Amor Selvagem!

24 Capítulo 24 EU SEI QUEM VOCÊ É


Notas iniciais
***Olá, galerinha amada!!!! Feliz pela volta do Nyah e também pelo feriado que me possibilitou postar! Obrigada pelo carinho que sempre recebo aqui!!! ***Reta final da fic, espero que gostem!!! Bjs, XD

Por alguns momentos, enquanto as batidas do coração e a respiração de ambos voltavam gradualmente ao normal, o homem permaneceu imóvel. Então, de repente, ele virou-se de costas e ficou olhando para o teto. O corpo vigoroso e nu esparramado sobre os lençóis amarfanhados...

Valery olhou-o, encontrando uma expressão dura e instigante.

— O que foi? – perguntou ela cobrindo-se com o lençol.

— Não foi somente pelo prazer que me chamou aqui. – respondeu ele buscando uma caixa de cigarros, da qual retirou um e acendeu.

— Sua perspicácia me sensibiliza... – disse Valery tomando o cigarro das mãos do moreno e levando aos lábios.

— Quem eu devo matar?

Valery soltou uma gargalhada antes de tocar o rosto másculo e beijá-lo de forma provocante.

— Quando eu ficar viúva vou desejar tê-lo sempre por perto...

—Quer que eu mate o seu marido?

— Não, claro que não! Desse eu mesma cuido. Quero que se livre de outro palerma que está se tornando uma pedra incômoda em meu caminho.

— Hummm... E o que eu vou ganhar tirando essa pedra do seu caminho?

— Prazer e dinheiro...

— Gostei disso... É uma associação capaz de fazer um homem feliz. – disse ele e, olhando para os olhos semicerrados de Valery, beijou-a, novamente.

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Jonas havia relatado o que tinha acontecido no clube à noite passada e agora Milo pensava sobre o assunto, quando os passos decididos anunciaram a presença do duque.

— Camus! Mas o que está fazendo em pé? – falou Milo ao vê-lo surgir à porta.

— Já descansei o suficiente. – respondeu Camus apertando o canto interno dos olhos.

— Estou vendo... – disse o jovem num tom sarcástico.

O mordomo adentrou a sala, vendo o duque vestido e admirando a forma com que Camus, diferente dos demais nobres, mantinha uma independência e disciplina invejáveis.

— Bom dia, Jonas. Por favor, diga-me o que observou no clube. – falou Camus, ignorando a fala de Milo.

— Bom dia, Sua Graça. Bem,a armadilha que o senhor engendrou deu resultado. Após a conversa com aqueles homens, o conde Jamian ficou bastante perturbado. Ele deixou a mesa de jogo e foi direto para a casa da prima, a viscondessa Valery.

— Ele ficou muito tempo lá?

— Não senhor, ele saiu alguns minutos depois e parecia aborrecido.

— Certamente foi enxotado... – falou Camus estreitando os olhos.

— Acha que a tal viscondessa tem algo a ver com tudo isso? – perguntou Milo.

— Não acho, tenho certeza.— respondeu Camus.

— Mas... Por que ela faria isso?

— Valery tem um histórico interessante... Casou-se com Minos, um homem bem mais jovem devido a um contrato entre as famílias e dizem alguns, que a mansão onde mora serve de reduto para jantares e reuniões de moral duvidosa. Antes, eu achava que os comentários se referiam ao fato de Minos ser um artista e promover certo tipo de festa, mas acabei sabendo que a viscondessa livra-se do tédio oferecendo experiências eróticas aos seus convidados.

— Ainda, assim... O que ela tem a ver conosco?

— À primeira vista, nada. No entanto, os frequentadores da mansão são, em sua maioria, nobres, artistas e curadores. Hades tomou a esposa de Dohko como amante e, esse simples fato já faz uma ponte com você, Milo. Quando aquele incidente aconteceu, eu cheguei a pensar que Pandora havia contratado Jamian para constrangê-lo e assim evitar que Dohko o nomeasse conde. Eu contratei um detetive particular que levantou alguns dados muito interessantes sobre o relacionamento entre Valery, Minos, Hades e Pandora.

— Um detetive?

— Sim, há algum tempo eu conheci um homem com uma história semelhante a minha: nobre, responsável pela preservação do patrimônio familiar e com um talento para trabalhos especiais. O marquês Shura Javier Aguirre tornou-se investigador e logo que toda essa confusão começou, lembrei-me dele e enviei uma mensagem a fim de contratar seus serviços. De forma discreta e elegante ele usou seus contatos obtidos com a curadoria de obras de arte e conseguiu um convite para frequentar a mansão de Valery durante alguns meses e assim foi se inteirando de algumas particularidades da vida dos quatro.

— E o que esse... detetive elegante e discreto descobriu? – questionou Milo sentindo uma fisgada de ciúme ao perceber a admiração de Camus pelo nobre.

Camus franziu o cenho e fitou o jovem como quem não estava entendendo o tom da fala de Milo.

— Descobriu que Minos e Valery possuem um casamento de fachada. E que Hades, apesar de ter tomado Pandora como amante, mantém um caso com Minos desde sempre.

Milo franziu o cenho, depois ficou pensando. Ainda não conseguia unir os elos daquela conspiração.

— Eu posso imaginar que eles tivessem esse segredo sórdido e que tentassem mantê-lo, mas ainda não entendo o que tudo isso tem a ver comigo e com você. Por que tentaram machucá-lo?

— O que eu deduzi de tudo isso é que Valery tornou-se semelhante aos predadores sanguinários que provam o sangue e tomam gosto por ele. Acredito que, enquanto Jamian tornou-se viciado no jogo de cartas, ela começou a sentir prazer em jogar com vidas. A convivência com a situação do marido, os jantares eróticos, tudo levando-a à experiências de exercitar o poder sem limites.

— Dentro da sua linha de pensamento, Sua Graça, então chegamos ao ponto em que ela... Deus, não ouso nem dizer. – falou Jonas.

— Viu-se acuada com tantas armadilhas que criou que não lhe restou alternativa que não fosse o assassinato. Creio que Standiford foi usado por ela e acabou se tornando um incômodo. – completou Camus.

— Ela é uma louca assassina! – disparou Milo.

— Sim, e temos que pará-la ou teremos mais tragédias. Jonas, vou dar-lhe o endereço onde encontrará o senhor Shura. Por favor, peça a ele que nos encontre na delegacia daqui a duas horas.

— Sim, Sua Graça.

Nesse instante, Verena surgiu acompanhada da senhora gata, trazendo uma bandeja com chá, café e alguns pães frescos.

— Ouvi a movimentação e trouxe algo para que comam. – disse ela sorrindo.

— Obrigado, Verena. – falou Camus, enquanto ela o servia.

A gata disparou e foi roçar-se nas pernas de Milo, ganhando um cafuné na cabecinha peluda.

— Camus, tem outro problema acontecendo. – disse Milo enquanto alisava o pelo macio do animal.

— Qual? – perguntou o duque levando uma xícara de chá fumegante aos lábios.

— Saga está doente.

— Doente? Mas o que ele tem?

— Teve um distúrbio nervoso e o Dr. Simon quer interná-lo num sanatório. June veio pedir sua ajuda e eu achei por bem mandar chamar o Dr. Shion já que ele conseguiu um milagre com o conde Dohko e possui um vasto conhecimento.

Camus franziu o cenho. O sanatório era um lugar terrível e mal cuidado. Os pacientes internados ali sofriam restrições e um tratamento que ele classificaria como cruel, bárbaro e ineficiente.

— Fez bem, Milo. Enquanto Jonas entra em contato com Shura, vamos ver o que podemos fazer por Saga.

Quando Jonas e Verena deixaram a sala, o jovem dirigiu-se ao duque.

— Há quanto tempo você conhece esse detetive? Vocês são amigos íntimos?— perguntou Milo mordendo, devagar, um pedaço de pão doce e olhando bem dentro dos olhos do duque.

Camus encarou-o com a mesma expressão de instantes atrás. Sentia algo no ar, mas não podia acreditar que Milo estivesse com... ciúmes. No entanto, experimentou certo prazer em saber-se alvo de tal passionalidade.

— Conheci-o na universidade e... sim, posso dizer que temos alguma intimidade. – respondeu em um tom, propositalmente, casual.

— Eu sabia! Você chama todo mundo de senhor e ele... Ele você chama pelo nome. – disse o jovem entre dentes, enquanto a gata o olhava com aqueles imensos e incisivos olhos verdes.

Com um sorriso, discretamente, malicioso, Camus sorveu um gole de chá e fitou o amante bem dentro dos olhos, mergulhando naquele furor azul que o encantara desde o primeiro instante...

— A intimidade que eu e Shura desfrutamos sempre foi direcionada aos estudos, senhor Milo.

— Viu? Até eu! Você me chamou de senhor! – disse Milo irritado e já levantando da poltrona.

Embora ainda estivesse cansado e dolorido, Camus levantou-se junto, colocando-se frente ao jovem com uma expressão séria, porém secretamente divertida. Milo era selvagem e, apesar do verniz social que aprendera, em seu íntimo, seria sempre um homem intenso e sem meias medidas. Levou a mão ao rosto belo, sentindo-o se enrijecer para afastá-lo. No entanto, foi mais rápido e aproximou-se da boca carnuda deslizando a língua por entre os lábios entreabertos de forma provocante e íntima.

O jovem fechou os olhos com força, tentando resistir, mas a suavidade com que Camus começou foi evoluindo para um beijo ardente e sedento que minou-lhe a resistência, fazendo-o corresponder e puxar o duque de encontro a si, o desejo se instalando rapidamente em ondas caprichosas e insistentes.

Quando Camus sentiu a ereção de Milo e a sua própria, afastou os lábios e, olhando sério para Milo, murmurou bem próximo ao rosto afogueado:

— Isso é intimidade e eu só a vivenciei com você, Milo. Portanto, não há razão para dúvidas a meu respeito. Fui claro?

— Hã... Não sei... Acho que tenho que vivenciar mais um pouco para ter certeza... – respondeu o jovem clamando de volta, os lábios desenhados do duque.

O duque se permitiu prolongar aquele contato, mesmo que a excitação que sempre sentia ao estar com Milo provocasse um doloroso latejar em sua cabeça. Usando do autocontrole que o caracterizava, aprofundou ainda mais o beijo para deixar bem claro os seus sentimentos em gestos bastante concretos...

A senhora gata, agora, lambia a pata direita, enquanto os dois se permitiam um momento de entrega e prazer. Em seguida, caminhou na direção dos dois e roçou o corpinho roliço, impregnando-os com seu cheiro e abençoando, felinamente, aquela união.

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Kanon olhava pela janela da carruagem e nem percebeu o pequeno solavanco quando ela atravessou a ponte de madeira sobre um riacho, cujas margens cobriam-se de musgo e pequenas flores.

A beleza da paisagem invadia o jardim da casa de campo e, mesmo assim, tudo lhe passava como um borrão até que o cocheiro parou diante da residência, um casarão de tijolos rosados. Suspirou desolado quando passou pela soleira e um homem idoso, porém de postura empertigada veio recebê-lo com um sorriso.

— Seja bem-vindo, Sua Graça! Veio sozinho, desta vez?

Kanon respirou fundo antes de responder e entrar na ampla sala de estar. Aquele lugar era o seu oásis particular e o local onde ele e Saga haviam se amado pela primeira vez... E, também, era a primeira vez que frequentava o lugar sem ele.

Decorado em vários matizes das cores creme, marrom e dourado, o amplo aposento refletia o requinte e a fortuna da família, misturando cortinas desdobradas em camadas, móveis de mogno ricamente esculpidos, estofados de seda importada e uma vasta coleção de peças e obras de arte, fruto das viagens e do bom gosto de seus pais.

— Saga não veio desta vez, ele... não se sente bem. – disse por fim.

Sua Graça está doente?

Mais um suspiro e Kanon permitiu-se pensar, antes de responder. A simples pergunta o fizera refletir sobre a situação de forma diferente, passada a fase da mágoa extrema.

Saga sempre fora o mais comportado dos dois, um verdadeiro cavalheiro. A mudança que houvera em sua personalidade fora gritante! E os olhos... aqueles olhos gentis e apaixonados haviam adquirido um brilho cruel e malicioso, quase como se ele tivesse se transformado em outra pessoa...

— Tem razão, Clive, Saga está doente e eu... Eu vim, apenas, para uma visita rápida. Vou passar a noite aqui e retornar à Londres. Por favor, mande deixar a carruagem pronta para amanhã cedo. – disse Kanon como se, de repente, a compreensão das atitudes do irmão se fizesse presente de forma fulminante.

O mordomo notou a mudança abrupta, mas apenas assentiu e deixou Kanon sozinho. O gêmeo mais novo atirou-se na poltrona e fechou os olhos. As imagens dos últimos dias desfilando em sua mente cansada.

— Perdoe-me se o fiz esperar, Sua Graça, eu estava providenciando seus aposentos. Aceita um chá ou um café? – perguntou a criada apresentando-se.

— Está tudo bem, Althea. Eu gostaria de um cálice de vinho do porto e um banho, por favor.

— Pois não, senhor. – disse ela sorrindo, timidamente.

Kanon tornou a olhar para fora, através das imensas janelas. O movimento ondulante e suave das cortinas trazendo à memória, dias leves e prazerosos, assim como as descobertas que aquele lugar havia proporcionado...

Era verão, a brisa morna envolvera seus corpos em um daqueles momentos mágicos que não se consegue explicar direito. Os dois sorriram um para o outro e, de repente, as mãos afoitas, de ambos, desciam pelos contornos dos corpos, apertando, amassando, vibrando e suando...

Ele já tinha vivenciado o sexo, embora em tese, fosse o gêmeo “mais novo”. Sua curiosidade e sensualidade o levaram a iniciar-se nos prazeres com um dos cavalariços da casa de campo. No entanto, era por Saga que nutria um sentimento poderoso, profundo e inexplicável, desde sempre.

Quando tivera seu primeiro orgasmo, cerrara os dentes, imaginando que era com ele que estava e, a partir dali, decidira confessar o seu amor, mesmo temendo a reação do irmão.

Naquela tarde quente, tudo havia mudado... O sol, a água, os corpos adolescentes em ebulição... Por um instante, ele hesitara, mas, ao perceber o olhar de Saga resolvera arriscar... Um beijo desajeitado, um toque e logo os dois se perdiam no furor do desejo.

“Somos irmãos” sussurrara Saga em meio aos beijos molhados, mas ele continuara acariciando-o e trazendo para junto de si... “Eu sei, mas eu te amo. Amo mais que tudo, até mesmo que a maldita moral que diz ser errado o que sentimos...”.

“Deita aqui... esquece tudo... fecha os olhos...” Sussurrara junto aos lábios de Saga, enquanto enfiava as mãos por baixo da camisa e colava o corpo no dele.

Muito devagar, foi levantando a camiseta e beijando a barriga e o peito de Saga, passando a língua nos mamilos, enquanto esfregava a ereção contra a do outro. Começou a sugar um mamilo, após o outro, sentindo que o membro do irmão respondia, prontamente.

Abriu o fecho da calça de Saga e puxou-a junto com a cueca vendo despontar a ereção já umedecida pelo tesão. Tomou o membro na boca, sugando-o com vontade, pois esse era seu desejo secreto, provar do corpo de Saga, ser dele, sentir-lhe o gosto. Lambeu e chupou como havia aprendido, mas, no entanto sentia de forma diferente, seu corpo era tomado por um prazer mais intenso e profundo.

Subia e descia com a boca, experimentando relaxar e engolir o membro de Saga, levando-o até a garganta. O gêmeo mais velho gemia e ofegava, imerso no novo mundo dos prazeres. Tremendo de forma involuntária, Saga havia gozado, inundando a sua boca. Sorrindo, ele sentira o gosto forte, meio doce, meio amargo e teve vontade de beijar Saga, de dividir aquela intimidade... Olhou-o, vendo que ele permanecia de olhos fechados e invadiu a sua boca, sendo puxado para mais perto e correspondido com uma língua ávida...

“Até que não é ruim...” Ele dissera e logo, os dois tornavam a beijar-se de forma profunda.

Saga sorrira e se levantara com o membro ainda semiereto. Com um olhar alucinado nos olhos verdes, ele o despira, falando com aquela voz rouca...

Eu quero você Kanon! – dissera puxando- o para si, enchendo-o de beijos e fazendo-o deitar de costas na grama.

Lembrou-se de ter sorrido quando Saga abriu suas pernas, colocando-as nos ombros para, logo em seguida, lamber-lhe a entrada, a virilha e o membro com voracidade animal. O sorriso cedera aos gemidos, quando sentira a língua de Saga molhá-lo de saliva para em seguida introduzir os dedos dentro de si, tocando-o de forma profunda e circular.

Muito tempo mais tarde, Saga confessara que fizera, daquela forma, porque havia lido uma descrição do ato sexual em vários livros que lera. E havia sido assim entre eles, uma mistura de teoria e prática que os levara ao prazer...

Quando achara que Kanon estava bem lubrificado, como tinha lido no livro sobre sexo, Saga esfregara a ereção em sua entrada, gemendo com a sensação de estar tão próximo de penetrá-lo.

A lembrança de olhar no verde aquoso dos olhos do irmão que possuíam um brilho encantador, quase ingênuo... e dizer a frase que os tornaria íntimos e adultos, ainda estava marcada em sua mente e em seu coração...

Vem... mete em mim... Eu sempre quis ser seu!”

Saga o penetrara forte, entrando com tudo e fazendo-o gritar.

“K-Kanon... desculpa...”

“S-Sem desculpa... continua metendo... que passa..” Murmurara atraindo-o, ainda mais para dentro de si.

Os lábios se encontraram e Saga começou a se mover rápido, o corpo agindo por si mesmo, a vontade endoidecida de ir mais fundo dentro do outro. Ouvia os gemidos e gemia, também, já perdido nos sons roucos que enchiam aquela natureza esplendorosa.

Por instantes mágicos, ambos desligaram a mente, o medo e qualquer outra sensação que não fosse o prazer crescente que ardia em seus corpos e em seus corações. Ele entrelaçara as pernas em Saga e gozara alto quando ele afundou-se em si, inundando o seu interior com seu prazer quente e viscoso. Os dois gritaram juntos, sentindo o prazer percorrer cada poro e cada terminação nervosa de seus corpos. Estremeceram e permaneceram abraçados, com lágrimas de contentamento, escorrendo pelas faces aquecidas, o prazer depositado na pele quente e dentro de si...

“Saga... eu... te amo...”

“Eu também te amo, Kanon... mas...”.

“Mas...?”

“O que vai ser da gente, agora?”

“Não sei e não me importo. Só sei que nunca vou abrir mão de você”.

Uma lágrima escapara dos olhos de Saga e ele a sorvera em seus lábios, decidido em preservar aquele sentimento e o prazer que se atrelava a ele.

Seu irmão o abraçara forte, como se assim adquirisse forças para suplantar seus temores e ele se sentira tão especial que o resto acabou ficando para trás...

Nunca havia parado para pensar no quanto aquele amor custara ao irmão. Viver no proibido era algo que não o afrontava, mas não podia dizer o mesmo de seu irmão. Saga sempre cumpria as regras, era íntegro e criativo, enquanto ele, Kanon, vivia a intensidade dos próprios sentimentos de uma forma que agora, lhe parecia, extremamente egoísta.

— Seu banho está pronto, Sua Graça.

A voz baixa da criada o trouxe de volta ao presente e Kanon levantou-se devagar, como se tivesse um grande peso nos ombros e então, tomou uma decisão...

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Pandora estava vendada e sorria. Estava na mansão de Radamanthys e ele a conduzia pela mão com muito cuidado, guiando-a por uma escadaria.

— Onde está me levando? – perguntou ela com uma excitação juvenil.

— Surpresa... Vai ter que confiar em mim. – sussurrou ele beijando a mão que havia tomado na sua.

Ela soltou um risinho nervoso, percebendo o silêncio daquela ala, muito diferente de outros cômodos da mansão.

— Está tão silencioso... – murmurou ela.

— Essa ala não é ocupada faz muito tempo. Somente eu tenho acesso a ela. – disse Radamanthys.

Se fosse em outros tempos, Pandora temeria o significado da resposta dada. Acostumada aos jogos eróticos de Hades, um lugar assim, certamente seria usado com uma finalidade pervertida. No entanto, Radamanthys não era como Hades, apesar de possuir um magnetismo sexual tão forte quanto.

— Chegamos. – disse ele fazendo-a tocar na porta trabalhada. – Agora, pegue a chave que está presa a corrente em seu pescoço e abra a porta.

Pandora buscou a pequena chave, o peito subindo e descendo com a respiração alterada.

— Vou ter que abrir vendada? – perguntou ela, ofegante.

— Sim. Use o tato, ache o buraco da fechadura e encaixe a chave. – disse ele bem próximo ao ouvido dela.

Ficando ainda mais ofegante com o hálito quente de Radamanthys próximo a sua pele, Pandora estremeceu, mas ainda assim conseguiu encaixar a chave e girar. A porta rangeu e ela sentiu um forte cheiro de tinta. Quando ela colocou o pé dentro do cômodo, Radamanthys retirou a venda e os lábios delicados se abriram em um movimento que mostrava a enorme surpresa que ela estava tendo.

— Mas... Como? – balbuciou ela.

Radamanthys sorriu. O cômodo estava tomado por quadros, todos os que Minos havia pintado tendo Pandora como musa. Uma janela pequenina, bem no alto, conferia alguma luminosidade ao cômodo, enquanto as pesadas janelas de madeira estavam trancadas e cobertas por cortinas transparentes. O barão abriu-as e deixou a luz do sol entrar.

— Minos deu-me o nome de todos os compradores de suas obras. Enviei um mensageiro com uma proposta irrecusável de compra a cada um deles e as adquiri. Agora elas são suas para fazer o que quiser. – disse ele.

— Deve ter lhe custado uma fortuna!

— O dinheiro só tem valor real se oportuniza a realização dos nossos sonhos e propósitos. Eu a amo, Pandora e meu propósito maior é fazê-la feliz. Você está livre de qualquer constrangimento do passado.

Num ímpeto de felicidade, Pandora jogou-se nos braços do barão e abraçou-o com força.

— Eu te amo! Amo! Não mereço tanto... – disse ela com as lágrimas escorrendo pelo rosto.

O barão tocou o rosto molhado pelas lágrimas e sorriu.

— Sim, você merece...

Ditas as palavras, ele a beijou de forma lenta e suave. O corpo delicado estremeceu junto ao seu e ele apertou-a mais forte, fazendo-a sentir a musculatura e a excitação dele sob as roupas. Ela sorriu e perguntou rente aos lábios do barão:

— Precisamos mesmo esperar até o casamento...?

Ele riu e seus olhos exibiram um brilho intenso e malicioso.

— Retardar o prazer é torná-lo uma experiência acima de qualquer outra... Vai ter que se controlar... Agora me diga, o que pretende fazer com estes quadros?

— Posso fazer o que eu quiser?

— O que quiser...

Havia no cômodo, agora iluminado, uma lareira enegrecida por uma fumaça antiga. Pandora olhou-a e um brilho de satisfação percorreu o violáceo de seus olhos, fazendo Radamanthys entender, de imediato, o que ela pretendia. Ele sorriu e logo, a lareira adquiriu vida, com o fogo consumindo uma a uma das telas ali guardadas...

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June estava sentada na biblioteca, diante do fogo que crepitava na lareira, bebendo chocolate quente e se esforçando para não mandar o Dr. Simon para um lugar distante e desconhecido. Que absurdo! Dizia ele, enquanto ela permanecia ali, como um cão de guarda até a chegada de outro médico.

Ereta e elegante, ela continuava a degustar a bebida quente, sem se importar com os argumentos do velho médico, até que o mordomo anunciou a chegada de Camus.

— Oh, graças a Deus! – disse ela aliviada.

O médico voltou os olhos para o duque que vinha acompanhado de Milo.

— O que está fazendo de pé, Sua Graça? O senhor devia estar na cama e...

— Eu estou bem, Dr. Simon. E devo muito ao senhor. Soube, na vinda para cá que o hospital está a sua procura para realizar um parto. Pode ficar tranquilo que eu e o senhor Milo cuidaremos de tudo por aqui. Fique tranquilo.

A informação e o tom de voz calmo e incisivo do duque, fez com que o médico não tivesse argumentos para permanecer ali. Com um movimento de cabeça, o Dr. Simon deixou a mansão de Saga. Assim que ele saiu, Camus foi até os aposentos do amigo, encontrando-o amarrado à cama. Aproximando-se, devagar, o duque percebeu as feições atormentadas.

— Saga... – falou baixo e mantendo a conexão com o olhar.

— Camus... Ajude-me... Não deixe que ele volte! Esse monstro quer a mim... – disse ele.

Milo permanecia na sala com June, ambos temerosos, porém Camus pedira que os dois o deixassem sozinho com Saga.

Fome. Sede. Desejo. Necessidade. O corpo de Saga queimava e seu coração estava cheio de raiva e dor. Kanon o deixara... A dor começava a ficar insuportável. Ares lhe sussurrava, quase implorava para que o deixasse retornar.

— Saga, olhe para mim. – disse Camus sentando na borda da cama ampla.

Saga obedeceu, o belo rosto crispado numa expressão de cansaço extremo.

— Talvez seja melhor... O sanatório... Talvez eu mereça... – murmurou virando o rosto.

— Olhe para mim. – ordenou Camus, agora de modo enfático.

Os olhos rubros do ruivo encontraram o verde marejado e a forte amizade que sempre os unira se fez presente.

— Eu estou enlouquecendo, Camus... Parte de mim ainda resiste, mas não sei até quando.

— Você é um homem forte, íntegro. Todos nós temos nossas fraquezas e, mesmo assim, perseveramos quando tudo indica o contrário. Agarre-se àquilo que o faz feliz.

— Minha felicidade se foi... Kanon me abandonou e ele tem todas as razões para fazê-lo. Eu me tornei um monstro...

Antes que Camus falasse algo, a porta do quarto se abriu de forma intempestiva:

— Não, Saga, você não é um monstro e eu jamais vou abandoná-lo. Eu te amo... – irrompeu a voz grave e emocionada de Kanon.

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Shion recebera a mensagem de Milo e preparava as malas para voltar à Londres. Dohko aproximou-se dele e sorriu, mostrando que já fizera a sua.

— Será surpreendente voltar à Londres em uma carruagem, quando todos esperavam ver-me em um caixão. Acho que sou um homem de sorte. – disse o conde.

— Podemos ficar na casa que eu aluguei, isto é, se achar que não o prejudica. – falou Shion.

Dohko franziu o cenho e, em seguida, aproximou-se do médico tocando-o no rosto.

— A única coisa que pode me prejudicar é ficar longe de você.

O médico sorriu do modo gentil que sempre encantara o conde e ele o beijou.

— Creio que nem o título que darei a Milo será o suficiente para agradecer o que ele fez por mim. Graças a ele eu tenho você, novamente, em minha vida e isso não tem preço.

— Milo é mesmo um jovem honrado. Acha que ele ficará muito surpreso com relação a nós dois?

— Quando Milo perdeu o pai, eu assumi a sua criação de modo a assegurar-lhe bem-estar e educação. Ele sempre foi curioso, inteligente, generoso e um tanto avesso às regras. Acredito que achará tudo muito natural.

Shion sorriu e logo, duas batidas suaves soaram à porta do cômodo.

— Entre! – disse Dohko.

A jovem Marin entrou com um sorriso enorme nos lábios e, antes que Dohko falasse algo, ela mostrou-lhe um envelope timbrado.

— Recebi hoje cedo! – disse ela, ainda sorrindo.

— Universidade de Westminster? Mas, está endereçada a você.

— Sim, senhor! Eu enviei um manuscrito para a universidade e eles desejam me conhecer.

— Você escreve? Por que nunca comentou comigo?

— Ah... O senhor estava moribundo e eu... bem, eu não queria incomodá-lo e nem achava que fosse grande coisa. Mas então...

— Eu a vi escrevendo e pedi para ler. – disse Shion. – Achei os textos excelentes e me dispus a enviá-los a um amigo que é professor na universidade. Creio que a jovem Marin pode vir a ser tão promissora quanto à talentosa e incompreendida Emily Brontë.

À simples menção do nome da escritora que ela mais admirava fez Marin sorrir mais ainda. A obra Wuthering Heights a fizera se emocionar e desejar ser uma escritora com o dom de sensibilizar as pessoas...

— O senhor é muito gentil, Dr. Shion. – disse ela com o rosto ruborizado.

— Fico feliz que esteja desbravando novos caminhos, Marin. Conte com o meu apoio.

— Sério? Então eu posso ir? Mas... eu sou sua criada e...

— Claro que pode. E quanto a ser minha criada, esqueça. A partir de hoje eu serei seu mecenas e não seu patrão. Aproveite que estamos indo para Londres e venha conosco. – falou Dohko.

A jovem criada atirou-se sobre o conde, abraçando-o, afetuosamente e, em seguida, disparou em direção aos seus aposentos, enquanto Dohko e Shion sorriam em cumplicidade. Logo, os três estavam na carruagem que os levaria ao burburinho da cidade de Londres e também, revelaria muitos segredos...

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A mansão estava toda iluminada e as rosas e jasmins que ornavam os vasos exalavam um perfume suave e adocicado. A grande mesa do jantar estava posta com porcelana de Sévres, prataria George Smith III e o piso coberto com tapeçarias de Gobelin, artefatos finíssimos e raros que costumavam ser presenteados aos governantes estrangeiros pelo monarca francês Luís XVI, enquanto estava no poder.

Valery cuidara de todos os detalhes, queria tornar aquele jantar um marco na vida social londrina. Em sua loucura megalômana, imaginava que, após a tragédia orquestrada por si, Hades permaneceria ao seu lado para ser consolado e, após o luto, ficar ao seu lado como um perfeito anfitrião para os futuros jantares e jogos eróticos na mansão.

Em seus aposentos, ela olhava-se no espelho, demoradamente. O vestido era perfeito e aderia ao seu corpo de forma elegante e sensual. Seus cabelos estavam presos em um coque alto e entrelaçados com fios dourados, deixando à mostra o pescoço alongado e ornado com um colar de diamantes.

Enquanto ela admirava a própria imagem, Minos entrou no aposento sem bater, tendo o macaquinho em seus ombros, soltando pequenos guinchos e mexendo no cabelo farto do jovem. O ato a aborreceu, mas ela fingiu não se importar. Afinal, dali a instantes se livraria dele.

— Você está maravilhosa. Sei que Hades já falou com você, mas eu gostaria de agradecer por tudo que fez por mim. Aprendi muito com a nossa convivência. – disse Minos.

Valery elevou os olhos e foi na direção de Minos. Saboreando aquele momento e a ingenuidade dele, ela sorriu e tocou o rosto do jovem.

— Eu também aprendi muito, meu querido... Agora vamos, os convidados estão esperando.

Os dois desceram juntos e todos os olhares se voltaram para o casal.

— Senhores e senhoras, sejam bem-vindos!- disse ela sorrindo.

Os convidados soltaram exclamações e aplausos. Uma pequena orquestra iniciou uma música leve e alegre, enquanto ela cumprimentava a todos. Minos também sorria e seu macaquinho fazia algumas estripulias, aumentando o clima festivo e fazendo com que muitos se aproximassem para brincar com o animalzinho.

Hades chegou, alguns instantes depois, chamando a atenção pelo porte altivo aliado à sua costumeira elegância e olhar penetrante. Vestia um terno escuro e mantinha os cabelos longos e negros presos de forma que seu rosto belo e anguloso se sobressaía...

Desde que havia dispensado Pandora, Hades era visto sozinho ou na companhia de Minos. Porém, ninguém ousava comentar, abertamente, sobre a vida do conde e sua ligação com o jovem artista.

Minos olhou-o, mas não foi ao seu encontro. Deixou que se aproximasse dos demais, antes de ficar frente a frente com ele. Um clima, particularmente excitante e desafiador, acontecia entre os dois, e ambos sabiam que o embate terminaria na cama...

— Boa noite, meu senhor... – falou Valery estendendo a mão para Hades.

O conde beijou a mão estendida e, em seguida, cumprimentou Minos como se fossem, apenas, amigos.

As conversas prosseguiram até que o som de um gongo oriental anunciou o jantar.

Iguarias finas, vinho e champanhe caros fizeram da recepção um encontro inesquecível. Até mesmo a apresentação de uma dança sensual foi oferecida aos convidados e Valery foi cumprimentada de forma efusiva por todos. Elogios e sorrisos eram trocados e a viscondessa sentia a excitação do momento final, do último ato a ser executado...

Quando o último convidado se retirou, Valery chamou Hades e Minos para um brinde particular. Era chegada a hora.

— Venham! Vamos fazer um brinde! Vivemos tantas coisas juntos... Vamos nos despedir com chave de ouro. – disse Valery chamando um dos criados e ordenando que trouxesse uma garrafa de champanhe.

O criado abriu a garrafa e, antes que servisse, ela mesma o fez, tendo o cuidado de tocar no anel, fazendo com que ele se abrisse e derramasse o veneno na taça destinada a Minos.

— Ao futuro! – disse ela estendendo uma taça para Hades e outra para Minos.

Os três brindaram e, quando Minos se preparava para beber sob o olhar vigilante e ansioso de Valery, o macaquinho tomou-lhe a taça da mão e sorveu o champanhe de uma só vez, fazendo o jovem rir e Valery soltar uma exclamação contida.

Hook, seu safado! – disse Minos rindo. – Certo, eu sou o culpado, não devia ter deixado você experimentar bebida, agora ficou viciado. – emendou ele indo ao encontro do animalzinho.

No entanto, passados alguns minutos, o macaquinho arregalou os olhos e levou a mão ao pescoço, como se estivesse sufocando. A taça foi ao chão, porém não quebrou ao cair sobre a tapeçaria.

Hook!— gritou Minos ao vê-lo cair e começar espumar pela boca.

Hades franziu o cenho e pegou a taça, levando-a ao nariz. Valery estremeceu e tentou pensar em uma saída, embora não lhe ocorresse nenhuma.

— Oh, pobre animalzinho! Vai ver estava doente! – disse ela.

Minos tomou o corpinho do animal nos braços e o macaquinho respirou pela última vez, deixando o jovem artista arrasado. No exato momento, o criado anunciava que a viscondessa tinha visita.

— Senhora, o inspetor de polícia está aí e deseja falar com a senhora.

Valery empalideceu e olhou para Hades.

— Diga que entre! – falou o conde.

— E-Espere... Diga-lhe que não é um bom momento e...

— É o momento perfeito, minha cara... Vamos ver o que o inspetor tem a dizer sobre isso! – falou Hades com a taça na mão.

— E-Eu... não sei o que aconteceu! Não me olhe assim! – disse ela.

Minos permanecia com o macaquinho nos braços e com uma expressão dolorida. Hades se aproximou e pegou-a pelo braço com força, fazendo-a gemer e implorar.

— P-Por f-favor... Está me machucando! Eu não fiz nada! Eu juro!

— Agradeça a presença da lei, porque senão eu mesmo torceria o seu pescoço! No entanto, ficarei satisfeito em levá-la à forca!— disse Hades entre dentes, enquanto o inspetor adentrava o grande salão.

Notas finais
***Agradecimentos, sempre! Obrigada a Angelique que recomendou a fic!! É uma alegria e uma honra, amada!!! Também àquelas que favoritam, àquelas que leem escondidinhas, às que comentam e me possibilitam crescer como escritora, enfim, um grande OBRIGADA À TODOS!!!!! ***Wuthering Heights= traduzido com O Morro dos ventos uivantes.