Amor Real
3 Príncipe e Princesa
Notas iniciais
O príncipe Li estava cansado daquele falatório em seu ouvido. Amava seus pais, e estava feliz com o aniversário de casamento, mas ninguém merecia estar cercado de velhos que só sabiam compará-lo com seu irmão.
“ZhenYang já completou o treinamento militar”, “ZhenYang é um diplomata nato, além de ter uma caligrafia perfeita”... Ele podia revirar os olhos para cada uma daquelas frases ditas em claro sinal de comparação entre ele e o irmão, que teria repreendido todos ali em sua defesa, se não estivesse em viagem.
Não que a comparação em si lhe incomodasse, mas o fato de ser obrigado a ouvi-la o cansava demais, então, para tentar não prestar atenção ao que falavam, correu seus olhos pelo salão e viu uma figura diferente das que ele estava acostumado a ver.
Era uma jovem em um vestido azul claro e bem simples, mas bastante elegante. Os cabelos acobreados presos em um penteado que não permitia a ele saber se eram curtos ou compridos, mas que davam uma visão livre do pescoço e ombros claros. E, o que mais lhe chamou a atenção, ela parecia bem interessada em uma pintura sua, que o pai fizera questão de pendurar ali.
Sem se preocupar se seria criticado depois, apenas deixou a roda de conversa em que fora inserido anteriormente, e caminhou até a moça, tocando-a de leve no ombro, para chamar-lhe a atenção.
— Vejo que aprecia minhas obras. – ela se assustou e virou rapidamente, o brindando com um olhar admirado e o fazendo sorrir. – Muito prazer, sou o Príncipe Li Ying Chao. – ele se curvou e, sem desviar seu olhar do dela, pegou uma de suas mãos e depositou um beijo suave.
— Eu sou Lunie Bladet, princesa de Orken. – ela se curvou rapidamente. Apesar da língua mais falada em toda Harulke fosse a do reino de Orken, a princesa falava o idioma de Li Ying Chao sem dificuldade, o que o deixou bem impressionado e tentado a continuar a conversa, mas preferiu que fosse ela a dar o próximo passo naquilo, deixando-a livre para apenas ser simpática e sair se assim quisesse. Lunie não o fez e os dois se encararam em silêncio por um tempo. O príncipe não escondeu um sorriso ao ver que o rosto dela ficara ruborizado, ressaltando as sardas que polvilhavam a pele branca. – Disse que são suas obras? – ela se voltou para o quadro, e ele acabou imitando-a, por instinto. – Mas o artista assina como Ling Chao.
— Sim. É como todos me conhecem por aqui, quando não me chamam de Pequeno Príncipe. – aquele apelido era tão querido como odiado por ele. Fazia referência ao fato dele, mesmo sendo herdeiro do trono, ser menor e mais esguio que o irmão mais novo. Não podiam considerá-lo baixo, mas próximo ao irmão, sua altura e porte físico ficavam bem atrás do esperado para um rei. Por outro lado, aquele era um apelido carinhoso de sua mãe para ele quando ainda era o único filho. Mas não queria entediar a princesa com um assunto tão chato. – Eu prefiro Ling Chao.
Ela sorriu, lhe olhando de lado. Eles ficaram um tempo em silêncio, enquanto ela continuava a observar a pintura e ele contava, inconscientemente, as sardas que ela tinha no ombro.
— De onde vem Ling Chao? – ele se assustou com a pergunta direta e percebeu que não estava sendo muito discreto.
— Ah, se você fala meu nome muito rápido, acaba soando assim, então quase ninguém fala “Li Ying Chao”. – ele exagerou na hora de falar o próprio nome pausadamente, tendo sucesso em fazê-la rir. – Então meus amigos começaram a me chamar desse jeito e todo mundo acabou acompanhando. Eu gostei e assino apenas assim.
Lunie se virou para olhá-lo diretamente.
— Então devo te chamar de Príncipe Li, já que não sou sua amiga. – ela quase riu ao vê-lo erguer as sobrancelhas. – Sem contar que meu pai não ia gostar nem um pouco de saber que tenho amigos homens.
“Nem eu”, pensou Ling Chao, abobado com tudo que envolvia a pessoa em sua frente, e um pouco ciumento ao pensar nela rodeada de atenção masculina.
— Pois não seja por isso. Me chame de Ling Chao por ser meu nome de artista, e podemos construir uma amizade depois. – ele voltou a se curvar, sorrindo abertamente ao ver que tinha conquistado totalmente a atenção e o interesse alheios. – Eu a chamarei de senhorita e de Vossa Alteza até que me permita te chamar pelo primeiro nome. Agora, se me permite... – ele estendeu uma de suas mãos e esperou que Lunie pousasse a sua sobre a dele, coisa que ela hesitou um instante em fazer. – Vou te mostrar minhas outras obras.
— Mas, o rei...
— Fique tranquila, princesa. Não faria nada que pudesse manchar a sua reputação. Ficaremos aos olhos de todos.
E, com uma coragem que não lhe era característica, Lunie aceitou a mão oferecida e concordou com a cabeça.
Com aquele silencioso voto de confiança, Ling Chao a conduziu por um passeio por entre quadros, tapeçarias e esculturas feitas por ele, explicando cada uma das peças e se encantando ao ver os olhos de sua companhia brilhar.
Lunie falava animada de cada detalhe que lhe chamava a atenção, e ele fazia questão de pedir sua opinião em todos os aspectos, embasbacado com o tamanho conhecimento que a princesa tinha sobre arte no geral.
Aquela festa passou de enfadonha à interessante, e ambos ignoraram o resto das pessoas, se fechando em um mundinho só deles, enquanto discutiam, riam e combinavam de trocar cartas sobre seus gostos em comum nas semanas que viriam.
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— Você está ficando igual a sua prima. Uma... – a noite já se transformava em madrugada quando todos se recolheram. A rainha não estava satisfeita por ter sido deixada praticamente sozinha durante toda a festividade, e descontava sua frustração na filha, que, em sua concepção, deveria permanecer ao seu lado e se comportar como uma futura esposa exemplar, e não ficar a noite inteira em companhia de um homem.
— Não seja tão dura com ela, querida. – o rei, por outro lado, parecia feliz e trazia em seu rosto uma satisfação que Lunie não via com frequência no rosto do pai, que estava sempre taciturno, preocupado e angustiado por causa dos conflitos dos últimos anos. – É bom que todos possam ver que nossa filha tem conhecimentos grandiosos sobre arte e línguas. Quem sabe logo não recebemos algumas cartas de pretendentes sobre ela? – ele piscou em direção à Lunie, que sentiu uma pontada de esperança de receber a proposta de uma única pessoa naquela festa.
Parecia loucura imaginar que poderia querer aquilo com alguém que acabara de conhecer, mas seu coração acelerava só de pensar que Ling Chao poderia pedir sua mão.
Talvez fosse aquilo que as pessoas chamassem de “amor à primeira vista”, e que ela sempre achara uma bobagem.
“Ou talvez você só o ache muito bonito e não esteja pensando direito” soou uma voz em sua cabeça, que parecia muito com a de Raquel. Lunie decidiu não pensar muito naquilo e se despediu dos pais para poder descansar.
A viagem de volta começaria no dia seguinte.
Depois de se trocar, Lunie se deixou relaxar sobre o colchão macio e sorriu, como uma boba. Mesmo que sua consciência lhe repreendesse, era impossível não sentir o coração bater mais forte ao relembrar cada detalhe das horas anteriores com o príncipe Ling Chao. A voz melodiosa, o sorriso fácil e matreiro, o toque suave das mãos dele na sua, assim como em seu braço, quando ele queria conduzi-la para algum outro lugar, os olhos atentos e curiosos, os lábios bonitos e rosados, contrastando com a pele branquinha...
E ele não era apenas o homem mais bonito no qual já tinha colocado os olhos, mas também era muito educado, se entusiasmava com suas opiniões, era cavalheiro e tinha pensamentos bem mais avançados do que muitas pessoas com quem ela já tivera oportunidade de conversar (talvez menos que sua prima, mas ela era louca).
Talvez não fosse algo exagerado pensar que ele podia pedir sua mão em casamento. Talvez, depois daquela noite, eles podiam se conhecer melhor por cartas e ele podia começar a cortejá-la.
Ela conseguia ver aquele interesse todo se transformando em paixão e amor, então não era algo ruim sonhar com um compromisso, certo?
Lunie dormiu sendo engolfada por todos aqueles pensamentos, e seus sonhos foram povoados por cenas de um belo casamento ao ar livre, com muitas flores e Ling Chao com vestes reais a esperando no altar.
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Raquel riu alto ao ver Lunie a empurrar pra dentro do quarto com certa dificuldade por ser bem mais esguia que ela. A princesa tinha uma expressão irritada em seu rosto quando a viu conversando com o braço direito de seu pai quando chegaram, e a condessa não viu alternativa a não ser acompanhá-la até seus aposentos para ouvi-la reclamar de tê-la deixado sozinha enquanto “se divertia”.
Qual foi a sua surpresa quando a expressão brava desvaneceu para dar lugar a uma sonhadora.
— Eu acho que encontrei meu príncipe encantado. – Lunie suspirou, se jogando de costas sobre o colchão e abraçando o travesseiro. – Ele é tão lindo!
A condessa cruzou os braços e não conteve o riso ao ver a cena em sua frente.
— Pensei que ainda estava brava comigo.
— E estou... – Lunie sentou rapidamente e apontou pra amiga, como se estivesse pronta para começar a bronca, mas logo voltou a apertar o travesseiro em seus braços. Sabia que, se a prima estivesse junto dela no salão, provavelmente o príncipe Ling Chao nunca teria se aproximado.
Não que quisesse que Raquel soubesse daquilo. Uma parte de Lunie ainda queria que ela se sentisse culpada por ter feito de tudo para não ir àquele compromisso.
— Vamos, princesa, me conte como é seu príncipe encantado, como será o casamento de vocês, quantos serão os filhos... Acredite, isso será castigo o suficiente pros meus ouvidos. – o tom zombeteiro de Raquel fez Lunie mostrar a língua, mas não se fez de rogada.
— Ele é tão bonito. – ela suspirou, ainda mais sonhadora. – E inteligente... E ele é um artista também, sabe. O castelo todo é cheio de artes dele. Ah, e ele é gentil e a voz... Para de me olhar assim! – reclamou jogando o travesseiro em Raquel, que a olhava com as sobrancelhas levantadas e um sorriso ladino. Ela não teve nenhum trabalho para se desviar do objeto.
— Me fala que ele é nobre, por favor. Porque se ele for algum empregado do castelo, eu não vou te ajudar a fugir pra virar plebeia.
Lunie sorriu mais abertamente ainda.
— Ele é, literalmente, um príncipe. É filho do rei e rainha de Jiàn, Principe Li Ying Chao, mas ele prefere que o chame de Ling Chao... Ou melhor, só os amigos podem chamar ele desse jeito. E eu... – ela cobriu a boca com as mãos, como se se controlasse para não gritar de excitação. – Eu posso chamar ele assim também.
Pela primeira vez que tinham entrado ali, Raquel se aproximou e sentou ao lado de Lunie, dando dois tapinhas em seu ombro.
— Bom, se ele estiver tão feliz de te conhecer quanto você está, eu acho que vou precisar mandar fazer um vestido de dama de honra logo.
Lunie precisou de um momento para sair de sua bolha para entender o que tinha ouvido.
A dama de honra era sempre a melhor amiga mais velha da noiva que ainda não havia se casado, então muito provavelmente seria aquele o papel de Raquel em seu casamento. Mas logo se lembrou da conversa que ouvira na carruagem, no caminho de volta, e encarou a prima sem saber como abordar o assunto.
— Olha, eu sei que você não quer falar sobre isso, mas... Ouvi papai dizer que vai arrumar um casamento pra você antes de aceitar qualquer proposta de cortejo pra mim. – Raquel fechou os olhos e respirou fundo, visivelmente irritada. – Não seria melhor você encontrar alguém que goste e pelo menos ficar noiva? Você pode ir enrolando com o noivado até a gente encontrar uma saída e...
— Tem razão. – Lunie ficou surpresa ao ouvir aquilo. Sentiu até uma pontada de esperança. – Eu não quero falar sobre isso. – sua esperança foi jogada no lixo. – Quero que me conte o que pretende fazer para o aniversário da rainha, e não sobre ser forçada a casar, seja seu pai ou eu quem escolha o noivo. – Lunie não viu outro caminho, a não ser concordar com a cabeça. Viu a prima mudar de assunto com rapidez para o tema citado. – Você sabe que a sua mãe surtou porque o rei não vai participar, né? Então você precisa preparar alguma coisa muito boa, porque não quero ouvir reclamações depois.
A ideia de comemoração mais intimista não agradava Lunie, que gostava de festas maiores e com tudo que tinham direito, mas ela não tinha poder de escolha, uma vez que a mãe estava chateada demais para querer algo grandioso.
— Ainda não tive tempo pra pensar nisso. Tenho que ter cuidado, você sabe, ou ela vai dizer que eu quero “me aparecer” e que isso não é uma coisa...
— De uma mulher na sua posição. – as duas riram. Aquele discurso havia se tornado tão batido que era uma piada interna delas. – Bom, eu vou cantar. YueYue me ensinou uma música do continente que eu gostei bastante e já...
Lunie a interrompeu, pigarreando.
— YueYue? Desde quando você se tornou íntima do meu professor? — o sorriso travesso foi respondido com um revirar de olhos.
— Não somos íntimos, só conversamos um pouco esses dias. Ele é inteligente e gosta de me ouvir sem ficar me recriminando pelo que eu deveria ou não saber ou fazer. – ela sorriu ao se lembrar das longas conversas com o tutor e o quanto ele ainda ficava receoso de conversar com ela a sós. Se arrependeu ao perceber que Lunie tinha entendido seu sorriso de forma errada. – Nem pensa nisso.
— O que? Eu nem disse nada.
— Nem precisou. Eu te conheço e já aviso que não é pra ficar fantasiando com algum romance onde eu sou a protagonista, porque não vai acontecer. Pense só no seu príncipe. Vocês se encaixam melhor nos contos de fadas.
Raquel parecia ter dito as palavras mágicas para que Lunie mudasse seu foco e voltasse a suspirar.
— Será que ele gostou de mim do jeito que eu gostei dele? Eu nem estava com meu vestido de gala, só com um improvisado e... Mas ele disse que eu estava bonita e ficou olhando meus ombros.
Mesmo querendo parar aquele falatório totalmente desconexo, Raquel apenas concordou e deixou que Lunie continuasse a falar sobre todos os detalhes da conversa que teve com Ling Chao, de como as artes dele eram bonitas, e do quanto ela queria pintar um retrato dele para que a prima visse o quanto ele era lindo.
Mesmo com suas ressalvas, ainda era bom ver sua melhor amiga feliz daquela forma.
A conversa já ultrapassara o horário do jantar quando batidas na porta as interrompeu. Pensaram que era alguém chamando-as para comer algo, ou um empregado levando a comida até elas, mas foram surpreendidas pela criada de sempre, que carregava, sim, uma bandeja, mas nela não havia uma refeição, mas sim um envelope.
— Princesa. – ela se curvou quase se desequilibrando e olhando com receio em direção à condessa, que sempre parecia ter um comentário sarcástico. – Uma correspondência para a senhorita.
Lunie franziu o cenho. Ela raramente recebia cartas, já que sua vida era muito restrita ao seu próprio reino. Isso sem contar que não conversava com ninguém por correspondência desde que era criança e sua prima precisou ficar meses longe do castelo.
— Tem certeza?
— Sim, senhorita. – ela olhava de uma ocupante do quarto para a outra, como se torcesse para sair logo dali. Raquel riu.
— Pode ir, obrigada. – Lunie a dispensou, olhando feio para a prima pelo riso. A criada saiu, fechando a porta. – Por que você sempre zomba dela? Isso não é legal.
— Eu não fiz nada! – tentou se defender, mas acabou rindo em seguida. – Desculpa, tá legal? Ela só me parece muito... Sonsa. Não confio em pessoas boazinhas e subservientes demais, então quero que ela saiba que, se sonhar em fazer qualquer coisa errada, eu estou de olho.
Lunie revirou os olhos.
— Enfim... De quem é a carta? – Raquel mudou o tópico da conversa e Lunie voltou a olhar o envelope.
De um lado tinha apenas a quem era destinada, em uma letra não muito caprichada, porém que lhe era familiar.
Mas, ao virar o objeto e olhar com atenção, viu uma assinatura que a fez ofegar.
O remetente assinava como Seu Artista, mas ela soube imediatamente que a carta era de Ling Chao.
Continua...
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