Amor Selvagem!

22 Capítulo 22 VERDADE E CONSEQUÊNCIA


Notas iniciais
***Oi, galera maravilhosa!!! Mais um capítulo, aproveitando o feriado! Espero que gostem!
*** O poema atribuído ao Radamanthys é do Frederico Salvo. Eu só tomei a liberdade de adicionar a última frase para fechar com os meus propósitos.

– Minos vai requerer o divórcio, porém não há nada a temer. Ficará amparada e muito bem de dinheiro.

A declaração atravessou o coração de Valery como se fosse uma lança. Ela ficou pálida. Aquilo não podia estar acontecendo!

Hades a fitava intensamente, em silêncio, esperando a reação dela.

Valery desviou o olhar para poder se recompor. Quando retomou a coragem, encarou Hades nos olhos e perguntou:

– Por quê? Fiz alguma coisa que o desagradou? Ou ao Minos?

– Nada disso, Valery. Não é nada contra você. Eu e Minos decidimos assumir a nossa relação e sair, por algum tempo, de Londres. Você sempre foi uma esposa excelente e tanto Minos, quanto eu reconhecemos tudo o que fez. Ficará rica e amparada. Pode até escolher um novo marido.

– Um novo marido...

– Porque não? Existem muitos viúvos e solteiros em Londres.

Estonteada por aquela revelação, Valery esfregou uma mão na outra. Nervosa, foi ela mesma servir-se de uma bebida.

– Tenho que aceitar, não é mesmo? Parece que ambos já decidiram por mim. – disse ela. – Quer um conhaque?

– Já bebi demais, por hoje. Obrigado. Agora, olhe para mim... – disse Hades se aproximando e tocando-a nos ombros e, em seguida, erguendo-lhe o queixo, ato que a fez sentir um prazer doloroso. – Fique tranquila, eu já providenciei tudo.

Valery voltou-se para o conde com os olhos úmidos. Em seguida sorriu, falsamente e disse:

– Bem, precisamos comemorar essa nova fase para nós todos. Que tal um jantar íntimo para nos despedirmos com chave de ouro?

– Perfeito. Sabia que compreenderia. É uma mulher inteligente e perspicaz. – disse ele beijando-lhe a mão.

Quando Hades despediu-se e deixou a mansão, num gesto de raiva, Valery jogou o copo de conhaque nas toras da lareira apagada, estilhaçando-o.

Quem aqueles dois pensam que são para descartar-me assim? Querem viver juntos como dois patéticos pombinhos apaixonados? Sonhem enquanto podem, porque isso nunca vai acontecer! Mas não vai mesmo!

0000****0000****0000

O corpo de Standiford estava no necrotério, no porão do prédio da delegacia. O cheiro inconfundível da morte e o forte odor de produtos químicos permeavam o ar e as chamas bruxuleantes dos lampiões lançavam sombras fantasmagóricas nas paredes e sobre o lençol que cobria o morto sobre a bancada.

A pedido de Milo ali estava ele, Aiolia e o inspetor que, sem nenhuma cerimônia puxou o lençol para baixo, expondo, até a cintura o corpo nu do duque.

O jovem andou em volta, observou a pele pálida, o rigor mortis e, finalmente, a perfuração no pescoço. Com o cenho franzido, Milo percebeu a língua ressecada e com um tom de roxo muito intenso, quase negro.

– Há quanto tempo ele está morto? – perguntou Milo.

– Nós o encontramos algumas horas atrás, mais precisamente às 22 horas. – respondeu o inspetor.

– A língua dele tá quase preta.

O inspetor chegou mais perto e torceu o bigode. Eu não tinha notado isso... É claro que, após o rigor mortis, o corpo começa a ressecar, mas a língua do pobre homem está parecida com um carvão, mais precisamente nos casos onde a pessoa foi envenenada.

– O que acha Sr. Milo?

Milo não respondeu de imediato, continuou olhando e tocando o corpo flácido.

– Acho que quando o assassino espetou o pescoço dele, ele já tava morto.

– E com base em quê, está deduzindo isso?

– O cortador de papel não pegou a jugular e nem foi profundo o suficiente para matá-lo. Os policiais não viram isso? – falou Milo.

– Bem, havia sangue e ele estava de bruços sobre a mesa. Cartas espalhadas e uma garrafa caída sobre a bebida derramada. – respondeu o Inspetor.

– Eu não sou um especialista, mas prá mim ele foi envenenado. A cor da língua e a aparência da pele me dizem isso.

Aiolia estava impressionado e se mantinha em silêncio, pensando nos possíveis assassinos. Um parceiro de jogo, talvez! Com quem Standiford sempre jogava?

– Eu já fiz uma lista dos parceiros de jogo do duque. O mais assíduo era o conde Jamian, porém ele tem um álibi, disse ter passado a noite jogando no Cabeça Cortada.

– Engraçado, eu estive jogando lá também, mas não o avistei. – disse Aiolia.

– O conde disse ter estado com uma jovem e que, em dado momento, eles se separaram devido a uma indiscrição cometida por ela. Mas, hoje mesmo eu pretendo ir até o Cabeça Cortada e esclarecer as dúvidas. O senhor que esteve lá, podia me acompanhar, senhor Aiolia?

– Hã? Eu? Mas é claro, inspetor. Assim terei a oportunidade de rever aquele crupiê. Céus! Mas o que estou pensando? Estou todo excitado pela simples oportunidade de falar com aquele homem e... e ... o que vou dizer a ele?

– Aiolia? – chamou Milo vendo que o amigo permanecia com um olhar estranhamente direcionado para o vazio.

– S-Sim, Milo. Falou o quê, agora?

– Nada, só falei o seu nome. Eu vou voltar para a mansão prá ver como Camus está.

– Isso! Faça isso, enquanto eu acompanho o inspetor nessa investigação.

Milo sorriu e baixou a cabeça, sussurrando baixinho:

– Boa sorte!

0000****0000****0000

As flores flutuantes chegaram dentro de um vaso de cristal transparente. Ao recebê-las, Pandora teve receio, mas algo dentro de si dizia que eram dele e essa certeza a fez sorrir. Ele não a procurara, mas enviara uma mensagem que dizia: “Existem dores que são muito particulares. No entanto, estou e sempre estarei ao seu dispor.”

Depois que terminara tudo com Hades, ela sofrera um duro golpe... culpa, vergonha, raiva, mágoa! Todos aqueles sentimentos a tinham atingido como um raio e ela os vivenciou um por um, deixando a dor ocupar todos os espaços, para então submergir da escuridão e voltar a acreditar que podia ser feliz.

Olhou para as flores com curiosidade e estranheza. Nunca as tinha visto e eram absurdamente lindas, exóticas e especiais. Olhou para a criada que também sorria ao vê-la sorrir. Como duas adolescentes, ambas ficaram com a respiração em suspenso e Pandora retirou o cartão que viera junto e que continha um poema:

– Leia em voz alta, senhora! Por favor! – pediu a criada batendo palmas.

Pandora olhou afetuosa e maravilhada para Margaret. A jovem havia se tornado muito mais que uma serviçal, tinha sido sua única confidente, apoiando-a e consolando-a em todos os momentos, fazendo surgir uma forte amizade entre elas.

Sentindo uma grande emoção, ela leu o poema, como Margaret havia pedido:

Bebo a água que me deste, cântaro.
Sinto a sede minha debelada.

Linda flor nasceu-me assim do pântano,

Feito lótus...A alma desabrochada

Sorve e farta-se da tua dádiva,
Refrigera o fogo bem no íntimo
Nessa bem aventurada prática

De tornar-me a dor um caso ínfimo.

Bem no chumbo da manhã chuvosa
Ganha a lótus dimensões de rosa
E de amor enfeita-se cativa.

Se sedento fui na longa estrada,

Da tristeza vil não há mais nada...
Vinga a flor, bem-vinda e compassiva.

Amo-te, então... não preciso de mais nada.

Há algum tempo conheci o Oriente e extasiei-me com esta bela e exótica flor. O lótus nasce em águas lodosas e escuras. No entanto, desabrocha lindamente na superfície destas mesmas águas criando um espetáculo de graça e pureza, atributos que os orientais associam ao feminino. É assim que a vejo, Pandora. Não importa o passado ou o quanto possa achar que ele a maculou. Também eu emergi da lama e aqui estou para ficar ao seu lado. Sempre.

Radamanthys de Wyvern

– Senhora... Ele a ama! – disse Margaret levando a mão à boca.

Sorrindo, Pandora tocou as pétalas resistentes da flor. Nunca tinha visto algo do gênero, nem lido um poema que se encaixasse, perfeitamente, naquela situação. De repente, soube que havia em seu coração uma emoção nova...

Pela primeira vez era cortejada, não por um contrato, como fora com Dohko ou para ser a peça que faltava de um complexo jogo erótico como fora com Hades. Havia romantismo e uma contraditória leveza intensa no modo com que Radamanthys a tratava. Ela sabia do magnetismo sexual do conde, no entanto ele a tratava com tanta consideração e delicadeza que ela sentia-se única, como nunca havia se sentido antes.

– Ele é tão diferente... Com Hades eu sempre me senti pequena, apesar de ter me apaixonado por ele. Mas com Radamanthys eu me sinto eu. E gosto de mim!

– A senhora é jovem e bonita, assim como ele. Vocês dois combinam e eu acho que... Bem, minha intuição me diz que o barão a fará muito feliz na cama! Ele é o tipo de homem que sabe como satisfazer uma mulher. – disse Margaret sorrindo maliciosa.

– O valor de Radamanthys está acima de ser um excelente amante. Ele me deu algo maior que sexo, Margaret. Ele me devolveu a mim mesma.

– A senhora vai convidá-lo para vir aqui?

– Pensei em um almoço. O que acha?

– Almoço? – indagou a criada fazendo careta. – Por que não um jantar especial?

– Não quero parecer... atirada! – respondeu Pandora sorrindo.

– E porque não? Atire-se naqueles braços, minha senhora e seja muito feliz!

Um sorriso iluminou o rosto de Pandora e ela enfiou o braço no de Margaret e as duas foram planejar o que seria servido no... jantar!

0000****0000****0000

Eles já haviam se amado com tanta paixão que seus corpos reluziam com o suor... Recostado aos travesseiros, Afrodite deslizava a mão pelo rosto de Máscara da Morte que depositava beijos e pequenas mordidas nos dedos longos que o acariciavam.

O loiro ria baixinho e aquele som deixava Máscara deliciado e, ao mesmo tempo, excitado novamente. Como se estivesse faminto, o moreno procurou o pescoço branco e macio, beijando-lhe o rosto e os olhos, para em seguida baixar até os mamilos e sugá-los com luxúria.

As mãos fortes de Máscara apertavam a carne macia e alva, sentindo as costelas que se elevavam com a respiração entrecortada, deixando a marca dos dedos longos na pele clara e aproximando-o mais de si, fazendo-o sentir o corpo poderoso e a ereção túrgida que latejava entre as suas pernas.

Afrodite sorriu, malicioso e passou a ponta da língua nos lábios do amante, enquanto sussurrava:

– Vem... Me faz seu... de novo... e de novo...

O pedido feito, daquele jeito, enlouqueceu Máscara que virou Afrodite de costas e, agarrando-o forte pelos quadris, moveu-se com força, sentindo seu falo ser engolido e apertado na cavidade quente. Perdeu o foco, o controle e só sentia Afrodite, seus ofegos, seus gemidos, suas mãos macias puxando-o de encontro a si...

Estavam de olhos fechados e Máscara gemia junto, estocando e tomado por um prazer galopante que se alojava em todas as células do seu corpo. Diferente das outras relações, o prazer que sentia com Afrodite parecia não ter fim. Gozava e logo em seguida estava pronto para mais e mais...

Com avidez, Máscara marcava a pele de Afrodite, os dedos afundando nos quadris do amante. Penetrava-o rápido e tocava-o nas profundezas, sentindo a maciez das nádegas e o acolhimento do falo naquele interior quente e estreito que o fazia grunhir de prazer... E cada vez, sentia-se ir mais fundo, não só do corpo, mas da alma e de algo além dela que não conseguia racionalizar, somente sentir e desejar que nunca acabasse.

O clímax chegou, arrastando-os juntos para uma dança enlouquecida de gemidos e ofegos. O sêmen quente derramou-se, uma vez mais nas peles e no interior do corpo. Arfando, Máscara deixou-se ficar com o nariz e os lábios encostados na curvatura do pescoço de Afrodite, seu hálito quente acariciando-lhe a pele e fazendo-o sorrir e embrenhar os dedos nos cabelos negros e úmidos...

Dentro do quarto tudo era silêncio e contentamento, com as labaredas da lareira cobrindo as paredes com um brilho dourado e sensual que rivalizava com os filamentos de sol atravessando as cortinas. Os corpos de Máscara da Morte e Afrodite pareciam esculturas entrelaçadas, na cumplicidade de um amor descoberto e um prazer que lhes arrebatava a alma.

Sem nada dizer, Máscara embalou Afrodite em seus braços e assim os dois ficaram por um longo tempo, satisfeitos e plenos, até um batida insistente na porta, os fazer voltar à realidade do Cabeça Cortada.

Máscara levantou-se sorrindo, o corpo brilhando com o suor resultante do amor feito à exaustão. Puxou o lençol, enrolando-se nele e abriu a porta.

– O que aconteceu? – perguntou ele vendo que era Mu.

– A polícia está aí. Querem confirmar a presença de uma pessoa nos jogos ontem.

Ao ouvir aquilo, Afrodite também saltou da cama sem se preocupar com sua nudez.

– E a razão disso? – questionou o loiro.

– Estão dizendo que o duque Standiford foi assassinado. – respondeu Mu.

0000****0000****0000

Kanon sentou-se em uma das poltronas forradas de seda e olhou para o grande relógio sobre a lareira que continha um casal de bonecos que saíam de mãos dadas cada vez que soavam as badaladas. Tentou dominar o nervosismo, enquanto era servido de uma taça de champanhe pelo criado.

– A senhorita June já vai recebê-lo. – disse o homem calvo e baixo, após servi-lo.

– Obrigado, Miles.

Em seguida, June surgiu com uma expressão preocupada. Vestia um roupão e secava os cabelos com uma toalha.

– O que aconteceu agora, para que viesse assim, neste estado? – perguntou ela notando a angústia do gêmeo.

– Estou deixando a mansão e vou passar uns tempos em Enfield na propriedade campestre. Preciso organizar minha cabeça, June. Só passei aqui para pedir que... olhe por ele!

– Você está sofrendo muito, não? – perguntou June tocando, gentilmente a face de Kanon.

– Eu não entendo... Juro que tento, mas... sei lá, June. Acho que talvez tudo tenha sido um erro. Fui eu que insisti para que ficássemos juntos e fui eu quem o forcei a...

– Ei, você não o forçou a nada. Saga sempre o amou Kanon, ele me disse isso quando me propôs fingir ser sua amante.

– Mas é isso! Você não percebe? No fundo, eu acho que ele não aceita o que existe entre nós dois. Ele precisa de uma fachada! Merda! Eu estou dizendo isso a você e percebendo algo que eu sempre neguei para mim mesmo!

– Quer saber o que eu penso? Creio que Saga está confuso. Dê uma chance a ele.

– Não posso! Creio ser eu a causa desta confusão. Por favor, olhe por ele. Adeus, June.

Sem deixar que June rebatesse seus argumentos, Kanon deixou a casa com o coração galopando em seu peito e os olhos verdes embaçados pelas lágrimas.

0000****0000****0000

Camus sonhava. A dose extra de láudano o fizera mergulhar em um sono profundo, porém agora o efeito estava arrefecendo e ele sonhava que descansava sobre um leito luxuriante, com lençóis de cetim e mantas de veludo. Havia um som ao fundo, uma espécie de riso misturado aos gemidos e Milo estava sobre o seu corpo, completamente nu e agia como se fosse um felino... Até mesmo a pele firme e a musculatura rija pareciam maleáveis e com alguns pelos macios... Toque-me... ele dizia baixinho e, de repente, as palavras se metamorfoseavam em miados longos que ele emitia colocando a língua em seus lábios, suave, áspero e insistentemente!

Miauu! Miauuu!

Abrindo os olhos com dificuldade, Camus viu a senhora gata sobre seu peito e olhando-o com a aflição personificada nos olhos verdes.

Senhora gata... Era você o tempo todo... – sussurrou o duque com a voz baixa e rouca.

A gata olhou bem dentro dos olhos de Camus e, em seguida, olhou para a porta, como se quisesse dizer algo muito importante. Depois, desceu rapidamente e ficou à porta, esperando...

Camus virou-se de lado, para acomodar a cabeça no travesseiro e tentar erguer o corpo.

Inferno! Maldito láudano! Pensou o duque, enquanto tentava focar sua visão embaçada pelo sono e pelo remédio.

A gata continuava esperando-o próxima à porta, o rabo peludo em posição quase vertical e os miados cada vez mais curtos, o que fez Camus forçar-se a sentar e, em seguida, colocar-se em pé.

Inspirou fundo, tomado por uma estranha sensação. A gata parecia querer avisá-lo de algo e, embora sua racionalidade lhe perguntasse como podia ser possível que aquele animalzinho possessivo estivesse “falando” com ele, algo dentro de si acreditava nela e estava disposto a averiguar a causa de tanta agitação.

– Está bem... senhora gata. Mostre-me... mas vá devagar. – disse Camus deixando escapar um meio sorriso por estar agindo por instinto e não por sua conhecida razão. Deve ser o láudano... Pensou, enquanto se concentrava para caminhar de forma firme em direção à porta.

Assim que Camus se aproximou da gata, ela disparou na frente, olhando de vez em quando para trás e voltando, várias vezes. Aquela movimentação desenfreada foi aguçando os sentidos do ruivo...

O duque estranhou o silêncio na mansão e também o fato de Jonas não estar em movimento pela casa, como era habitual. A constatação do fato resultou em uma rápida descarga de adrenalina em seu corpo, espantando um pouco o torpor provocado pelo láudano.

A gata continuava saltitando, quando Camus percebia que a porta da cozinha estava entreaberta e havia um som de algo se arrastando pelo piso de mármore.

Aproximando-se devagar, ele viu...

– Jonas! Verena!

Os dois empregados estavam amarrados juntos de costas um para o outro e com as bocas tampadas com lenços. Jonas arregalou os olhos e grunhiu ao ver o duque, movendo a cabeça num gesto de aviso no exato instante em que um vulto se lançava sobre Camus.

A senhora gata agiu de imediato, pulando sobre o agressor que ameaçava um dos seus, as unhas afiadas indo direto no rosto coberto por um capuz mal colocado.

Passada a surpresa, Camus reagiu também pegando um atiçador de fogo e batendo no joelho esquerdo do ser misterioso, fazendo-o cair com um urro de dor. Assim que desabou, o agressor deixou antever parte do rosto e Camus reparou que já conhecia aquelas feições...

– Foi você que conduziu a carruagem!

O homem estremeceu, mas ficou calado com a gata amarela olhando-o de forma primitivamente agressiva e ainda mostrando os dentes. Detrás do duque, outro homem surgiu com uma arma apontada.

– Largue esse atiçador e fique de joelhos! – falou a voz num tom grave e distorcido pelo lenço amarrado ao rosto.

Camus não obedeceu, apertou ainda mais o artefato e virou-se rapidamente, surpreendendo o agressor às suas costas. No entanto, o movimento brusco o deixou um pouco tonto e, por um segundo, ele vacilou.

Mesmo sem a arma que, havia caído ao ser atingida pelo atiçador, o agressor foi para cima de Camus que o enfrentou, usando o impulso dado pelo próprio bandido para lançá-lo de cara na parede. O homem bateu, violentamente, na pintura romântica pendurada à parede e caiu para o lado, semi-inconsciente e com um enorme galo formando-se na testa larga.

Parado onde estava, Camus não viu a sombra de uma mão que aparecia pelo vidro do lado de fora. Mas a senhora gata viu e sibilou mostrando os dentes. A mão esticou primeiro um dedo... depois dois... e por fim... desapareceu com um baque surdo. Em seguida, uma cabeça loira apareceu olhando aflito para a cena no interior da mansão e respirando aliviado ao ver Verena entrando em ação com um enorme rolo de massa na mão.

O duque já havia imobilizado um dos agressores, segurando-o, enquanto Jonas que já conseguira se desvencilhar das cordas, o ajudava, junto com Verena e a implacável senhora gata a manter o outro deitado com o rosto voltado para o chão. Milo entrou correndo, o olhar intenso recaindo em Camus.

– Estão todos bem? Vejo que o láudano lhe deu uma super força, Sua Graça! – disse o jovem sorrindo aliviado e balançando uma pistola com a mão direita.

Jonas assentiu com a cabeça, limpando o suor da testa com as costas da mão e Verena suspirou, embora continuasse a olhar feio para os agressores e apertasse com força o rolo de massa na mão calejada. Apesar da situação, Camus sorriu ao falar:

– Não sei do que esta falando, senhor Milo. Mas já que mencionou o fato, vejo que o senhor também possui uma energia inesgotável.

– Dependendo do objetivo, minha energia só faz aumentar... – respondeu o loiro com um olhar penetrante e um tom de voz sugestivo.

– Fico feliz em saber. – retrucou o duque, sustentando o olhar de Milo

Os dois agressores foram amarrados juntos e, em seguida, Milo arrastou o terceiro para dentro e o amarrou, também.

– O que vieram fazer aqui? – perguntou Camus.

Nenhum deles abriu a boca, então Milo se aproximou e a forma com que olhou para o cocheiro o fez arrepiar-se. Sem demonstrar hesitação, o jovem pegou a pistola e o homem viu-se com o furo ameaçador do cano da arma ser encostado bem entre os olhos.

– Sabia que quando um bandido invade a casa de um cidadão honrado, este tem todo o direito de acabar com a raça do desgraçado e nem ser julgado por isso?

O cocheiro estremeceu e olhou na direção de Camus.

– P-Por f-favor, eu... eu...

– Eu o quê?! Desembucha de uma vez antes que eu arrebente essa sua maldita cabeça! – disse Milo engatilhando a pistola.

S-Sua G-Graça! Por favor, eu t-tenho filhos! E-Eu s-só fiz isso porque precisava do dinheiro.

– Quem o mandou fazer isso? – perguntou Camus.

– O... O... duque! Standiford ordenou que nós o roubássemos! O p-pagamento seria metade em dinheiro e a outra parte seria o cavalo que ele disse que o senhor roubou dele. Como ele morreu eu... vim pegar a outra parte.

– Mas é muita cara de pau! Camus pagou por esse cavalo! Os ladrões são vocês!

Camus franziu o cenho, sentindo a cabeça doer, mas ainda assim buscou uma linha condutora em todos os fatos. Standiford mandara atacá-lo e agora estava morto. Havia um mistério entrelaçado aos acontecimentos que ele precisava desvendar.

– Se fizerem o que eu mandar, não darei queixa à polícia. – disse Camus, calmamente.

Milo arregalou os olhos e o encarou como se ele estivesse louco.

– Não pode estar falando sério! Esses filhos da puta tentaram matá-lo! Você quase morreu e... foda-se! Eles merecem balançar numa corda em praça pública!

– Será que desaprendeu tudo que lhe ensinei, senhor Milo? Sempre existe espaço para a benevolência e o perdão. – falou o duque.

Bufando, Milo se preparou para responder, porém Camus continuou:

– Esses pobres homens foram levados a tais atitudes e tenho certeza que farão de tudo para escapar da forca. Não é mesmo, senhor... Como é mesmo o seu nome? – perguntou encarando o cocheiro bem dentro dos olhos.

Engolindo em seco por enfrentar o olhar rubro e gélido do duque, o homem respondeu:

– S-Salter, Sua Graça, me chamo Salter Finch.

– Pois bem, senhor Salter... vou dizer-lhe o que devem fazer para receber o meu perdão. – disse o duque sob o olhar atônito de Milo, Jonas, Verena, enquanto a senhora gata lambia a pata e passava-a no rosto, como se o tivesse lavando.

0000****0000****0000

Saga olhava-se no espelho, enquanto preparava-se para banhar-se. O criado se oferecera para ficar ao seu lado, cuidando-o, pois percebia que ele não estava bem. Havia feito o que o patrão lhe ordenara e esperava a senhorita June para que ficasse ao lado do duque, assim se sentiria mais tranquilo.

– Pode voltar aos seus afazeres, eu quero ficar sozinho, agora, Christopher.

– Tem certeza, senhor?

– Tenho.

A forma concisa com que Saga falava não combinava com ele. O jeito alegre e curioso, as palavras sempre tão certeiras e apropriadas, nada disso se revelava neste momento.

– Com licença, senhor. Se precisar, toque o sino. – disse o criado num tom paternal.

Sem olhar para Christopher, Saga fez que sim com a cabeça e entrou na banheira com água quente e um delicioso aroma de lavanda. Por alguns segundos, se permitiu fechar os olhos e relaxar, fluir com o calor agradável e acolhedor da água.

Isso, relaxe... feche os olhos!

O som daquela voz, novamente, o fez dar um pulo na banheira.

– Deixe-me! – gritou fazendo um movimento brusco que fez um pouco d’água transbordar.

Você sabe que eu sou mais forte... Você não pode comigo, Saga. Eu sou tudo o que você deseja ser! Vamos parar com essa masturbação mental... Assuma que somente eu posso dar o que você necessita. Me assuma, Saga!

– Eu já mandei você embora!

Há!Há!Há!Há! É, mandou.... e acabou perdendo o Kanon também! Quanto quer apostar que ele vai direto para os braços da Rosa venenosa? Afrodite...é esse o ex-amante dele, não é? Que nome, deliciosamente, divino, não?

– Eu o perdi por sua causa!

Não mesmo! Você o perdeu por ser frouxo, previsível e patético!

Sentindo o coração disparar, Saga levantou-se da banheira e foi até o pequeno armário que continha loções, perfumes e a navalha com que fazia a barba. Olhou para a lâmina brilhante e afiada, tomando-a nas mãos. Sentia todo o corpo latejar e a respiração ir se alterando. Preciso parar a dor... Se eu parar, ele não vai dominar-me!

O que está pensando, Saga? Por acaso, você está...

Saga não respondeu. Precisava calar aquela voz e também aquela dor insuportável em seu peito. Elevou o pulso esquerdo e passou a navalha cinco vezes, fazendo pequenos e profundos cortes, enquanto murmurava para si mesmo:

– Saia de mim! Saia de mim! Pare de me atormentar!

O sangue fluiu, junto com a dor e Saga sentiu um alívio momentâneo, assim como uma tontura que foi levando-o para outro lugar diáfano e longínquo onde Kanon lhe estendia a mão e sorria.

– Kanon... eu te amo... muito...

Ditas as palavras, Saga desmaiou.

June chegou minutos depois e, ao saber que ele estava sozinho no quarto de banho, foi até lá. Ao encontrá-lo caído e nu, em meio ao sangue, ela gritou pedindo socorro.

O médico foi chamado e o diagnóstico, implacável:

– No estado em que ele está e o ponto em que a situação chegou, eu sugiro que, para o próprio bem de Saga, ele seja internado em um manicômio. – disse o Dr. Simon.

Notas finais
Agradeço, imensamente, a todas que vem me acompanhando sempre! Sinto o carinho de vocês em cada comentário e isso me deixa feliz e inspirada. Também o meu muito obrigada para quem lê através do celular e nem sempre consegue comentar.
E um super beijomegaultraespecial para:
**Aghata Marie,
**Angelique,
**VampireWalker,
**Shall,
**Meliare,
**Lemony
**Lucy Yuki ,
**Kemylly,
**nane yagami,
**Saturno,
**ddkcarolina,
**Doce Amarga,
**Kurayami,
**j2 rugila
**hinan
**cle
**brunnomed
**Youko_chaos!!!
***Próximo capítulo: O plano de Camus em ação, a vingança de Valery, o destino de Saga e outras surpresinhas... Bjs, XD