Amor Real

1 O novo tutor


Notas iniciais
Oiê ^^

Voltei depois de muito tempo, e só porque hoje é aniversário da protagonista kkkkkkkkkkkkkkkkk
Não estive 100% para escrever ou responder comentários nos últimos meses, mas quero ver se consigo postar essa aqui até o final, sem bloqueios.

Recadinhos importantes antes da leitura:

1 - Apesar da história se passar em uma terra imaginária, ela está inserida no nosso universo e na nossa história também.
2 - A imagem no início do capítulo é do mapa de Harulke, onde se passa a história.
3 - O Ling Chao é o irmão mais velho nessa história kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Enfim, boa leitura, e FELIZ ANIVERSÁRIO, LUNIE ^^

HARULKE

REINO DE ORKEN – 1570

Lunie despertou junto com o nascer do sol. Não era como se quisesse aquilo, mas ter uma criada lhe chamando de forma insistente, a obrigou a acordar e se levantar, resmungando o quanto estava com sono.

— Vossa Alteza precisa da minha ajuda? – a criada não parecia ter muito mais idade do que a própria Lunie, e pareceu aliviada por receber uma negativa. – Então eu vou me retirar. Mas fui instruída a esperar do lado de fora e voltar a chamá-la em alguns minutos.

Lunie suspirou.

Era lógico que sua mãe tinha se certificado que estaria de pé e pronta para a primeira aula com seu novo tutor.

— Bom dia, princesa. – a porta se abriu com um estrondo e Lunie deu um grito, assustada com a entrada repentina. A intrusa era sua prima e melhor amiga, que assustou a pobre da criada, que logo começou a se desculpar de forma ansiosa, por ter deixado a porta destrancada. – Tá, coisinha, ela sabe que sou eu. Meu Deus, levanta essa cabeça. – a criada se curvou mais uma vez antes de sair, fechando a porta.

Lunie, ainda meio grogue de sono, conseguiu olhar feio para a prima pela forma com que ela se referiu à moça, mas sabia que aquele jeito não era rude, apenas espontâneo.

Raquel era toda espontânea, na verdade, o que sempre deixava o rei e a rainha convictos de que ela não era uma boa influência para a princesa herdeira. Mas, também, não era como se houvesse muito que ser feito, já que ambas haviam crescido juntas e eram as únicas companhias femininas uma da outra. Além disso, apesar de desaprovar o estilo de vida de sua sobrinha, o rei Jasen se sentia levemente aliviado de saber que poderia contar com ela caso as duas precisassem se defender.

— Por que está feliz essa hora da manhã? – Lunie coçou os olhos e viu a prima se jogar ao seu lado na cama. – Você odeia acordar cedo também.

— Acontece que não tem como eu acordar se eu não tiver dormido. – um sorriso ladino cruzou os lábios dela, fazendo Lunie abrir a boca em choque. – Os meninos novos estavam ansiosos pra tentar bater minha pontuação de arco ontem, então eu fiquei com a tropa até agora. – ela se espreguiçou.

Lunie estava muito mais acordada naquele momento. Ela sempre ficava chocada com o fato de Raquel não se importar de passar noites inteiras no meio dos soldados, e até apostar com eles. Seu rosto ficava quente só de imaginar tantos homens em um mesmo lugar que uma única mulher.

Aquilo era tão estranho.

Não a julgava, mas ainda lhe soava esquisito escutar aquilo, mesmo depois de tantos anos.

— E o que aconteceu? Quer dizer, se você passou a noite lá e não dormiu, então... – ela não era totalmente inocente sobre o que casais faziam, mas só sabia o que lia em alguns livros que conseguira roubar da parte restrita da biblioteca. Em sua mente, apesar de sempre negar, a prima devia ter feito todas aquelas coisas.

Raquel gargalhou, vendo as bochechas alheias ficarem rubras enquanto Lunie tentava terminar a pergunta.

— Eu bebi, priminha, foi o que eu fiz. Se eu acabasse na cama de algum soldado, seu querido pai faria o inferno pra me obrigar a casar. – ela fez uma careta só de imaginar. – Quem sonha com casamentos e príncipes encantados é você. Eu estou muito bem com a minha liberdade.

Aquilo era verdade. Lunie, apesar de achar graça e até invejar um pouco a vida despojada de Raquel, não conseguia ver o casamento com maus olhos. Ela queria encontrar alguém que a amasse, e que pudesse fazer dela uma rainha feliz no futuro.

Um príncipe bonito, gentil, cavalheiro e que gostasse de artes, assim como ela.

Para não ouvir nenhuma zombaria da outra, voltou sua atenção ao que Raquel tinha dito.

— Você tinha bebido e, mesmo assim, nenhum deles te venceu? Acho que o meu pai devia te colocar pra treinar os soldados ao invés do Rogen. – ela falava do novo comandante.

— Seu pai prefere que a sobrinha dele se comporte como a dama que deveria ser. – as duas sentiram o sangue gelar ao ouvirem a voz dura da rainha, que atravessava a porta com passos firmes. – Que vergonha, passando a noite em barracas e tavernas, se vestindo como homem e fazendo sabe Deus o que mais. – a mulher nunca media as palavras, o que sempre gerava algum conflito. Lunie viu a prima abrir a boca para responder, mas se levantou, mudando o foco da mãe para o fato de ainda não estar pronta para o início de seus estudos. – Vista-se, Lunie. Se eu tiver que voltar aqui para te levar até o seu tutor, você vai ficar trancada nesse quarto pelo resto da semana... Sem visitas.

E, do mesmo jeito que tinha entrado, a rainha saiu.

Lunie choramingou.

— Por que vocês brigam sempre? Eu odeio isso. – Raquel encolheu os ombros e se levantou. – Onde você vai?

— Lugar algum. Diferente de você, meu querido titio acha que meu tempo será muito melhor empregado se eu acompanhar a donzela indefesa às aulas, pra nenhum homem mau te fazer qualquer coisa. – o desdém e voz caricata fizeram Lunie rir. – Agora se arruma logo, porque eu não quero que a bruxa, digo... Que a rainha venha puxar a gente pelas orelhas.

Mesmo querendo repreender Raquel, Lunie só conseguiu concordar e ir se arrumar para as aulas.

Não que ela odiasse os pais, mas sua relação com eles sempre fora um pouco caótica. Entendia sua superproteção, já que ela fora a primeira e única criança a vingar dentre todas as gestações da rainha, e também conseguia compreender a rigidez de sua criação, uma vez que era a herdeira direta do trono, mas ainda se ressentia por se sentir sempre recriminada e forçada a fazer as coisas do jeito que eles achavam certo.

Sua instrução era um exemplo claro daquilo tudo. Sua mãe era totalmente contra que ela tivesse aulas com um homem, dizendo sempre que a educação básica que ela tivera durante a infância e sua curiosidade nos livros da biblioteca eram o suficiente. Ela devia apenas ser instruída para se tornar uma boa esposa e rainha, e não precisava de qualquer outro tipo de conhecimento que extrapolasse o saber ler, escrever e fazer algumas contas.

Lunie agradecia por, daquela vez, seu pai ter ido contra.

Não que fosse da vontade do rei que a filha ficasse horas trancada em uma sala de aula com um homem a instruindo, mas sabia da importância de ter Lunie preparada para assumir o trono em qualquer eventualidade, e nenhuma mulher, por mais versada em conhecimento que fosse, teria todas as informações que Lunie precisaria adquirir.

O rei precisou pesar as opções e chegou à conclusão mais óbvia: os tempos não eram de paz e tranquilidade para que tivesse certeza que sua filha única herdaria a coroa antes de se casar, portanto, ela passaria a ter aulas com alguém de confiança.

Ainda assim, Jasen se viu inclinado a ouvir as preocupações da esposa e pedir que sua sobrinha acompanhasse Lunie em todas as aulas. E, apenas depois daquilo, o rei procurara um tutor, e achara aquele que as esperava em frente à sala de aula.

— Seja bem-vinda, Vossa Alteza. – um homem às recebeu em uma sala próxima à biblioteca do castelo. Ele era alto e sua fisionomia fez Lunie se perguntar, por um momento, se ele tinha idade adequada para um tutor, já que não parecia muito mais velho do que a prima, mas preferiu ficar em silêncio sobre isso. Reparou, então, em outros aspectos, como o fato dele se vestir de forma discreta, mesmo que fosse claro que os tecidos de suas vestes fossem caros, ou ter um anel de pedra roxa no dedo anelar. – Meu nome é Yue Minghui, e eu serei o seu novo tutor. – ele se curvou e indicou à Lunie que entrasse e se sentasse em uma das carteiras.

— Não precisa de tanta formalidade, senhor. – o rei tinha deixado bem claro que o tutor era a autoridade máxima naquela sala. – Pode me chamar apenas de Srta. Bladet.

— Como quiser, senhorita. Então espero que não me chame de senhor. Me sinto muito mais velho do que sou quando me chamam dessa forma. De onde vim, esse tipo de tratamento é apenas para pessoas muito importantes ou muito mais velhas, e eu não sou nenhum dos dois. Fico satisfeito apenas com Professor. – ele se voltou para Raquel, que ainda estava em pé. Suas sobrancelhas se ergueram de surpresa, como se fosse a primeira vez que tinha reparado nela de verdade. – E a senhorita?

— Condessa de Heminn, mas gosto desses títulos tanto quanto você. Me chame apenas de Raquel. – ela cruzou os braços ao perceber o olhar minucioso que recebia por suas roupas e comportamento.

— Raquel, então. – Minghui pigarreou e voltou sua atenção para Lunie, que tinha em sua frente pena, tinteiro e pergaminhos. – Bom, hoje eu quero apenas saber até onde a senhorita aprendeu sobre nosso reino, e sobre a nossa terra. Por exemplo, quais são os reinos de Harulke?

— Orken, Jiàn e Rijeka. – respondeu, com um sorriso no rosto. Suas conversas com o pai, a prima e alguns nobres que visitava a fizeram conhecer muita coisa fora dos terrenos do reino de onde nunca tinha saído. Lunie gostava de ouvir as histórias sobre os marinheiros de Rijeka e as caçadas do rei na Floresta de Namin. — Ah, e tem Kalte também, mas o meu pai sempre diz que eles são selvagens demais pra ser um reino.

O professor sorriu, concordando.

— Muito bem, muito bem. Vou te fazer uma pergunta mais difícil, então... Conhecendo todos os reinos, consegue me dizer de onde eu venho?

Lunie pensou bem. O nome e as feições dele faziam-na lembrar do povo de Jiàn. Além de alto, ele era magro e seu olhos eram pequenos e puxados nas laterais; sua pele era clara, mas ele também não era branco como ela e sua família (ou a maioria daqueles que moravam em Orken).

— Jiàn? – foi no seu palpite, mas recebeu uma negativa. – O sen... Digo, você não parece ser daqui, professor.

— E não sou. Venha até aqui. – ele a chamou até a mesa, onde abriu o mapa de Harulke, que conhecia desde sempre, e depois, por cima desde, desenrolou um mapa muito maior. Neste ele apontou um ponto que parecia ser apenas uma ilha perto dos outros lugares desenhados ali. – Nós estamos aqui, e eu vim daqui. – Ele apontou para outra ilha, tão pequena quanto Harulke, mas localizada no meio de outros países. Ali estava escrito “Inglaterra”.

— Você é do continente? – Raquel soou surpresa. Apesar da influência de fora em Harulke, era difícil ver pessoas mais abastadas ali por vontade própria. Normalmente aqueles que vinham e decidiam ficar eram marinheiros, náufragos ou apenas aventureiros sem rumo e nem dinheiro.

A verdade é que Harulke até tentava ser atrativa para os grandes poderes de fora. Tinham adotado a religião alheia, a monarquia e até o mesmo tipo de comércio para que os negócios fossem mais longe, mas nenhum país parecia interessado de verdade. A viagem era longa demais, perigosa demais e não era como se eles tivessem muito a oferecer à impérios como os de Inglaterra e Normandia.

Então, apesar de levarem uma vida quase europeia, seus tratados, suas línguas e suas guerras não importavam nem ligeiramente para quem vivia longe dali.

— Por que a surpresa? Vocês têm um padre de lá, estou certo?

— Um eremita. Ele não veio por vontade própria, e nem tem dinheiro pra voltar de onde quer que tenha vindo. Você, por outro lado, não parece ser pobre, ou nunca poderia saber tanta coisa e se vestir assim. Sem contar que fala nosso idioma perfeitamente, o que eu duvido que seja ensinado em qualquer lugar do continente. – Raquel o olhava com desconfiança, o que fez Lunie chamar sua atenção. – O que? Só estou curiosa.

— A curiosidade matou o gato, sabia? – Minghui brincou, chamando a atenção. – Mas, para que saiba, meus pais são de Jiàn, mas cresci na Inglaterra e fui criado para ser padre, por isso sei as línguas oficiais dos reinos de Harulke e, claro, francês e inglês, além de ter conhecimento em várias áreas. Infelizmente não me encontrei no celibato e decidi voltar para casa. Foi o Rei Li, de Jiàn, quem me indicou para o cargo de tutor, e o Rei Bladet aceitou essa indicação em troca de alguns soldados.

Raquel pareceu satisfeita com a explicação e voltou a cruzar os braços e ficar em silêncio.

— Bom, quero que me conte o que souber sobre o nosso reino. Preciso saber até onde vai o seu conhecimento para que eu possa te instruir sem perder tempo com assuntos que já viu.

Lunie voltou ao seu lugar, mesmo querendo continuar olhando o mapa inteiro. Estava tão curiosa, mas sabia que precisava se preparar para ser uma boa rainha no futuro.

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— O que será que ele quis dizer sobre não se encontrar no celibato? – Lunie estava sentada em um banco nos jardins, em seu colo estava um livro de romance que ela teimava em reler sempre que tinha algum tempo. Era uma fantasia qualquer entre uma fada e um vampiro, que sempre a deixava suspirante.

Raquel, sentada diretamente na grama, pensou por alguns segundos antes de responder.

— Vai ver ele descobriu que sexo é muito bom e não conseguiu mais parar de fazer. – não conseguiu segurar a gargalhada ao ver Lunie se engasgar entre estar muito envergonhada com aquele tipo de coisa ser dita tão tranquilamente ao ar livre e a curiosidade de como a prima podia saber que aquilo era bom ou não. – Você tinha que ver a sua cara.

Lunie fechou o livro com um baque, indignada por ter sido tão facilmente enganada.

— Você é má! Eu pensei que... – o sussurro dela fez com que Raquel sentasse ao seu lado no banco.

— Você é minha melhor amiga. Acha mesmo que eu faria qualquer coisa e não te contaria? – ela suspirou e olhou para frente, onde, ao longe, era possível ver uma parte da tropa se exercitando. – Eu só falo o que eu ouço. Mas nunca fiz nada, de verdade. Até porque os soldados nem me veem mais como uma mulher. – ela encolheu os ombros, sorrindo divertida.

— Hum... – Lunie ainda estava levemente emburrada com a brincadeira, mas também muito feliz de saber que a prima a tinha como melhor amiga. As duas sabiam que tinham em quem confiar de verdade. – Pois eu acho que o professor te viu como mulher. – alfinetou e ganhou um empurrão com o ombro. – Ai, sua bruta!

— Nem brinca com uma coisa dessas. Se seu pai ouve...

— Se eu ouço o que? – a voz do rei as fez levantar em um pulo e se voltar para a figura de maior autoridade ali, cavalgando ao lado de dois soldados.

— N-Nada, pai... Coisa de mulher. – Lunie pensou rápido, mas não pareceu convencer o monarca. Ele fitou as duas por um tempo, com uma expressão de descontentamento, antes de dizer que esperava a sobrinha em seu escritório após o almoço. E, da mesma forma inesperada que surgira, ele continuou seu caminho – Ele parece bravo... Será que ouviu a gente?

Raquel suspirou.

— Acho que não. Ele deve estar ansioso pra sua primeira viagem pra fora de Orken. – soltou a informação, esquecendo-se que Lunie não tinha ideia de que aquilo aconteceria.

— Que viagem? – os olhos castanhos dobraram de tamanho e Raquel voltou a sentar-se no banco, já ciente de que, uma vez que tinha começado a falar, Lunie não a deixaria em paz até que dissesse tudo.

— Bom, acho que seus pais decidiram que está na hora de você encontrar um marido, então precisam começar a apresentar o “produto” para as famílias nobres dos outros reinos. – falou, despretensiosamente.

— O quê? – Lunie estava chocada, mas pelo olhar da prima já sabia que não receberia muito mais informação do que aquilo.

Continua...

Notas finais
Gostaram? Não? Me deixem saber.

Esse primeiro capítulo é mais uma introdução, por isso já vou postar o capítulo 2 em seguida.

Espero que gostem de acompanhar mais essa história entre Lunie e Ling Chao *-*