Amor Selvagem!
15 Capítulo 15 A TEIA...
Notas iniciais
Camus acordou cedo, como de costume. Porém, diferente de seus hábitos anteriores, permaneceu mais um pouco na cama, ao lado do corpo quente do amante. Sua rotina, antes de conhecer Milo, era agendar todos os seus compromissos antes que todos acordassem, até mesmo os empregados. Gostava da solidão do amanhecer e aproveitava para exercitar-se um pouco cavalgando ou alongando o corpo. Depois, tomava o desjejum e iniciava suas atividades do dia.
No entanto, desde o momento em que se permitira amar, daquele modo tão intenso, ele mudara algumas regras e agora observava Milo dormindo de lado com uma das mãos sob a cabeça e as pernas dobradas como se estivesse com frio. Ele parecia uma criança de ar selvagem, a beleza sedutora mesclada com inocência...
Com cuidado, Camus se debruçou para tirar um fio de cabelo do rosto adormecido que teimava em roçar-lhe os lábios... Como o amava e esse sentimento parecia apoderar-se do seu coração de um jeito estranho e bom. Estranho, porque aprendera que as emoções o deixariam vulnerável e fraco. Bom, porque descobrira, exatamente, o contrário. Com Milo sentia-se mais forte e consciente de si mesmo.
Alheio à observação do duque, Milo se espreguiçou e murmurou algo, esticando as pernas e virando de bruços. Camus sorriu, pois ao fazê-lo, o loiro buscou a sua mão como sempre fazia e a colocou sobre o quadril, suspirando. Se ele soubesse o quanto isso mexe comigo... Um simples gesto que toca o meu coração e incendeia meu corpo.
Como se os pensamentos de Camus tivessem penetrado em seus sonhos, Milo piscou e abriu os profundos olhos azuis, mexendo a cabeça de um lado para o outro, buscando algo... Ao deparar-se com o olhar de Camus, franziu as sobrancelhas e, em seguida, sorriu.
— Sonhei que você estava acariciando o meu traseiro... — disse o jovem com os olhos semicerrados.
O duque passou o indicador pelo rosto dele com carinho.
— Essa insinuação é muito grave, senhor Milo...
Milo mordeu o lábio inferior e encarou o olhar do ruivo.
— E o que Sua Graça vai fazer a respeito?
O duque nada disse, apenas aproximou a boca da dele, quando uma lista amarela e peluda entrou pela janela entreaberta e pulou na cama entre ele e Milo. O jovem riu e Camus conseguiu controlar o sobressalto, olhando sério para a Senhora gata.
— Hummm... Sei que sente saudades, mas vai ter que esperar, está bem? – murmurou Milo afagando a cabecinha do animal. – Eu e Camus temos um assunto importante a tratar, então você tem de descer.
Miau... (tudo bem, podem se amar... Eu sei bem o que é isso) ronronou a gata pulando da cama e ficando sentada observando os dois.
Camus franziu o cenho.
— Essa gata faz o que quer com você e...
— Não seja ranzinza com a Senhora gata ... Venha cá... – interrompeu Milo beijando-o na boca.
Camus cedeu e seu corpo, prontamente, enrijeceu. Já não era mais um mistério para si como tudo se modificava com um simples ato ou olhar de Milo, nem como podia agir de forma bastante diferente de sua natureza impassível. Descobrira que o amor operava severas e intensas transformações e uma delas, era sentir-se no paraíso ao desfrutar aquela intimidade prazerosa que acabara de descobrir com seu jovem amante.
Logo, estavam nus, amassando os lençóis... Milo afastou as pernas, deixando que Camus se encaixasse entre elas e então fechou as mãos com força nos cabelos avermelhados, afundando os dedos ansiosos, enquanto fechava os lábios com ímpeto naquela boca, sugando da saliva e pressionando o seu corpo com as coxas, apertando-o, incitando-o a penetrá-lo...
O duque sempre tinha cuidado, porém Milo o levava a fazer amor de forma intensa e ardente. Não havia meias-medidas, nem a ternura morna que acreditara ser o mais natural em uma relação. Totalmente excitado, Camus era tomado pela luxúria, mordia e sugava a boca ávida do amante que se ajustava à sua com uma possessividade feroz. Às vezes, até eu me desconheço... Ou será que esse é o verdadeiro Camus, despertado para, enfim, conhecer a intensidade da paixão?
— Não quero machucá-lo... – ele murmurou ofegante, quando Milo interrompeu o beijo para respirar e puxou-o ainda mais para si, os quadris se arqueando para recebê-lo.
— E eu quero você... E bem forte, dentro de mim...
O olhar do duque tornou-se magnético e tempestuoso, ele agarrou a cintura esguia de Milo apertando sua pele, afundando os dedos e sentindo a receptividade da carne. Sentia o desejo consumi-lo e se percebia gostando da urgência que percebia nos olhos azuis do amante, outra mudança em si que já havia questionado. Com Milo gostava daquele jogo erótico de morder, agarrar, chupar, penetrar e então deixar aflorar a virilidade primitiva que o fazia enterrar-se dentro dele e gozar, intensamente, como nunca tinha gozado em seus 27 anos.
Sorrindo, entre os lábios de Milo, mordeu o inferior, ondulando o corpo sobre o dele, fazendo-o sentir a pulsação de seu falo e a umidade que vertia dele por conta da excitação.
— Apressado... — sussurrou.
Os dedos foram aos cabelos loiros e os puxou, juntando as bocas e agarrando a coxa do mais novo, puxando-o para junto de si. Colocou a língua em sua boca e retomou o beijo ardente, enquanto o corpo ficava entre as pernas de Milo e se posicionava.
Milo correspondeu ao beijo, afastando ainda mais as coxas e as flexionando, abraçando o tronco do mais velho. Camus sorriu deliciado ao sentir o falo túrgido do amante pulsar junto ao seu tórax e invadiu-o, abrindo caminho naquele corpo quente e receptivo, gemendo extasiado, percebendo-se desejado de forma selvagem como era com Milo. Murmurou o nome do amante, baixinho, enquanto os quadris criavam uma sequência de movimentos profundos e, cada vez, mais fortes e rápidos como Milo desejava.
O duque havia aprendido que no interior do corpo masculino havia uma glândula que, atingida, dava prazer e sorriu ao conseguir pressioná-la, ao mesmo tempo em que Milo gemia alto, demonstrando sentir tanto prazer em ser penetrado, quanto ele sentia ao adentrar seu corpo...
O corpo de Milo tinha um aperto natural que o envolvia forte e o fazia ofegar de um prazer imediato, insano... O orgasmo começava a irromper na pele, nos ossos, no âmago de ambos. A tensão, o atrito dos corpos, as pressões e toques profundos levando-os pelo caminho tortuoso de um prazer imensurável que partilhavam um com o outro.
Enlouquecido, Milo arranhava as coxas alvas, deixando marcas avermelhadas, os olhos percorriam o corpo que tinha a frente e seus lábios se abriam para sorver o ar...
— Eu te amo seu... torturador!— grunhiu Milo, o sêmen explodindo em pequenos jatos na pele suada de Camus.
Camus sentiu a contração de Milo em seu membro e o efeito foi um clímax devastador que o fez estremecer e soltar um gemido alto e rouco.
A Senhora gata virou a cabeça e focou os olhos verdes e brilhantes naquela cena... Seus dois preferidos estavam ligados e faziam sons bem fortes, sinal que era amor mesmo e daquele tipo que tinha pegada...!
Milo virou a cabeça e viu a gata amarela encarando-os, a cabecinha peluda em total atenção aos movimentos... Ela olhou bem dentro dos olhos do loiro, depois encarou o ruivo. Então, miou de um jeito tremido que vibrou de uma forma suave e, em seguida, pulou sobre o parapeito da janela e deixou o aposento tão rápido como entrara.
— Essa gata chega a ser constrangedora...! – falou Camus e Milo puxou-o, novamente para junto de seus lábios ofegantes.
— Não seja...
— Já sei, “não seja ranzinza com a senhora gata”— completou o ruivo revirando os olhos com um meio sorriso.
— Isso mesmo... Está aprendendo Sua Graça.— falou Milo, mordendo o queixo desenhado do duque.
Uma batida insistente os fez interromper as carícias. Não era comum que Jonas ou qualquer outro fizesse isso, a não ser... que houvesse problemas à vista.
Camus vestiu um roupão de seda e abriu, encontrando um Jonas sério e um tanto pálido.
— Perdão, Sua Graça, eu disse a ele que era muito cedo e que o senhor ainda não havia se levantado, mas ele insistiu e quase me agrediu!
— Ele quem, Jonas?
— O duque de Standiford, senhor.
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Uma mesa farta e bem arrumada esperava Afrodite para o desjejum. Sentado à cabeceira da mesa, Máscara da Morte comandava os dois criados com o ar senhorial de sempre. Sorriu quando viu o loiro entrar.
— Bom dia! Willa fez os pães açucarados que tanto gosta. Sente-se e coma. – disse Máscara sinalizando para o lugar ao seu lado.
Afrodite respondeu, educadamente, porém sentou-se na cabeceira oposta.
Se não gostou do ato, Máscara não demonstrou, abriu um jornal e começou a lê-lo. No entanto, notara a pele alva de Afrodite contrastando com o tom azul da túnica e os cabelos sedosos descendo em cascata pelos ombros. Um exame mais minucioso mostraria pequenas olheiras de uma noite mal dormida que havia sido disfarçada com um mínimo de maquiagem. Sua vontade era retomar aquele assunto, mas não percebia nenhuma brecha para fazê-lo.
Instantes depois, o jovem que era a grande atração dos jogos aproximou-se da mesa.
— Bom dia a todos! – falou com sua voz forte, porém melodiosa.
— Bom dia, Mu. – disseram os dois ao mesmo tempo e o fato de fazê-lo juntos aliviou a tensão que se instaurara ali.
O jovem sorriu e sentou-se entre os dois e uma conversa amigável se iniciou. Mu tinha uma docilidade natural e era difícil perceber nele algo mais primitivo ou até mesmo agressivo. No entanto, era ele quem dava um brilho especial aos jogos, tornado-se a principal atração da “Cabeça Cortada”.
— Está pronto para esta noite? – perguntou Máscara.
— Prontíssimo! – respondeu Mu.
Afrodite sorriu e aquele simples ato iluminou o semblante de Máscara da Morte, embora ele tenha permanecido na sua postura arrogante de sempre.
— E em relação à vida pessoal, está sozinho ou tem alguém? – perguntou Máscara mordendo um grande pedaço de presunto defumado.
Os olhos de Mu e Afrodite se estreitaram, mas o jovem respondeu dando de ombros.
— Ainda não me apaixonei e acho muito difícil de acontecer por aqui.
— E por quê? – rebateu Máscara.
— Simples, eu gosto de homens e essa sociedade é muito preconceituosa... Enfim, sou grato aos deuses por não ter de enfrentar isso. Aqui, só me importam os jogos, nada mais. – disse o jovem.
Afrodite sorveu um gole de café e permaneceu em silêncio, digerindo as palavras de Mu, enquanto Máscara fixava os olhos naquele jovem que falava tudo com tanta serenidade e coragem, enquanto ele se perguntava o quê havia mudado em si que, ao ouvir aquela declaração, seu coração ficara um tanto apertado e seu olhar caiu direto sobre o rosto de Afrodite...
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— Sei que é cedo, mas o que me traz aqui é de extrema urgência. – disse o duque Standiford com sua arrogância habitual.
Embora tivesse sido pego em uma situação inusitada, Camus se vestira rápido e com elegância e permanecia sério, olhando para o duque que passava um lenço de seda na testa suada.
— Bem, deve ser mesmo para que venha a minha casa há esta hora e sem avisar.
— E-Eu... vim aqui, porque desisti do negócio. Haverá uma corrida na hípica e eu preciso de todos os meus cavalos. Fui precipitado em vendê-lo ao senhor!
— O quê? – o questionamento não partiu do ruivo e sim de Milo que adentrava a sala no exato momento em que Standiford falava.
— É isso que os dois ouviram. Aqui está o dinheiro que me deu. Vamos desfazer o negócio. – disse o duque estendendo uma maleta de couro preta na direção de Camus.
Milo soltou uma gargalhada.
— Mas não mesmo! O senhor não vai pôr as mãos naquele cavalo!
Standiford olhou para o jovem e depois para o duque.
— Ninguém pode me obrigar a fazer negócios. Tenho o direito de voltar atrás. – insistiu ele.
— Bem, o senhor decide se quer deixar assim e manter essa cara ridícula ou insistir e sair daqui para o hospital! Mas, o cavalo, o senhor não leva e ponto final! – gritou Milo.
— Eu tenho os meus direitos!
— O senhor tem o direito de sair agora e com a cara intacta! Insista nessa bobagem e eu quebro todos os seus dentes! – devolveu Milo já avançando sobre o duque.
— Acalmem-se, os dois! – disse Camus elevando o tom de voz e se colocando entre eles.
Milo e Standiford olharam-no, ao mesmo tempo. Enquanto ambos trocavam farpas, Camus analisara a situação racionalmente e agora sabia o que fazer.
— Sei que tem os seus direitos, senhor duque. No entanto, essa renegociação não será feita em minha casa. Se o senhor deseja seu cavalo de volta, terá que exigi-lo na justiça. Eu mesmo levarei o animal para as cocheiras da polícia e lá farei uma denúncia formal sobre os maus tratos direcionados ao animal pelo senhor. Veremos a decisão judicial sobre esse fato. Não se esqueça de que tenho testemunhas.
— E eu tenho testemunhas que esse seu pupilo me agrediu! Quer mesmo ir à polícia, senhor duque? Creio que se levar para esse lado, eu terei vantagem. – ameaçou Standiford, empinando o queixo e a barriga proeminente.
Calmamente, Camus encarou o duque, os olhos frios encontrando a íris pequena de Standiford que já suava de forma abundante, mesmo sendo ainda muito cedo da manhã.
— Eu acredito que a sua reputação junto aos demais não conquistará muitos aliados, Standiford. Corre à língua solta que o senhor maltrata seus empregados e animais já há bastante tempo, possui dívidas de jogo astronômicas, sendo uma companhia fiel do conde Jamian e, tão gastador e irresponsável quanto ele. Já esbanjou a herança de seus pais e agora se encaminha para fazer o mesmo com a de seu avô. Preciso enumerar mais das suas... qualidades ou essas são o suficiente para dar-se conta que não deve me enfrentar?
— I-Isso é uma ameaça? – gaguejou ele.
— Não, isso é a realidade que eu estou mostrando para que caia em si. Não ouse confrontar-me, Standiford, irá perder, na certa. – falou Camus e havia um tom, propositalmente, arrogante em sua voz. – Caia em si, enquanto é tempo e esqueça essa bobagem de desfazer o negócio. Sabe muito bem que paguei pelo cavalo muito mais que ele valia com a idade que tem.
Merda! E agora, o que eu vou fazer? Esse Camus é mais ardiloso que eu esperava. Valery vai me matar quando souber que a ameaça deu em nada! Pensava o duque, enquanto tentava achar algo para dizer.
— Eu vou consultar meu advogado sobre isso! Não pense que as coisas serão sempre do modo que pensa! – disse ele dirigindo-se para a porta.
— Jonas, por favor, acompanhe o duque até a saída da minha propriedade. – pediu Camus e seu tom mudou, apenas, quando se dirigiu ao seu empregado. – E Standiford, peço que tenha a gentileza de não voltar a minha casa. Qualquer discussão posterior será feita na delegacia de polícia. O senhor não é bem-vindo, aqui.
O duque mais velho bufou, mas nada disse. No entanto, olhou para Jonas com uma expressão de raiva. Quando chegaram ao corredor que levava à escadaria que dava para a rua, ele elevou a bengala que conduzia como parte de seu charme, tentando atingir Jonas.
— Afaste-se, seu insolente! Eu sei bem o caminho da saída!
No mesmo instante, Milo surgiu detrás do empregado e postou-se em frente à Standiford. Os olhos de Milo faiscaram como se ele fosse um tigre e ele sorriu, cruelmente.
— Pode deixar, Jonas, eu cuido do senhor duque, daqui para frente...
— Não ouse se aproximar de mim, seu...
Ignorando os protestos do duque, Milo segurou Standiford pela gravata elegante, interrompendo a sua fala e o sacudiu, satisfeito em ver a cabeça do mau caráter balançar de um lado para o outro, os olhos esbugalhados cheios de medo. Arrastou-o até a porta de entrada da mansão, surdo para os protestos e o atirou escada abaixo, vendo-o rastejar e resfolegar.
— Não vou chamá-lo de cão, porque estaria ofendendo os animais! O senhor é um covarde escroto que pensa ser melhor que os outros, mas é um idiota arrogante! E agradeça eu estar de muito bom humor e não rebentar essa sua cara!
— Seu plebeu de merda! Escória! Isso não vai ficar assim! – berrou Standiford, a boca espumando de raiva.
Milo não respondeu com palavras, apenas com um sorriso irônico. Voltou-se para Jonas que estava com os olhos um tanto arregalados e, em seguida, viu surgir a figura de Camus que franzia o cenho tentando entender a cena.
— O que está acontecendo aqui?
— Ele tropeçou e caiu... Não é Jonas? Quem manda ser um estúpido. – falou Milo, calmamente.
Camus olhou para a fresta da porta vendo Standiford tentando se levantar com certa dificuldade, porém Jonas foi mais rápido e fechou-a.
— O senhor Milo tem razão, um homem horrível só pode fazer coisas horríveis! Gostaria do desjejum agora, Sua Graça?— falou o empregado como se nada tivesse acontecido.
— Depois dessa até perdi o apetite. – disse Camus com um suspiro.
— Pois eu não! Jonas, eu o acompanharei até o santuário dessa casa, a cozinha! Espero que Verena tenha feito aquele pão recheado com especiarias... Hummm... Chego a ficar com água na boca só de pensar. – falou Milo abraçando o empregado.
Camus balançou a cabeça notando o brilho divertido nos olhos de Milo e a atitude complacente de Jonas. Sabia que Standiford ainda iria perturbá-los e precisava se alicerçar de todas as provas possíveis. Sentia-se incomodado com o fato disso acontecer logo agora que pretendia contar a Milo sobre a viagem até Village West para conversar com Dohko. No entanto, isso agora teria de esperar. Enquanto Milo fizesse o seu desjejum, ele tomaria as suas providências.
Quando o duque caminhou em direção à biblioteca, a gata reapareceu e se roçou entre as suas pernas como se desejasse alguma coisa. Camus olhou-a e ela miou numa espécie de vibrato que, desta vez, era diferente do que ela fizera no quarto, instantes atrás.
— O que foi Senhora gata?— perguntou Camus olhando sério para o animal.
Miauuu... (Tome muito cuidado, ouviu?!)
Camus abaixou-se e acariciou o topo da cabecinha da gata. Ela fechou os olhos com uma visível expressão de prazer e ronronou, arrancando um pequeno sorriso do duque.
— Muito bem, agora vá cuidar dos seus gatinhos que eu tenho coisas a fazer. – disse ele levantando-se e quebrando aquele contato.
A gata ficou observando-o se afastar e farejou no ar, como se quisesse se certificar de alguma coisa. Assim que a porta da biblioteca se fechou, ela virou as costas e correu para a cozinha. Tinha marcado com seu cheiro o seu preferido de pelo vermelho, agora iria, mais uma vez deixar sua proteção naquele que amava com a força de seu pequeno coração felino.
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Valery bebericava uma xícara de café na varanda, aproveitando a luz suave da manhã que beijava sua pele madura. O dia prometia ser bonito, os pássaros gorjeavam nos cedros que permeavam os jardins de sua mansão e o perfume de jasmins e hibiscos tomavam conta do ar matutino.
Luz e sombra exemplificavam bem aquele lugar... À noite, a mansão se tornava um labirinto de prazeres sensuais, enquanto de dia, despontava como uma mansão familiar e luxuosa como a de muitos nobres.
Como uma maestrina desse local exótico, Valery orquestrava os jantares e as novidades eróticas e, mais recentemente, engendrava planos para retomar seu poder junto à Minos e Hades para preencher o vazio de sua vida frívola.
— Com licença, senhora... Tem um homem desejando falar-lhe. – disse a empregada.
Com as costas eretas encostadas no espaldar de uma cadeira estilo Luís XV, Valery franziu o cenho erguendo a xícara e levando-a aos lábios devagar.
— Quem é? – perguntou.
— O duque Standiford e... Ele parece meio fora de si.
Valery prendeu a respiração, estremeceu e derramou o resto do café no vestido, enquanto a xícara de fina porcelana se espatifava no chão.
— Mas o que ele está fazendo aqui?! Aquele... imbecil!
— Deixo-o entrar, senhora?
— Mas é claro que não! Diga-lhe que eu o encontrarei na... na Taberna Chance, hoje à tarde. Rápido! Não quero que ninguém o veja!
Quando a jovem criada retornou, o duque já estava mais composto.
Ser escorraçado e atirado nas escadas! Humilhado por um reles plebeu e por aquele duquesinho metido! Tudo o deixava com um ódio mortal daqueles dois e do mundo, também!
— Minha senhora pede desculpas, mas não poderá recebê-lo agora. Pediu que a encontre hoje à tarde na Taberna Chance.— disse a criada.
O duque levou a mão à boca, depois encarou a criada com desprezo.
— Está bem, diga a sua senhora que estarei esperando e que me desculpe pelo incômodo.
A criada postou-se à frente do duque e o conduziu até a saída. Standiford olhou em volta verificando os cômodos espaçosos e decorados em tons de azul, um grande tapete persa cobrindo o caminho por onde andava. Valery era tão ou mais rica que ele, mas ele a desejava e faria de tudo para conquistá-la.
Com uma última olhada, deixou a mansão e resolveu ir até o clube para jogar um pouco e tentar esquecer aquele fatídico início da manhã.
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Pandora havia tido uma noite péssima. Por alguns segundos, recriminara-se por não ter permanecido na mansão de Hades. Certamente, Minos estaria lá e se tivesse ficado, os três passariam a noite juntos e, mesmo que negasse para si mesma, não se sentia mais como antes. Talvez fosse o momento de esclarecer algumas coisas antes que seu relacionamento se esvaziasse, por completo. Levantou-se da cama e olhou-se no espelho. Estava pálida e com olheiras... Após chamar a criada que a ajudou com a maquiagem, pediu que ela escolhesse um vestido, pois nem para isso sentia-se animada.
— Que tal esse, senhora? – perguntou a jovem criada.
O vestido que a jovem indicara era amarelo clarinho com flores brancas bordadas na barra e tinha cintura alta em que seria amarrada uma fita de cetim branco. Olhou-o desejando escolher um dos mais escuros como era de sua preferência. No entanto, aceitou.
— Obrigada, Margaret. Pode ir. – disse Pandora.
— Mando preparar a carruagem? – perguntou a jovem, antes de fechar a porta.
— Não, acho que vou dar uma caminhada.
— Acha apropriado, senhora? Uma mulher sozinha na cidade e, ainda mais que...
— Se eu me cansar, chamo um coche.
Uma hora depois, Pandora caminhava, tendo como referência a rua onde encomendava seus vestidos, a Monmouth Street. Dali seguiria até a mansão de Hades e colocaria seus sentimentos em relação ao que estava acontecendo. No entanto, desacostumada de andar acabou em uma rua esburacada e fétida cujas carruagens passavam rápidas lançando jatos de lama nos transeuntes desavisados, assim como ela...
Um pouco de lama de um veículo em disparada espirrou lama próximo ao seu rosto, fazendo-a recuar enojada. O ato a fez falsear o pé e, em seguida, sentir que sua bolsinha era arrancada por alguém que surgira do nada e agora corria em disparada com ela por entre as pessoas.
Pandora gritou para que parasse, correu atrás dele, porém o corpete sob o vestido lhe tirava o fôlego e ela desistiu, ofegante.
— Não... – murmurou, levando a mão aos cabelos desalinhados que lhe caiam sobre a face.
Sentiu-se fraquejar e, tomada de pânico, já não sabia mais onde estava. Encostou-se num muro de tijolos e escondeu o rosto entre as mãos, angustiada. O tráfego ficava mais pesado com o avanço da manhã e o barulho de cascos, rodas e vozes a deixavam ainda mais estonteada.
Por fim, afastou-se do muro e olhou ao redor, forçando-se a sair daquela situação. Nada de pânico. Eu, apenas, tenho que me situar, novamente. Pego um coche e peço que me leve até Hades. Enquanto pensava, alguém lhe deu um encontrão, fazendo-a oscilar. Quando se virou para reclamar viu um rosto conhecido emergir de todo aquele caos...
— Radamanthys... – ouviu-se murmurar, enquanto ele caminhava na sua direção.
O jovem barão vinha com sua bolsinha em uma mão, enquanto na outra segurava o ladrão pelo cangote. Com o olhar fixo nela, parou e estendeu-lhe a bolsa. Em seguida, empurrou o ladrão para frente e ela notou que os dois estavam ofegantes por conta da corrida. O ladrão era um menino magro que não devia ter mais de oito anos.
— Peça desculpas à senhora. – ordenou Radamanthys.
— D-Desculpe. – resmungou o menino.
Radamanthys o fez se voltar e o encarou, falando em um tom sério e grave.
— Se deseja deixar essa vida, vá até os armazéns nas docas e procure Aiacos. Diga-lhe que Radamanthys mandou você para que ele lhe dê um trabalho. Terá três refeições ao dia, lugar para dormir e um salário.
Um brilho interessado surgiu nos olhos castanhos do menino e, quando Radamanthys o soltou ele saiu correndo, desaparecendo no meio da multidão. Só então, o barão tornou a fitar Pandora que sorria desconcertada.
— O senhor sempre aparece em momentos que eu...
— Precisa da ajuda de um amigo? – completou ele.
— Sim! – disse Pandora sorrindo.
— Desculpe a pergunta, mas... O que faz nessa parte da cidade?
— Bem, eu quis caminhar um pouco e... acabei me perdendo. Agora sou eu que pergunto, como o senhor conseguiu recuperar minha bolsa? Eu não o tinha visto.
— Eu estava do outro lado da rua quando a avistei. Vi quando o garoto se aproveitou da falta de educação das pessoas e roubou a sua bolsa. Conheço bem este bairro, então cortei caminho e consegui alcançá-lo.
— Não sei como agradecer a sua gentileza.
— Eu sei. Isto é, se não tiver nenhum compromisso urgente, podemos tomar um café, juntos. Tive que encaminhar alguns negócios muito cedo e não comi nada, até agora. – disse o barão e aqueles olhos misteriosamente dourados brilharam ao fitá-la.
Pandora hesitou, mas uma parte sua desejava permanecer junto a Radamanthys. Ele tinha um jeito de fazê-la sentir-se segura e ainda era cedo. Poderia procurar Hades na hora do almoço...
— Eu aceito, obrigada. É o mínimo que posso fazer pelo meu salvador!— disse ela.
Abrindo caminho, Radamanthys viu uma pequena confeitaria, a entrada muito limpa, a tabuleta na porta anunciando as iguarias servidas. Era um lugar simples, porém aconchegante. Ele fez Pandora entrar e, apesar de muito cedo, havia algumas pessoas ali, em sua maioria casais. Um dos cavaleiros olhou para Radamanthys e depois fez um comentário com a dama ao seu lado. Os dois sorriram para o barão que os cumprimentou com um movimento de cabeça.
A proprietária da confeitaria era uma mulher rechonchuda com cabelos loiros e olhos verdes grandes e curiosos. Ela os acomodou em um reservado que mostrava a vista para um belo jardim. Ofereceu-lhes o cardápio e Radamanthys escolheu alguns pães e café. Pandora preferiu um chá e biscoitos amanteigados. Sorridente, a mulher os deixou às sós e uma amigável conversa se iniciou.
— O senhor parece ser bastante conhecido por aqui. – disse Pandora notando a atenção que ele despertava.
— Sim, a grande maioria aqui me conhece. Não de agora, mas de outros tempos.
— Tempos difíceis?
— Tempos de pobreza... Eu já fui como aquele garoto que a roubou. Meu título não advém do sangue nobre e sim da confiança e amor de um homem que acreditou em mim e me adotou. O duque de Wyvern perdeu um filho e me adotou depois que eu tentei roubá-lo com apenas cinco anos de idade. Ele fez questão de registrar-me para que eu herdasse sua fortuna e título.
— Como meu marido... Quer dizer, meu ex-marido fez com Milo. – deixou escapar Pandora.
Radamanthys olhou-a e sorriu. Pandora percebeu que ele tinha um rosto viril e até os dentes brancos e perfeitos revelavam certa dose de selvageria, como se ele fosse um predador. No entanto, ele era mais que um homem bonito, havia nele um magnetismo especial que não fora desvirtuado pela civilidade...
— Está chocada? – perguntou ele quebrando o devaneio da jovem.
— N-Não! Claro que não. – respondeu ela sentindo o rosto corar.
— Então porque está vermelha?
— Ah, na verdade o que me fez corar não foi isso.
— Foi o que, então?
— A constatação que... parecemos íntimos de anos. Esta me revelando algo do seu passado e eu... eu me sinto à vontade para falar de mim, também.
Radamanthys sorriu e Pandora, também. E naquele breve olhar, ambos navegaram águas profundas e desconhecidas... Ela soprou o chá para esfriar um pouco e ele determinou-se a comer os pães recheados. Quando terminaram, ele a levou até um coche e beijou-lhe a mão.
— Obrigado pela sua companhia, minha senhora. Saiba que me deixou feliz com esta gentileza.
— Eu é que agradeço, senhor Radamanthys. A mulher que escolher para ter, ao seu lado, será muito abençoada. – disse ela.
O olhar do barão estreitou-se e ele sorriu, mas logo ficou sério e disse:
— E amaldiçoado seja o homem que não a valorizar, minha senhora.
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Kanon levantou-se cedo, tomou banho e saiu. Não estava preparado para encontrar Saga e dizer-lhe tudo que ficara entalado na garganta. A verdade era que aquele homem em seu quarto não parecia Saga, algo estava errado, muito errado.
Entretanto, sentia-se ferido e magoado com tudo aquilo e despreparado para enfrentar a situação. A primeira pessoa que lhe veio à mente foi Afrodite. Era verdade que haviam sido amantes, mas o que havia entre eles, acima de tudo, era uma forte amizade. Uma amizade que ele deixara de lado, mas que agora sentia vontade de resgatar.
— O senhor não vai tomar o desjejum? – perguntou o criado vendo que Kanon estava saindo da mansão.
— Não, vou até o clube e como alguma coisa por lá.
— Algum recado para o seu irmão?
— Diga... Melhor, não diga nada, fale apenas que eu saí cedo e você não sabe onde eu fui.
— Sim, senhor Kanon.
Quando a porta se fechou, Saga adentrou a sala.
— Onde foi Kanon? Eu não o encontrei no quarto.
— Ele não disse, senhor.
Saga franziu o cenho. Estava confuso e quando acordara se sentira estranho, um tanto desconectado da realidade. Sonhara a noite toda e, em todos os sonhos, ele era outra pessoa, cruel, sarcástico. Era certo que tinha bebido um pouco, porém só tinha imagens confusas que não sabia se eram reais ou imaginárias. Em uma delas se viu machucando Kanon e quando abrira os olhos, estava em sua cama, nu e sozinho. Nem se lembrava de ter se banhado, mas o fato era que o tinha feito.
— Tem certeza disso, Christopher?
— B-Bem, s-senhor... Foi ele quem me pediu prá não dizer. – confessou o criado.
— O quê? Onde foi meu irmão?
— Ele disse que ia ao clube.
— E porque não queria que eu soubesse?
— Não sei, senhor.
Saga bufou, depois olhou para o armário de bebidas. Algo havia acontecido e agora Kanon o estava evitando. Sentiu-se culpado e uma forte dor de cabeça irrompeu, como se ele tivesse levado uma paulada na cabeça.
— Senhor! – chamou o criado, preocupando-se com a expressão de dor de Saga.- Está se sentindo mal? – perguntou, logo a seguir.
— N-Não sei... Não é nada, acho que é... ressaca. Bebi um pouco demais, ontem. O Absinto não é uma bebida que se possa abusar.
— Venha, vou levá-lo de volta ao seu quarto.
— Não precisa... Eu vou sozinho, obrigado. Mande que preparem um café forte e leve em meu quarto, sim?
— Vou providenciar, agora mesmo, senhor.
Saga encaminhou-se para o quarto com a cabeça latejando. No caminho, não se conteve e abriu a porta do aposento de Kanon, notando que a cama ainda não havia sido arrumada pela criada e que o sobrelençol havia sido retirado.
Olhou então na direção da lareira e viu restos de tecido incinerados, porém um pedaço de tecido não havia queimado. Devagar e com uma angústia crescendo dentro de si, Saga se aproximou, constatando que havia uma mancha avermelhada naquele pedaço. Sentiu a mão trêmula quando o pegou e, em sua mente, cenas de sexo violento despontaram tão vívidas que podia sentir o cheiro da pele e do suor do irmão. Deixou-se desabar de joelhos, apertando o tecido ensanguentado.
— Deus, Kanon... O que eu fiz? – murmurou sentindo uma profunda náusea.
— Você só fez o que ele queria, nada mais...
A voz grave e parecida com a sua reverberou entre aquelas paredes e Saga sentiu a cabeça latejar ainda mais e um calor brotar de dentro do seu corpo.
— Quem está aí? – perguntou ele, estremecendo.
— Não sabe mesmo quem eu sou? Besteira! Você sabe muito bem!
Desesperado, Saga virou a cabeça para todos os lados.
— Quem está aí? Saia! – gritou ele.
Foi então que seus olhos se fixaram no espelho que ficava próximo à cama e viu-se refletido nele. No entanto, parecia diferente, a expressão era mais cruel e ousada, os olhos tinham um brilho avermelhado, a postura do corpo era desleixada, porém confiante...
— Meu Deus, estou enlouquecendo... – disse Saga, com os olhos arregalados e a cabeça parecendo que ia explodir.
— Há!Há!Há!Há! Enlouquecendo? Não, meu caro! Agora é que a sua vida vai começar!
Com um grito de dor, Saga viu tudo escurecer e perdeu a consciência, sentindo que caía em um profundo, escuro e desconhecido abismo...
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