Amor Selvagem!
1 Capítulo 1 PRÓLOGO
Notas iniciais
Apesar de já ter se acostumado com a chuva fina, Camus franziu o cenho ao sentir a água escorrer para dentro de seu sobretudo de lã escura. Montado em um garanhão árabe, permitiu-se observar a vasta propriedade rural deixada por seu avô, o quinto duque de Chamberlain. O lugar possuía pastos verdejantes, jardins bem cuidados e gado saudável. A extensão daquelas terras se perdia de vista e, mesmo agora, acostumado a elas, Camus ainda admirava-se de estar ali e de ter conseguido mantê-las na família.
Camus Montesquieu Chamberlain nascera em uma das viagens que seus pais, constantemente, faziam para o Oriente. Sua mãe, francesa por nascimento e inglesa por amor, morrera no parto. Seu pai, um nobre militar inglês sempre o mantivera junto a si, não tornando a se casar. Como resultado, crescera em meio a militares numa combinação de rígida educação britânica com forte senso de responsabilidade e independência. O fato tornara-o consciente de suas habilidades e uma delas era criar oportunidades em meio às condições desastrosas como fora deparar-se com as dívidas da família, após a morte do avô e, em seguida, de seu pai.
A razão de tudo isso, era que, no final da vida, seu avô se apaixonara por uma bela e jovem dama que lhe minara os cofres pondo a perder outras propriedades de grande porte. Em seguida, seu pai falecera de cólera e lá estava ele, jovem, órfão e sozinho. A sua sorte fora a contratação de administradores e advogados que cuidaram do assunto com competência e discrição, conservando, pelo menos parte daquela fortuna que, agora, era administrada com retidão e mantida graças a uma ideia revolucionária que lhe surgira à mente, algo que seu pai sempre dizia: Filho, tudo é uma questão de educação. Podemos vencer a mais sórdida das batalhas se tivermos retidão, caráter e uma educação apurada.
Pois bem, tornara-se um preceptor de jovens, ensinando-os etiqueta social, economia doméstica e administração. No início, a sociedade desconfiara do jovem ruivo que não era tão mais velho que os jovens a que se propunha ensinar. Entretanto, sua postura impecável, sua maturidade e seus conselhos, assim como sua aparência bela e refinada, acabaram conquistando pais e filhos, dando-lhe o status de o melhor preceptor de Londres. Sua propriedade na cidade se tornara uma verdadeira escola e, quando desejava sossegar, vinha para Village Mall e revia aquelas terras férteis com seu silêncio e sua beleza.
Inspirou o ar úmido e começou a descer a colina sob a chuva que, agora, aumentava de intensidade. Deixaria seu cavalo abrigado nos estábulos e providenciaria um banho para si. Gostava disso, de vir até a propriedade campestre e fazer as coisas por si só, apesar de ter herdado o título de duque e conservado os empregados de seu avô. Se havia algo que amava era a sua independência e os momentos de quietude e solidão, onde desfrutava do prazer de cavalgar, sentir a brisa e ver a beleza simples do lugar.
Village Mall era uma propriedade impressionante, parecendo um pequeno castelo com toques góticos aliados a elementos clássicos como fontes e esculturas adornando os jardins. Ao adentrar o pórtico finamente esculpido, Camus retirou seu sobretudo molhado e dirigiu-se ao quarto de banho, sorrindo, discretamente ao encontrar a banheira pronta para ser usada.
Benson havia se adiantado e preparado-a para que, quando chegasse, encontrasse a água na temperatura que lhe era agradável. O ato o fez lembrar-se de seu pai dizendo: Um bom banho deve ter a temperatura adequada para a saúde do corpo. Nada de banhos quentes! A água fria revigora a mente e os músculos. Quando pequeno, o banho era uma tortura, mas com o tempo, passara a apreciar a energia que um banho frio propiciava ao corpo, assim como também acabava com certos desejos...
Mergulhado na água fria da banheira, Camus observava o luxo ao redor. Cada vaso, pintura, tapete e cortina haviam sido preservados. Sem mencionar nos empregados que fizera questão de não desamparar, mesmo na época em que ficar difícil mantê-los. Conforto era bom e necessário, porém jamais sacrificaria suas crenças e liberdade em nome da fortuna, nem se tornaria mais um hipócrita rico, vivendo de forma parasitária ou extravagante.
—Sua Graça deseja que eu o barbeie após o banho? perguntou Benson, o criado mais antigo da casa.
—Pode deixar, Benson, eu mesmo o faço. Obrigado.
O homem franzino e com cabelos grisalhos fez uma expressão desapontada. Camus percebeu e voltou atrás. Afinal, fazia parte da etiqueta, que tanto ensinava, propiciar aos outros que exercitassem seus talentos. Assim, os empregados tornavam-se mais felizes e produtivos quando lhes deixavam exercer suas habilidades e todos ganhavam com isso.
—Pensando melhor, acho que vou aceitar seus serviços, Benson. Ficarei mais apresentável entregando-me aos seus cuidados. disse Camus.
Uma alegria genuína brincou nos lábios do empregado. Havia cuidado do avô e do pai do jovem Camus. Servir a honrada família era algo que sempre fizera e sentia prazer em fazê-lo. Ter o jovem nobre e responsável sob os seus cuidados chegava a ser uma honra.
As luzes de um candelabro oscilavam sobre o torso bem proporcionado. Camus era esguio, mas de compleição forte. A pele era alva e os traços do rosto eram clássicos, marcantes e bonitos. Tinha olhos de um castanho avermelhado, tão penetrantes e expressivos que ora pareciam enxergar através da alma das pessoas, ora as fitava com tanta frieza que parecia ignorá-las por completo. Os cabelos ruivos completavam o quadro, tornando-o atraente e exótico entre os jovens, predominantemente loiros, da sociedade londrina.
O criado terminou de barbeá-lo com habilidade e gosto. Aplicou um pouco de talco nas faces e sorriu.
—Pronto, Sua Graça!- disse Benson trazendo um espelho para que Camus se olhasse.
—Perfeito. falou Camus passando a mão na pele macia.
—Se me levar para Londres, posso barbeá-lo todos os dias para que esteja impecável durante a temporada. Vai procurar uma esposa este ano? Ouvi dizer que o Baile Sublime apresentará belas debutantes este ano. Quem sabe Sua Graça encontra sua alma gêmea, não é?
Sorrindo meio sem graça, Camus levantou-se da cadeira e ergueu a mão para deter a chuva de perguntas.
—No momento, estou mais preocupado em comprar cavalos de raça e aumentar o haras. Não sou afeito a namoricos e bailes, a não ser quando ensino algo aos meus pupilos.
O criado levantou uma sobrancelha. Achava seu patrão tão educado e bem apessoado, um verdadeiro gentleman. Estranhava a frieza com que ele conduzia os assuntos do coração. Nem mesmo amantes, ele sabia se ele as tinha, tamanha era a discrição do jovem.
—Sua Graça é jovem, ainda tem muito tempo para escolher bem.
Camus assentiu e encerrou o assunto. Esse era um segredo que carregava consigo. Jamais se casaria, nem mesmo para continuar a linhagem da família. Não sentia atração por mulheres, as respeitava, tinha amizade com algumas e uma consideração extrema da inteligência feminina. Mas amor? Ah, o destino lhe pregara uma peça e o fizera sentir-se atraído pelo mesmo sexo que o seu.
Tivera um único amante que lhe descortinara os segredos do corpo, mas isso já fazia muito tempo, na época em que frequentara Oxford e lá conduzira seus estudos. Atualmente, ninguém despertava sua atenção ou libido e isso chegava a ser uma benção. Inspirou sentindo o ar úmido da chuva, depois se vestiu sob o olhar atento de Benson.
O criado levou a mão ao queixo e estudou seu jovem mestre. Estava perfeito! Depois foi tratar do jantar, deixando Camus olhando a fina chuva através da janela.
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Milo caminhou pelos opulentos salões brancos e azuis, notando espaços vazios onde móveis e obras de arte haviam sido removidas. Village West ainda mantinha sua pompa, mesmo que agora, grande parte da decoração estivesse em falta devido à mudança da condessa para a propriedade em Londres.
Ouvindo os próprios passos no mármore escuro, ele se dirigia ao quarto do conde Dohko de Almack, respondendo ao chamado de uma das criadas mais bonitas da casa.
—Eu acho que ele não tem muito tempo. Por isso, mandou chamá-lo. disse a jovem Marin com o semblante tristonho.
—Fico puto com isso. Tanto desgraçado, filho da puta sem serventia esbanjando saúde e ele... doente! O conde é um verdadeiro pai, para mim e ainda não é velho para morrer desse jeito. Eu queria poder fazer alguma coisa por ele. falou Milo com genuíno pesar.
—A esposa não lhe deu filhos... Você, de certa forma, os substituiu e isso tem muito valor para o conde.
O quarto estava na penumbra e o conde, com os olhos fechados, quando Milo entrou. Sem querer, o jovem quase derrubou uma fina jarra de porcelana e o barulho fez o homem na cama, abrir os olhos.
—Desculpe, senhor! disse Milo sorrindo.
O conde sorriu também, e lhe estendeu a mão em um gesto paternal.
—Aproxime-se, meu filho. Isso aí não vale nada. Sente-se aqui.
Milo obedeceu, olhando com amorosidade para o conde.
—Deus não me concedeu filhos de sangue... Mas me deu um de coração. Amo você, Milo e não o deixarei desamparado.
—Não se preocupe comigo, senhor, eu sei cuidar de mim. Tem que cuidar de sua saúde, ainda é jovem para se entregar. Quem sabe outro médico? disse Milo.
—Estou morrendo, meu rapaz... E já estou cheio de sangrias e tratamentos do gênero. Minha esposa esvaziou esta casa, mudou-se para Londres e tem um amante que, por sinal, é bem rico. Ele que a sustente quando eu me for. Você herdará a minha fortuna, Milo. Encontre uma boa moça, se case e tenha filhos. Enquanto ainda tenho forças, vou mandá-lo para Londres. Lá você será encaminhado ao melhor preceptor de etiqueta social no momento.
—Etiqueta social? Preceptor?
—Sim, um futuro conde precisa aprender certas coisas para ser aceito na sociedade.
—Senhor, eu... preferia que não fizesse isso. Eu não sirvo prá essa coisa de nobre, eu gosto de ser livre, de rir alto quando tenho vontade. Acho os nobres muito frescos, com exceção do senhor, é claro.
—Você tem integridade, beleza e caráter. Qualidades que eu admiro em alguém e que gostaria de ver em um filho. Você é este filho e herdará tudo aquilo que eu construí. Mas, para conviver com as águias, terá que tornar-se uma. Amanhã mesmo, eu o enviarei para Londres.
—Adiantaria eu dizer, novamente, que não quero ser um nobre fresco e adepto daquelas roupas apertadas que os fazem andar de nariz empinado como se estivessem com as bolas apertadas e o saco esmagado? perguntou Milo encenando o que dizia.
O conde deu uma sonora gargalhada, depois se engasgou e tossiu. Milo bateu de leve nas costas do homem e pegou um copo com água para que ele bebesse.
—Minha resposta é não. Vá, meu rapaz, arrume suas coisas e se prepare para partir. disse o conde depois de acalmar-se.
Milo suspirou e aguardou que o conde dormisse. Beijou-o na testa e deixou o aposento. Marin o esperava para saber o resultado da conversa.
—E então? perguntou ela com os olhos brilhando.
—Ele quer que eu herde o título de conde e vá para Londres aprender etiqueta social. respondeu Milo revirando os olhos.
—Milo! E você fala isso assim, com essa cara? Vai se tornar um conde! E Londres! Meu Deus, Londres é o máximo da civilização! Eu estaria dando pulos de contentamento.
—Pois eu gostaria de permanecer aqui, cuidando do haras, vendo potros nascerem e se transformarem em garanhões de corrida. Não tenho a mínima vontade de ser um nobre e nem de me enturmar com aqueles almofadinhas cheios de frescura.
—Mentalidade de pobre é fogo! Deus dá nozes prá quem não tem dentes! Vá arrumar as suas coisas como o conde mandou. disse Marin balançando a cabeça.
—Sou feliz assim, Marin! Por que tenho que mudar? Sei que Dohko me ama e eu a ele. É simples!
—É por amá-lo que ele quer dar-lhe um futuro! Quer viver como um pescador e tratador de cavalos o resto de sua vida? perguntou a jovem colocando as mãos na cintura.
—Pescador? Do que você está falando? disse Milo arregalando os olhos vivos.
—É, pescador, jogando a rede e catando o que cai nela! É o que você faz quando leva prá cama tanto homem, quanto mulher! Entendeu agora? A vida é mais que prazer e os seus tão amados cavalos de raça. Tem que encontrar alguém que o faça feliz, mas que também o ajude a crescer, Milo. Não perca essa chance que o conde está lhe dando. Digo isso como sua amiga. Agora vá! Anda, vá arrumar suas coisas.
Contrariado, Milo deixou a mansão e se dirigiu para a cabana onde morava, nos fundos da casa.
O conde sempre insistira que ele ocupasse um quarto na mansão, mas ele preferira ter seu próprio espaço e pedira ao nobre para construir, ele mesmo, o lugar onde se acomodaria.
A cabana, próxima aos estábulos era simples, porém ampla, arejada e confortável. Os móveis rústicos também haviam sido feitos por ele e se orgulhava de possuir habilidades de carpintaria e construção.
No entanto, herdara do pai a paixão por cavalos e dedicava-se ao cuidado dos cavalos de raça do conde. Seu pai, um cavalariço excepcional havia servido à família durante anos e trazido ao mundo os melhores exemplares da raça árabe e que muitos títulos trouxeram para a família do conde Dohko.
Após a morte do pai, logo que completara 16 anos, Milo tinha sido adotado pelo conde e ele assumira sua criação, tratando-o como se fosse um familiar, porém deixando-o livre e um tanto senhor de si.
A maior parte do tempo, o jovem trabalhava no que gostava exibindo um físico musculoso e ombros largos. Era alto, forte e tinha a pele bronzeada pela exposição constante ao sol. Os traços de seu rosto eram belos, num estilo másculo e confiante. Os olhos azuis faiscavam e se acentuavam com os reflexos dourados dos cabelos loiros e longos. Olhando o todo, Milo se constituía no jovem rústico, na plenitude dos seus 22 anos e que tinha a simpatia de todos pela forma responsável e alegre com que lidava com a vida.
A chuva continuava, agora, um pouco mais forte. Milo lançou um olhar contrariado para a mansão e depois para as formações de nuvens negras ao norte. Sentia-se perturbado e sempre que isso acontecia, ele não conseguia ficar confinado em casa, precisava sair. Foi até os estábulos e acariciou a crina da bela égua castanha que dera o nome de Flama.
Amava o conde, mas ser seu herdeiro o incomodava. Perderia a liberdade, isso era certo. E tinha a esposa... A bela e voluptuosa Pandora que certamente não iria gostar de ficar sem um tostão e perder tudo em favor daquele que a recusou.
—Vamos, garota, vamos nos molhar um pouco se você não se importar... disse o jovem depois de suspirar, longamente.
A égua mexeu a cabeça num gesto que poderia ser interpretado como um sim. Milo sorriu e montou, saindo a galope, logo a seguir. No entanto, mesmo com o galopar quase meteórico da égua, os dois foram surpreendidos pela chuva, que se tornou torrencial. As árvores balançavam, perigosamente, e raios riscavam os céus.
—Droga! Vamos ter que parar, Flama.
Puxando as rédeas para deter o animal, Milo olhou ao redor a procura de abrigo. Avistou um antigo estábulo de aspecto abandonado e dirigiu-se para lá. Estava escuro, mas quente. Sentou-se na palha seca quando ouviu ruídos ao fundo. Com cautela, foi aproximando-se para investigar quando deu de cara com uma gata em trabalho de parto.
Quando o último gatinho saiu, ela arfou e logo se pôs a lamber os filhotinhos, arrancando um sorriso de Milo.
—Muito bem, senhora gata, seus filhos são lindos! disse ele sem se aproximar muito.
A gata olhou-o com intensidade, como se verificando o grau de perigo que ele representava. Em seguida, voltou ao que estava fazendo e ignorou o jovem. Milo olhou em volta, vendo que não havia nenhuma viva alma ali e, portanto, nada de comida. Vislumbrou uma cesta de vime abandonada e a encheu de palha. Depois achou a metade de um cobertor velho e terminou o que pretendia.
—Senhora gata, vou ter de deixá-la, junto com sua ninhada, em algum lugar onde possa achar comida com facilidade, senão, tanto a senhora quanto seus filhos irão morrer de fome. disse Milo sério, olhando para a imensa gata amarela que dera à luz a quatro filhotinhos.
O animal pareceu entender a mensagem e olhou para a cesta que Milo depositara ao chão. Andou em volta dela, cheirando-a e depois foi até seus filhotes. Carregando-os pelo cangote, colocou-os na cesta e entrou para junto deles. Aninhou-se na palha e cobertor e foi dar de mamar aos gatinhos.
Sorridente, assim que ela acabou, Milo cobriu a cesta com parte do cobertor, espiou para fora e viu que a chuva havia arrefecido. Montou em Flama e ajeitou a cesta, galopando alguns metros até chegar perto de uma mansão belíssima e bem cuidada.
Village Mall... Interessante. murmurou para si mesmo. — Bem, senhora gata, vou deixá-la na porta de uma mansão que, certamente, abriga uma família rica. Se eu não tivesse de viajar, a levaria comigo, mas, certamente, aqui, não passará trabalho com seus filhos. Comporte-se, viu?
Ditas as palavras, Milo desceu do cavalo, pegou a cesta e foi até a imensa porta de madeira trabalhada da mansão. Depositou o objeto no chão e bateu a aldrava fortemente, encostando o ouvido na porta para verificar se alguém viria.
Dentro da mansão, Camus agora lia o tabloide que trouxera de Londres. Havia dispensado Benson para que providenciasse o jantar e agora tinha alguém à porta. Pensou em chamar o criado, mas a sineta estava longe e não gostava de gritar.
Levantou-se e foi ver quem era. Ao abrir, estranhou o som baixo e esganiçado vindo de uma cesta aos seus pés e, em seguida, ao olhar para frente, só teve tempo de ver vultosos cabelos loiros esvoaçando, enquanto seu dono galopava tão rápido como um raio.
Franziu o cenho e olhou dentro da cesta, encontrando dois pares de olhos brilhantes e esverdeados e mais quatro filhotinhos enroscados entre si. Depois tornou a olhar para o horizonte vendo o majestoso puro sangue desaparecendo por uma colina com seu misterioso cavaleiro...
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O sol fraco da tarde de outono filtrava-se pelas janelas da biblioteca da elegante mansão e refletia-se sobre os cabelos avermelhados de Camus que, compenetrado, verificava contas e relatórios com um velho senhor. Havia chegado a Londres no início da manhã e já sentira o clima diferente e mais pesado, assim como o contato com as preocupações pertencentes à vida dita civilizada.
—Já fiz o relatório que me solicitou, Sua Graça. falou o advogado calvo com um pequeno chumaço de cabelos no topo da cabeça.
Camus leu e, de repente, franziu o cenho.
—Que dívidas são essas? Já não tínhamos saldado todas? indagou o ruivo.
—Ah, Sua Graça, descobrimos que a esposa de seu avô o convenceu a jogar uma partida de dados e ele perdeu. Mas, pareceu que pegou gosto pelo jogo e continuou apostando e...
—Perdendo. Era só o que faltava, uma dívida de jogo.
O advogado apenas fez um ligeiro gesto de cabeça, concordando.
De quanto tempo é essa dívida? perguntou Camus.
—Uns quatro anos e... ela nunca tinha sido cobrada. Até agora. Mas, a boa notícia é que o credor não quer dinheiro, Sua Graça.
—Não? O que quer, então?
—Ele quer que o senhor ensine boas maneiras ao filho, quer dizer, ao jovem que adotou como filho.
—Explique melhor, senhor Barnaby.
—Bem, o conde Dohko está muito doente e como não teve filhos, adotou um jovem cavalariço que, segundo ele, é o único ser nesta terra com honra o suficiente para herdar sua fortuna. Antes de morrer, o duque quer passar o título para o jovem e deseja que ele seja preparado para enfrentar a sociedade e faça um bom casamento.
—E a esposa do conde?
—A condessa Pandora? Bem, falam à língua solta que ela tem um amante riquíssimo e que desfila com ele nas altas rodas. Mesmo o marido estando doente, ela o deixou no campo e mudou-se para a mansão em Londres onde promove festas, digamos... extravagantes!
—E ela sabe da decisão do marido?
—Creio que não, mas também não há de ficar desamparada, já que o amante é rico e parece ter uma afeição genuína por ela.
Se fosse um homem de risos e bom humor, Camus teria gargalhado da afirmação do velho advogado. Desde quando, os amantes de mulheres casadas, continuavam com elas após o divórcio ou a morte do marido? Era a primeira coisa que ensinava às suas pupilas: mantenham o decoro e não se envolvam com homens comprometidos e muito menos se tornem amantes se o forem! Uma mulher leviana só será levada a dois lugares: à cama e, em seguida, à própria ruína!
—Pois, muito bem, quando vou conhecer este jovem cavalariço? perguntou Camus sem muito entusiasmo.
—Hoje mesmo, Sua graça. O rapaz já chegou a Londres e logo virá conhecê-lo. Agora, com sua licença, devo retornar ao meu trabalho.
Camus largou a papelada em uma gaveta e deixou a biblioteca. No amplo saguão de entrada, viu a gata amarela passar correndo, dar uma olhada e rumar como uma lista para a almofada instalada em um canto do chão de mármore onde estavam seus filhotes brincando uns com os outros.
Trouxera o animal para a casa da cidade, porque Benson espirrava e lacrimejava cada vez que se aproximava da gata e também porque, por uma ironia do destino, ele, Camus, era o único a ser aceito pelo animal de atitudes selvagens. Pensara em se livrar dela, mas seu instinto protetor fora acionado quando viu os filhotes, ainda com os olhos fechados e assim, aceitara a responsabilidade por aqueles pequeninos seres. No entanto, também havia, em seu íntimo, a curiosidade de descobrir o misterioso cavaleiro que deixara a encomenda aos seus cuidados.
Virando a cabeça, vislumbrou o retrato de seus pais, abraçados e sorridentes, pendurado no primeiro lance das escadarias que davam para o imenso salão. Subiu os degraus e ficou um tempo olhando-os, admirando o sorriso e o olhar captados pela pintura à óleo.
Pai... Mãe... Estou fazendo o máximo para honrar a educação que me deram. Se é verdade que os espíritos continuam seu trabalho no Além, peço que olhem por mim, pois meu instinto me diz que terei muito trabalho pela frente! Rezou, mentalmente, o jovem.
Nem bem Camus terminara sua oração, um dos criados surgiu com os olhos arregalados.
—P-Perdão, Sua Graça, mas o jovem não me deixou anunciá-lo e...
—Deixe que eu mesmo me apresente. Sou Milo Stephanopoulos e vim ter aulas dessa tal etiqueta social com o senhor. Nossa! como essa cidade fede! O ar, as ruas, tudo! E ainda dizem que aqui é a civilização! Espero que sejam lições rápidas, porque eu não quero me demorar por aqui. disse o rapaz estendendo a mão na direção de Camus depois de disparar sua opinião e deixar um rastro de pegadas molhadas no mármore claro.
Camus o encarou com uma fusão perfeita entre a surpresa e a indignação. Os olhos se estreitaram em uma observação criteriosa e os lábios se entreabriram antes de falar calma e pausadamente:
—Não existem lições rápidas, senhor Milo. E sua entrada nada educada e, um tanto impertinente, me revela que serão longas e exaustivas lições...
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