto todos saboreavam um licor na sala de estar.
— É claro, senhor Milo. Pode contar comigo. – respondeu Shion. – Vou aproveitar e me despedir, pois amanhã levanto cedo para ver alguns pacientes. Eu entrarei em contato, assim que voltar, está bem?
— Claro, Lorde Shion... quer dizer...
— Me chame apenas de Shion. – disse o médico.
Camus percebeu que Milo estava sempre conversando de forma íntima com o médico e a situação provocou-lhe um inédito desconforto. O que tanto Milo teria para conversar com quem mal conhecia?
Quando Shion despediu-se, Camus chegou a sentir um alívio e ficou observando as reações de Milo de forma discreta. Aiolia, vendo o amigo observar seu pupilo, aproximou-se e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Vejo que resolveu sair da casca, meu caro amigo e começar a viver a vida.
Com o cenho franzido, Camus olhou para Aiolia com uma expressão de surpresa.
— Não adianta me olhar assim, você sabe muito bem que eu tenho razão. – continuou Aiolia sorrindo.
— Francamente, Aiolia, não sei do que você está falando. Seja claro.
— Seu pupilo é um homem bonito e carismático. É normal se sentir atraído. Até eu me sentiria se não preferisse a suavidade do corpo feminino...
— Creio que essas viagens que faz, estão fazendo-o ver coisas onde não existem. O senhor Milo é meu pupilo para ser preparado para a sociedade e um bom casamento. Não há nenhuma chance de algo fora dos padrões.
— Será? Vi como vocês dois se olham...
— Bobagem sua.
— Será?— provocou Aiolia deixando Camus pensativo, enquanto se dirigia para uma mesa de jogo improvisada pelos gêmeos.
— Venha Camus! Vamos jogar uma partida de canastra. – disse Kanon já retirando dois baralhos do bolso da calça.
Camus hesitou, depois se reuniu com o grupo. As palavras de Aiolia martelavam em sua mente: “Vi como vocês dois se olham”.
O duque sentiu uma contração no estômago ao constatar que sentia algo tão intenso e tão visceral que o tirava da sua confortável situação de solitário convicto. Respirou fundo e usou de toda a sua disciplina para afastar os maus pensamentos quando constatou que o único lugar que sobrara à mesa de jogos era entre Aiolia e Milo.
Camus sentou-se, e quando a rodada de jogos começou, a coxa grossa do jovem pupilo esbarrou na sua por baixo da mesa e, novamente, os olhares se encontraram. Nenhum dos dois disse uma palavra, mas ambos sentiram um ligeiro calor se espalhando pelo corpo.
O duque pigarreou, tentando afastar a sensação e Milo mostrou as cartas, sorrindo e vencendo aquela primeira rodada.
— Mas já? – falou Kanon.
— Sorte no jogo, azar no amor!— disse Aiolia implicando com Milo.
O jovem sorriu, agora com malícia.
— Quer dizer então que todos dessa mesa estão com os assuntos do coração em dia. – disse Milo.
Aiolia, Saga e Kanon riram e fizeram um sim com a cabeça, enquanto Camus permanecia sério e impassível. Foi então que Milo, notando a postura rígida do ruivo, olhou para seu preceptor e perguntou:
— Ficou tão sério, Sua Graça. Desagradei-o com o que eu falei?
Antes que Camus respondesse, a gata que o duque acolhera, entrou correndo na sala de estar com uma posta de salmão na boca tendo Jonas no seu encalço.
— P-Perdão, Sua Graça! Verena deixou a porta da cozinha aberta e...
Novamente, todos riram e o ambiente voltou ao clima de euforia. Milo adiantou-se e a gata correu para o meio de suas pernas e olhou com hostilidade para os demais. Aiolia, com seu senso de humor perverso, disse baixinho e com um sorriso nos lábios:
—Pelo visto, o senhor Milo tem jeito com criaturas difíceis... Um talento muito útil eu diria, não é meu caro Camus?
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