Amor Selvagem!
23 Capítulo 23 REVELAÇÕES À MEIA-LUZ...
Notas iniciais
***Beijos e boa semana a todas! Obrigada pelo carinho, pelas MPs pedindo a postagem!
***Jurietto Moonlit e Aghata Marie, esse capítulo vai prá vocês duas, um beijão e obrigada pela amizade linda de vocês, ela aquece e muito o meu coração!!! XD
A trupe de artistas fazia reverências e malabarismos pelas ruas de Londres. Uma bela jovem dançava equilibrando pratos nas mãos e, nas jaulas, animais selvagens e exóticos chamava a atenção do público.
Minos viu a movimentação da janela da mansão e, como um menino travesso, moveu-se com a intenção de ver tudo aquilo mais de perto.
– Onde está indo? – perguntou Hades ao vê-lo abotoar a camisa com rapidez.
– Um circo! Tem um circo nas ruas! – respondeu ele, visivelmente, excitado.
Hades franziu o cenho e continuou a ler o documento preparado por seus advogados. Dali a dois dias, ele encaminharia o divórcio de Minos, participaria do jantar de despedida oferecido por Valery e logo empreenderia uma longa viagem pela Europa com o jovem amante.
– Vem, vamos lá embaixo! – falou Minos puxando Hades com entusiasmo infantil.
O conde continuou com sua atenção voltada para os documentos.
– Vá você, eu tenho mais que fazer, Minos.
– Ah... Por favor... Por favor... Eu sempre quis pintar algo ligado ao circo, é tudo tão... erótico! Vamos dar uma olhada. – insistiu o jovem.
– Está bem... – disse Hades revirando os olhos.
As pessoas já se aproximavam do grupo quando Minos e Hades, enfim, chegaram à rua. Um macaquinho que se equilibrava em uma vara saltou em direção aos espectadores, indo parar no colo de Minos que riu e olhou com vivacidade para o pequeno animal.
– Ei! Você é bem esperto! – disse o jovem acariciando o animalzinho que olhava atento para os seus cabelos e depois para a pequena corrente de ouro que Minos usava.
Hades percebeu o interesse de Minos no animal e como queria voltar logo para a mansão, aproximou-se do homem que cumprimentava o público.
– Quero comprar o macaco. Faça o seu preço. – disse ele de forma direta.
O homem olhou-o, identificando as vestes caras e o porte elegante. Sua companhia estava com algumas dificuldades e algum dinheiro para alimentação e despesas seria bem-vindo. Mesmo que o macaquinho fosse uma mascote que chamava a atenção, havia outros animais que podiam substituí-lo...
– Este animal é muito inteligente, meu senhor e creio que não podemos nos livrar dele assim...
– Eu pago o que desejar, não é preciso fazer este jogo, senhor. – disse Hades, seco.
– Bem, já que insiste. Um animal desta importância não custa menos que...
– Eu lhe dou cinco libras por ele. – falou Hades e o homem não conseguiu evitar arregalar os olhos e gaguejar.
– C-cinco libras?
– Sim, venha comigo ou mande alguém até a minha mansão.
O homem chamou um jovem que usava uma roupa justa e ordenou que acompanhasse o conde. Hades aproximou-se de Minos, murmurando sobre o que acabara de fazer arrancando um sorriso aberto do jovem. Por um momento, permitiu-se apreciar a felicidade estampada no rosto do amante. Era incrível e até exasperante a forma como Minos podia fazê-lo desejar agradá-lo em todos os níveis, fosse na cama ou fora dela.
– Estou voltando. Não se demore. – disse por fim.
Minos concordou com a cabeça e voltou a acariciar o pequeno animal.
– Você agora é meu, pequenino. Acho que vou chamá-lo de Hook!
A trupe continuou sua evolução e o jovem artista dirigiu-se à mansão, feliz com o presente que havia ganhado. Sorrindo, suspirou fundo e pensou que aquela era a melhor fase de sua vida...
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Valery mandara vir flores da melhor floricultura de Londres, assim como providenciara um jantar digno da realeza. A mansão estava sendo decorada de forma espetacular e nenhum dinheiro fora poupado para o que ela planejara.
A grande despedida seria feita com chave de ouro e só a lembrança do fato a fazia sorrir de forma forçada e maléfica. Pensam eles que se livrarão de mim como um objeto inútil a ser descartado. Pobre Hades... vai chorar lágrimas de sangue!
– As bebidas chegaram, senhora. – disse a criada interrompendo as divagações de Valery.
– Muito bem, mande colocar na despensa.
– Pois não, senhora.
O perfume dos jasmins e das rosas já se insinuava pelo ambiente e Valery deixou a sala de jantar para recolher-se ao seu quarto. Chegando lá, foi direto à caixa das joias e tomou nas mãos um belo anel de safira, cuja pedra era móvel, mostrando um compartimento pequeno o suficiente para abrigar uma porção de cianeto, poderoso e letal veneno.
Sorrindo, a condessa olhou a joia em seu dedo e depois escovou os cabelos, deixando-os soltos como há muito tempo não fazia. Olhou-se no espelho e depois, foi até o guarda-roupa retirando o vestido que mandara fazer. Era de cetim negro, todo drapeado e aderia às formas do seu corpo ainda em forma. Tocou o tecido e suspirou... Este jantar, meus queridos, será inesquecível... Pensou ela e gargalhou, em meio às lágrimas que escorriam pelo seu rosto.
Os criados ouviram a risada e se entreolharam, como certo temor. Sua senhora andava estranha e diferente, várias vezes gritava com eles e depois se recolhia para chorar e rir, alternadamente.
– Ela agora está rindo... – sussurrou a criada para outra.
– Sim, veremos até quando dura. É melhor não estarmos por aqui ou vão sobrar respingos dessa loucura para nós. – disse a criada mais velha.
De imediato, as duas deixaram o salão, em meio à circulação dos entregadores e decoradores, enquanto Valery permanecia em seu mundo particular, alimentando-se dos seus planos de vingança.
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Era um final de tarde e a maioria dos homens estava jogando e bebendo em mesas redondas. O momento se tornara perfeito para que o plano de Camus fosse colocado em prática.
O clube estava cheio e Jonas encontrava-se em uma das mesas, tendo ao seu lado três homens bem vestidos que fumavam charuto e contavam bravatas, enquanto davam as cartas para o início do jogo.
No outro lado do salão, Salter e seus dois companheiros jogavam pôquer com Jamian e cochichavam olhando, desconfiados, para os lados, enquanto segredavam suas ações para o conde, famoso por gostar de histórias sórdidas e se divertir com a plebe.
– Pois foi o que aconteceu, senhor conde. O duque Standiford havia nos contratado para reaver um dos seus cavalos de raça. Ele nos afirmou que havia sido enganado, mas quando fomos executar o serviço, descobrimos que o duque Camus havia sido assaltado. Abortamos a missão, mas ficamos sabendo de algumas coisas através dos criados. Uma delas é que os supostos assaltantes haviam sido enviados pelo próprio Standiford, segundo o que nos disseram.
– Como assim, como eles afirmaram tal coisa? – perguntou Jamian.
– Um dos empregados nos disse que o cocheiro da carruagem que levava o duque Camus acabou confessando estar envolvido e foi libertado pelo duque em troca de informações. Parece que o tal cocheiro viu Standiford se encontrando com duas pessoas, antes de contratá-lo.
– Ele viu? – disse Jamian sentindo um arrepio na base da nuca.
– Ele disse que sim, mas só contou ao duque Camus que, por sua vez, disse que guardará segredo e só dirá para o inspetor de polícia. Agora que Standiford está morto, esses dois viraram suspeitos, não acha?
Jamian bebeu o conhaque de um só gole e largou as cartas.
– Creio que vendo por esse lado... Bem, tenho que ir indo, não estou com uma boa mão hoje. – disse o conde pegando o casaco do encosto da poltrona.
– Não vai querer revanche? – perguntou Salter.
– Não, preciso ir. Sabe como é azar no jogo, sorte no amor. Tenho um encontro. – respondeu Jamian forçando um sorriso.
Assim que Jamian deixou o clube, Jonas despediu-se dos parceiros e o seguiu. A carruagem do conde desembestou pelas ruas de Londres com espantosa velocidade, obrigando Jonas a acompanhá-lo. O empregado de confiança de Camus cavalgava um puro sangue árabe e tentava manter-se fora do ângulo de visão do conde usando de ruas paralelas às que Jamian utilizava.
Meia hora depois, Jamian parava à frente da mansão de Valery, enquanto Jonas observava de longe...
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O coração de Pandora batia acelerado ao receber Radamanthys. Ao invés de usar terno, ele vestia uma túnica escura, que alongava sua silhueta e o deixava, ainda, mais elegante. Era algo exótico e, por alguns segundos, ela sentiu-se poderosa em despertar a atenção de um homem como ele.
– Obrigada por vir. – disse ela um tanto ofegante.
O barão sorriu.
– Foi muita gentileza sua convidar-me. Gostou das flores?
– Oh! Sim! As flores são lindas e diferentes! E... o poema... Conseguiu me emocionar, senhor Radamanthys. – falou Pandora sentindo o rosto quente.
– Poderíamos abandonar o tratamento formal? Gostaria que me chamasse, apenas pelo nome.
Um sorriso tímido brincou nos lábios de Pandora. Nem mesmo Hades, de quem fora íntima, se sentira à vontade em chamá-lo pelo nome.
– Se isso o agrada, senhor... Quer dizer, Radamanthys. Aceita um licor, uma taça de vinho ou champanhe? – completou com nervosismo.
– Uma taça de vinho, por favor. – disse ele fitando-a com atenção.
A criada os serviu e os dois se encaminharam aos jardins onde uma mesinha havia sido preparada no outro lado do pátio em uma bela tenda cor de marfim iluminada por um delicado candelabro de cristal.
Um cacho de seus cabelos negros caiu sobre o rosto e Radamanthys afastou-o, da testa dela, com naturalidade. Margaret a penteara, escovando e arrumando seus cabelos em um coque frouxo com grampos cravejados de pérolas, deixando alguns fios soltos, fazendo-a parecer uma musa das pinturas antigas. Ela pensava se estaria bonita o suficiente para agradar o barão.
Como se lesse o seu pensamento, Radamanthys fitou-a bem dentro dos olhos violáceos e disse com uma voz profunda:
– Está linda, Pandora. Aliás, você é sempre encantadora, seja agora, seja como naquele dia cheia de respingos de lama.
Pandora sorriu, lembrando-se daquele encontro, enquanto tentava manter a conexão do olhar.
– Obrigada. Eu espero que a comida seja do seu agrado. Eu quis que esse momento fosse único.
– Eu tenho certeza que vou gostar. – respondeu ele tomando a mão de Pandora na sua, olhando a palma e os dedos delicados, antes de depositar-lhe um beijo.
O calor que Pandora sentiu a fez corar e, mais uma vez, Radamanthys sorriu, retirando do bolso uma pequena caixa.
– Vire-se... – pediu ele antes que ambos sentassem.
Obediente, Pandora sentiu os dedos de Radamanthys roçando a sua pele de forma tão delicada e provocante que ela ficou sem respirar. Fechando os olhos, imaginou as mãos dele em seu corpo, subindo pelas costelas para envolver-lhe os seios...
E, de repente, os lábios do barão estavam em sua nuca, beijando-a onde antes os dedos acariciaram. Mas foi só isso, em seguida ela ouviu-lhe a voz profunda e carinhosa.
– Perfeito. – disse ele, virando-a de frente para si.
Pandora olhou para a corrente delicada que continha uma pequena chave dourada. Sorrindo desconfiada ela elevou os olhos.
– Essa chave... É do seu coração? – perguntou ela mordendo o lábio inferior.
– Meu coração foi seu desde o primeiro instante em que a vi. Essa chave significa libertação. – respondeu ele, enigmático.
Franzindo o cenho, ela olhou novamente para o objeto e, num ímpeto, ela aproximou os lábios dos dele, olhando-o com alegria e desejo. Radamanthys tocou-lhe o rosto e a beijou profunda e intensamente.
– Eu já me sinto livre... livre porque o amo. – murmurou ela entre o beijo.
Quando as bocas se afastaram, ambos estavam ofegantes e Pandora olhou para aquele belo rosto masculino, a boca firme, o queixo forte e se deu conta do sentimento que ele lhe despertara. Desejo, alegria e amor... Era tudo tão simples, tão natural entre eles.
– Ótimo, então vamos desfrutar do jantar. – disse ele sorrindo e soltando-a, fazendo com que Pandora sentisse uma pitada de decepção.
– Radamanthys... – disse ela e o barão sentiu-lhe a urgência na voz.
Ele estendeu-lhe a mão, olhando-a com ardor. Sabia que ela o desejava, assim como ele também queria senti-la, tê-la nos braços, fazer amor com ela... No entanto, não desejava tê-la como amante, e sim como sua mulher. Fariam tudo diferente, sepultariam o passado e viveriam uma relação verdadeira.
– Eu a amo, Pandora e a desejo como jamais quis uma mulher. Mas, quando fizermos amor, quero que seja como minha esposa e não como minha amante. Case-se comigo. – disse ele.
Pandora piscou e sentiu os olhos arder com as lágrimas que os invadiram sem que as pudesse conter. Jogou-se nos braços do barão e foi abraçada com força e paixão.
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– Eu ainda tenho que fazer alguns acertos, Milo. – reclamou Camus, enquanto era obrigado a deitar-se na cama, novamente.
– Você não descansou nada. O médico foi claro e é muito feio da sua parte, agir de forma desobediente, Sua Graça! – disse Milo inclinando-se para frente e cobrindo os lábios do duque com os seus.
Com um suspiro, Camus recostou-se aos travesseiros e fechou os olhos.
– Pronto, está satisfeito? – perguntou o duque.
– Mais ou menos. O que acha, senhora gata? – falou Milo olhando para o animal que os observava atentamente.
A gata emitiu um miado curto, depois saltou sobre a cama e encarou Milo, tornando a miar, agora longa e pausadamente. O loiro acariciou-lhe a cabeça, depois espiou para os filhotes que estavam visivelmente crescidos e sorriu.
– Hummm... A senhora concorda comigo, não é mesmo? Hã? Tem mais? Ah, sim! Acho que a senhora quer dizer-me que está na hora de ensinar os seus filhotes a caçar, não é mesmo? Pois pode fazer isso nos estábulos, deve haver algum roedor por lá.
Com um miado satisfeito e um estreitar dos olhos felinos, a gata roçou a cabeça na mão de Milo e em seguida lambeu a mão de Camus que já cochilava.
“Você me entende, por isso é o meu preferido” Miou a senhora gata voltando ao chão e sendo seguida pelos jovens gatinhos.
Assim que ela saiu em disparada pela porta, Milo tocou com suavidade o rosto adormecido de Camus. O ato fez o duque abrir, novamente, os olhos.
– Que sono leve você tem... Feche os olhos, eu prometo deixá-lo quieto. — sussurrou Milo se aproximando, novamente, dos lábios de Camus.
– Fique. Deite-se ao meu lado. – disse Camus com a voz enrouquecida tomando a mão de Milo na sua.
O jovem sorriu e obedeceu. Recostou-se e continuou a acariciar os cabelos do ruivo, até sentir que ele dormia, novamente. Fechou os olhos e logo adormeceu junto, sendo despertado com suavidade por uma mão feminina que tocou-lhe o ombro, murmurando seu nome:
– Senhor Milo... Desculpe incomodá-lo, mas tem uma moça que deseja falar com o duque, mas como disse que ele estava descansando, ela deseja falar com o senhor.
Milo esfregou os olhos.
– Verena? Quem deseja falar comigo?
– Ela se chama June e disse que é urgente.
Cuidando para não acordar Camus, Milo levantou-se e foi até a sala. Lá encontrou June com o nervosismo estampado nos olhos verdes.
– Senhor Milo! Sei que a hora é imprópria, mas preciso da sua ajuda.
– E o que posso fazer pela senhorita?
– Alguém me disse que tem um médico que o senhor conhece e que está tratando o conde Dohko. Bem, Saga está com problemas e o Dr. Simon quer interná-lo no manicômio. Eu não acho que seja uma boa ideia, mas Kanon viajou e eu não tenho a quem recorrer. Dizem que esse médico que o senhor conhece tem uma visão menos ortodoxa da medicina, então eu pensei em contatá-lo.
– Eu tenho recebido notícias bastante agradáveis sobre o tratamento que ele está dando ao conde, creio que podemos pedir que ele nos dê a sua opinião.
– O senhor pode fazer isso, por favor?
– Mas é claro. Vou enviar uma mensagem, amanhã cedo.
– Obrigada. E Camus, como está?
– Se recuperando.
– Uma boa notícia, para variar. Ele e Saga são muito amigos.
– Eu farei o que puder, enquanto Camus se recupera, pode ficar tranquila.
June suspirou e sorriu aliviada, deixando a mansão.
Quando ficou sozinho, Milo foi até os aposentos de Camus e ficou observando-o dormir. Agora compreendia a rotina de todos aqueles afazeres que Camus desempenhava todos os dias de forma impecável. O ruivo era dotado de uma força moral e uma energia que o tornava único. Vê-lo fragilizado o fazia ter uma compreensão maior da carga que o ruivo carregava em seus ombros. Com cuidado, deitou-se ao lado dele, novamente e tocou-lhe os fios ruivos muito sutilmente. Em seguida, ouviu o galopar de um cavalo que denunciava a chegada de alguém.
Jonas! Pensou o loiro e, com uma inspiração profunda, levantou-se com cuidado, novamente, e foi até a sala onde saberia das novidades em primeira mão.
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Valery lançou um olhar raivoso à criada, como se dissesse: você não devia tê-lo deixado entrar, fazendo-a se encolher e apertar as mãos de forma nervosa.
– P-Perdão, senhora, mas é que...
– Cale a boca! De hoje em diante, Jamian está proibido de entrar nessa casa!
– S-Sim, senhora.
– Agora saia da minha frente!
A criada não esperou um segundo. Retirou-se correndo, enquanto Valery relembrava a expressão medrosa do primo. O duque sabe! Alguém nos viu!
Idiota! Esse é outro que preciso dar um jeito! Pensou ela tocando no anel de safira.
Usando um elegante vestido e um colar com várias voltas de pérolas no pescoço, ela foi até o grande salão, onde verificou cada móvel e utensílio preparado para o jantar da noite seguinte.
Depois, voltou aos seus aposentos e tomou a pasta com documentos que um dos advogados de Hades lhe enviara. Ali estavam os documentos do divórcio, assim como os papéis que a deixariam amparada e rica. Olhou para tudo com desprezo e, em seguida, fechou os olhos visualizando a cena que planejara...
Serviria o melhor champanhe e faria um brinde. A taça de Minos viria das suas mãos, já batizada com veneno. Todos pensariam que ele estava sendo acometido de um mal súbito, o pobre rapaz...
A doce imagem de Minos morto e a possibilidade de consolar Hades a deixava excitada e úmida... Fazia muito tempo que não vivenciava o sexo, mas agora sentia um desejo ardente despertar dentro de si. Aspergiu uma fragrância adocicada e colocou um manto escuro sobre a cabeça.
Minutos depois, ela deixava a mansão e se direcionava a um bairro decadente, onde os estivadores do porto faziam lutas clandestinas. Entrou em um barracão que fedia a suor e peixe e escolheu um dos homens mais fortes e bonitos que se engalfinhava com outro num ringue improvisado.
O público gritava e era composto de homens simples, prostitutas, mas também de alguns nobres que vinham ali para espantar a monotonia de suas vidas sem maiores aventuras.
O lutador moreno e de feições agressivas e viris, com uma pequena cicatriz no queixo havia vencido a disputa e, ao ter seu braço elevado como vitorioso, sorriu ao ver a misteriosa dama na plateia. Fazia muito tempo que ela não aparecia por ali, meses, na verdade. Quando ela o procurava, ele podia viver uns bons tempos sem trabalhar na estiva.
– A que devo a honra? – perguntou o homem musculoso e suado, aproximando-se de Valery que mantinha a cabeça coberta.
– Você sabe o que eu desejo. – respondeu ela com a voz enrouquecida.
O homem sorriu.
– Ainda com as mesmas compensações? – questionou ele.
– Sim, satisfaça-me e terá mais dinheiro que consegue neste pulgueiro fétido e barulhento. – disse ela com desprezo na voz.
– Você continua a mesma, não é? Pois bem, diga-me onde e irei encontrá-la depois que me banhar.
Estendendo um pequeno papel na direção do homem, Valery retirou-se. O lutador sorriu e leu soletrando:
– Taberna Chance.
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Horas antes, mais precisamente cedo da manhã, Afrodite e Máscara da Morte receberam o inspetor e Aiolia com curiosidade. O fato de Standiford ter sido assassinado movimentava o pensamento de ambos. Mu permanecera junto deles e puxava pela memória excepcional que tinha. Por isso, ele era considerado um dos melhores croupiers, sua mente gravava as jogadas, identificava fraudes e memorizava o rosto dos ganhadores.
– Eu pedi à acompanhante do conde Jamian que se retirasse. – disse Máscara da Morte. – Era uma cortesã e fez uma cena desagradável com outro cliente.
– Mas, o senhor viu, pessoalmente, o conde jogando?
Máscara franziu o cenho. Havia circulado por todo o salão e não lembrava de todo mundo. No entanto, Mu ficou relembrando os jogadores das mesas de pôquer e roleta.
– Que aparência tem este homem? – perguntou Mu.
– Ele tem um nariz adunco, parecendo um corvo. – respondeu Afrodite.
As imagens dançaram na mente de Mu e ele reviu cada lance, jogada e movimentação. Ele tinha esse dom.
– Não havia nenhum homem com essas características antes das dez da noite. Tenho certeza. – disse Mu.
– O senhor tem mesmo certeza? – perguntou o inspetor.
– Absoluta.
A firmeza com que ele falava, mesclada com o tom gentil deixara Aiolia, todo tempo quieto e, apenas, observando. Algo raro, para o tipo de personalidade solar do leonino.
– Bem, acho que encerramos por aqui, não é mesmo senhor Aiolia? Senhor Aiolia? — insistiu o inspetor.
– Ah, sim! Mas eu gostaria de permanecer mais um tempo por aqui. Afinal, a maratona de jogos ainda não terminou. – disse ele tentando parecer natural.
O inspetor torceu a ponta do bigode e, em seguida, deu de ombros.
– Como quiser.
Afrodite percebeu o nervosismo de Aiolia e logo deduziu a razão, ao ver o modo como ele olhava para Mu.
– Bem, a maratona de jogos recomeça daqui a pouco. Gostaria de tomar o desjejum conosco, senhor Aiolia?
– Ah, sim! Obrigada.
Mu olhou para Afrodite de modo interrogativo, recebendo um discreto sorriso.
– Mu, poderia ajudar-me, enquanto Máscara encaminha o senhor Aiolia até o salão?
Desconfiado, o jovem croupier seguiu Afrodite pelo amplo corredor.
– O que significa isso, Afrodite?
– Ora, não é óbvio? O conde Aiolia está interessado em você, meu caro.
Mu franziu o cenho e estancou.
– Interessado em mim?
Afrodite sorriu e segurou Mu pelos ombros.
– Você é belíssimo, exótico e interessante, Mu. Quando vai perceber isso?
O jovem desviou o olhar, porém Afrodite pegou-o pelo queixo, olhando-o bem dentro dos olhos.
– Você é especial, Mu e parece que alguém notou isso. Não deixe o medo impedi-lo de conhecer a felicidade. Eu percebo que você também acha o conde, atraente.
– Ele é um nobre, Afrodite.
– E daí? Dê uma chance a ele e a você mesmo.
Um sorriso tímido aflorou nos lábios desenhados de Mu e ele enfiou o braço no de Afrodite e os dois foram ver os preparativos do desjejum. Mais tarde, os quatro desfrutavam de um café com pães doces e salgados, carne fria e frutas. A conversa fluiu e, mesmo um tanto intimidado com a presença do conde, Mu até se permitiu rir das piadas que ele contava. Ao final, Afrodite olhou, sugestivamente, para Máscara da Morte e os dois deixaram Mu e Aiolia sozinhos.
Aiolia foi o primeiro a falar, apesar do nervosismo.
– Eu fiquei impressionado com a sua memória. Não creio que seja, somente, pelo trabalho que desempenha, me parece mais um dom. – disse ele tentando iniciar uma conversa.
Mu sorriu e Aiolia sentiu o coração bater acelerado. Não sabia o porquê, mas o simples ato de sorrir do jovem o fazia experimentar uma excitação calorosa e rápida.
– Realmente, eu sempre tive este dom. Às vezes, ele é uma benção, outras, uma maldição.
– Por quê? – perguntou Aiolia com sinceridade.
– A memória nos faz gravar tudo, seja algo agradável ou desagradável.
– Existe algo tão desagradável que ainda o faz sofrer quando lembra?
Ao ouvir aquela pergunta, Mu olhou dentro dos olhos verdes de Aiolia e seu coração se aqueceu.
– Algumas, mas agora, elas não vêm ao caso.
– Olha, eu... Eu jamais me relacionei com um homem, eu confesso. Mas você me faz sentir algo inédito, algo muito diferente do simples desejo que sempre foi a mola mestra das minhas relações. Eu tenho vontade de tê-lo, mas também de conhecê-lo, de saber o que pensa e sente. Então... antes que os jogos recomecem e você seja tirado de mim, eu gostaria de saber se tenho alguma chance ou não?
Os olhos de Mu pareceram transpassar Aiolia. Ele ficou quieto e imóvel, como se fosse uma Esfinge de carne e osso. Então, antes que Aiolia tivesse uma síncope pela ansiedade, ele sorriu e disse:
– Sim, você tem.
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Shina organizava a contabilidade do dia, quando ela chegou. Envolta num longo capuz, Valery pediu a chave do quarto e disse que esperava um cavalheiro. Um pequeno saco de couro com moedas foi colocado sobre o balcão e, em seguida, ela direcionou-se às escadas. Um dos empregados espiou, enquanto ela subia e Shina repreendeu-o com o olhar.
– Vá cuidar da limpeza. Não ficamos espiando, Thomas! – disse ela, baixinho.
– Essa mulher... É a mesma que veio aqui com o duque Standiford, aquele que foi assassinado. – falou o jovem fazendo um movimento com a cabeça.
Franzindo o cenho, Shina deu-se conta que ele tinha razão e sentiu um estranho arrepio ao lembrar-se da proposta imoral do duque. Aquele homem grosseiro não faria falta nenhuma, mas ainda assim, talvez não merecesse aquela morte trágica.
Pelo modo de andar, aquela mulher pertencia à classe nobre, analisou Shina. Em seguida, ela suspirou e tornou a olhar para o empregado que esperava uma palavra sua.
– Bem, isso não é do nosso interesse. Cuide de seus afazeres.
O jovem obedeceu, porém Shina ficou pensando. Havia toda uma conversa sobre o caso na cidade. Até mesmo o duque Camus parecia ter sido envolvido. Lembrou-se da forma gentil com que ele a tratou, após saber de toda a verdade e pensou se seria indelicado ou impróprio fazer-lhe uma visita...
Bem, posso mandar um mensageiro e descobrir. Refletiu ela, enquanto um homem musculoso e com um sorriso no rosto adentrava o local e lhe dizia que estava sendo esperado.
– Quarto 22, senhor. – disse Shina e viu o homem subir de dois em dois degraus como quem não pudesse mais esperar...
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