Amor Real
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Notas iniciais
— Você fez o quê? – Raquel socou a porta onde estava apoiada enquanto ouvia Lunie falando sobre a conversa que tivera com os pais duas semanas antes. Era visível seu descontentamento, para não dizer sua raiva.
— E o que você queria que eu fizesse? – se justificou, mesmo que estivesse com vontade de apenas abaixar a cabeça e sumir dali. Lunie sabia que a prima nunca a machucaria, mas a ira nos olhos alheios a estava assustando de verdade.
— Não sei... Talvez não se intrometer nesse assunto, como eu te pedi umas mil vezes desde que sua mãe surtou no aniversário dela? Mais que porra, Lunie! Eu disse que ia arrumar um jeito de me livrar dessa história toda, e agora tenho que esperar uma pessoa, que você não quer me dizer quem é, vir me cortejar e me propor casamento, e depois escolher entre ele, um pretendente que o rei decidir ou um julgamento público. Onde isso parece uma boa alternativa?
Lunie cruzou os braços, entre chateada e brava. Ela só tinha tentado ajudar, mas suas boas intenções sempre pareciam desandar no meio do caminho, e naquela vez não estava sendo diferente.
— Eu não quero que você morra. – falou, baixinho, e viu Raquel se aproximar ao seu lado, ainda parecendo nervosa.
— E eu não preciso ser salva. – sabia que havia soado grosseira, então respirou fundo e tentou se acalmar. – Olha, eu sei que você queria ajudar, e agradeço. Mas, da próxima vez, não tenta ser a heroína. Você é mais a princesa fofa que casa com o príncipe encantado depois de descobrir que sua mãe era a bruxa malvada.
Lunie revirou os olhos para a comparação, mas percebeu que a conversa estava bem mais amena do que no começo, então conseguiu respirar mais aliviada.
— Então isso quer dizer que você vai aceitar a corte do... Quer dizer... Que você vai pensar com carinho no pedido da pessoa que eu conheço? — tinha conversado mais com o professor, e ele havia concordado com a ideia dela, desde que ele pudesse se desculpar com Raquel propriamente sobre a música e conversar com ela sobre seus sentimentos antes de tentar um passo tão grande como o início da corte.
Raquel cruzou os braços e levantou as sobrancelhas, a encarando com uma expressão de enfado.
— Não queria, mas aparentemente não tenho escolha. Pelo menos eu confio mais em você do que no meu querido tio. – Lunie sorriu, animada. – Agora vamos parar de falar de mim, porque esse assunto só está me deixando brava de novo. Me conta, como está a conversa com seu príncipe?
Foi a vez de Lunie parecer irritadiça.
— Ele não respondeu minha última carta... Na verdade o mensageiro trouxe ela de volta porque ele se recusou a recebê-la, acredita nisso? – chateada era pouco para o que ela vinha sentindo desde que recebera aquela notícia. – Estava tudo indo tão bem, ele até tinha dito que queria que eu visse um quadro que ele pintou pensando em mim, e, do nada, ele simplesmente não quer mais falar comigo? O que eu fiz de errado? – mesmo querendo jogar a culpa totalmente no príncipe, Lunie ainda sentia que aquele afastamento repentino poderia, de alguma forma, ser culpa sua. – Talvez ele tenha se cansado... Ou... Mas ele nem viu minha resposta...
Ficar conjecturando era algo que a fazia se sentir ainda mais triste. Tinha contado tantos segredos para Ling Chao, havia aberto seu coração e estava tão apaixonada, e pior, acreditava fielmente que ele se sentia da mesma forma, mas parecia que estivera errada por todo aquele tempo.
Raquel, com medo de que a prima começasse a chorar, engoliu seco e tentou mudar de assunto o mais rápido possível.
— Ah, talvez você consiga saber mais sobre isso quando for pra Jiàn de novo, não é mesmo? – pigarreou. – Mas, agora que você falou, quanto tempo mesmo o seu pai deu pra que eu aceite ou não o casamento com a pessoa que você inventou?
— Eu não inventei! Você vai ver só. Ele é perfeito pra você. – Lunie perdeu um pouco o foco em seu próprio sofrimento para responder, se sentindo levemente ofendida com a afirmação. – E meu pai disse que esperaria um mês.
Raquel balançou a cabeça, desacreditada no quanto a princesa era ingênua.
— Isso quer dizer que a “pessoa perfeita” tem duas semanas pra me conquistar e fazer a proposta? Por que eu não me surpreendo com o rei ter aceitado isso tão fácil?
Lunie arregalou os olhos e engoliu seco, se dando conta do pouquíssimo tempo que YueYue teria para algo tão complicado quanto conseguir o perdão e um sim da condessa.
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Os dias passavam mais rápido do que Lunie poderia pensar ser possível. Não que ela estivesse prestando muita atenção na passagem do tempo, uma vez que aquilo que a fazia contar os dias já não acontecia mais, que era a chegada das cartas de Ling Chao.
No começo ela até mesmo pensou em reenviar a resposta que havia sido recusada, depois pensou em escrever outra carta, perguntando o que havia acontecido, mas por fim, sob ameaças da melhor amiga, decidiu apenas não fazer nada a respeito.
“Alguma hora você vai precisar ir para Jiàn, e ele não vai poder fugir de você”. Aquelas palavras a deixavam esperançosa e ansiosa, mesmo que parte de si quisesse apenas que seu coração esquecesse que um dia conhecera o príncipe daquele país.
Mas quem poderia enganar? Nutrira uma paixão por Ling Chao e ainda sonhara diversas vezes com o momento em que ele a pediria em casamento, então não era de se surpreender que se pegasse triste e dispersa por causa dele.
— Entendeu o que precisa fazer no exercício, senhorita? – a voz de seu tutor a despertou, e Lunie lembrou-se que estava em meio à sua aula, estudando sobre as rotas de comércio de seu país (motivo que a fez se distrair, já que o texto falava de forma complexa dos negócios entre Orken e Jiàn).
— Eu não... Prestei atenção... Desculpa. – falou, realmente arrependida. Minghui era um ótimo professor, e fazer com que ele perdesse seu tempo só por estar de coração partido não era justo. Estava a ponto de dizer que leria o problema novamente e tentaria entender sozinha, quando percebeu que o olhar que via em seu professor estava bem parecido com o que via quando se olhava no espelho. – Professor, posso te perguntar se tem algo de errado? – mesmo que tivessem criado uma amizade, aquele era o seu momento de aula.
YueYue apontou pra porta e suspirou, fazendo Lunie revirar os olhos e bufar, irritada.
Raquel estava sendo uma grande teimosa. Se recusava a ouvir ou falar com YueYue desde que voltaram, e passava o tempo de aula de Lunie do lado de fora da sala. Segundo a duquesa, era impossível que um ex-padre não soubesse o significado da música que a ensinou a cantar, e, portanto, a culpa dela ter que casar era do professor.
E tudo piorava porque o tempo que ele dizer tudo o que queria estava no fim.
— Depois de amanhã é o último dia. – Minghui parecia derrotado. – E não vou poder tentar falar com ela hoje, porque o rei precisa me ver assim que sua aula terminar.
— Acho que estamos sem sorte no amor, não é, professor? Se você fosse um nobre, eu até diria pra gente se casar e viver como melhores amigos até ficarmos velhinhos. – Lunie apoiou o cotovelo na mesa e o rosto em sua mão. Os dois se olharam por um momento antes de sorrirem com um carinho de irmãos e YueYue voltar ao assunto da aula, tentando mantê-los focados em outra coisa que não seus problemas amorosos.
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— Pai? Pediu pra nos ver? – no dia final do prazo estipulado para a filha, Jasen convocou Lunie e Raquel para seu escritório algumas horas depois do almoço. As duas entraram na sala grande e de paredes cruas, e se sentaram em frente ao rei.
— Sim. Como vocês sabem, hoje é o último dia que me pediu para resolver o problema da sua prima. – o rei falou diretamente com a filha, que apenas suspirou. – Mas, pelo visto, sua mãe tinha razão e isso tudo não passou de um truque.
— Que droga... – ela explodiu, mas se arrependeu logo em seguida ao receber um olhar severo. – Desculpa, eu só fico irritada com todos vocês desconfiando de mim. Eu não usei truque nenhum, mas a pessoa não conseguiu se aproximar e fazer o pedido, porque a Raquel deixa ele um pouco intimidado. – pensou rápido em uma mentira, e ficou bem satisfeita ao ver que os dois ali presentes haviam acreditado naquilo. Queria rir pela ironia deles não acreditarem quando contava a verdade mas sim quando mentia de forma ridícula.
O rei concordou e se virou para a sobrinha, que sustentou seu olhar de forma impassiva.
— Nesse caso, você tem duas opções restantes. Ou se casará com o pretendente que escolhi, ou abrirei seu caso para um julgamento popular. E acredito que sua animosidade com alguns dos nossos soldados e serviçais contem pontos contra você. – Raquel permaneceu em silêncio, enquanto Lunie olhava de um para o outro. O rei esperou um pouco, mas com a falta de resposta apenas continuou. – Se preferir o casamento, ficarei encarregado do pagamento do seu dote e a cerimônia acontecerá ainda esse ano, com tudo o que você merece.
Mais uma pausa, mas aquela vez Jasen parecia decidido a esperar que a sobrinha o respondesse. Relutante, ela o fez.
— Quem? – o rei a olhou, interrogativamente. – Quem é o pretendente? E quanto tempo eu tenho pra decidir?
O rei sorriu.
— Yue Minghui, o tutor.
Lunie sentiu o queixo cair e seu pescoço até estralou de tão rápido que virou a cabeça para ver a reação da prima.
Ela continuava com a mesma expressão séria e quase inexpressiva, mas Lunie a conhecia o suficiente para saber que Raquel estava mordendo a língua para conter a raiva que estava sentindo.
— Quanto ao tempo para decidir... Bem, uma caravana chega nos próximos dias e eu espero que sua festa de noivado aconteça na presença da corte de Jiàn. – mais uma vez, Lunie virou sua cabeça rápido demais, mas daquela seu pescoço realmente doeu, chamando a atenção para si. – Tudo bem, minha filha?
— Sim... Quer dizer, a corte de Jiàn vem pra cá? Por quê? – Não sabia se ficava nervosa, eufórica ou entrava em desespero com aquela notícia.
O rei riu de leve.
— Já que estamos falando desse assunto, acho que não tem problema eu te contar o motivo da vinda deles para cá. – ele esticou a mão e segurou a de Lunie com carinho. – Não conte a sua mãe que eu te disse, ela queria fazer surpresa, mas... Encontramos um noivo para você também.
Lunie arregalou os olhos e sentiu seu coração acelerar, mas nada a preparara para as próximas palavras de seu pai:
— Ele é o príncipe de Jiàn.
Continua...
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