Amor & Preconceito
7 Capitulo VI - Fugir
Notas iniciais
– Sinto uma quentura.
– Qual é a sensação?
– Uma queimação, fervura.
– Hum.
– O que é isso doutor?
– Isso é paixão, Norah Carter.
– Paixão?
– Sim. Paixão.
– Qual o remédio que você me aconselha?
– O melhor remédio para isso é Valentina Hentz.
Acordo em um sobressalto e sinto meu coração palpitar, aqueles sonhos estavam cada dia mais estranhos. O que só me deixava ainda mais confusa.
O que estava acontecendo comigo, afinal? Penso enquanto me sento na beira da cama o relógio marcava 06h07min, já estava quase na hora de levantar para mais um dia, pelo menos aquele sonho no mínimo constrangedor me despertará na hora.
Suspiro fundo e decido me arrumar, o dia seria longo.
Meus pais já haviam chegado de viagem, enquanto minha mãe preparara as panquecas para o café da manhã meu pai lia seu jornal atentamente. Sento-me a mesa, o que faz meu pai desviar o olhar de sua leitura.
– Bom dia, querida – pousando o jornal sobre a mesa continuando – por que ontem não atendeu os telefonemas de sua mãe?
Papai era sempre direto. Para isso, eu tinha que estar sempre preparada para uma boa resposta, o que não acontecia sempre.
Engulo a seco mordendo um pedaço de uma maçã vermelha e suculenta, enquanto pensava em algo para dizer.
– Eu estava estudando, quando vi os recados na secretaria eletrônica já era tarde demais para retornar. – Tentei parecer o mais natural possível, mas temia que meu pai desconfiasse de algo e prosseguisse com seu interrogatório. O que o levaria a descobrir sobre o jantar na casa de Valentina.
– Bom dia, querida!
A voz animada que surgira era de mamãe – nunca me senti tão feliz por vê-la – nas mãos ela trazia uma pilha de panquecas perfumadas e quentinhas.
– Bom dia, mamãe. – Cumprimento-a com um beijo no rosto.
– Noelle, a Nora esteve estudando – começou meu pai com seu olhar observador – por isso não atendeu aos telefones.
Mamãe pareceu dar de ombros.
– Viu, Gilbert. Eu disse que não era nada de mais.
Mamãe serviu meu pai e depois a mim.
Suas panquecas eram deliciosas.
– A Belinda vem te buscar hoje? – Indagou mamãe.
Encaro-a com um meio sorriso, talvez ainda não estivesse na hora de contar sobre minha briga com Belinda.
– Ah, não. Ela está na equipe das lideres de torcida. Então, está tudo muito corrido. – Aquela foi a minha pior explicação, mas mamãe pareceu acreditar.
Ao termino do nosso desjejum me despedi dos meus pais e segui para fora, como todos os dias, Valentina já estava com seu Mustang em frente a minha casa.
Naquele momento um desconforto me atinge o peito, por algum motivo estranho lembro do sonho que tive pela manhã. E meu rosto arde envergonhado.
– Bom dia. – Cumprimento-a assim que adentro ao seu carro.
Mas Valentina não me olha nos olhos.
Naquele instante eu vejo que tem algo errado, sinto por um instante que talvez tenha feito algo errado na noite anterior, ou talvez ela tenha descoberto que meu pai não aceita homossexualismo muito bem. Ou sobre meus sonhos estranhos.
Ao notar seu nariz avermelhado e seu rosto inchado, percebo que ela esteve chorando, o que me leva a descartar qualquer uma das minhas idiotas hipóteses.
– O que aconteceu? – Sou direta enquanto toco seu ombro.
– Norah... – Começa Valentina enquanto alisa o volante com as pontas dos dedos – você teria algum problema em ir sozinha para escola hoje? – Mais lágrimas escorrem pelo seu rosto – eu não estou me sentindo bem.
Por um momento sinto uma vontade quase surreal de abraçar Valentina, puxa-la para meus braços e ficar em silencio. Apenas tentando consola-la em meus braços.
Talvez se eu fosse minimamente corajosa teria feito algo assim, mas a verdade é que coragem nunca fora meu ponto forte.
– Eu não posso – Valentina me olha confusa – q-quer dizer – gaguejo – não sem antes saber o que está acontecendo.
Engulo a seco sentindo meu coração bater forte.
– Minha vida acabou desde que vim para essa droga de cidade, Norah! – Valentina esbraveja – Eu perdi tudo que tinha. Meus amigos, meu colégio, minha vida. Tudo isso por quê? Porque meus pais são dois irresponsáveis!
Valentina chora desesperadamente.
– Eu sinto muito. – Fora a única coisa que consigo dizer.
– Eu quero ir embora daqui, Norah. Eu quero voltar a morar na cidade grande, eu quero a minha vida de volta. Mas eu não posso ir.
– Por quê?
– Porque minha mãe não me quer! Porque sua vida já está perfeita demais para me colocar de volta.
Naquele momento posso sentir a dor de Valentina.
Por impulso eu a puxo para mim e abraço forte, aquela certamente não era a Norah Carter que conhecia. A Norah Carter jamais teria tal reação, mesmo assim, Valentina retribuiu meu abraço, sua cabeça encostada em meu peitoral enquanto desabava em lagrimas. Eu não sabia bem o que estava acontecendo, mas eu não podia deixá-la nessa situação. De qualquer forma, precisávamos sair dali. Se caso meu pai nos pegasse ali, eu estaria ferrada pelo resto da minha vida.
– Está tudo bem – eu beijo o topo de sua testa – eu estou aqui. Vamos para outro lugar. Eu não vou à aula hoje.
Valentina me encara perplexa.
– Você tem certeza?
Sorrio.
– Sim.
Quem quer que fosse aquela garota cheia de coragem e certeza, certamente não era eu Norah Carter, que frequentava as aulas regularmente e só faltava em caso de doença grave. Do tipo que não te tira da cama. De qualquer forma, eu aceitei, ou melhor, me ofereci para ficar com Valentina. Que levando em consideração que nem mesmo com Belinda já topei faltar à aula, era uma situação incomum.
Valentina e eu seguimos para a areia industrial da cidade, aonde tinha uma pedreira desativada alguns anos, aquele era meu lugar favorito de toda a cidade, a vista lá de cima talvez fosse a mais bela, dando a visão de toda pequena cidade.
Sentamos no capô do seu carro e passamos alguns minutos em silencio, era estranho está ali com ela, não por sua companhia e sim pela situação. Particularmente nunca fui boa em dar conselhos e levando em conta às ultimas sensações que estou tendo com sua presença, só deixava tudo mais embaraçoso.
– Quando tinha cinco anos meu pai me trouxe aqui pela primeira vez – suspiro – ela ainda estava em funcionamento, então ficávamos de longe observando os trabalhadores explodir as minas. Eu gostava da sensação. Do barulho do explosivo. Sempre tive vontade de olhar a cidade daqui de cima, e quando eu finalmente consegui, foi uma das melhores sensações que tinha. – Suspiro com a lembrança.
O dia estava quente e agradável, o sol queimava lentamente minha pele branca, dando-me assim a sensação de conforto.
– É um lindo lugar, Norah – o sorriso tímido que os lábios de Valentina trazia fora o suficiente para me fazer sentir satisfeita – obrigada por me mostrar esse lugar. Eu gostei de compartilhar este lugar especial com você.
Abaixo meu olhar quando seu olhar cruza com o meu, encarando agora meu jeans surrado, as palavras me fogem. Deito meu corpo contra o capô e para minha surpresa Valentina faz o mesmo.
Fecho meus olhos e me permito apenas a sentir a luz do sol contra meu rosto, eu não sabia muito bem o que dizer. Nunca fui boa com as palavras, de fato. Mas eu gostava da presença de Valentina, era como se a conhecesse há tempos.
Sinto quando sua mão toca a minha, meu coração acelera e fico imóvel, sua mão era macia e morna, seus dedos finos e femininos alisavam a palma da minha mão e naquele momento sinto me faltar o ar. Por mais exagerado que fosse sentir-me assim, eu sorri. Era algo novo para mim, aquela sensação de tensão e conforto era uma mistura perfeita.
“ Isso é paixão, Norah Carter.” A voz do meu sonho ecoa em minha mente o que me faz abrir os olhos.
Olho para o lado e noto que Valentina sorri, mas ao contrario de mim, ela permanece com os olhos fechados, nossas mãos estão entrelaçadas e por alguma razão eu desejo que aquele momento não chegue ao fim.
– Norah...
– Sim.
– Por que você se aproximou de mim?
Aquela pergunta me causou estranheza, no começo eu pensei que fosse compaixão, ou apenas pena pelas grosserias de Belinda. Mas com o passar do tempo eu percebi que não era apenas isso. Tinha algo além, eu sabia que tinha. Mas talvez fosse difícil de aceitar, como muitas coisas na vida, principalmente na adolescência.
– É-é – gaguejo – eu gosto de você.
Valentina abre os olhos.
Meu coração acelera.
– Gosta?
– Sim. – Murmuro.
– Gosta como?
Sinto uma quentura em meu corpo, como se aquela pergunta fosse direta o suficiente para me deixar sem resposta e com muita vergonha.
– Como amiga.
Posso perceber o desapontamento no rosto de Valentina, como se não fosse aquilo que ela esperasse ouvir, talvez, também não fosse aquilo que eu estivesse disposta a dizer, mas infelizmente, foi à única coisa que tive coragem. Como todas às vezes em minha vida, não fui corajosa o suficiente.
Mas que droga! O que estava acontecendo comigo? Penso enquanto a encaro imóvel.
Em um momento de puro impulso, eu aproximo meu corpo do de Valentina, não sabia exatamente o que estava pretendendo com aquilo, mas mesmo assim eu continuei.
Toco seu rosto, e então, ela abre os olhos encarando-me com seu azul profundo e naquele instante me sinto faltar o ar. Sua mão toca minha nuca, e posso sentir o peso de seus dedos puxando meu rosto para próximo do seu. Sua respiração era morna o suficiente para aquecer minha pele de uma forma gostosa. Fecho meus olhos e posso sentir nossas respirações se misturarem até virar apenas uma só. Minha mão desliza pelo seu braço esguio e macio, aperto meus dedos por toda a extensão de sua pele de uma forma curiosa, como se eu quisesse conhecer seu corpo.
Eu não sabia exatamente o que estava querendo, não pelo menos até sentir pela primeira vez a quentura de outros lábios por cima dos meus.
Meus batimentos cardíacos são elevados imediatamente, e por um instante eu sinto que talvez meu coração fosse voar pela boca.
Engulo a seco e abro meus olhos, Valentina tem os olhos fechados, talvez ela esperasse por aquele beijo. O beijo que eu também esperava, de alguma maneira. O que parecia ser inevitável. Mas não foi.
Eu me afastei, descendo do capô.
– Me desculpe. E-eu não posso... – Gaguejei me explicando enquanto corria até seu carro pegando minha bolsa.
– Norah, espera! Eu te levo para casa.
– Não. Não precisa. – Sinto meus olhos úmidos.
– Norah! – Valentina faz uma rápida corrida até meu encontro e segura em minhas mãos – por favor. Não vai embora. – Ela implora.
Sinto as lagrimas descerem pelo meu rosto. Eu não sabia o que exatamente estava sentido, não era tristeza, não era arrependimento, era apenas algo angustiante.
– Me desculpa. Eu não posso – limpo meu rosto – obrigada pelas caronas. Mas acho melhor eu ir andando a partir de hoje.
Me solto do seu toque.
– Obrigada – agradeço antes de me virar e seguir correndo para fora da velha pedreira desativada.
Posso notar o olhar de decepção de Valentina, mas eu sabia que era o certo a se fazer, me apaixonar por Valentina seria o mesmo que traçar uma guerra com todos que eu amo. E isso não era o certo.
Então, mais uma vez Norah Carter, faria o certo.
O certo para agradar seus semelhantes.
Pego o ônibus de volta para casa, certamente o dia não fora como planejado, talvez, Valentina nunca mais fosse querer falar comigo novamente, mas eu não a culpo. Eu sou complicada demais para exigir que alguém pudesse me entender. Valentina não merece alguém como eu, sou fraca demais para lidar com o que posso sentir por ela. E isso me assusta. Por isso, eu vou fugir desse sentimento.
Talvez, a única coisa que eu soubesse fazer de melhor fosse fugir, fugir dos meus desejos, minhas vontades, minhas verdades, até mesmo dos meus medos, fugir da incerteza, do desconhecido, da rejeição. Fugir da paixão, ou o que poderia ser uma paixão. Fugir, fugir, fugir. Talvez essa fosse à única palavra que eu conseguisse entender com clareza seu significado. Porque, Norah Carter fugia o tempo todo. E era aquilo que havia feito mais uma vez. Fugido do que poderia ser meu primeiro beijo, ou minha primeira paixão. Eu fugi de Valentina como um animal indefeso, como se eu não tivesse pronta para aquilo. E talvez não estivesse. Talvez nunca estarei.
A única certeza que tenho, é essa incerteza que me cerca, a duvida do que fazer, certo ou errado? B ou A? Menina ou menino? Branco ou preto? Por que as drogas das escolhas são tão difíceis? Enquanto não encontro uma reposta certeira para minhas frustrantes duvidas, eu fujo. Fujo para longe de mim, longe do que eu realmente sou. E me aproximo do que as pessoas esperem que eu seja.
Covarde, eu?
Sim. Com certeza.
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