Amor Selvagem!

2 Capítulo 2 AS PRIMEIRAS LIÇÕES...


Notas iniciais
Como já é domingo...Mais um cap!!! Bjs e obrigada pelo enorme carinho!!!XD


Apesar da frase dita de forma gélida, Camus apertou mão do jovem e, se não tivesse acostumado aos cumprimentos fortes do militares, certamente sentiria a força esmagadora com que sua mão fora apertada.



Milo ficou sério, tentando entender o que deveria aprender com aquele homem frio e desagradável, apesar de bonito e elegante. Sem se dar conta que estava olhando fixamente, perdeu-se nos fios avermelhados que eram curtos, comparados com os seus e estavam penteados de forma impecável. Quando notou que Camus continuava olhando-o de forma avaliativa, voltou ao normal e perguntou:



- Então, o que vou aprender?



- Primeiramente, como chegar à casa de um estranho e se deixar anunciar. Por favor, faça tudo novamente. – disse Camus num tom calmo.



- Hã? Voltar lá prá fora? Com essa chuva? Nem fodendo!



O criado levou a mão à boca e olhou para Camus que pareceu não perturbar-se com a resposta do jovem.



- Não é preciso voltar à chuva, senhor Milo. Apenas refaça sua atitude inicial de ultrapassar a antessala antes de ser anunciado. Essa é a primeira lição. E a segunda, é de cuidar a linguagem utilizada. Nada de falar aos gritos e nem utilizar linguagem de baixo calão, por favor!



O olhar daquele homem era tão penetrante que Milo quase engasgou.



- Hã... Está bem, mas o que quer dizer baixo calão?



- Vocabulário chulo, ofensivo, obsceno.



Ao constatar que o jovem continuava olhando-o curioso e de forma significativa, Camus suspirou, completando.



- Palavrões, senhor Milo. Compreendeu agora?



- Agora sim! Estamos falando a mesma língua – disse Milo abrindo um sorriso que desconcertou o fleumático Camus.



Passada a surpresa desconcertante, Camus observou melhor as feições de seu pupilo. Como aquele jovem era bonito, notou. Seus olhos eram de um azul densamente profundo e vivo; tinha os traços benfeitos, mas em um estilo másculo e marcante. Não usava chapéu ou cartola e sim os cabelos loiros, longos e cacheados presos em uma fita escura, com fios rebeldes caindo pelo rosto. E o rosto... O rosto exibia uma pele bronzeada e cada vez que ele sorria, os dentes perfeitos e alvos contrastavam com aquele tom, tornando os lábios cheios obscenamente deliciosos...



- Bem, estou esperando... – disse Camus suprimindo uma súbita onda de desejo.



- Esperando o quê? Por acaso mais alguém vem aprender com o senhor?- perguntou Milo.



- Estou esperando que o senhor volte até à antessala e espere ser anunciado. – respondeu Camus fazendo um esforço hercúleo para não irritar-se. Que criatura difícil!



- Ah, tá. – disse Milo.



Milo fez o que Camus ordenara, enquanto o ruivo apertava o canto interno dos olhos, antes de imbuir-se da expressão séria e compenetrada que era esperada de um preceptor.



- Anuncio o senhor Milo Stephanopoulos, protegido do conde Dohko e candidato a aprendiz de Sua Graça, o quarto duque de Chamberlain. – disse o criado com a postura bem ereta e o peito estufado.



Milo entrou bocejando, depois estendeu a mão e disse, simplesmente:



- E aí? Tudo bem? Acho que não preciso dizer tudo novamente, não? Essa anunciação toda me deixou com sono. Estou cansado. Podemos começar nossas lições amanhã? – disse Milo bocejando, novamente.



Sem saber a razão, mas, já sabendo que, sempre que alguém bocejava, também ficava com vontade, Camus controlou-se o máximo para não fazê-lo de modo visível. Então se virou, estrategicamente, de lado engoliu um meio bocejo e ordenou ao criado que trouxesse uma bandeja de chá e alguns biscoitos e pães.



- Por favor, me acompanhe. Vamos sentar um pouco, beber um chá e acertar alguns detalhes. – disse o ruivo.



Milo sorriu, novamente e de um jeito tão aberto que mais parecia uma criança.



- Bom, pelo menos concordamos em algo. Estou com fome! – disse o jovem aprendiz. – Ah, e ao invés de chá podemos beber algo mais forte, do tipo vinho ou cerveja escura? Eu só bebo chá quando estou doente.



A expressão de Camus não se alterou.



- A hora e a etiqueta são propícias ao chá, senhor Milo, e há uma grande diferença entre o chá medicinal e o chá tradicionalmente apreciado e servido há gerações.



- Ah, tá! Se é assim, vamos rezar a missa conforme o padre manda.



Uma sobrancelha de Camus se elevou e ele perguntou-se se não era melhor insistir com o conde que recebesse o valor da dívida em dinheiro. Entretanto, ao olhar, novamente para o jovem, sentiu-se desafiado, como todo bom preceptor, em educá-lo e torná-lo um verdadeiro gentleman.



Indicando o gabinete onde costumava estabelecer um contrato com seus aprendizes, Camus imbuiu-se de toda a paciência para lidar com aquele diamante bruto. Um brilho insinuou-se nos olhos quase rubros, fazia muito tempo que não era desafiado. Seus alunos eram todos de descendência nobre e, praticamente, só tinha que orientá-los a lidar com o que herdavam, nada muito difícil. No entanto, o jovem à sua frente era de origem humilde e possuía as qualidades que Camus admirava, como franqueza e destemor. Porém, precisava aprender o verniz da civilização que se traduzia em saber comportar-se em sociedade.



A chegada do chá, acompanhado de bolos, biscoitos e pães recém-assados fez os olhos de Milo faiscarem. Assim que o criado os serviu, Milo comeu de tudo com entusiasmado vigor sob o olhar atônito de Camus.



Bebericando de sua xícara com sobriedade, Camus viu Milo devorar em minutos duas bandejas de iguarias e, ainda mais surpreso ficou quando o criado oferecia sorrindo, mais repetições.



- Puxa, obrigado! Eu comeria mais, mas acho que não fica bem, não é senhor Camus? – disse Milo terminando de devorar seu décimo pão de mel coberto com glacê com uma expressão feliz.



- Fique à vontade, senhor Milo. O senhor só acabou de devorar a terceira bandeja. Parece que a viagem abriu seu apetite. – respondeu Camus.



- Na verdade eu sempre como assim. Quer dizer, eu como mais um pouquinho, mas vi que o senhor bebeu apenas chá e beliscou um pão, então resolvi ser solidário. Agora, não me diga que o senhor não come só prá manter essa silhueta, heim?- falou Milo de forma debochada.



Antes que Camus respondesse, o criado aproximou-se de Milo e falou-lhe baixo, próximo ao ouvido:



- A cozinheira ficou muito feliz que o senhor tenha apreciado o que ela preparou.



- Pois diga a ela que se o senhor Camus deixar, eu quero conhecê-la e cumprimentá-la. Já comi comida boa, mas esses pães doces são dos deuses! – respondeu Milo.



- Senhor Jonas, pode levar a bandeja, sim? – disse Camus num tom um tanto imperativo. Era só o que faltava! Nem bem aquele jovem tinha posto os pés em sua casa, já estava sendo paparicado pelos criados.



- Perdão, Sua Graça eu estava apenas transmitindo a alegria de Verena pela apreciação do senhor Milo. Afinal, não é sempre que ela tem seus dotes tão apreciados. – disse o criado com visível contentamento.



- Hummm... Pelo visto ninguém aqui come nada! Diga a ela que, enquanto eu estiver aprendendo etiqueta, terei muito prazer e apreciar o que ela faz.



Camus limpou a garganta e olhou de modo sério para Jonas que pegou a bandeja e fez uma reverência antes de sair.



- Bem, senhor Milo, agora que já está bem alimentado, vamos ao que o trouxe aqui. Eu costumo...



Antes de poder terminar sua frase, Camus viu Milo se levantar, passar a mão nos cabelos e olhá-lo, seriamente, dizendo:



- Olhe, senhor Camus, quer dizer... Sua Graça, o que eu tenho de fazer para aprender logo essa tortura de etiqueta social? Eu notei que o senhor não parece muito feliz em ter que me ensinar e eu... Eu só estou fazendo isso pelo conde Dohko. Na realidade, eu não tenho a mínima vontade de ser nobre. Eu só quero dar uma última alegria para o homem que foi um pai pra mim. Então, falando de homem pra homem, eu prometo não tomar muito o seu tempo e...



- Por favor, sente-se, senhor Milo. – disse Camus, calma e pausadamente.



O jovem obedeceu e, ao olhar para o preceptor revelou toda a angústia que sentia pela condição imposta a si. A transparência dos sentimentos e a maneira franca com que Milo mostrou-se fez Camus experimentar uma emoção contraditória. À primeira vista, achara que o destino lhe pregara uma peça e de mau gosto. No entanto, havia algo naquele rapaz que o instigava, uma energia intensa e selvagem que parecia penetrar em sua pele, invadir seus poros e perturbar sua mente. Deu-se conta que gostava de desafios...



- O conde Dohko deve estimá-lo muito e acredite, senhor Milo, isso é algo tão raro e tão profundo nesta sociedade que eu considero uma benção. Percebo o porquê de ele ter tal estima, pois apesar de cometer algumas indiscrições o senhor me parece um homem íntegro, inteligente e de caráter franco.



Um sorriso surgiu nos lábios carnudos de Milo e, mais uma vez, Camus notou os dentes brancos e perfeitos, a alegria quase infantil que não costumava ver nos outros alunos e, muito menos, na aristocracia dissimulada e, na maioria das vezes, superficial.



- Eu... peço desculpas pelo meu jeito, mas é que minha paixão são os cavalos e passo muito tempo com eles. Sabe como é... eles não ligam se eu falar um palavrão ou rir alto.



- Também gosto de cavalos. Possuo um haras em minha propriedade no campo. – disse Camus.



- Verdade? E que raça prefere? – perguntou Milo.



- Árabe. Considero-os fortes e independentes, porém se adaptam com facilidade se lhes dermos um bom treinamento.



- Exato! Se permitirmos que cavalguem todos os dias, aumentando as distâncias e fortalecendo sua musculatura temos excelentes candidatos às corridas e saltos no hipismo. As primeiras horas da manhã e o entardecer são ótimos para eles e para nós. Eu, pelo menos, me sinto livre e cheio de energia nesses dois momentos.



A conversa entre os dois fluiu, naturalmente, sem que ambos se dessem conta do tempo que voou depressa e logo trouxe o crepúsculo que antecedia a noite. Camus ergueu as sobrancelhas em perplexidade quando o relógio badalou sinalizando que já eram dezoito horas.



- Bem, senhor Milo, nem percebi o adiantado da hora. Acabamos falando de outros assuntos e...



- E foi muito bom! O senhor não é aquele homem antipático e desagradável que eu pensava que era. Ficarei muito feliz de aprender com o senhor ou, como todos dizem, com a Sua Graça. – falou Milo se levantando.



Camus levantou-se e apertou a mão que, mais uma vez, estava estendida na sua direção. Por alguns segundos, ambos fitaram-se com incrível intensidade e depois despediram-se, firmando o compromisso de iniciar as lições no dia seguinte.



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Poucos que olhassem pela janela, naquela manhã ainda imersa em neblina, deixariam de prestar atenção na carruagem escura deslocando-se rapidamente ao longo de uma cerca viva, para em seguida descer rua abaixo, embrenhando-se nas sombras das árvores do elegante bairro.



No interior da carruagem, Pandora mantinha a expressão contrariada e os pequenos lábios contraídos, enquanto o elegante cavalheiro permanecia alheio, parecendo admirar a paisagem envolta em bruma.



- Aquele... Aquele traidor! Como ele ousa? – disse ela, por fim.



Hades esquadrinhou a pele perfeita, as feições delicadas e continuou em silêncio.



- Você não se importa, não é? Não é você que ficará sem um tostão depois de aguentar um marido fraco por anos a fio!



Sem aviso, as mãos do duque a seguraram pelo rosto e o coração dela pareceu parar. Aquele homem era seu amante, mas ainda assim, sempre a surpreendia com seus atos. Ora, era terno e generoso, ora, a tratava como agora, a rudeza, fazendo-a estremecer e perder o uso da razão.



Os olhos frios fitaram-na como se ela estivesse nua e então, os lábios exigentes tomaram os dela num beijo voraz e violento. Pandora fechou os olhos deixando-se tragar pela magia selvagem, o ventre parecendo dissolver-se contra o corpo másculo.



Quando ouviu-a gemer baixo e levar as mãos ao peito, buscando o ar, Hades apartou o beijo e disse, friamente:



- Sabe que não precisa preocupar-se com dinheiro, enquanto estiver comigo. Não estou disposto a ouvir lamúrias, esqueça essa história.



Pandora engoliu a raiva. Hades era um amante exigente e gostava de vê-la sempre bem e disposta. O duque era conhecido por sua imensa fortuna e também por não ligar-se muito tempo às suas amantes. No entanto, agia de forma apaixonada com ela e o sentimento era recíproco.



Fazia dois anos que mantinham um relacionamento e os planos dela era herdar a fortuna do marido e garantir sua independência, mesmo mantendo relações com o belo duque. Sabia que despertara a inveja de outras mulheres ao fisgar o frio e orgulhoso Hades, principalmente de June, amante de Saga Aríston, outro belo espécime masculino, cujas más línguas diziam ter um irmão gêmeo tão idêntico em tudo, que era difícil saber quem era quem, a não ser pela paixão do irmão por jogos e prazeres obscuros, enquanto o duque preservava atitudes impecáveis e moral imaculada... Seria verdade?



Ainda reverberava em sua mente, as palavras de June e o sorrisinho falso ao comentar que todos sabiam que o conde Dohko enviara seu filho do coração para aprender etiqueta social com o melhor Preceptor de Londres. Creio que ele pretende fazer do jovem Milo, seu herdeiro, já que deseja que ele aprenda como se comportar em sociedade... Mas, você não tem com o que se preocupar, não é mesmo, querida? Hades é riquíssimo e não a deixará a ver navios.



Mantendo o decoro e a fisionomia serena, digna de uma atriz, ela sorrira e fingira saber dos planos do marido. Dohko é um homem civilizado. Na certa deseja que o seu bichinho de estimação aprenda alguma coisa, antes que ele morra.



É claro... Mas esteja certa que o “bichinho de estimação” logo ficará cercado de pretendentes e terá muito dinheiro para aproveitar a vida. Mas, como eu disse antes, minha querida, você não tem com o que se preocupar...



Imersa em suas lembranças, Pandora não notou quando a carruagem parou. Hades tomou-lhe a mão delicada e levou-a aos lábios, beijando de forma cavalheiresca.



- Esteja linda e sorridente quando eu vier apanhá-la. Quero que conheça um lugar... – disse ele com um olhar penetrante.



- Estarei esperando, meu querido... – falou Pandora, exageradamente, doce.



Hades esperou que ela entrasse na mansão e seguiu na carruagem. Pandora virou-se para trás e acenou, entrando logo, em seguida.



Ao por os pés na luxuosa sala, pôs-se a andar de um lado a outro, inquieta e mal-humorada. Preciso pensar em alguma coisa! Esse garoto não vai herdar a minha fortuna! Ah, não vai mesmo! Dizia para si, enquanto o criado permanecia parado à espera de suas ordens.



- Lewis, traga-me um chá e mande preparar meu banho. – disse ela ainda irritada.



- Sim, condessa. Imediatamente! – respondeu o homem curvando-se em reverência.



Após beber seu chá, Pandora dirigiu-se ao banho, ficando em imersão durante muito tempo, sentindo a água quente relaxar todas as fibras de seu corpo. Pétalas de rosa e jasmim haviam sido colocados para perfumar a água e exalar o delicioso aroma que agora impregnava os sentidos da condessa. Naquele ambiente propício, ela arquitetou seus planos e sorriu, enquanto previa os resultados...



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Os talheres estavam distribuídos sobre a toalha de linho, impecavelmente branca, assim como os cristais e o restante da coberta de mesa. A sala de jantar estava decorada como ficaria em um jantar de gala. O lustre central era imenso e requintado, os móveis lustrosos, sóbrios e dignos de um palácio.



- Muito bem, senhor Milo, após a lição de como apresentar-se, vai aprender a usar os talheres. Os jantares costumam conter várias opções para uma refeição. A disposição dos talheres obedece à ordem em que os pratos serão servidos. – disse Camus mostrando a disposição dos utensílios à mesa.



- Tudo isso?! Eu pensava que talheres se resumiam a garfo, faca e colher. – disse Milo franzindo o cenho.



- Cada tipo de refeição exige os talheres certos. Peixes, carnes, aves... enfim, vamos começar.



Pacientemente, Camus explicava e demonstrava a utilização de cada um, assim como a postura correta de segurar-se uma taça, copo ou xícara. Milo coçava a cabeça e remexia-se, inquieto, na mesa.



- Senhor Milo, faça tudo devagar, não temos pressa. – corrigia Camus.



- Puta que pariu... Está bem, não precisa me olhar assim. Escapou! – disse Milo ao encontrar o olhar de reprovação de Camus. – Mas é que isso é muito chato! É mais simples pegar a coxa com a mão e ...



O olhar sério dado por Camus fez Milo interromper sua fala e tentar, novamente, destrinchar a carne do faisão com aqueles talheres esquisitos. Uma, duas, três e... Voilà o difícil ato foi executado com perfeição, arrancando um “perfeito, senhor Milo!” do atento preceptor.



As lições que se seguiram ora suscitavam observações positivas, ora reprovações com o olhar ou de forma verbal. Não faça barulho com a boca ao tomar a sopa, senhor Milo. Não estale a língua! Não segure a taça como se estivesse segurando uma caneca de acampamento! Não, beba tudo de uma vez como se estivesse morto de sede! Não raspe o prato! Não passe a mão na barriga depois de comer e nem se espreguice à mesa ! Não, não e não!



No meio da tarde, Milo sentia-se exausto. Era mais cansativo aprender etiqueta que cuidar dos cavalos e realizar qualquer trabalho braçal. Ser um cavalheiro era cuidar-se o tempo todo. Todas as atitudes que lhe eram naturais passaram a ser, constantemente, corrigidas pelo vigilante Camus.



- Bem, por hoje é só. Continuaremos amanhã. – disse o preceptor.



- Certo. Nos veremos amanhã. – falou Milo um tanto desanimado.



Percebendo a aparência cansada, tão diferente do entusiasmo habitual que seu pupilo exibia, Camus perguntou:



- Algum problema, senhor Milo?



- Hã... Não. Só estou cansado e... na pousada em que me instalei tem muito barulho à noite. Embora alguns sons que eu escuto sejam... digamos, estimulantes. Mas estou acostumado a ter silêncio para dormir. – respondeu o jovem com um tom malicioso.



- Pousada? Mas pensei que o senhor estava em um hotel.



- Ah, eu não quis um daqueles hotéis de luxo, queria algo mais próximo do que estou acostumado. Tem noites em Village West que eu durmo ao relento, olhando para o céu estrelado. – disse Milo suspirando.



- Em que pousada está hospedado?



- Se bem me lembro ela se chama... Taberna Chance e aluga quartos. – respondeu Milo.



Camus empalideceu e arregalou os belos olhos castanhos que pareceram tingir-se, ainda mais daquele tom avermelhado que deixava Milo ora, assustado, ora embevecido.



- O que foi, Sua Graça?- perguntou Milo vendo a expressão tensa de seu mestre.



- Senhor Milo, a Taberna Chance é um local impróprio para qualquer pessoa idônea hospedar-se. Vai ter de deixá-la, imediatamente!



- Como assim? Apesar dos gemidos que eu ouço de madrugada, a comida é boa e sou bem atendido. – retrucou Milo.



- A Taberna Chance, senhor Milo aluga quartos para... encontros! Não é lugar para alguém decente se hospedar. – disse Camus escolhendo bem as palavras.



Um sorriso malicioso brincou nos cantos da boca do jovem. Ele fitou Camus e disparou:



- Sua Graça já foi lá?



Sem saber se ficava ofendido ou furioso, Camus imbuiu-se da habitual frieza e respondeu:



- Por acaso, o senhor imagina que alguém como eu frequente tais lugares?



O tom educado e gélido fez Milo perceber que seu preceptor estava ofendido ou... tentando esconder alguma coisa. Apesar das lições, ainda não tinha aprendido a refrear a língua, porém percebia quando Camus mudava a entonação da voz cada vez que algo o incomodava.



- Hã... Claro que não, Sua Graça, bobagem minha fazer tal pergunta. – disse Milo quase rindo.



- Excelente, saiu-se bem em sua resposta. Mas, devo dizer que sua expressão debochada põe tudo a perder! Sucesso em uma próxima vez. – falou Camus mantendo o contato visual com Milo.



- Tá tão na cara assim? Quer dizer, não que eu ache que o senhor frequente um lugar desses, mas... sei lá, às vezes os nobres tem o seu ladinho pervertido! – disse Milo dando de ombros.



Camus teve vontade de dizer, realmente, o que achava daquela conversa, mas controlou-se. Apesar de inconveniente, Milo era como um livro aberto, dizia o que lhe vinha à mente sem rodeios ou subterfúgios e isso, mesmo sendo constrangedor, também era, de certa forma, inédito em sua vida. Resolveu, por bem, encerrar o assunto.



- Mandarei Jonas buscar a sua bagagem. Vai hospedar-se em um hotel de verdade. – disse Camus.



- Não tenho roupa prá me hospedar em um destes hotéis. – falou Milo cruzando os braços.



— Não seja por isso, amanhã mesmo iremos ao alfaiate.



- M-Mas... e onde vou ficar até lá ?



- Ficará hospedado aqui mesmo, em minha casa. – falou Camus.



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Quando Hades foi anunciado, Pandora, propositalmente, demorou alguns minutos para depois surgir formidável na escadaria luxuosa de sua mansão. Os cabelos presos em um coque um pouco acima da nuca deixava o belo rosto à mostra, as sobrancelhas delicadas e negras em destaque; os cílios espessos emoldurando os olhos violáceos que contrastavam com a alvura acetinada de sua pele perfeita.



O olhar de Hades recaiu sobre o corpo mignon vestindo um modelo de tafetá negro com reflexos violeta. A cintura estreita, o farfalhar do tecido quando ela andava, a malícia disfarçada pela expressão quase ingênua...



Pandora era uma amante submissa, mas ardente. Gostava da predisposição dela para os jogos eróticos e essa noite, faria o teste final. Se fosse aprovada, a conservaria para si. Se não fosse, teria que dispensá-la, após dar-lhe uma recompensa pelos momentos deliciosos que haviam tido.



- Aonde iremos, esta noite, meu amor? – perguntou ela, entendendo-lhe a mão.



Hades pousou a mão em suas costas delicadas, puxando-a mais para si. Com a outra mão, retirou, do elegante traje escuro, uma pequena caixa do bolso. Sob o olhar maravilhado de Pandora, ele colocou em seu pescoço um belo colar de diamantes e rubis cravejados em ouro reluzente. Após fechar o colar, os dedos longos do duque percorreram a joia que ressaltava o colo da amante e roçaram a curva acima dos seios, fazendo-a estremecer.



- É lindo... – disse ela suspirando.



- Um presente digno da sua beleza, minha querida. – murmurou-lhe de encontro aos lábios entreabertos.



Num gesto instintivo, Pandora inclinou-se na direção de Hades e o beijo trocado tornou-se ardente.



- Ainda não me disse aonde vamos? – sussurrou ela quando o beijo estancou.



- Surpresa, minha querida... – respondeu Hades.



Pandora sorriu alegre, pelo presente e pelo mistério, sem saber que seria posta à prova, naquela noite. Logo, ambos deixaram a mansão rumo ao destino que Hades já havia preparado.

Notas finais
****Agradecimentos especiais para as primeiras a comentar: ddkcarolina,Sora Liar,Azarella, Shall, Angelique!!!
****Para quem favoritou em silêncio, PaRaMoRe, Bjs!!!
****E para quem leu, gostou e ficou na sua, também!!!