Amor Selvagem!

18 Capítulo 18 TURBULÊNCIAS...


Notas iniciais
**Mais um capítulo!! Domingo com uma temperatura gostosa, após uma semanna fazendo de 3 a 5 graus! * risos ** Espero que gostem! ** Após essa postagem, me dedicarei a responder os reviews! Obrigada pelo carinho!!! Sempre!XD

Com grande dificuldade, June desvencilhou-se de Saga antes que ele a fizesse entrar em seu quarto.

— Ei, devagar! Mas o que está acontecendo com você? – perguntou ela quando voltou a si.

Pensei que não precisaria explicitar mais... O que um homem deseja quando leva uma bela mulher para os seus aposentos?— rebateu ele com o cenho franzido e um meio sorriso.

Há!Há!Há! Muito bem, eu ri da sua brincadeira agora pare com isso! – disse June encarando Saga.

Saga sorriu e ela notou uma sutil diferença na forma como ele a olhou. O olhar do duque era sempre tão límpido e franco, tão diferente deste que ele lhe dirigia. Saga parecia outro homem, mais denso, mais malicioso...

— Kanon reclama que sou sério e previsível... Estou tentando mudar esses pequeninos detalhes. — falou o duque.

June franziu o cenho e cruzou os braços. Depois, fitou Saga com atenção e disse:

— Acho melhor você conversar com Kanon e achar outras maneiras de esquentar a relação entre vocês.

Você me decepciona, minha cara... Para alguém que lê obras proibidas, está sendo bastante tradicional em seus conceitos.

E você está me assustando com essa conversa. Sabe muito bem que temos um acordo e que Kanon é um grande amigo para mim, assim como você. Posso aproveitar-me dessa situação, porque ela sustenta as minhas necessidades e impede que eu tenha de trabalhar como governanta ou cortesã. Mas não queira que eu seja o pomo da discórdia em sua relação com Kanon.

— Está bem, está bem! Eu me rendo! Vamos voltar à nossa adorável farsa.— disse Saga elevando os braços e olhando para o alto.

— Acho bom. Mudando de assunto, irá aos jogos hoje à noite? Está aí uma oportunidade legítima de agradar seu irmão. – disse June descruzando os braços.

O duque olhou-a de cima a baixo, depois suspirou.

Bem, foi o que me restou, não? Azar no amor, sorte no jogo!— completou ele rindo.

June também riu, apesar de tudo, aquele novo e estranho Saga era engraçado.

— Se chegarmos cedo ao Cabeça Cortada podemos jantar lá mesmo. Os jogos iniciam às 21h00min. Fale com Kanon e faça essa surpresa a ele ao invés de tentar ser hetero. – disse ela acenando.

Saga mordeu o lábio inferior e sorriu. Depois voltou aos seus aposentos e escolheu uma roupa. Após vestir-se de forma elegante, olhou-se no espelho e constatou:

Está vendo, Saga... Você é um homem de sorte. Uma bela mulher e um homem que é a sua réplica... Vou fazer com que se divirta ao máximo e explore todas as possibilidades que uma relação assim pode oferecer!

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O ambiente da delegacia era austero, com mesas dispostas de forma simétrica e papéis que iam sendo empilhados sobre elas. Casos domésticos, casos de homicídio, denúncias...

— Por favor, Sua Graça, sente-se aqui. – falou Havington.

Camus assentiu e o inspetor sentou-se também, depois de chamar um jovem franzino com orelhas de abano cujos óculos faziam-no parecer ter olhos de inseto.

— O Sr. Trent vai anotar tudo o que disser, senhor duque. Vou tentar ser o mais objetivo possível para não tomar muito do seu tempo.

O jovem sentou-se, olhando atentamente para os dois, enquanto Havington fazia as perguntas. Camus respondia a todas de forma precisa e cada frase que dizia era analisada pelo inspetor. Ao final de tudo, Havington entregou a declaração à Camus para que lesse e assinasse, encerrando o interrogatório.

— Bem, acho que é só isso. – disse o inspetor estendendo a mão para o duque.

Camus agradeceu a gentileza e deixou a delegacia. Estava cansado e resolveu tomar um café, antes de retornar e ter de enfrentar Milo. Sabia que ele contestaria as suas ações, mas tinha argumentos para isso também, embora também soubesse que o temperamento vigoroso dele, como observara Havington, seria difícil de convencer.

Ao atravessar a rua, viu que alguém lhe acenava bem em frente ao café Lautrec. Reconheceu, de imediato Aiolia e Kanon, indo até eles.

— Camus, mas que surpresa. Queríamos mesmo vê-lo! – disse Aiolia apertando-lhe a mão, sendo seguido no gesto por Kanon.

O duque franziu o cenho. Seus amigos não costumavam cumprimentá-lo assim, formalmente e tão entusiasmados.

— O que estão querendo de mim? – perguntou focando em Aiolia.

— Lá vem você com esse olhar desconfiado. Até parece que só nos aproximamos de você com segundas intenções. — falou Aiolia rindo.

— Não esqueça que eu os conheço muito bem. – rebateu Camus.

— Nos acompanhe aos jogos hoje. – falou Kanon de forma direta.

— Kanon! Você foi direto ao ponto, rápido demais. Assim fica parecendo um estupro! Camus precisa ser amaciado, convencido, seduzido... – disse Aiolia dando uma cotovelada no amigo.

Camus franziu o cenho, ignorando as gracinhas e pensando que talvez fosse uma oportunidade de amansar Milo. Se cedesse um pouco, talvez ele percebesse que, embora fosse um tanto autoritário só pensava em protegê-lo de pessoas como Standiford.

— Está bem, eu vou. – disse com um suspiro profundo.

Aleluia, irmão! Creio que se eu não fosse ateu, me convertia ao protestantismo de imediato. Pensei que seria mais difícil. – falou Aiolia.

— Eu os encontro lá. Agora vamos tomar um café. – disse Camus voltando à sua fleuma habitual.

Kanon sentiu-se, repentinamente, melancólico. Aiolia não sabia, mas tocara num ponto nevrálgico que ele tentava esquecer. Estupro... o ato ainda estava em sua memória e em seu corpo, mesmo que sorrisse e buscasse a diversão.

— Algum problema? – perguntou Aiolia vendo Kanon ficar sério de repente.

— N-Não. Nada. Vamos tomar um café. – disse ele.

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— Isso é muito perigoso. – disse Jamian sentando na poltrona com uma expressão surpresa e uma dose dupla de uísque.

— Eu posso voltar atrás e não lhe dar o dinheiro. Você escolhe! – falou Valery olhando para o imenso anel de diamante que exibia no dedo anular.

Jamian cruzou as pernas, sorveu um gole da bebida de cor ambarina e mordeu o lábio inferior.

— Eu já me dei mal, uma vez, por sua causa e não entendo qual o seu interesse nisso.

— Você não precisa entender nada! Eu só quero que encontre gente disposta a fazer o serviço e trate com eles. Só isso! Estou disposta a dar-lhe além do que necessita para saldar a tal dívida de jogo que tem.

— Esse além, significa quanto?

— Esse anel vale muito e será seu se fizer o que estou pedindo.

Jamian focou direto na joia reluzente. Um diamante como aquele valia mesmo uma fortuna e lhe concederia dinheiro suficiente para pagar sua dívida e ainda sobraria para dedicar-se aos prazeres...

— Está bem, eu cuido disso. Mas quero um adiantamento ainda hoje. Após o jantar vou ao Cabeça Cortada pagar a minha dívida e participar dos jogos. O anel você me dá depois do serviço feito.

Valery suspirou, depois foi até a estante, retirando um livro de capa grossa, feita de couro. Abriu-o e retirou 200 libras. Depois se voltou para o conde e fitou-o bem dentro dos olhos.

— Aqui está o seu dinheiro. Agora me escute bem... Faça tudo direitinho e não deixe pistas. Se falhar, vai se ver comigo! E acredite, mon amour, eu posso ser pior que esse tal Máscara da Morte! Eu não arrancarei, somente, a sua cabeça, eu vou castrá-lo, entendeu?

— E-Está bem! Eu já entendi.

— Ótimo! Trate de providenciar tudo e rápido. – disse ela empinando o nariz e deixando a grande Biblioteca.

Excitado, Jamian tocou as notas e, em seguida, serviu-se de mais uma dose generosa de uísque. Não sabia a razão de Valery desejar tanto prejudicar aqueles dois, mas isso já não importava. Precisava do dinheiro e também salvar a sua própria pele. Quanto à sua consciência... Bem, pagando o valor certo, ela também podia ser comprada! Pensou, enquanto bebia o uísque de um gole só e grunhia satisfeito com o efeito quente da bebida ao deslizar por sua garganta.

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Standiford manuseava o maço de cartas, enquanto seu parceiro soltava uma baforada de charuto. Ainda era cedo da tarde, porém o Golden Dawn já fervilhava com cavalheiros e damas que se dedicavam às mais diversas atividades que o clube oferecia, desde o jogo de cartas até o críquete, muito apreciado pelos mais jovens.

— O que são essas marcas no seu rosto? Uma gata selvagem dormiu em sua cama, noite passada? – perguntou seu parceiro com um sorriso zombeteiro.

— Quem me dera... Isso aqui é um investimento, meu amigo. – respondeu o duque colocando o baralho na mesa para que o parceiro o cortasse.

— Investimento? Do que está falando, Standiford?

— Quanto menos souber, melhor prá você Percival. Agora me diga, você ainda tem ligações com aquele pessoal?

Percival, que possuía um cavanhaque grisalho e um olho caído que lhe dava um ar de peixe morto, mordeu o charuto e sorriu.

— De vez em quando eles fazem uns serviços prá mim. Porque quer saber?

— Preciso de um favor, nada muito difícil. Só quero dar uma lição em alguém, mas quero que pareça um assalto.

O homem soltou mais uma baforada e sorriu, encarando Standiford.

— Por uma boa soma, os rapazes fazem qualquer negócio. Quer que eu cuide disso?

— Seria um favor que eu jamais esqueceria, meu amigo.

Os dois riram e dividiram uma garrafa de uísque, enquanto combinavam os detalhes do que Standiford desejava e o clube recebia mais e mais pessoas...

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A gata olhava-o, enquanto ele fazia as malas. Miau? (Onde você vai?)

Milo não havia trazido muita coisa, então seria fácil reunir tudo e deixar a mansão, sem maiores problemas. Era o melhor a fazer, pois desejava retomar as rédeas de sua vida. Sabia que Camus só queria o seu bem, sentia-se responsável por ele. Mas nunca fora controlado por ninguém e não poderia suportar que Camus o fizesse, nem que fosse por amor.

Senhora gata, vou deixar essa casa, mas quero dar-lhe uma incumbência muito importante. Cuide do Camus, sim? É, eu sei que ele é forte e autoritário, mas olhe por ele. Eu não posso mais ficar aqui. – disse Milo pegando a gata a aproximando-a do peito.

Miau? (Você vai embora? Como assim?)

A gata parecia não querer deixá-lo terminar de arrumar a bagagem, se esfregava e andava por entre as suas pernas, miando e olhando-o como se estivesse suplicando.

— Eu sei... Vou sentir saudades, mas venho visitá-la, sim? Agora me deixe terminar logo com isso.

Sem dar nenhuma atenção ao pedido de Milo, a gata continuou a tentar impedi-lo quando Verena bateu de leve e já foi entrando no aposento. Ela usava um vestido escuro e tinha uma expressão séria.

— Sei que tem as suas razões, meu jovem, mas acredite, o duque só quer o seu bem. – disse ela.

— Eu sei, mas sou homem, não uma donzela que precisa ser protegida. Fica parecendo que ele não confia em mim, que eu só sou capaz de satisfazê-lo na cama, porque fora dela só trago problemas... Ah, me desculpe, eu nem devia estar falando essas coisas com a senhora, não é certo. Eu só quero um espaço prá pensar e ver o que vou fazer.

— Tudo bem, mas antes venha comer alguma coisa. Não quis almoçar, deve estar com fome. Fiz aqueles pães que você gosta.

Milo concordou com um gesto de cabeça e um meio sorriso. Soltou a mala que bateu no chão com um baque surdo.

— Então vamos, ninguém pensa boa coisa com o estômago vazio. – disse ela, carinhosa e rezando para que pudesse segurar Milo até Camus chegar e os dois resolverem aquela questão.

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A tarde caiu rápida e o entardecer insinuou-se com suas cores densas e alaranjadas. Camus passara a tarde com os amigos e agora voltava para a mansão, sentindo um pouco mais de leveza.

Aiolia conseguira fazer com que ele visse algumas coisas sobre o seu comportamento. Tinha sim, um instinto protetor muito exacerbado em relação à Milo, talvez porque se sentisse mais experiente, mas também porque amar alguém com tanta intensidade fosse uma novidade para si e ainda não soubesse lidar com isso de uma forma menos invasiva. Como havia dito Aiolia, Você poderia acompanhá-lo e apoiá-lo, ao invés de ir no lugar dele. Não se esqueça, Camus, Milo não é um jovem indefeso. Muito antes pelo contrário, ele é um macho alfa que se deixou seduzir por outro, mas conserva as garras e sabe muito bem usá-las quando necessário.

Imerso em seus pensamentos, Camus não percebeu que, junto ao cair da noite, três silhuetas se aproximavam da carruagem em que ele se encontrava. Estava próximo de casa, mas ainda havia um trecho um tanto ermo que ele precisava vencer para chegar na mansão.

Por alguns instantes, o cavalgar discreto junto do veículo não chamou a atenção, até que outros dois cavaleiros juntaram-se aos que já estavam seguindo pela estrada. O cocheiro que conduzia a carruagem empreendeu maior velocidade aos cavalos, pressentindo algo de ruim. A essa altura, Camus percebeu algo errado e espiou pela janela, vendo que estava sendo cercado.

— Fique protegido, Sua Graça, acho que estão tentando nos assaltar! – gritou o cocheiro estalando o chicote.

Nesse meio tempo, Milo vinha na mesma direção montando um dos cavalos pertencentes ao duque. Havia deixado a mansão muito mais tarde do que planejara. Sua intenção era instalar-se em um hotel e depois, devolver o cavalo e conversar com o ruivo. Teria que acertar alguns pontos com Camus ou a relação entre eles não daria certo.

Desceu pela rua estreita e, embora já estivesse escurecendo ele percebeu algo estranho com homens cercando a carruagem que se aproximava. Bateu de leve com os pés na barriga do cavalo para que ele trotasse mais rápido e foi quando constatou que os homens ao redor da carruagem estavam com os rostos cobertos.

— Bandidos!? – disse ele, enquanto galopava com mais velocidade.

Cercada pelos dois grupos que parecia discutir entre si, a carruagem de Camus estancou e ele foi obrigado a descer.

— Passe tudo o que tem! – gritou um dos homens com o rosto coberto por um lenço.

— E-E você se afaste da carruagem! – disse outro falando com o cocheiro e já golpeando-o na cabeça, fazendo-o cair.

— Você não dá ordens aqui! – devolveu o líder.

Camus olhou, atentamente para ambos, notando que ali estavam dois grupos distintos que pareciam ter tido a mesma ideia, assaltá-lo. Mas, por quê? Era muito raro acontecer esse tipo de coisa próximo da cidade. Aliás, eles nem pareciam muito profissionais!

— Não é preciso machucar ninguém se é dinheiro que desejam. – disse o duque vendo que o cocheiro estava desacordado.

Enquanto mantinha a postura ereta e calma diante daquela cena, Camus percebeu que um cavaleiro vinha em disparada em sua direção.

Milo!

Assim que se aproximou, Milo gritou e usou o chicote para afastar os assaltantes de perto do ruivo e já foi desmontando, pronto para a briga.

— Saiam de perto dele, seus miseráveis!

Assustados com aquela intervenção, os dois homens que estavam rendendo o duque se olharam, o que deu a chance à Camus de reagir e desarmar um deles. Enquanto isso, Milo atirou-se sobre o que ainda empunhava uma arma, derrubando-o com um soco potente, enquanto chutava o comparsa que tinha vindo em auxílio do companheiro.

De repente, tudo à volta deles transformou-se em uma massa de homens lutando, enquanto assustados, os cavalos da carruagem relinchavam e os dos bandidos empinavam as patas, batendo-as contra as pedras do calçamento.

Milo lutava sem trégua, seu corpo vigoroso muito à vontade, enquanto Camus também distribuía socos como seu avô lhe tinha ensinado.

Os assaltantes entraram em pânico, pois não esperavam que houvesse reação. Não eram assaltantes de verdade e sim desocupados contratados para conseguir determinada coisa. Os que Standiford contratara eram para humilhar Camus, fazê-lo pagar pela intromissão em sua vida. Já os que Jamian conseguira, deviam roubar algo do duque, um objeto qualquer que Valery desejava ter em seu poder...

Entretanto, naquele pandemônio, a situação havia saído de controle e um dos homens, assustado, resolveu sacar de uma arma e gritar.

— Parem todos!

Seguido ao pronunciamento da frase, a arma disparou por acidente. O estalido, seguido do cheiro de pólvora e da pequena nuvem de fumaça provocada pelo disparo fez todos pararem.

Milo segurava um dos homens pelo colarinho, enquanto Camus que também lutava, parou e piscou os olhos. O ruivo sentiu sua visão embaçar, lenta e progressivamente, foi tudo se tornando distante até escurecer por completo...

— Camus! – gritou Milo ao vê-lo cair.

— O que você fez seu idiota? – gritou um dos bandidos.

— E-Eu... E-Eu não queria... – balbuciou o homem com a arma na mão.

— Vamos embora! – gritou outro.

Milo correu até o duque, enquanto os demais montavam em seus cavalos e deixavam a cena. O cocheiro que estava desacordado voltou a si e se aproximou dos dois.

— O duque foi ferido? – perguntou o homem com a mão na cabeça.

Sem responder, Milo tremia tanto que mal conseguia controlar os dedos que apalpavam o pescoço de Camus. Não conseguia sentir a respiração, nem a pulsação! Murmurando preces, ameaças, promessas, ele afrouxou-lhe a gravata, observando o rosto pálido do duque que parecia ser feito de cera.

— Camus! – gritou ele tentando reanimá-lo e ver onde era o ferimento.

Sem obter resposta, Milo sentiu as mãos se encharcarem de sangue e, mesmo naquela escuridão ele percebeu que o ferimento era na cabeça. O cocheiro tentou ajudá-lo, estendendo-lhe um lenço que foi colocado na ferida, mas a hemorragia continuava e era impossível avaliar a gravidade do ferimento ali.

— Vamos colocá-lo na carruagem e levá-lo para a mansão. – disse Milo erguendo Camus e, com a ajuda do cocheiro, colocando-o na carruagem.

A carruagem partiu em disparada e não demorou muito para chegar à mansão. Jonas recebeu-os com uma expressão aflita.

— Meu Deus! O que aconteceu? – disse ele vendo o duque ser carregado por Milo e o cocheiro.

Sua Graça foi ferido e precisa de um médico. – disse o cocheiro.

— A situação é grave Jonas, temos que estancar o sangue. – falou Milo e havia uma força no olhar do jovem e uma autoridade que o empregado ainda não tinha visto.

Jonas concordou ao ver que a roupa do duque já estava encharcada de sangue. Nesse meio tempo, Verena entrou e, depois de levar a mão à boca, tratou de pensar no que podia ajudar.

— Quem sabe nós o colocamos em uma mesa que é alta. Assim podemos ver melhor o ferimento. Mas como vamos estancar o sangue? – argumentou ela.

— Consiga água quente, panos limpos, agulha, linha e tesoura que eu faço isso. – disse Milo.

Jonas e Verena olharam para o jovem, vendo-o agir com destreza. Talvez fosse a rotina de lidar com animais ou a própria natureza destemida que ele possuía. A verdade era que ele, embora angustiado pela situação, mantinha o controle e liderava as ações.

Na mesa da sala de jantar, Camus foi acomodado sob a luz de quatro lampiões dispostos como se ele estivesse numa maca hospitalar. Com cuidado, Milo examinou o ferimento que ainda sangrava abundantemente e sentiu alívio ao ver que a bala não se alojara no crânio e sim passara de raspão provocando apenas um corte profundo.

— Não é grave, graças a Deus! – disse Milo sentindo os olhos se encherem de lágrimas de puro alívio.

— Graças a Deus! – disseram juntos, Jonas e Verena.

Pacientemente, Milo limpou o ferimento e, quando Verena trouxe mais água fervente, reservou parte dela para despejar numa bacia e mergulhar ali a agulha e tesoura que ia usar. Precisaria fechar o corte com alguns pontos, mas como Camus ainda continuava desacordado, nada sentiria.

— Precisa de ajuda? – perguntou Jonas que estava mais branco que uma folha de papel ao ver aquele sangue todo.

— Não, obrigado. – disse Milo sem tirar os olhos do ruivo.

— Então vou preparar o quarto do duque e ajudá-lo a levá-lo, quando terminar.

Milo assentiu com a cabeça e cerca de meia hora depois, o corte estava costurado com primor. O rosto do ruivo estava limpo e ele parecia estar simplesmente adormecido.

Com a ajuda de Jonas, Milo tirou Camus da mesa e levou-o para o quarto, onde encontrou Verena esperando-os.

— Eu fiz um chá. Acha que ele vai poder beber quando acordar? O cocheiro já foi e ficou de avisar o médico e também a polícia.

— Vou ficar ao lado dele, vamos ver. – disse Milo passando o braço na testa suada.

Quando Verena saiu, Milo e Jonas colocaram Camus na cama e o despiram, livrando-o das roupas sujas de sangue. A visão do corpo esguio, cuja pele alva tinha a tonalidade do mármore, fez Milo lembrar-se das noites e manhãs ardentes vividas naquela mesma cama. Uma onda de excitação varreu o seu corpo, mas ele se controlou, sentindo-se aliviado por tudo ter terminado bem, dentro do possível.

Depois de vesti-lo com um camisolão e cobri-lo, Jonas deixou o quarto e Milo sentou-se junto à cama, vendo Camus respirar, normalmente.

Em dado momento, bateram levemente na porta.

— Tem alguém aqui indócil para ver o duque. – disse Verena.

De imediato, a gata amarela entrou e pulou na cama, ficando ao lado de Camus. Assim que a porta voltou a fechar-se, ela o cheirou e lambeu-o no rosto.

Miau! (Acorde!)

De imediato, o duque abriu os olhos, fitando Milo e a gata com ar confuso.

— O que aconteceu? Eu desmaiei?

Milo sorriu e a senhora gata miou como se estivesse aliviada, roçando a cabeça no pescoço do ruivo, fazendo-o fechar os olhos.

— Você foi atacado por bandidos e a arma de um deles disparou. A bala produziu um corte em sua cabeça, bem aqui. – disse Milo passando o dedo indicador na própria testa, exatamente no início do couro cabeludo. – Eu tive que costurá-lo para estancar o sangue e você me assustou prá caralho, achei que ia te perder!

Camus franziu o cenho, fazendo uma careta.

— Me costurou? Sabe fazer isso?

— Cuido de cavalos desde menino e aprendi a costurar ferimentos, a fazer partos e cuidar até de fraturas. Os pontos que costurei em você deixarão uma pequena cicatriz, quase invisível, não se preocupe. – respondeu Milo sorrindo.

Desta vez, Camus sorriu e Milo inclinou-se, pegando uma das mãos do ruivo e levando-a aos lábios.

— Tenho que dizer que eu estava furioso com você, mas quando pensei que ia perdê-lo, tudo o mais perdeu a importância. – disse o loiro fitando Camus com paixão.

— Eu quero... me desculpar. – falou Camus, fazendo Milo arregalar os olhos.

— É o senhor mesmo, Sua Graça? Acho que a bala afetou sua cabeça. – disse Milo.

— Não seja injusto... Eu até pretendia convidá-lo para ir ao Cabeça Cortada, hoje à noite. – falou Camus com a voz um tanto enrouquecida.

— Fazer o quê? Você em uma casa de jogos?

— Prá você ver... Ai, isso dói. – disse Camus levando a mão à cabeça.

— Chega de conversa. Deve descansar, até a chegada do médico. Vamos, tome este chá que Verena preparou e depois durma um pouco.

Camus estreitou os olhos, depois olhou para Milo.

— Quem está sendo autoritário, agora?

— Isso é prá você ver como eu aprendo rápido, Sua Graça!— devolveu Milo beijando-o de leve nos lábios.

Camus riu, mas logo sentiu uma vertigem. Fitou os olhos preocupados de Milo e estendeu-lhe a mão.

— Venha cá, fique aqui comigo. – disse ele.

Milo deitou-se ao seu lado e acariciou-lhe o rosto. Depois o beijou devagar e aconchegou-o em seu peito, fechando os olhos. Ah, Camus... Como eu te amo! Se algo grave tivesse acontecido com você eu não sei o que seria de mim.

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Os convidados começaram a chegar à mansão um pouco antes das 20h00min horas.

Valery estava exultante e muito bem vestida. As joias pesadas que usava denotavam sua riqueza e atraiam olhares. Pandora pode ser mais jovem e ter relativa beleza, mas eu ainda irei livrar-me dela, definitivamente! Pensou ao vê-la chegar de braços dados com Hades.

Pandora prendera os cabelos para cima, os ombros estavam descobertos e o decote de seu vestido deixava antever a curvatura dos seios pequenos. Usava um delicado camafeu e brincos de brilhante que pendiam como duas pequenas lágrimas. A cor escura realçava sua pele alva, tornando-a quase uma personificação humana de algumas pinturas clássicas que adornavam as paredes do grande salão.

— Está maravilhosa, minha querida. – disse Valery se aproximando para cumprimentá-la.

— Obrigada. – respondeu Pandora e logo localizou Minos que conversava com um grupo pequeno de homens, todos parecendo muito interessados no que ele dizia.

— Ah! Venha comigo e deixe os homens com suas conversas sérias. Certamente o conde vai juntar-se a eles, não é mesmo? – perguntou ela direcionando um olhar sedutor para Hades.

— Vejo que convidou o marchand Horacio, como pedi que fizesse. Vou cumprimentá-lo e me juntarei à vocês na hora do jantar. Com licença. – respondeu Hades, deixando as duas sozinhas.

Valery sentiu um prazer redobrado ao perceber que Pandora já não estava tão esfuziante com aquela relação e até mesmo Hades já não ficava ao lado dela como antes.

— Alguma coisa errada? – perguntou a viscondessa fingindo preocupação.

— Não, apenas estou um pouco cansada dessas reuniões e jantares sempre com as mesmas pessoas. – respondeu Pandora.

— Pois eu acho que tenho o remédio para isso. Adivinha quem eu convidei para este jantar íntimo?

— Não tenho a mínima ideia. – disse Pandora sem muito entusiasmo.

— Pois vou lhe dizer que acabei descobrindo que o mundo é mesmo, muito pequeno... Imagine que o barão Radamanthys conheceu Hades e Minos quando ainda era um jovenzinho... Parece que foi Hades quem convenceu o duque de Wyvern a adotá-lo e dar-lhe um título menor até que provasse ser digno da herança.

— Hades conhece o barão...? – murmurou Pandora e algo dentro de si inquietou-se.

— Sim, os dois se conhecem. Sabe o que isso significa? – devolveu Valery com um olhar malicioso.

— Não, sinceramente não. – respondeu Pandora.

— Que se você desejar... pode ter o barão em sua cama. Conhecendo Hades e Minos, antevejo que ambos terão muito prazer em iniciá-la em outras formas de obter prazer e isso pode incluir o belo e selvagem Radamanthys, não é mesmo?

Acostumada a ceder, Pandora cada vez mais experimentava uma revolta interna. Não desejava mais pertencer àquele mundo e nem ser, apenas um objeto para o prazer masculino.

— Sabe qual é o meu mais profundo desejo, Valery? Deixar esta casa e não ter mais que aturar a sua língua ferina! Por que tem o prazer de ser sempre tão desagradável? – falou Pandora dando às costas a anfitriã.

Valery ficou boquiaberta, mas logo em seguida sentiu um prazer renovado em ver que tudo estava saindo melhor que planejara.

Pandora desceu às pressas a escadaria e afastou-se bastante do grande salão onde todos conversavam animados e eram servidos pela criadagem. Encostou-se em uma parede e procurou respirar profundamente, tentando impedir as lágrimas. Procurou dizer a si mesma que não fazia sentido chorar, que tudo aquilo era a consequência de suas ações e aceitação daquele relacionamento com Hades e Minos. Aos poucos foi se acalmando, afastando o desespero e respirando com mais facilidade.

Nesse momento, viu Radamanthys se aproximando e lembrou-se das palavras de Valery. No entanto, ele sempre fora gentil e lhe dera uma cuidadosa atenção. Podia confiar nele ou seria mais um ardil, um engano que a levaria ainda mais para o fundo do poço?

— Boa noite. O que há de errado?- perguntou ele vendo que ela o olhava um tanto perturbada.

Como sempre acontecia, a presença forte do barão a fazia tomar consciência de sua fragilidade, algo que ela escondia de si mesma desde que aceitara ter sua vida direcionada conforme os desejos de quem acreditava amar.

— O que há de errado? Tudo! Minha vida, este lugar e até mesmo o senhor! – disse ela e as lágrimas saltaram de seus olhos com tanta fúria que ela quase engasgou com os soluços.

Radamanthys aproximou-se, segurando-a pelos ombros, sentindo o corpo dela estremecer.

— Venha comigo, vamos sair daqui. Precisamos conversar.

Erguendo o rosto para ele, Pandora sorriu fracamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Estou com o conde e mesmo que o senhor o conheça, como frisou muito bem a nossa anfitriã, seria uma indelicadeza e motivo de escândalo sair acompanhada de outro homem.

— Eu não diria que os convidados de Valery primam pela delicadeza ou adequação às convenções sociais. Nós dois sabemos muito bem como terminam esses jantares, não é mesmo? A questão, minha cara, é: seguiremos as regras da casa ou as nossas próprias? – devolveu Radamanthys.

Pandora sentiu o olhar penetrante do barão. Havia nele uma semelhança com Hades, nenhum dos dois recuava ou mostrava fraqueza. Entretanto, diferente do amante, Radamanthys a tornava visível e, em seu olhar, expressava uma gama de sentimentos que ela ansiava despertar em um homem. Ternura, força, desejo e até mesmo... amor.

O barão inclinou a cabeça, seus olhos dourados deixando explícito o quanto ele a queria... E então, ele a beijou pela primeira vez, um beijo gentil, carinhoso e até contido. Inexplicavelmente ela retribuiu o beijo. Abalada e solitária, sem ter certeza do passo definitivo que daria, permitiu-se sentir o conforto e o carinho que lhe era oferecido. Mas, quase tão rápido quanto cedera ao impulso, afastou-se de Radamanthys assustada com as sensações que ele despertara.

— Não... Por favor, não faça isso. – disse ela.

— Perdoe-me, se não me arrependo. Entretanto, reintero minha proposta de tirá-la deste lugar e levá-la para casa. Juro que não a tocarei. – falou o barão.

Nesse momento, ambos ouviram a voz de Valery que chegava até eles de forma quase estridente.

— Ah, aí está você, Pandora e... o senhor barão! – disse a viscondessa pegando Pandora pelo braço e puxando-a. – O que deu em você, minha cara? Está naqueles dias, por acaso? Onde já se viu deixar-me falando sozinha? Se deseja ter algo com o barão espere o término do jantar. Você já conhece as regras!

Sem acreditar na cena que vivia, Pandora franziu o cenho ao olhar para Valery que apertava seu braço enquanto falava.

— Solte-me! – disse ela puxando o braço.

Antes que a cena continuasse, Radamanthys adiantou-se e interferiu.

— Minha cara viscondessa, deixe que eu cuido disso. Diga ao conde que a senhora Pandora sentiu-se indisposta e me ofereci para levá-la para casa. Ele entenderá.

Valery sorriu, satisfeita. Insistira naquele teatro desejando o desfecho que se apresentava frente aos seus olhos.

— Como desejar, senhor barão. Farei o que me pede.

No grande salão, Hades visualizou quando Valery transitava por entre os convidados, sorrindo e distribuindo máscaras. Pediu licença para Minos e outros dois nobres que discutiam sobre arte e foi até ela.

— Fale-me sobre Pandora. O que aconteceu com ela para sair assim? – perguntou o conde levando o cálice com vinho aos lábios.

— Creio que tanto você, quanto Minos se enganaram com ela. É mais uma dessas mulherzinhas suburbanas que sonham com filhos, marido perfeito e sexo romântico! – respondeu Valery.

Hades soltou um suspiro profundo, depois tornou a encarar a viscondessa.

— Ela falou algo?

— Não, mas... percebo que ela já não se sente tão à vontade como antes e o barão parece oferecer-lhe algo que você e Minos não podem oferecer, um relacionamento comum e entediante, mas que lhe dará exclusividade.

Hades permaneceu indiferente ao comentário, porém o músculo da mandíbula estava tenso. Não seria feito de tolo por uma mulher a quem dedicara muito do seu tempo e investimento. Tinha que admitir que se enganara com Pandora, que a julgara digna de dividir um estilo de vida que não havia oferecido a nenhuma outra.

— Há quanto tempo ela saiu?

— Eu diria que há alguns bons minutos atrás.

— Bem, não sou eu quem tem de dar explicações, portanto vou continuar o nosso jantar. Amanhã terei uma longa conversa com Pandora e resolverei esta história em definitivo. Vamos? – disse ele oferecendo o braço.

— Tem toda a razão, meu querido... Não vamos perder uma noite prazerosa por conta daqueles cuja mediocridade não permite ver além, não é mesmo?

A fala de Hades deixou Valery com o coração aos pulos. Finalmente, tudo começava a dar certo. O desfecho de seus planos ainda estava longe de acontecer, porém tudo se encaminhava em direção ao sucesso.

Pandora, o duque, seu pupilo e até mesmo Minos... Eis as cartas que ela desejava fora do seu baralho. Para isso, contava com o idiota do Standiford e o trapalhão do Jamian, ambos seus peões, peças que podia sacrificar se algo desse errado. No início, não pensara que as coisas evoluiriam desta maneira. Desejava, apenas, que Pandora não tomasse o seu lugar. No entanto, o gosto pela perfídia e a excitação de jogar com vidas a levara a planejar a ruína do duque e seu pupilo. Era, apenas, um jogo, um exercício de seu poder de sedução e destruição, algo que trazia sentido a sua vida medíocre e a tornava uma espécie de deusa com poder de criar, mas também destruir.

E uma deusa, precisa de um consorte! Assim que se vir sozinho, Hades voltará para mim! Pensava ela, enquanto aproveitava aquela aproximação com o conde. Sorrindo, ela olhou para Minos, vendo-o fitar Hades com aquela devoção costumeira.

Isso, meu querido... Aproveite enquanto pode! Murmurava em pensamento, para si mesma, enquanto o conde a deixava para ter com o amante.

Notas finais
Muito obrigada a todos pela atenção e pela honra de participarem dessa aventura prazerosa comigo!!! Bjs e boa semana!