Amor Real
2 Primeiro Contato
Notas iniciais
— Mas, pai! – Lunie retrucou, recebendo um olhar atravessado.
— Não. Eu já disse que sua prima precisa aprender a obedecer as minhas ordens, então ela fica.
O jantar estava tenso aquela noite. O rei e a rainha haviam informado à Lunie o que a prima tinha lhe dito algumas horas antes, sem querer. Era claro que, diferente de Raquel, seus pais apenas haviam enfeitado a ideia de procurar um bom casamento com o fato de que ela já tinha completado seus 19 anos e precisava comparecer em eventos sociais pelos demais reinos.
Quando as reuniões e festas eram nos condados e ducados de Orken, Raquel sempre a acompanhava, servindo como companhia para Lunie, uma vez que as festas eram sempre repletas de homens mais velhos e poucos tinham filhas mulheres de sua idade. E, sendo a primeira viagem da princesa para fora de Orken, ela queria muito a companhia de sua melhor amiga, principalmente para ter certeza de não cometer nenhuma gafe em relação ao idioma de Jiàn, que era diferente do seu.
Naquela vez, no entanto, o rei se recusava em levar sua sobrinha. Segundo ele por causa da mania dela de vestir calças, quando seu gênero e sua posição social pediam vestidos com mais de três camadas.
No geral ele se fazia de cego quanto aquilo, mas tinha deixado expressamente proibido que ela supervisionasse as aulas de Lunie ou se apresentasse à mesa, em jantares oficiais, se não estivesse vestida adequadamente, e vê-la descumprindo aquela ordem naquela manhã o deixara muito irritado. Por esse motivo decidiu que Raquel não deveria ser premiada com uma festa.
Não que ela estivesse reclamando, mas Lunie estava.
— E eu vou ficar sozinha? E se acontecer alguma coisa? – ela tentou apelar para o lado protetor do rei, mas ele estava irredutível.
— Eu levarei três guardas e duas criadas só para você, não precisa se preocupar. Agora termine de comer e vá para o seu quarto. Sairemos cedo amanhã, porque a viagem é longa e não queremos chegar com atraso. – Lunie até queria sair batendo o pé, mas teve que engolir sua raiva junto com a carne com batatas, antes de seguir as ordens de seu pai.
Não foi surpresa entrar no quarto e encontrar Raquel jogada em sua cama.
— Você é uma egoísta! Vai me deixar sozinha só porque não quer usar um vestido.
Não era verdade, apesar de não ser de todo mentira. Raquel estava, sim, sendo punida por não querer “se vestir adequadamente”, mas o maior problema era que o rei estava em uma tentativa enlouquecedora de casá-la antes de Lunie.
Ela já estava velha. Vinte e cinco anos e sem marido, podia significar apenas que algo estava errado com a condessa. Ou ela era uma desfrutável, o que mancharia a reputação da família, ou ela era uma bruxa, o que obrigaria o rei a mandar queimá-la. O melhor a fazer era encontrar um bom marido para ela, então ela dera um jeito de irritar o rei e adiar aquele tipo de constrangimento.
Lunie estava muito mais propensa a conhecer um futuro marido, então não estragaria o momento da princesa.
Sem contar que Raquel amava sua vida, mas entre a fogueira e o casamento, ela estava bem inclinada à primeira opção.
— Vou. Primeiro porque essas coisas apertam demais. Eu nunca consigo respirar dentro desse pano todo. – não falaria o real motivo para Lunie. Deixaria ela viver em um conto de fadas por mais tempo. – E segundo porque alguém precisa ficar pra organizar as coisas. Aquele Duque que seu pai nomeou pra ficar no lugar dele durante as viagens não me passa confiança. E os empregados vão enlouquecer com os preparativos do aniversário da rainha sem ter alguém pra colocar ordem por aqui.
A princesa pareceu se lembrar apenas naquele momento de que o aniversário de sua mãe estava bem próximo. Mas, como uma vingança silenciosa, decidiu jogar aquele assunto para o fundo de sua mente, torcendo para esquecê-lo de novo.
— Eu vou viajar por dias sem companhia, depois ouvir um monte de velhos conversando, e minha mãe reclamando, enquanto você vai ficar aqui, só bebendo e se divertindo. Isso é injusto. – Lunie fez seu pequeno drama, arrancando risos alheios.
— Relaxa, princesinha. Vai que você encontra seu príncipe encantado nessa festa? Nunca se sabe. Você sempre diz que os homens de Jiàn são bonitos e inteligentes.
Lunie ainda estava emburrada demais para levar aquelas palavras em consideração.
Só depois que Raquel a deixou sozinha, e que se preparava para dormir, que pensou que, talvez, a prima tivesse razão.
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Viagens de carruagem eram cansativas.
Lunie já havia perdido as contas de quantas vezes tinha dormido e acordado naqueles dias, quantas vezes tiveram que parar para alimentar os cavalos ou há quantos dias não pudera tomar um banho decente.
Tinham se hospedado em uma estalagem no meio do percurso, mas nem aquilo fora o suficiente para que descansasse de verdade.
Se antes ficara chateada por sua prima não estar ali para lhe fazer companhia e lhe contar histórias, ou para apenas conversar, naquela altura da viagem ela estava com muita raiva.
— Chegaremos ao amanhecer, Vossa Majestade. – disse o cocheiro ao Rei, assim que pararam para esticar as pernas e comer alguma coisa. – O mensageiro já foi enviado para avisar ao Rei Li que estamos chegando.
— Ótimo. – o Rei estendeu um recipiente com água limpa para que a filha pudesse beber e molhar o rosto, e ela precisou aceitar, mesmo que quisesse jogar tudo para o alto.
Precisava se acostumar com aquele tipo de coisa, já que seria rainha e não teria como fugir de compromissos como aqueles.
Eles realmente chegaram em frente ao castelo de Jiàn quando o sol começava a surgir pelas montanhas e iluminar as casas senhoriais. Foram recebidos pelos criados, que ajudaram com as bagagens e os encaminharam até o salão principal.
— Vossa Majestade, Rei e Rainha de Orken, e Vossa Alteza Real, Princesa de Orken. – eles foram anunciados, e logo um homem e uma mulher bem vestidos, e com sorrisos leves nos rostos, se aproximaram para cumprimentá-los.
— Sejam bem-vindos. – o homem (que Lunie reconheceu como Rei Li ZhanJun de uma das pinturas que seu mentor lhe mostrara) se curvou levemente e recebeu o mesmo gesto de seu pai. – Eu imagino que a viagem tenha sido difícil nesse tempo seco, então não vou prendê-los em minha presença. Podemos conversar mais tarde, correto. – apesar de soar tranquilo e de nunca perder o sorriso, Lunie percebeu que seu olhar vagava entre ela e o pai, como se quisesse falar algo.
— Nós agradecemos. Se puderem nos mostrar nossos aposentos... – mesmo que quisesse se mostrar educada, era da natureza da Rainha Solar ser levemente arrogante, o que deixou Lunie um pouco desconcertada. Ela não disse nada, obviamente. Se corrigisse a mãe naquela situação, talvez nunca mais saísse de seu quarto.
— Claro, querida. Vou pedir aos empregados que levem suas coisas para lá também. – a Rainha Li Qing assim o fez, e logo se despediam para que pudessem se acomodar. Eles tinham chegado no dia em que a festa seria realizada, então todos pareciam estar ocupados com seus afazeres.
— Nós vamos descansar, faça o mesmo. – a Rainha orientou Lunie, que entrava no quarto que lhe era indicado. – Quando estiver mais próximo do horário de se arrumar pra festa, mandarei alguém te acordar.
— E se eu sentir fome? – ela acreditava que fosse dormir direto depois de um banho, mas era sempre bom perguntar.
Solar a olhou como se estivesse pronta para dizer que ela ficaria com fome até a hora que deveria comer, mas o Rei a interrompeu.
— Vou pedir para que um dos guardas fique de prontidão no corredor. Se precisar de qualquer coisa é só pedir e ele virá falar comigo. Agora descanse, precisa estar bem para a festa de mais tarde.
Lunie suspirou e concordou.
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— Está sozinha? – a pergunta de Minghui ecoou pela cozinha e foi respondida com um erguer de sobrancelhas de Raquel, que tinha alguns papéis em sua frente. – Pensei que tinha ido com todos.
— Fui deixada de castigo por mau comportamento. – era claro o tom de zombaria. – Na verdade estou feliz por ter ficado. Posso estudar e treinar em paz, sem a Rainha no meu pé me dizendo o que é ou não “coisa de uma mulher na minha posição”. – revirou os olhos, mas não se mostrou realmente nervosa. Sua expressão era mais para entediada daquele tipo de discurso. – Sente-se comigo, professor. Você pode ser útil.
Minghui observou a cadeira que lhe era oferecida, mas hesitou.
— Não seria prudente. Alguém pode entrar e pensar coisas erradas sobre nós... Sobre você.
Raquel gargalhou.
— Não ouviu as fofocas? Pelo que dizem nos corredores do castelo, eu já me deitei com a maioria dos soldados e viajantes. – ela se levantou e abriu alguns armários até achar uma garrafa de bebida. – Sente-se. Vamos beber e conversar sobre o andamento dos tratados por Namin. – a bebida foi servida aos dois e ela voltou a ocupar seu lugar. Seu olhar brincalhão observou-o, ainda hesitante, ocupar a cadeira ao seu lado. – Se te incomoda falar sobre política e beber com uma mulher, apenas faça como os soldados e me imagine como um homem. – disse, tentando fazer as coisas ficarem menos tensas para o professor.
O assunto entre eles correu sem dificuldade depois dos primeiros goles de bebida. Eles falaram sobre as terras que pertenciam à Orken – mas que estavam em constante ameaça pelas tribos de Kalte -, sobre as alianças necessárias com Jiàn, sobre o andamento do aprendizado de Lunie, e o quanto ela teria que se aprofundar nas questões militares se não se casasse antes de assumir a coroa.
Raquel parecia se divertir ao falar sobre todos aqueles assuntos, traçando linhas e escrevendo algumas ideias de estratégias nos mapas bem desenhados. Minghui, no entanto, tinha alguma dificuldade de se concentrar nos assuntos, já que não conseguia fazer o que lhe fora pedido no começo. Não entendia como ela acreditava que qualquer pessoa podia imaginá-la como homem. Seus seios eram fartos e sempre evidenciados por um corselete, seus quadris eram bem desenhados e se ajustavam perfeitamente ao uso da calça de tecido grosso, e seus cabelos eram cumpridos e, apesar de normalmente estarem bem presos com uma trança, naquele dia pendia em um rabo de cavalo baixo, o que fazia alguns fios se soltarem e tentava Minghui a colocá-los longe do rosto de expressões fortes.
Ele precisou se repreender mentalmente mais de uma vez por aquele pensamento, ou por deixar seu olhar vagar por onde não devia.
— Finalmente te achei. – um homem entrou na cozinha e Minghui se ergueu, pronto para inventar alguma desculpa para estarem sozinhos ali. Foi puxado de volta para a sua cadeira.
— Já disse pra relaxar. – a voz dela soou dura, como uma ordem, e ele se viu obedecendo. – O que quer Rogen?
— Se estiver ocupada, eu volto depois. – o olhar malicioso dele não passou despercebido.
— Esse é o chefe da tropa real, Rogen. – ela apresentou-o à Minghui, com visível desagrado. – Rogen, esse é o tutor da princesa, Yue... Droga, eu te chamo tanto de professor que esqueci seu nome. – resmungou um “maldita bebida”.
— Yue Minghui. – ele cumprimentou o soldado. – Pode me chamar de YueYue, se preferir. – pensou que, se tinha sido permitido tratá-la como um igual, então podia retribuir o favor.
Raquel sorriu.
— Muito melhor. YueYue... Combina com você. – a conversa parecia que voltaria a pertencer aos dois, mas Rogen pigarreou. – O que você quer, inferno?
— Uma revanche, é claro. Não posso deixar meus soldados achando que uma mulherzinha qualquer pode me vencer.
Raquel se levantou, ainda sorrindo, e se aproximou de Rogen o suficiente para tocar seu peito, sobre o tecido da blusa clara que ele usava. Por um instante, Minghui achou que estavam flertando.
Errado.
Em um piscar de olhos, o soldado estava com o rosto comprimindo o tampo da mesa, com Raquel pressionando seu braço em uma posição que parecia bem dolorosa.
— Acontece, querido, que eu te venci. – ela usou a mão livre para alcançar uma adaga presa em sua cintura e encostar de leve no pescoço alheio, fazendo um corte pequeno e fino, para que incomodasse por bastante tempo. – Se prestasse mais atenção nos meus movimentos do que nos meus peitos, isso até seria diferente, mas você é igual a todos os outros. – sua boca foi de encontro ao ouvido do soldado, e lá sussurrou um “patético”. Ela pressionou o aperto o suficiente para que Rogen soltasse um gemido de dor e o soltou. – Vai me tratar com respeito agora, ou eu farei questão de te reportar ao Rei. E tenho certeza que o YueYue aqui vai ficar muito feliz em me apoiar.
— Você não... – Rogen tentou retrucar, mas engoliu seco e deu um passo pra trás quando a adaga voltou a ser colocada em seu pescoço. Ela era rápida.
— Sim, eu sou capaz disso, e de muitas outras coisas. – até Minghui, que não tinha nada a ver com a briga, se sentiu assustado com a voz e olhar que o soldado recebeu. – Eu posso quebrar o seu braço na próxima vez. Te impedir de segurar uma espada pro resto da sua vidinha infeliz. Agora some daqui, e fique longe de mim, ou o Rei vai ser o menor dos seus problemas.
— Sim, condessa. – saindo do caminho da lâmina, Rogen fez uma reverência e saiu da cozinha rapidamente.
A adaga foi colocada de volta em seu lugar, enquanto Raquel se servia de mais uma bebida, e se voltava para o tutor.
— E depois a rainha vem me falar que esse babaca é melhor do que eu pra gerir as tropas. Enfim... O que foi?
Minghui a olhava espantado, enquanto que Raquel parecia tranquila com tudo que tinha acabado de acontecer.
— Você é... – ela já esperava uma crítica, mas foi surpreendida. – Incrível. – e ele não podia estar mais feliz de ter feito o elogio, já que o sorriso que recebeu o deixou ainda mais encantado.
— Ah, não foi nada. Aquele cara é muito devagar.
Os dois voltaram a conversar e beber, de um jeito ainda mais entrosado e tranquilo do que antes.
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Lunie estava chateada naquele quarto.
Não tinha ninguém com quem conversar, seu vestido escolhido para a noite tinha sido manchado ao ponto de não poder usá-lo durante a festa e, pra completar, tivera que correr contra o tempo para, no final, descobrir que ainda demorariam a descer para a celebração.
Ela olhou para si em um espelho grande, fazendo de tudo para esquecer sua chateação, já que não queria ouvir um sermão interminável dos pais sobre as necessidades de parecer sociável em um evento como aquele.
— Vamos, Lunie. – a Rainha entrou no quarto da filha sem bater, e torceu o nariz para a roupa substituta que ela tinha decidido usar. – Use um xale para cobrir esses ombros.
— Eu não trouxe nenhum. – não conseguia ver um problema tão grande em usar um vestido com mangas fora do ombro, mas a rainha pareceu ainda mais horrorizada com sua resposta.
— E pretende descer pelada desse jeito? O que vão pensar de uma princesa que mostra tanta pele?
Lunie não queria brigar, mas acabou não conseguindo segurar a língua.
— E a senhora quer que eu vista o que? Quase destruíram meu outro vestido. Esse é o único que eu tinha de reserva.
Queria gritar que era o único por culpa da própria rainha, que em sua indecisão do que vestir, havia colocado cinco vestidos na bagagem, diminuindo o quanto de coisas a princesa poderia levar.
— Já está pronta, Lunie? – o rei bateu na porta aberta para anunciar que estava entrando. – Está muito bonita, minha filha. – a aprovação de Jasen deixou a esposa ainda mais nervosa, mas ela não tinha como argumentar, então apenas saiu batendo o pé. – Você está uma mulher linda. Nem parece a minha garotinha.
Lunie se sentiu mais confiante com a roupa que usava e estendeu o braço para que o pai a guiasse. Do lado de fora, alguns metros à frente, voltaram a encontrar a rainha, que, com um olhar, fez com que Lunie cedesse seu lugar ao lado do rei.
Aquela noite estava mesmo a testando.
O baile daquela noite começou com um banquete. Esse tipo de reunião era sempre regada a conversas sobre a comida, elogios entre as mulheres, e um pouco de negócios. Lunie, assim como as outras mulheres solteiras ali presentes, acabaram em uma ponta da mesa, totalmente afastadas dos homens, que riam e falavam alto. Aquele tipo de separação sempre a deixava irritada, mas naquela noite agradeceu por não precisar passar o jantar todo com sua mãe a repreendendo em sua orelha.
Depois de bem alimentados, todos se dirigiram a um grande salão, que era ladeado por um gramado, arbustos e uma bela fonte, que ficava linda iluminada com a luz da lua. O lugar estava ricamente adornado com tapeçarias na cor vinho decoradas em dourado, criando desenhos de dragões, guerreiros mascarados e lutas de espadas. A música era animada, tocada e cantada por alguns artistas não tão bem vestidos como os convidados, mas mais elegantes do que os demais criados.
Lunie absorvia cada um dos detalhes, encantada com a diferença entre aquele castelo com o seu, pensando em pedir ao pai que contratasse o artista que fizera algumas das obras que estavam expostas ali para que pintasse para ela também.
Livre para andar pelo espaço e apreciar tudo à sua volta (já que ninguém parecia disposto a lhe incomodar), ela não percebeu que tinha seus movimentos assistidos por uma pessoa próxima ao Rei Li. Só se deu conta de seu observador quando uma mão de dedos longos tocou seu ombro.
— Vejo que aprecia minhas obras. – Lunie se assustou e se virou rapidamente, sendo recompensada pela visão de um dos homens mais bonitos que já tinha visto em sua vida. – Muito prazer, sou o Príncipe Li Ying Chao.
Continua...
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