Amor Real
4 Poemas e Canções
Notas iniciais
— Outra carta do seu “artista”? – Lunie se assusta ao escutar a pergunta tão próxima ao seu ouvido, mas logo suspira aliviada ao ver que era a prima.
As duas e seu tutor eram os únicos que sabiam com quem ela andava se comunicando de forma frequente nas últimas semanas, e o último só tinha aquela informação porque trabalhara no castelo de Jiàn e reconheceu a caligrafia do príncipe em uma das vezes que Lunie recebera uma das cartas enquanto estava em sua aula.
Ling Chao havia pedido segredo em sua primeira carta, já que poderia ser considerado muito inapropriado que um homem e uma mulher se comunicassem sem um intermediário, ainda mais com tamanha frequência, e Lunie concordou prontamente. O rei e a rainha até poderiam saber que a filha estava se correspondendo com alguém, mas enquanto a assinatura da parte do príncipe contasse apenas “Artista”, nenhum dos dois ousaria questionar que não era uma mulher.
Seu professor a ajudara nisso também. Ele deixara escapar, durante uma conversa com seus pais sobre seu desempenho nas aulas, que ela estar conversando com artistas de outros reinos a ajudara muito a compreender sobre geografia e história.
Lunie não sabia como agradecê-lo.
— Quer me matar do coração? Pensei que fosse a minha mãe. – Raquel negou, revirando os olhos à menção da rainha. As duas tinham discutido novamente na noite anterior.
— Ela está no mercado, fazendo terror psicológico nos mercadores pra que tudo que tenha na festa dela seja do melhor. – Lunie resmungou em descontentamento . – Ela também disse que você não vai ter aulas hoje, e que quer ver sua roupa da festa antes que você saia na frente dos convidados, então esconde essas cartas se não quiser que ela veja.
Naquela noite haveria o aniversário da rainha, então Lunie não tinha muito o que fazer a não ser concordar e agradecer à prima por aturar sua mãe enquanto ela se escondia no quarto para aproveitar seu tempo com as cartas de seu príncipe.
Eles sempre conversavam sobre arte, a pressão que sentiam em serem herdeiros diretos do trono, seus interesses por literatura e Ling Chao até mesmo mandara alguns de seus esboços para que Lunie lhe dissesse sua opinião.
Família e assuntos de ambos os reinos, no entanto, eram tópicos sumariamente ignorados pelos dois naquelas semanas. Lunie não queria perder seu tempo escrevendo sobre seus pais, e não se importava muito que Ling Chao escolhesse fazer o mesmo, então nunca o questionava.
— Olha que poema bonito! – tinha ficado tão imersa na pequena estrofe que ele havia escrito do lado de fora do envelope que nem sequer abrira aquela carta em questão.
“Ondas do mar de Vigo
acaso vistes meu Amigo?
Queira Deus que ele venha cedo!
Ondas do mar agitado,
acaso vistes meu amado?
Queira Deus que ele venha cedo!
Acaso vistes meu amigo,
aquele por quem suspiro?
Queira Deus que ele venha cedo!
Acaso vistes meu amado,
por quem tenho grande cuidado?
Queira Deus que ele venha cedo!”
Leu para a prima, que manteve a expressão de enfado.
— Eu nem consegui ler a carta ainda... Será que dá tempo?
— Até você terminar de ler e surtar por cada linha, já amanheceu, então não vai adiantar ela demorar. Dá isso aqui. – a contragosto Lunie entregou o envelope nas mãos alheias e recebeu um pedaço de pergaminho em troca. – Isso é um poema sobre a criação do reino. YueYue acha mais adequado que você recite esse do que aquele que me pediu.
— Esse é velho... E tem palavras muito ruins de pronunciar. – Lunie começara a se arrepender de ter escolhido recitar um poema como parte de sua apresentação no aniversário da rainha.
— Por isso que tem duas folhas. YueYue arrumou o texto com expressões mais atuais e...
Lunie começou a rir, pegando Raquel de surpresa.
— YueYue isso, YueYue aquilo... Quanto tempo vocês passam juntos? – ela viu a prima abrir a boca para retrucar, mas não deixou. – Espera. Eu não tive aula hoje e você está aqui cedo. Não me diga que passaram a noite juntos? AI! – o tapa que recebeu em seu braço a fez se arrepender levemente da pergunta.
— Já falei pra parar de ficar inventando essas coisas na sua cabeça. Eu saí cedo pra cavalgar antes da sua mãe acordar e ficar implicando com a minha roupa. Acabei encontrando o professor no caminho. Apenas isso. – Lunie continuou a esfregar o pedaço de pele que fora atingido. – Vou resolver algumas coisas com a minha mãe e me arrumar pro banquete. E isso aqui vai ficar comigo pra você se concentrar no que precisa. – Raquel pegou a caixinha de madeira onde Lunie guardava as cartas de Ling Chao e saiu, levando-as consigo.
Lunie resmungou que ela era uma chata, mas sabia que a prima tinha razão. Não podia se dar ao luxo de estar apenas em seu mundinho perfeito das cartas do príncipe, pelo menos não naquele dia.
E, pensando naquilo, ela se focou em declamar aquele poema da melhor forma possível.
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— Pensei que você ia se vestir adequadamente para o meu aniversário. Suba e coloque um vestido. – a rainha falou aquilo de forma ríspida quando viu Raquel e Lunie entrando no salão de festas.
Lunie usava um vestido simples e delicado, que a fazia parecer mais nova do que era. Fora sua mãe quem escolhera suas roupas para aquela noite, o que não era de seu agrado, mas deixaria passar daquela vez. Estava feliz e tranquila demais para arrumar confusão por causa de um vestido.
E a peça era de um tom de rosa claro, cor que amava e normalmente não podia usar, por ser considerada masculina demais, então estava longe de reclamar.
Raquel, por outro lado, escolhera uma composição de espartilho e calças, como sempre, o que fez não apenas a rainha, mas o padre que acompanharia a festa olharem com reprovação.
— Majestade, me perdoe meus trajes, mas não poderei fazer a homenagem que preparei para a senhora se estiver usando um vestido. – Lunie não falou nada, mas segurou o riso ao perceber que a fala da prima pingava sarcasmo. – São camadas demais, e o peso não me deixa respirar direito. Eu me esforcei tanto! Mas, se a senhora quiser, posso apenas não apresentar nada e...
A rainha bateu o pé e cruzou os braços, obviamente vendo que estava sendo ludibriada, mas sem poder fazer nada sobre aquilo. Ela sabia que a apresentação de Raquel era uma forma de mostrar a sobrinha para os convidados e casá-la de uma vez, e que seria muito mais fácil conseguir um marido para ela mostrando seus talentos do que apenas um vestido em seu corpo.
— Que seja. Mas fique sabendo que seu tio vai ouvir sobre isso. – Raquel se curvou e piscou para Lunie antes de sair de perto das duas. – E você, pare de rir. Isso é constrangedor. Nenhuma das duas sabe se comportar. Sua prima eu até entendo, porque nunca teve uma família completa, mas você? Onde foi que eu errei com você, Lunie?
A princesa queria retrucar, mas apenas revirou os olhos e se controlou para não acabar se encrencando mais para frente. Pensar nas cartas de Ling Chao lhe dava muito mais força do que imaginou, já que conseguiu se manter em silêncio por toda a recepção e por boa parte do jantar, onde fora obrigada a permanecer ao lado da rainha e longe da prima, que a observava com um olhar de pena na outra ponta da mesa.
Depois do banquete, a rainha foi acomodada em uma cadeira alta e confortável, e um por um dos que desejavam, se apresentaram de alguma forma para entretê-la. Alguns nem ao menos conseguiam terminar suas performances antes de receber um olhar de desagrado.
Felizmente Lunie não estava entre eles. Para a sua surpresa, a rainha sorriu durante toda a sua apresentação, e, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que sua mãe estava orgulhosa. Aquilo aqueceu seu coração porque, apesar de não terem a melhor relação do mundo, ela ainda amava sua mãe, e ficava feliz de pensar que, talvez, as duas ainda poderiam estreitar os laços de alguma forma.
Depois dela se apresentaram os soldados em uma demonstração de força que não empolgou muito ninguém. Lunie achava aquele tipo de coisa muito sem graça, e não via nenhuma emoção em ver dois homens lutando um contra o outro com espadas sem fio. Ela acreditava que Raquel poderia estar analisando cada parte do combate, se não estivesse visivelmente nervosa do lado oposto do salão.
Lunie teve que segurar mais uma vez o riso ao ver que a prima não estava sozinha, mas que seu tutor parecia dizer-lhe palavras de encorajamento que foram respondidas com um erguer de sobrancelhas e um sorriso ladino antes dela ser anunciada para se apresentar.
Mesmo que Raquel continuasse a dizer que não via YueYue como um possível futuro marido, era bem óbvio para Lunie que tinha mais coisas entre os dois do que ela lhe contava. Ou, pelo menos, teria se fosse por escolha de seu professor.
Raquel se aproximou da rainha e fez uma reverência antes de começar a cantar.
Lunie sorria, orgulhosa pela prima cantar tão bem em um dos idiomas do continente, e ainda conseguindo passar emoção em cada palavra. Mesmo que não entendesse as palavras, era possível sentir.
Você está indo à feira de Scarborough?
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho
Lembra-me a alguém que vive lá,
Pois, ela outrora foi o meu verdadeiro amor.
Diga a ela para fazer-me uma camisa de cambraia.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Sem nenhuma costura ou fino trabalho de agulha,
e então ela será o meu verdadeiro amor.
Diga a ela para lavá-lo lá no poço seco.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
de onde nunca brotou água e onde chuva nunca caiu,
e então ela será o meu verdadeiro amor.
Diga a ela para secá-la sobre aquele espinho
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Que nunca floresceu desde que Adão nasceu,
e então ela será o meu verdadeiro amor.
Peça-lhe que me faça esta cortesia..
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
e que peça de mim um favor igual,
e então ela será o meu verdadeiro amor.
Você já esteve na feira de Scarborough?
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Lembra-me de alguém que vive lá,
Pois ele outrora foi o meu verdadeiro amor.
Pede-lhe para me arranjar um acre de terra.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Entre a água salgada e a areia,
Então, ele será o meu verdadeiro amor.
Peça a ele para ará-lo com um chifre de cordeiro.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
e que o semeie com apenas um grão de pimenta,
Então, ele será o meu verdadeiro amor.
Peça a ele para fazer a colheita com uma foice de couro.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
E juntar tudo com uma corda feita de urze.
Para então, ele ser meu verdadeiro amor.
Quando ele tiver terminado o seu trabalho.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Peça a ele para vir buscar a sua camisa de cambraia,
Então, ele será o meu verdadeiro amor.
Se você disser que você não pode, então vou responder.
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho.
Oh, deixe-me saber que, pelo menos, você vai tentar,
Ou você nunca será meu verdadeiro amor.
Infelizmente, assim que a música se encerrou, o padre gritou para que todos pudessem ouvir:
— BRUXA! QUEIMEM ESSA BRUXA!
O choque foi de todos, que demoraram alguns segundos para entender o que o sacerdote dizia. A rainha se levantou rapidamente e, puxando a condessa pelo braço, andou rapidamente até uma sala vazia ali próxima ao salão. Lunie não pensou duas vezes antes de segui-la e viu que alguns soldados e o padre histérico faziam o mesmo.
— Eu não sei do que ele está falando! – Lunie ouviu a prima dizer, soltando-se do aperto em seu braço. – Eu só cantei uma música, isso não tem nada...
— MÃE! – a princesa gritou, horrorizada ao ver a rainha desferir um tapa contra o rosto de sua prima.
— Quietas vocês duas! – Solar respirou fundo e andou até o homem que ainda resmungava sobre bruxaria. – O que o senhor quis dizer sobre ela ser uma bruxa?
O senhor baixinho se recompôs como pôde antes de se curvar.
— Majestade, eu sou do continente, como sabe, e essa música... Essa blasfêmia tem a receita de uma poção do amor e mais um monte de magia negra. – ele baixou a voz, mas por todos estarem em silêncio não adiantou muita coisa quando ele continuou, pois continuou audível. – E só bruxas conseguem cantar ela inteira.
— Que monte de besteira...
— Calada! – Solar voltou a gritar e até levantou a mão outra vez, mas pareceu desistir de desferir outro tapa na condessa, que não parecia ter medo de apanhar novamente, já que nem ao menos se mexeu. – Você já causou problemas demais. Mesmo que não seja verdade, todos naquele salão acreditam que a Condessa de Heminn é uma bruxa, então tenho só duas alternativas: Ou você se casa imediatamente, ou enfrentará a fogueira.
Silêncio.
Lunie estava horrorizada demais para falar, e seu pânico cresceu ao ver que Raquel continuava a olhar para a rainha com a mesma expressão impassiva. A única coisa que demonstrava um pouco de tensão era que ela mantinha o maxilar travado, como se apertasse os dentes um contra o outro.
— Com licença, Vossa Majestade. – Rogen, o capitão das tropas deu um passo à frente e, com um sorriso de escárnio, se colocou de joelhos para a rainha. – Eu me comprometo a casar com a Condessa e apagar esse rumor da família real.
Solar suspirou, visivelmente aliviada, mas não teve tempo de responder à proposta.
— Eu prefiro a morte. – Raquel olhou diretamente para Rogen, ignorando totalmente o grito de desespero de Lunie, que já começara a chorar de raiva e angústia naquele momento. – Eu prefiro que me amarrem em um granito, cortem meus braços e minhas pernas, e depois me façam afundar no Lago Déntra até que eu morra afogada, do que permitir que você encoste em mim. A morte parece mais interessante do que a vida junto de um inepto, nojento e grosseiro como você.
Rogen, em toda a sua arrogância, se levantou e deu dois passos em direção à Raquel, que não mostrou medo em nenhum momento. Mas ele não teve oportunidade de continuar, uma vez que Lunie finalmente encontrou sua voz e se colocou na frente da prima.
— Mãe, por favor, deixe meu pai decidir sobre isso quando ele chegar. – ela tinha esperanças de que pudesse convencer o rei a mudar de ideia ou, pelo menos, impedir que uma tragédia acontecesse. – Por favor... Eu te imploro...
A rainha olhou da filha para as pessoas que a acompanharam até ali e suspirou, irritada. Não podia ser vista como uma rainha sem clemência. Ela devia ser o exemplo de mulher bondosa e subserviente às vontades do marido em sua sociedade, então não tinha como ignorar aquele pedido de Lunie, mesmo que sua expressão não escondesse seu desejo de fazê-lo.
— Que assim seja, então. – Lunie suspirou e se virou para a prima, a abraçando, mesmo que não recebesse o abraço de volta. – Mas a decisão do rei será definitiva para esse caso.
Ela fez um gesto de dispensa para as pessoas ao redor e viu o caminho até a porta ser aberto. Ela saiu tempestuosamente dali e todos pareciam saber que a festa tinha terminado.
Mas aquele assunto ainda estava longe de acabar.
Continua...
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