Amor Real
7 Quebra de Expectativas
Notas iniciais
Os raios de sol tímidos fizeram Li ZhenYang espremer os olhos e resmungar, enquanto era acordado do sono mais desconfortável que tivera nos últimos meses. Olhando em volta para tentar entender o motivo de uma das cortinas da carruagem estar aberta, viu seu irmão mais velho relendo as cartas da princesa Lunie pelo que poderia ser a milionésima vez desde que saíram de Jiàn.
— Você não dormiu? – perguntou, tossindo em seguida por sentir sua garganta seca. Recebeu um cantil com água limpa e deu um grande gole, vendo Ling Chao encolher os ombros e suspirar, visivelmente chateado e angustiado com o que estavam vivendo.
Infelizmente para ambos os irmãos, o príncipe Li que estava noivo de Lunie Bladet era ZhenYang, uma vez que os reis de Jiàn e de Orken não viam sentido que ambos os herdeiros diretos dos tronos se unissem em matrimônio. Sendo assim, ZhenYang, o mais novo, se casaria com a herdeira, estreitando, assim, os laços entre os dois reinos, sem prejuízo para nenhuma das partes.
Ou melhor, sem prejuízos políticos, já que emocionalmente Ling Chao estava em frangalhos desde que recebera a notícia. E tudo tinha piorado ainda mais quando, no meio do caminho, um mensageiro havia os alcançado para informar a aceitação da princesa para a corte de seu irmão.
— Eu achei que... Esquece, eu não deveria falar essas coisas com você. É sobre a sua noiva. – o príncipe sentia o coração apertar só de pensar naquilo, quanto mais verbalizar.
— Você diz como se alguém estivesse satisfeito com esse acordo. – ZhenYang usou a vantagem de ser maior que o irmão para esticar a perna e cutucá-lo do outro lado da carruagem. – Vamos, talvez ela só aceitou porque foi obrigada. Ou porque acha que você odeia ela, já que não responde as cartas há quase dois meses.
Ling Chao se sentia culpado por pensar naquilo. Lunie estava passando por tantas coisas ruins, e ele mesmo se dispusera a ser seu porto seguro e seu conforto, mas no momento em que recebera a notícia de que ela se casaria com outro, deixou tudo de lado e caiu em autocomiseração.
— Mesmo assim, não é certo que eu tenha sentimentos pela minha futura cunhada. – ele até tentava soar racional, mas não era como se ZhenYang o deixasse montar sua máscara de indiferença o provocando como se ainda fossem crianças.
— Ah, por favor, Ling Chao! Ela gosta de você, você gosta dela, eu não quero casar... É só os dois fugirem, eu assumo os dois reinos e final feliz. – ele brincou, gargalhando em seguida. Era claro que aquela ideia não tinha nem fundamento e nem aplicação prática sem gerar um caos, mas era bom imaginar que não precisaria assumir um compromisso como aquele.
A verdade era que, por ser o mais novo, e por quase não ter possibilidade de assumir o trono, uma vez que seu irmão era saudável e pretendia ter seus próprios herdeiros, ZhenYang se focou em aperfeiçoar suas habilidades de luta. Ele havia se tornado um cavaleiro exemplar, assim como um espadachim invejável. Ele tinha seu próprio grupo de expedição e gostava de participar de competições por toda Harulke sob o pseudônimo de Mu Ziyang, o que garantia um ar de mistério sobre si, afinal, era um homem bonito, habilidoso e que desaparecia sempre que era vencedor de algum torneio, deixando para trás apenas histórias sobre si.
Era daquele tipo de vida que gostava, e seus pais o encobriam com algumas histórias de “viagens diplomáticas”, mas sabia que, daquela vez, seria ele quem deveria ceder, fazendo a vontade deles para variar.
— Eu só queria ter a sua sorte de ter nascido depois. – mesmo que ZhenYang tenha tentado fazer o clima ali ficar mais leve, Ling Chao voltou a ficar austero. Se deslocou, então, para o lado dele, o puxando para um abraço forte.
— Irmão, se ela realmente gostar de você como você gosta dela, eu vou fazer tudo o que eu puder para arruinar esse casamento. É uma promessa.
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Lunie estava eufórica, andando de um lado para o outro de seu quarto, sem saber o que vestir. Surpreendentemente, ela havia acordado antes mesmo do sol nascer, e tinha sobre sua cama uma dúzia de vestidos diferentes quando Raquel entrou sorrateiramente no quarto da prima e ficou observando-a por uns cinco minutos antes de ser notada de fato.
— Que susto! – a princesa colocou a mão sobre o peito. – Parece uma assombração parada aí, credo! – recomposta, andou até a prima e a puxou para que as duas ficassem lado a lado, encarando a montanha de roupas que estava sobre o móvel. – Ele chega hoje e eu não tenho nada pra vestir! – Raquel a olhou, boquiaberta e incrédula, esperando que Lunie estivesse fazendo uma piada, mas a expressão de desespero no rosto alheio dizia tudo. – E se eu me vestir mal e ele desistir do casamento? Ele parecia tão bem arrumado no dia que a gente se conheceu, e ele também conhece sobre arte, e deve saber sobre moda... A gente nunca falou sobre moda antes.
— Como assim você não tem o que vestir? Tem uns vinte vestidos aqui.
— Doze... – ela corrigiu e ganhou um olhar atravessado. – Mas nenhum é bom o suficiente. – Raquel fechou os olhos e pareceu pedir paciência para alguma entidade religiosa, pois logo respirou fundo o suficiente para seu audível.
— Pega um dos meus. – ela disse aquilo de um jeito tão simplista que Lunie teve que parar para considerar por alguns segundos. – O quê? Você não tem tempo de mandar fazer um, os da sua mãe são de uma mulher casada, e a maioria dos meus nunca foram usados e... Vão ser descartados de qualquer jeito em breve. – aquela última parte foi dita como se Raquel falasse sobre o tempo. – Certeza que podemos fazer alguns ajustes rápidos até a hora que eles chegarem.
Ela esperava que Lunie estivesse concentrada demais em sua ideia para ter reparado no que deixara escapar, mas não tinha muita sorte.
— Não vai me dizer que... NÃO! Você precisa aceitar o casamento! – Lunie as virou de frente uma para a outra e segurou as mãos da prima, quase em desespero.
— Hoje é o meu último dia, e eu ainda não sei o que fazer, por isso vim te ver, pra falar a verdade. Quem sabe pegar um pouco dessa sua vontade de casar ou... Me despedir.
As duas ficaram em silêncio por um tempo. Lunie sabia que era inútil gritar e brigar, mesmo que aquela fosse sua vontade. Sentindo os olhos cheios de lágrimas, tentou pensar racionalmente.
— Você conversou com o professor? – mesmo que achasse que seria impossível que os dois não tivessem conversado até então, apelou para a única coisa que conseguira pensar. Para a sua surpresa, ganhou uma resposta negativa. – Então por que não fala com ele? Quer dizer... Eu sei que não quer casar, mas talvez ele seja legal e não fique implicando com o que você gosta de fazer. Eu não sei... Só não quero que você... – mesmo sabendo que a prima não era muito de abraços, não se segurou e a abraçou, sentindo as lágrimas finalmente descerem por seu rosto.
Raquel travou por um momento, mas logo suspirou dando tapinhas desajeitados nas costas alheias antes de afastar-se.
— Ok, ok, eu vou conversar com o YueYue, mas você precisa parar de chorar. – aquilo só fez Lunie chorar ainda mais, um pouco aliviada. Achando a cena estranha e adorável, Raquel começou a rir. – Se continuar a chorar desse jeito vai estar com o rosto todo inchado quando seu príncipe chegar.
— Ridícula! Vem, vamos ver o que você tem no seu guarda-roupa. – limpando o rosto, Lunie saiu de seu quarto puxando Raquel pela mão, ainda a ouvindo rir.
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O sol tinha nascido e toda a corte já havia tomado seu desjejum quando um mensageiro chegou com a notícia de que as carruagens de Jiàn chegariam no final daquela tarde, muito provavelmente ao pôr do sol. Lunie, ansiosa, nem ao menos reclamou quando sua mãe a puxou para que pudesse ter algumas horas de cuidado antes da chegada de seu noivo. Mesmo assim, ainda conseguiu um jeito de incentivar Raquel a aproveitar aquele tempo para poder, finalmente, ir conversar com o tutor.
Não convencida de que aquilo faria alguma grande diferença, ela caminhou até o andar da biblioteca e se encaminhou para os aposentos alheios. Se surpreendeu ao ver que a criada que sempre era designada para Lunie estava na porta na qual estava prestes a bater.
— Coisinha... O professor não está? – perguntou, uma vez que não era muito comum que as criadas organizassem os aposentos com seus ocupantes dentro dos mesmos, ainda mais se tratando de uma mulher aparentemente solteira no quarto de um homem.
— Ah, condessa, a senhorita... – ela se curvou e parecia tremer de leve e gaguejava. A porta foi aberta e a assustou, fazendo-a ficar ereta novamente. YueYue estava ali e olhava para as duas com uma expressão confusa. – Professor, estou aqui, como o senhor solicitou. – ela pigarreou, tentando deixar a voz mais firme, apesar de continuar baixa.
Os olhos de YueYue e Raquel se encontraram e ele pareceu esperar que ela dissesse algo, o que demorou um pouco para acontecer.
— Precisamos conversar.
— Citare, eu a chamarei em outro momento. Agora preciso resolver algo com a condessa, com licença. – ele disse aquilo sem desviar o olhar de Raquel, apenas quebrando aquele contato quando ouviram os passos da criada desaparecerem no fim do corredor. Ele abriu mais a porta para que ela pudesse passar. – Sente-se. Quer beber alguma coisa? – ele apontou para uma poltrona, mas recebeu uma negativa com a cabeça. – Então diga o que precisamos conversar.
Raquel estava com os braços cruzado e não tinha uma expressão calma ou amigável.
— Por que quer se casar comigo? – a pergunta foi direta e YueYue teve vontade de rir. Demorou tanto para fazer uma corte de forma decente que teria que confessar seus sentimentos do jeito mais comum possível.
— Porque eu quero que seja a minha esposa. – ele viu Raquel pressionar os lábios, e sabia que estava prestes a ser acusado de tê-la manipulado ou algo do tipo. Não era como se ele pudesse ler pensamentos, mas suas mentes eram igualmente afiadas e ele podia ver por qual caminho os dela estavam indo apenas por sua expressão de desgosto e ombros rijos. – Eu estou apaixonado por você. No começo pensei que eram só desejos por você ser diferente das outras mulheres que já conheci, mas quanto mais fico perto de você, mais quero te ouvir falar, te ver estudar ou só ganhar de alguns idiotas em um jogo de adagas. – ela pareceu vacilar um pouco, como se deixasse de estar brava para ficar curiosa, então aproveitou a oportunidade e continuou. – Foi por isso que te dei aquela música pra cantar. Ela era uma declaração velada, e achei que entenderia isso de algum jeito, mas deu tudo errado, e eu nem consegui me desculpar.
Raquel desfez a postura defensiva e coçou a cabeça, como se aquela situação fosse problemática demais.
— Mas eu... Não sinto o mesmo. – ela pensou que ele fosse explodir e fazer algum discurso do quanto ele era um partido incrível e de que ela precisava dele ou morreria, mas, para a sua surpresa, ele apenas concordou com a cabeça, deixando que ela continuasse. – Isso é loucura. Eu só estou aqui porque pensei que a gente pudesse fazer um acordo e esse casamento ser só de fachada, mas... Droga, eu só não quero morrer, entende? Não tem nada a ver com sentimentos.
YueYue a olhou, confuso.
— Os sentimentos são apenas da minha parte, Raquel. Nada impede que o casamento seja apenas algo pra te manter viva.
— Seus sentimentos impedem! Que droga, eu não posso aceitar me casar com alguém que vai ficar tentando me conquistar. – naquela altura, mesmo que tentasse se manter fria por fora, Raquel estava exasperada, e isso era perceptível em sua voz.
Para a sua surpresa, YueYue andou até ela de forma rápida, e seus rostos ficaram separados apenas por alguns centímetros. A respiração dos dois era rápida enquanto eles se encaravam por alguns segundos de silêncio.
— Não pode aceitar porque eu vou tentar ou porque tem medo que eu consiga? – a diferença de altura, facilmente ignorada em outros momentos, naquele fez Raquel se ver como uma presa diante do caçador. Por outro lado se sentiu desafiada por aquela pergunta. Quem ele pensava que era pra achar que ela estava com medo de alguma coisa? Juntando coragem ela o empurrou, tentando se recompor e empinando o nariz altivamente.
— Então vamos nos casar. Vou comunicar ao rei sobre minha decisão. – ela saiu batendo o pé e não viu que deixou um YueYue bem aliviado e sorridente para trás.
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A comitiva de Jiàn entrou no castelo pouco depois que as velas foram acesas, tendo demorado um pouco além do horário que todos acreditariam que chegariam. Ling Chao estava atrás de seus pais e irmão, uma vez que aquele era um momento deles e não do príncipe herdeiro. Ele caminhou pelo tapete, observando a hall de entrada pouco adornado, e lembrou que Lunie lhe confidenciara que sempre quisera deixá-lo mais decorado, mas não tivera autorização dos pais. Sacudiu a cabeça, tentando não pensar nas cartas de sua princesa.
— Bem vindos! – ele ouviu uma voz animada e voltou sua atenção para a rainha Solar, que fizera questão de recepcioná-los. Ling Chao achou estranho que o rei não estivesse ao lado da esposa, mas logo o avistou nos primeiros degraus de uma das escadas que deveria levar às demais torres. Ele conversava com uma mulher alta e de rosto sério. A roupa masculina chamou sua atenção, mas não tanto quanto ouvir o rei dizer a ela que tudo estava preparado para seu noivado, e que ele ficava feliz por sua escolha.
Ling Chao sentiu um alívio sem tamanho. Seria aquela a noiva de seu irmão, então? Aquilo faria sentido, já que ela parecia mais velha que Lunie e tinha grandes semelhanças com o rei de Orken. Faria sentido que ela fosse a herdeira do trono e Lunie a irmã mais nova.
O rei se aproximou do grupo e os cumprimentos começaram, assim como algumas conversas frívolas, que o príncipe não se deu o trabalho de prestar atenção. Naquele momento ele só queria encontrar sua princesa e pedir milhares de desculpas por deixá-la totalmente sem seu apoio quando ela mais precisava, e por ter entendido mal toda aquela história.
Com os pensamentos mais leves e deixando, mais uma vez, seu olhar vagar pelo aposento onde estavam, ele a viu. Sua Lunie estava deslumbrante em um vestido de cor salmão que a fazia parecer uma pequena boneca. Seus cabelos estavam soltos daquela vez, e ele pôde ver que eles eram cumpridos e adornavam perfeitamente com suas feições.
Sem pensar muito, saiu do lugar onde estava e se aproximou de Lunie, que estava acompanhada de uma criada que parecia abaná-la com um leque. Ao vê-lo, Lunie sorriu de uma forma que o fez paralisar por um instante — tempo suficiente para que ela dispensasse a criada e ele pudesse voltasse a se aproximar.
— Oi... – ele foi o primeiro a falar, mas não sabia por onde começar. Para o seu azar, Lunie respondeu de volta com uma frase que o deixou confuso.
— Oi, noivo. – ela não conseguia parar de sorrir. Ling Chao estava tão bonito em uma roupa oficial em tons vermelho e dourado, além de estar usando sua coroa de príncipe sobre os cabelos escuros. Por um momento se sentiu até mal vestida, mesmo que tivesse escolhido a melhor roupa que pôde encontrar.
— Noivo? – ele perguntou, e sua expressão confusa deixou Lunie do mesmo jeito. – Você quer dizer o noivo da sua irmã?
— Eu não tenho irmã. – ela olhou para onde todos estavam reunidos e viu Raquel próxima aos seus pais, então entendeu a confusão. – Aquela é minha prima, a condessa de Hemmin. Por que você pensou que eu tinha uma irmã?
Aquela conversa estava uma pequena bagunça, e Ling Chao começava a se sentir devastado novamente.
— Porque eu tenho um irmão... E ele é o noivo da princesa de Orken.
Levou alguns segundos para que Lunie entendesse o que estava acontecendo ali.
Se Ling Chao tinha um irmão e esse irmão era o noivo, então...
— Venha, Lunie, venha conhecer o príncipe Li ZhenYang. – seu mundo desabou ao ouvir seu pai dizer aquilo.
Continua...
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