Notas iniciais
O primeiro capítulo é sempre o mais chato de escrever. Não ficou tão incrível, mas espero que gostem mesmo assim.

QUINN’S P.O.V

A barulheira e excitação presente no ambiente me traziam as melhores ondas de nostalgia sobre aquele lugar. Mesmo depois de tantos anos eu ainda me lembrava com exatidão a primeira vez que passei pelas grandes portas de entrada.

Eu tinha apenas onze anos, ainda estava extasiada com a ideia de ter recebido uma carta para uma das melhores escolas de magia do meu país, meu pai ainda exibia um sorriso orgulhoso por minha conquista e, naquela época, isso fazia meu coração praticamente querer sair pela boca. Meu pai nunca tinha sorrido para mim daquele jeito, e isso é uma das lembranças às quais eu lembro até hoje.

Flashback on

- ... e quando ela recebeu a carta nós apenas confirmamos o que já sabíamos o tempo todo... – Meu pai conversava com o Sr. Lopez.

Aparentemente, era para todos prestarem a atenção na conversa, mas eu tinha me desligado completamente quando Santana chegara com sua enorme coruja negra (que mais me parecia um gavião) presa em uma gaiola imensa. Por alguns segundos, eu me perguntei se ela seria capaz de escapar das barras de ferro e voar na minha cara.

- Sim, sim. Santana também... – E a conversa continuava.

A pequena garota latina de onze anos olhava admirada para os lados, como se estivesse decorando cada detalhe.

- Ficar impressionada desse jeito me faz ter duvidas se você pertence realmente ao mundo bruxo. – Debochei, mas a verdade é que eu também tinha admirado aquele lugar por incontáveis segundos antes da família Lopez se juntar a nós.

- Cala a boca, Fabray. Você diz como se não estivesse olhando tudo antes de me ver se aproximando.

Corei ao ser pega em minha própria piada, mas eu era uma Fabray, então continuei com o nariz empinado e procurei por qualquer resposta por aquela pergunta. Eu jamais admitiria derrota em um debate.

- Eu só estava... Estava verificando se o teto é encantado ou feito por trouxas.

Santana gargalhou alto, fazendo-me arrepender de ter encontrado a coisa mais absurda para dizer no momento. Antes que eu pudesse retrucar, Santana tinha parado de rir e encarava fixamente alguma coisa na nossa frente, com os olhos ligeiramente arregalados e a boca entreaberta. Tentei localizar inutilmente o que ela encarava com tanta fascinação.

- Que foi? O trem está chegando? Você está vendo ele? – Ela negou com a cabeça, com a mesma expressão. – Então o que você olha tanto, criatura?!

No entanto, meu pai agiu mais rápido e chamou nossa atenção, fazendo Santana sair de seu estranho transe.

- Crianças! Espero que vocês não desapontem nossos descendentes de sangue puro e sejam escolhidas sem sombra de duvida para a Sonserina!

Ah, é. Ainda tinha mais isso. Os Lopez e os Fabray eram parentes diretos das famílias Lestrange e Malfoy, nos tornando as duas últimas famílias de sangue puro bruxa. O que também nos tornava praticamente irmãs-primas, em uma relação realmente estranha. Toda essa hierarquia nos trouxe grandes problemas, como inúmeras responsabilidades, ou pelo menos o que nossos pais consideravam responsabilidades, e a grande falta de interesse das outras bruxas de serem nossas amigas.

Além de Santana, eu só tinha mais um amigo, Noah Puckerman. Ele era mais ou menos um sangue puro, pois era descendente dos Potter-Weasley, então ele era a única amizade aprovada por nossa família.

Pela falta de amigas, eu e Santana tínhamos nos tornado realmente próximas, quase como irmãs (apesar de nós já sermos mais ou menos irmãs pelo sangue puro). Nos apresentaram quando tínhamos apenas três anos, em uma festa de Halloween. Por isso não importava o quando brigássemos, sempre voltávamos a nos falar.

- Hey, olha lá! – Santana me cutucou as costelas e apontou em direção ao fim do túnel, onde o primeiro vagão começava a aparecer.

- Hora de embarcar no Expresso de Hogwarts! – Comemorou o Sr. Lopez, que era tão ou mais ranzinza que meu pai.

Eu e Santana não tivemos ajuda para carregar nossas bagagens para dentro, tivemos que empurrar tudo do melhor jeito para dentro do vagão e acenar amigavelmente para nossas famílias, que se limitaram a levantar a mão em um gesto de comprimento.

Nós não tivemos problemas em achar um vagão vazio, pois todos ainda estavam se despedindo de suas famílias, com abraços, beijos e comprimentos. Por alguns segundos, eu invejei todos daquele lugar.

Entramos em um dos últimos vagões e nos ajeitamos, sentando uma de frente para a outra, com a enorme coruja-gavião de Santana ao seu lado no banco. Eu nunca entendi porque encarava tanto aquele bicho.

- E aí, garotas. – Saudou Noah enquanto entrava no vagão e se acomodava do meu lado, já que a gaiola de Santana ocupava praticamente a outra metade do banco.

- Oi, Noah. – Dissemos em juntas.

- Puck.

- Hein?

- Me chamem de Puck daqui para frente. Noah não chama atenção das gatinhas. – Justificou piscando para nós.

- Bem, você também não. – Retrucou Santana, me fazendo abafar uma risada.

A latina é a rainha dos insultos. E juntas nós somos imparáveis. Esse era nosso objetivo: Dominar aquele lugar com nossa popularidade.

- Vou buscar meu amigo, ele vai sentar aqui com a gente, o.k.? – Puck falou e saiu a procura do tal amigo sem nem esperar uma resposta.

O gavião de Santana se mexeu inquieto na gaiola. Por instinto me apertei um pouco mais contra o banco. Mais alguns segundos se passaram sem nada de Puck&Cia e nem a partida do expresso. Comecei a me mexer inquieta.

- Não vai dizer o que estava olhando àquela hora? – Questionei tentando não parecer tão interessada.

A latina ergueu seus olhos para mim antes de dizer:

- Acho que vi um anjo, Quinn.

Dessa vez eu não contive a risada.

- Tá louca? Anjos não ficam no meio da plataforma esperando para ir para Hogwarts, Santana.

- Cala a boca! Não quero dizer, tipo, um anjo com asas e tudo, mas... Ela era tão linda que parecia um anjo...

Eu a encarei, atônita.

- Ela?

- Sim, o que que tem? Não posso achar uma menina bonita?

Neguei com a cabeça.

- Isso não é normal. Meninas são feitas para meninos, Santana.

Sua expressão mudou para completo ódio, e se seu tom de pele não fosse bronzeado, ela estaria muito vermelha.

- CALA A BOCA! EU SOU NORMAL SIM! – Então ela baixou a voz, mas ainda falava com raiva. – Eu vi duas garotas andando de mãos dadas na rua hoje, e não tinha nada de errado com elas!

- E o que você acha que vai fazer? Sair por aí de mãos dadas com a sua “anja” e ser aplaudida por sua família?

Ela recuou e fechou a boca em uma linha reta. Os olhos aguados mostravam que ela estava prestes a chorar. Então eu desejei ter engolido aquelas palavras.

- Desculpa. – Murmurei em um fio de voz.

- Não. Você tem razão.

Então nós finalmente começamos a nos movimentar. Olhei pela janela e vi a plataforma meia nove sumindo ao longe, onde nossos pais já não estavam mais presentes. Não era uma novidade, mas ainda doía.

Os primeiros vinte minutos de viagem foram em um silencio sepulcral. Nenhuma de nós duas sabíamos o que falar, então ficamos caladas. Pelo menos Santana tinha em que pensar, já eu só ficava encarando aquele bicho preto gigante que eu jurava que ainda ia me atacar.

- Voltei! – Comemorou o agora Puck. – Garotas, esse é meu melhor amigo, Finn Hudson.

Um garoto bastante alto e meio desengonçado entrou na cabine. Seus cabelos pretos e bem cortados mostravam que ele era de uma boa família. Eu sorri e acenei.

- Sou Quinn Fabray, prazer.

Olhamos para Santana esperando por alguma reação, mas ela tinha o olhar distante e a cabeça apoiada no vidro, observando a paisagem ou pensando na tal “anja”. Mais provavelmente a segunda opção.

- E ela é Santana Lopez. – Completei.

- Hum... Ela é sempre avoada assim? – Perguntou Finn.

- Não. Ela só está tendo um dia meio ruim.

Puck me encarou preocupado, eu apenas dei de ombros, então ele voltou a sorrir e iniciou uma conversa sobre quadribol, da qual eu fiz total questão de participar.

Santana passou o resto da viagem em total torpor. Exceto, claro, quando eu a cutuquei ao ver que o carinho estava passando. Não importava a situação, Santana nunca perdia a oportunidade de se empanturrar de comida.

Eu, Santana e Puck nos levantamos para comprar nossos lanches. Finn apenas desviou o olhar e murmurou que tinha levado comida de casa. Eu comprei apenas um bolo de caldeirão, feijõezinhos de todos os sabores, uma tortinha de abóbora e um pastelão, enquanto Santana e Puck tratavam de comprar tudo o que viam pela frente.

Quando a latina se sentou novamente, com um monte de comida no colo, eu pensei que as coisas melhorariam dali para frente e ela passaria a conversar com a gente, mas as coisas conseguiram ficar ainda piores. Agora ela não apenas olhava tolamente para a janela, como também tentava comer ao mesmo tempo, errando a direção da boca algumas vezes e acertando a bochecha ou o nariz.

Quando o expresso finalmente diminuiu o ritmo e parou em Hogwarts já era noite, os corredores já estavam apinhados de gente tentando sair. Santana finalmente saiu do transe, colocou no bolso os dois únicos sapos de chocolate que não tinham escapado e saiu da cabine ao meu lado.

- Sinto como se não tivesse comido tudo o que comprei. – Murmurou a latina, enquanto seguíamos no corredor cheio de gente para a porta.

- Não se preocupe, tenho certeza que seu nariz aproveitou bem a refeição.

Desembarcamos na plataforma. Estava tudo escuro em volta e eu me perguntei se teríamos que acampar ali para só chegar à escola quando estivesse iluminado o suficiente.

- Alunos do primeiro ano! – Ouvi uma voz grave chamar, ao mesmo tempo em que um cara enorme aparecia ao nosso lado, com o rosto coberto pela barba e pelo cabelo malfeito. – Alunos do primeiro ano aqui comigo! Vamos, venham!

O cara grandalhão começou a andar e nós nos apressamos para segui-lo. Andamos em um caminho muito estreito por algum tempo, escorregando um pouco, até finalmente o enorme castelo de Hogwarts estar visível ao longe. Um coro de “ohhh” foi ouvido por toda a multidão.

- Apenas quatro em cada barco! – Berrou o grandalhão e então eu percebi que tinha um enorme lado nos separando do castelo.

Senti Santana agarrar meu braço e me puxar para um dos barcos vazios. Embarcamos e eu esperei Puck e Finn se juntarem a nós, mas isso não aconteceu.

- Onde estão os meninos? – Perguntei a ela, que parecia saber bem menos do que eu.

Santana deu de ombros no mesmo instante em que senti um peso do outro lado do barco.

- Finalmente voc- — Começei falando, mas me interrompi ao perceber que quem tinha entrado no barco não era Puck ou Finn, e sim uma menina loirinha.

- Desculpe, não tinha mais barcos vazios e eu me perdi dos garotos que estavam comigo na cabine... – Ela explicou e eu apenas assenti.

- Todos nos barcos? – Gritou o grandalhão. – Então vamos!

O barco deu um solavanco e começou a deslizar tranquilamente pela água escura. O silencio no nosso barco era mais do que mortal.

- Eu sou Brittany S. Pierce. – Apresentou-se a loirinha. – E vocês?

- Quinn Fabray e Santana Lopez. – Apontei para mim e para Santana.

- Vocês querem vir procurar unicórnios comigo? – Eu a olhei confusa. – Mamãe me contou que na floresta tem vários deles, inclusive filhotinhos. Então eu pensei que podia achar amigas, assim poderíamos pedir um bebezinho unicórnio emprestado para a mamãe dele.

Eu ri debochadamente.

- E eu achando que não existiam pessoas tão estupidas assim no mundo! Não é, Santana? – Perguntei e olhei pela primeira vez para a cara da latina desde que entramos no barco.

Sua expressão era idêntica a que ela tinha feito na plataforma de embarque. Os olhos arregalados, a boca entreaberta e o brilho de adoração. No segundo seguinte, senti um punho me acertar bem no ombro.

- Cala a boca, Fabray! Ela não é estupida! É a garota mais lind... Digo, mais doce do mundo! – E então ela se voltou para a loirinha. – Eu adoraria procurar unicórnios com você...

- Serio? – Santana assentiu. A loirinha deu um gritinho de felicidade e pulou em cima da latina. – Isso é ótimo! Vamos ser melhores amigas para sempre então!

Santana assentiu umas três vezes com a cabeça, como se não pudesse acreditar que aquela menina estava realmente a abraçando. Então uma lâmpada se acendeu na minha cabeça. Claro! Como eu poderia ter deixado de notar? A loirinha era a tal “anja” que a Santana tinha visto na plataforma!

- Por que você não vem com a gente? – Ela me convidou pela segunda vez.

- Eu acabei de te chamar de estupida e você ainda quer ser minha amiga? – Perguntei com os olhos marejados, afinal, aquela era a primeira garota que queria ser minha amiga por pura e espontânea vontade.

- Claro! Papai me ensinou que sempre devemos perdoar e dar uma segunda chance.

O barco chegou do outro lado do rio e nós pegamos nossas coisas e desembarcamos. Santana deu a mão para ajudar Brittany a sair do barco e deu um sorriso estranho, que foi retribuído pela loirinha.

Assim que entramos no salão enorme, acompanhados agora pela Profa. Minerva McGonagall, mais murmúrios foram ouvidos em adoração ao local. A professora nos guiou até um enorme outro salão, onde tinham as mesas das casas, as quais eu nem fiz questão de prestar atenção à explicação, pois meu pai já tinha me contado tudo.

- Quando eu chamar seus nomes, vocês deverão se dirigir ao banquinho para experimentar o chapéu! – Anunciou a Profa., depois da cantoria do chapéu.

Só percebi que tinha viajado quando ouvi meu nome alto e claro:

- Quinn Fabray!

Andei em passos confiantes até o banquinho, mas na verdade eu estava querendo me esconder em algum buraco. E se eu não fosse para a Sonserina...? Me sentei e o enorme chapéu velho e encardido foi colocado na minha cabeça. “Por favor, Sonserina. Por favor. Por favor...” Pensei. O chapéu riu e anunciou alto:

- Sonserina!

Suspirei aliviada e corri para mesa da minha casa, onde todos me aplaudiam e vibravam.

Muitos nomes depois finalmente ela chamou:

- Santana Lopez!

Santana se adiantou e deu uma última olhada em Brittany antes de se sentar no banquinho. O chapéu mal tocou sua cabeça e já berrou:

- Sonserina!

Todos da mesa a aplaudiram, inclusive eu. Santana se sentou ao meu lado e passou o resto dos nomes rezando em silencio: “Por favor, Brittany para Sonserina, Brittany para Sonserina, Britt...”. Até finalmente chamarem:

- Brittany Pierce!

Brittany correu (lê-se saltitou) até o banquinho e colocou o chapéu, que praticamente cobriu seu rosto. Santana ainda rezava baixinho ao meu lado.

- Lufa-Lufa!

Santana quase teve um ataque, eu apenas ri baixinho da sua falta de sorte. Nesse momento eu percebi que uma garota da mesa da Corvinal me encarava. Ela tinha cabelos e olhos castanhos, e um nariz um pouco grande, mesmo assim eu a achei adorável. Tentei lembrar-me do seu nome, mas nada me veio à cabeça.

Maldita falta de atenção.

Flashback off

Naquela noite fiquei encarando-a até a hora de irmos para o dormitório. E agora, exatamente sete anos depois, eu ainda estava fazendo a mesma coisa.

Seus cabelos castanhos estavam mais longos e brilhosos, ela ainda conservava a franjinha, o que eu sempre achei um pouco ridículo, mas nela ficava uma graça. Seus olhos amendoados também pareciam mais brilhantes naquele ano, e eu me perguntava por que. Sua boca tinha ficado mais carnuda e convidativa, mesmo quando eu achava que não era possível.

- Já viu a Britt? Como ela está? E o babaca, você viu? Eles já se encontraram? Estão juntos? QUINN, SUA IMPRESTÁVEL, ME RESPONDE! – Santana chegou, junto com seu bombardeio de perguntas para me tirar dos meus devaneios.

- Não, Lopez. Eu não a vi ainda. E também não sei do S-

- NÃO FALA O NOME DELE! Esse é um nome proibido entre nós, entendido? Sim? Ótimo.

Respirei fundo. Duas vezes.

- Já faz cinco anos, Santana.

- Eu a conheço já faz sete! E, além disso, ainda sou eu quem procuro unicórnios com ela. – Ela estufou o peito, como se fosse a coisa mais máscula e incrível do mundo.

- Serio? – Revirei os olhos. – Vocês ainda fazem isso?

Ela assentiu toda orgulhosa.

- E sabe o que ela me escreveu nas férias?

- Nossa, nem imagino o que seja. – Ironia, a gente vê por aqui. – Deixe-me ver... Hã... Cartas?!

- Não apenas “cartas”, foram cartas de amor! – Ela suspirou e fez sua melhor cara de boba apaixonada.

Incrivelmente, Santana conseguia ser ainda mais gay quando estava apaixonada.

- Tá bem. Não foram exatamente “de amor”, mas ela disse que sentia minha falta!

- Talvez porque vocês são melhores amigas?

- Talvez. – Alguns segundos de silencio. – Nãããão, eu tenho certeza que foi porque ela também está apaixonada por mim.

Santana finalmente calou a boca. No entanto, era tarde demais, pois quando tornei a olhar ela já não estava mais lá. Suspirei derrotada.

Ao longe pude ver um garoto loiro se aproximando da nossa mesa. Santana tencionou ao meu lado.

- Hey garotas. – Cumprimentou Sam Evans, o atual (e todos os antigos) namorado da Brittany.

- Oi, Sam. – Sorri para ele, tentando fingir que Santana não estava quase lançando uma maldição imperdoável nele.

- Vocês já viram a Britt por aí? Eu a procurei quando cheguei, para namorarmos um pouco antes da seleção dos novatos, mas não a encontrei ainda.

Eu podia jurar que Santana o acertaria com a primeira coisa que visse pela frente.

- Talvez ela só tenha ido ao banheiro quando chegou, ou pode ter se perdido, quero dizer, é a Brittany.

Sam pareceu um pouco mais relaxado.

- É, é a Brittany. Talvez seja só isso.

Mais alguns segundos de silencio, enquanto Santana o matava com os olhos e Sam se balançava para frente e para trás, olhando para qualquer lado que não fosse para a latina. Por algum motivo as pessoas sempre se sentiam intimidadas sobre o olhar mortal de Santana.

- E como foram suas férias, Sam?

- Ótimas! Papai e eu fomos ver alguns jogos de quadribol, junto com meu irmãozinho mais novo, Charlie. Duda, minha irmãzinha, também queria ir, mas papai disse que ela ainda é muito nova, o que a fez ficar emburrada o resto do verão.

- Fascinante. – Ironizou Santana.

Mesmo que o olhar mortal ainda estivesse ali, direcioná-lo uma palavra já era um bom começo.

- E como foram as suas fer-

Santana o interrompeu antes que pudesse terminar:

- Você viu a Britt nessas férias?

- Não... Quero dizer, essas férias não...

Antes que eu pudesse interromper, ela continuou:

- E ela, por acaso, te escreveu alguma carta dizendo “sinto sua falta” durante esse período?

- Não, mas...

Um enorme sorriso perverso apareceu em seu rosto. Santana se sentou o mais ereta quanto possível e me lançou um olhar do tipo “quem sabe das coisas”, como se o fato de Brittany não ter enviado nenhuma carta para o namorado a fazia completamente apaixonada pela latina. Eu nunca a achei mais idiota do que naquele momento.

- Oie, gente! – Saudou Brittany, chegando de não sei onde.

Santana se levantou em um salto.

- O-oi Britt-Britt! – Se seu tom de pele fosse um pouquinho mais claro, ela estaria mais vermelha que os cachecóis dos grifinórios.

- Oi San... – Ela deu aquele sorriso de deixar as pessoas bobas alegres.

Não podia funcionar melhor com a latina, que retribuiu em um sorriso envergonhado e se balançou no mesmo lugar, olhando para o chão, completamente constrangida. Se a situação não estivesse tão tensa, eu teria rido o mais alto possível.

Eu e Sam assistimos as duas se encararem como se não houvesse mais ninguém no mundo. Até Sam pigarrear alto.

- A-ah! Oi, Sam. – Ela não parecia mais tão feliz agora.

Mais um sorriso de quem sabe das coisas vindo de Santana. Mas eu sabia que não duraria nem três segundos.

- Senti sua falta. – Ele murmurou e passou os braços em torno da cintura da loirinha.

Antes que Santana pudesse jogar a mesa no garoto, os lábios do “casal mais adorável de Hogwarts” já estavam colados em um beijo intenso. Eu revirei os olhos. Santana morreu por dentro.

- E como foram suas férias? – Tentei puxar assunto com a latina, em uma tentativa ridícula de fingir que não tinha ninguém se agarrando na nossa frente.

Ela se sentou derrotada, os olhos aguados, antes de responder:

- Muita insônia. Você ronca demais.

Ah é. Ela tinha passado mais da metade das férias na minha casa.

-//-

Eu tinha ido para o dormitório antes de Santana, que tinha ido oferecer sexo para a melhor amiga.

Eu e Santana dividíamos o dormitório com as garotas mais fúteis de toda a Sonserina. Felizmente, nenhuma delas estava lá quando eu cheguei. Aproveitei que o dormitório estava vazio para arrumar minhas coisas ao lado de minha cama.

Pude ouvir vozes animadas dos alunos no Salão Comunal, todos contando animadamente sobre suas férias. Por alguns instantes eu desejei ter uma família trouxa, com quem eu pudesse passar um ótimo verão e ter incríveis relatos para contar. Droga de família sangue puro.

Santana entrou no dormitório bufando de raiva. Ela chutou algumas coisas pelo caminho, incluindo seu próprio malão, e se jogou em uma das camas, escondendo o rosto no travesseiro.

Permiti que ela tivesse alguns minutos de privacidade, mas como não sou feita de paciência...

- Que foi, Lopez?

- Ela me deu um fora. Um grande fora.

Fico mais alguns segundos em silencio esperando que ela continue.

- Eu perguntei se ela não queria ir “matar a saudade” em um dos cantos da Torre Norte, e ela me disse que não queria mais fazer isso comigo, porque não era justo com o bocudo idiota, e que ela o ama e de agora em diante só vai “fazer amor” com ele. – A latina relatou com a voz embargada.

Pela primeira vez em todos os anos que eu a conheci, Santana estava a beira de lagrimas e eu não podia fazer nada para ajudar.

- Pelo menos ela foi sua um dia. – Comentei amarga.

Mais silencio. Cada uma perdida em sua própria paixão.

De repente, Santana jogou o travesseiro para o lado e se sentou, me encarando com os olhos vermelhos.

- Não mais.

- Hein? Pensei que você ia fazer de tudo para conquistá-la e...

- Não, Fabray, porra. Não é isso.

- O que é então?

- Nós passamos sete anos sofrendo por essas garotas, mas agora não mais. – Ela se levantou, ficando de pé em cima da cama. – Esse é nosso ultimo ano nesse lugar e eu não vou passá-lo do mesmo jeito que passei os outros seis. Vamos conquistar essas garotas nem que seja a ultima coisa que faremos!

- Desse jeito vai acabar sendo a ultima coisa que faremos sim, pois nossos pais vão nos arrancar as cabeças.

- Você tá comigo ou não?

Eu a observei de pé na cama imensa. Seu rosto estampava confiança e desafio. As vozes no Salão Comunal estavam mais escassas, mas ainda estavam lá. A vontade de tê-la para mim invadiu meu peito como nos últimos seis anos.

Respirei fundo mais uma vez antes de responder:

- Estou dentro.

Notas finais
Se tiver alguém aí, talvez eu poste o segundo capítulo ainda hoje ou amanhã.