Amor & Preconceito
8 Capitulo VII - Encontro inesperado
Notas iniciais
Dias depois.
– Primeiramente eu gostaria de agradecer a presença de todos os fies no dia de hoje, e dizer, que com a enorme fé no senhor, hoje estaremos realizando a feira de caridade anual da nossa igreja, queridos irmão. Eu queria agradecer a presença de todos e dizer que hoje será um grande dia.
Quando o reverendo Williams termina seu discurso, é aclamado por aplausos, todos os fieis ali presentes estavam empolgados em poder ajudar na feira de caridade que arrecada fundos para manutenção da igreja e para seu orfanato. Era um gesto nobre, todos ali tinham consciência disso. Mas eu era a única que desejara não estar ali.
Eu desejava não estar em lugar algum.
Aquele dia seria longo, que pena que minha empolgação estava abaixo de curta.
– Está tudo bem, Norah? Você passou a manhã inteira calada.
Observou mamãe enquanto terminávamos de desembrulhar mais uma das caixas com objetos para venda.
– Sim. – Sou breve nas palavras, talvez eu não quisesse dar grandes explicações mentirosas para mamãe. Ou apenas soubesse que se ela desconfiasse que algo não estivesse bem ela me rondaria até descobrir mais.
Mas eu sabia que não estava nada bem, mesmo assim, como todas às eu deixei meus sentimentos congelados para que as aparências ficassem perfeitamente normais.
Mas daquela vez era diferente.
Eu realmente estava mal.
E pela primeira vez, a santa Norah havia errado.
O erro era todo meu.
Já havia se passado alguns dias desde o meu quase primeiro beijo e minha fuga de Valentina – que até tentou me procurar no dia seguinte, mas após ser ignorada tanto nas chamadas telefônicas quanto pessoalmente desistira da tentativa de aproximação.
Eu sei. Eu sou uma tremenda imbecil, se ao menos existisse um motivo plausível para a minha fuga repentina da garota, que até então era a melhor companhia dos últimos tempos. Mas talvez existisse um motivo, mas eu preferia negar.
Era a melhor opção.
Em um dos seus recados, Valentina me pediu perdão por ter mencionado que me beijaria, ela pareceu culpada, o que me deixou ainda mal, a culpa não foi dela.
Eu dei o primeiro passo para aquele beijo acontecer, e simplesmente corri para longe no momento seguinte.
Que tipo de adolescente eu sou? Talvez se Valentina fosse um garoto tudo estivesse acontecido exatamente igual. Eu sou um ser estranho.
Mas agora era tarde demais, eu havia expulsado Valentina da minha vida e nada que eu fizesse ia ser o suficiente para reparar meu erro infantil.
Hoje era sábado, e como o esperado estava na igreja da cidade ajudando na organização da feira anual de caridade, ainda pela manhã quando mamãe veio me acordar para que eu não me atrasasse, eu me senti aliviada com a ideia de ocupar minha cabeça com algo que não fosse Valentina, mas agora estando ali, a sensação que tinha era que apenas havia mudado o cenário, porque meus pensamentos ainda estavam em Valentina.
– Aonde eu coloco essas caixas?
– Ali. – Aponto sem olhar para trás.
Afinal de contas, estava ocupada demais curtindo minha cruel dor pós-fuga.
– Norah?
A voz fez com que meu corpo inteiro congelasse, trazia nas mãos alguns objetos que caíram no chão por um momento de distração. Viro-me para trás e posso ver a figura de Valentina em pé a poucos metros de mim.
Naquele instante eu tive certeza que quando pensamos muito em uma determinada pessoa acabamos atraindo-a para perto, porque foi exatamente isso que aconteceu.
– V-valentina... – gaguejo enquanto me ajoelho para recolher os objetos – o que está... – Valentina se aproxima para me ajudar, o que faz minha voz morrer na garganta.
Ela se ajoelha ao meu lado e pude sentir meu coração bater descompensado, ela vestia jeans e seu tênis estilo skatista, uma regata preta e seu cabelo preso em um coque no topo da cabeça, deixando apenas sua franja solta no rosto.
– Meu pai é um velho amigo do senhor Williams, então, ele doou algumas obras para feira.
Abro e fecho meus lábios em seguida. Simplesmente não conseguia dizer nada.
Valentina acaba pegando a maioria dos objetos que caiu, já que a minha única reação foi encara-la boquiaberta.
Levanto logo depois dela e me sinto envergonhada, ou no mínimo perturbada. Aquela situação toda era constrangedora. Valentina tinha sido tão boa comigo, e a única coisa que fiz foi agir como uma completa idiota.
– Norah – ela começa enquanto anda em círculos na tenda que fora montada em um dos pátios da igreja que serviria como deposito para feira – eu sei que você tem me evitado nesses últimos dias, e que nos encontramos aqui por acaso – ela pausa sua fala e naquele instante pousa seus olhos intensos sobre mim – eu não sei se vamos ter uma próxima conversa então...
– Eu não quero. – A interrompo.
– Não quer? – Ela parece confusa.
Engulo a seco e sinto minhas mãos suarem, a mesma sensação que tinha quando fazia exercícios de matemática, falar com Valentina me deixava tão nervosa quanto.
– Eu não quero me afastar de você, Valentina. Sei que fui uma completa idiota, sei que você tem todo o direito de me odiar. Mas eu peço. Não me odeie. Eu gosto de estar com você, e... – Valentina me interrompe com um abraço forte.
Sinto seu corpo morno contra o meu, e naquele instante eu posso sentir o quão bom é tê-la novamente tão perto de mim. Posso sentir meus olhos úmidos, mas diferente da primeira vez, agora eles eram de felicidades.
Ela havia sentido minha falta também.
– Me desculpa.
– Está tudo bem, Norah.
Sinto seu beijo no topo da minha testa e naquele momento me sinto aliviada por está ali novamente com Valentina. Saber que ela não me odeia era um alivio.
– Você não faz ideia como senti falta de falar com você. – Confesso enquanto estou envolvida em seu abraço.
Valentina fica em silencio, mas posso notar o sorriso que se forma em seus lábios, aquilo me faz sorrir também era tão bom está ali novamente.
Ouvimos passos vindos em direção à tenda, nos afastamos.
Era mamãe, ela trazia nas mãos algumas caixas com novos objetos, quando elas nos vê no meio daquela enorme tenda branca uma ruga se forma em sua testa.
– Norah, você está chorando? – Seu olhar materno intercala entre eu e Valentina.
Engulo a seco. Nego.
– Não. É que eu estou com a alergia do pó.
Minha mãe não parece muito convencida, de qualquer maneira encarou Valentina com um leve sorriso e indagou:
– Quem é sua amiga?
Olho para Valentina e percebo que ela também me olha, enfio as mãos no bolso da calça e digo:
– É uma amiga da escola. Valentina essa é a Noelle minha mãe. Mãe essa é Valentina.
A apresentação foi informal, mamãe abraçou Valentina com um abraço afetuoso e logo puxou assunto comentando sobre as obras que seu pai havia doado para igreja, Valentina explicou que as obras eram de autoria própria de Paul, o que deixou minha mãe ainda mais encantada.
– Não acredito! – exclama — Seu pai é um talento, querida. – minha mãe elogia em tom de admiração.
Valentina concorda sorrindo.
– Sim, ele trás o talento nas mãos.
As duas sorriem.
Aquilo foi tranquilizador, saber que minha mãe gostara de Valentina me deixou muito feliz. Talvez, com um pouco de sorte ela aceite se talvez eu estiver realmente gostando de Valentina.
Será que minha mãe aceitaria uma nora ao invés de genro? Penso com uma ruga na testa.
Alguns minutos depois Valentina se despediu, mas antes de ir ela me abraçou forte.
– Eu quero te ver mais tarde. – Sussurrou ao pé do meu ouvido.
Engulo a seco.
Como eu iria explicar para Valentina sobre a rotina rígida que exercia sobre minha casa? Que estava incluído avisar com um mês de antecedência as saídas ao fim de semana? Penso me sentindo frustrada.
Mesmo desiludida com a hipótese de sair, eu apenas concordei e acenei para ela até que ela desaparecesse por trás da tenda.
– Gostei da sua amiga, Norah. Simpática ela. – Comenta mamãe algum tempo depois.
Sorrio.
– Sim. Ela é.
Já passava das duas quando terminamos de organizar o deposito, a feira foi bem mais lucrativa que o esperado, certamente o dinheiro arrecadado com os fieis daria para fazer a reforma da igreja e ainda ajudar no orfanato. Mas a grande sensação da feira fora os quadros do pai de Valentina. Paul era talentoso, e isso despertara a atenção de muitos admiradores da arte ali presentes.
Estava colocando as caixas vazias no lixo quando a aparição surpresa de alguém não muito desejável aconteceu.
– Eu vi que sua nova amiguinha sapata estava por aqui.
Suspiro.
– O que você quer Belinda? Não basta na escola, agora tenho que aguentar suas piadinhas homofóbicas aqui também?
Tento me desvencilhar de suas provocações, mas já era tarde de mais.
– A tia Noelle está tão empolgada com as obras do pai dela – Belinda joga seu cabelo loiro para trás – sabe Norah, já imaginou se sua mãe descobre que a filha do brilhante pintor é uma lésbica louca para macular sua santa filha?
O tom de sua voz era hostil, era claro seu objetivo. Mas eu não cairia em suas provocações. Não hoje.
– Minha mãe não se importa com a sexualidade das pessoas, Belinda.
– Será mesmo, Norah? – Belinda me provoca.
– Me deixa em paz!
– Você é uma lésbica patética, Norah.
– Eu não sou lésbica! – Exclamo furiosa.
– Será mesmo, Norah?
Esbarro propositalmente em seu ombro deixo os fundos da igreja.
O dia já estava caindo quando eu e minha mãe estávamos prontas para deixar a igreja, papai não poderia vim nos buscar então pegaríamos carona com a Vilma uma vizinha que também frequentava a igreja.
Já estava convencida que Valentina havia se esquecido do combinado quando vi seu carro estacionar a poucos metros da onde estava. Minha mãe conversava distraidamente com Vilma e outros membros da igreja quando me aproximei.
Eu sabia que as chances de me deixar sair com Valentina eram quase nulas, mesmo que mamãe tenha simpatizado com ela era muito improvável que me deixasse sair. Eu sabia que um dos principais motivos seria papai. Mas eu precisava tentar.
– Norah, você sabe o que seu pai acha sobre saídas noturnas – alertou mamãe enquanto em fitava com seus olhos carinhosos, após um suspiro longo ela continuou – me promete chegar antes das dez?
Abro um sorriso sem conseguir acreditar no que havia acabado de ouvir.
Minha mãe tinha mesmo me autorizado sair? Sem ao menos pedir para papai? É talvez Valentina tivesse mesmo conquistado-a. Penso enquanto a abraço forte.
– Obrigada, mamãe. Prometo sim. E prometo me comportar. Obrigada, obrigada. – beijo seu rosto com carinho.
Acenando para mamãe eu corro em direção ao carro de Valentina que me esperava.
Pela primeira vez em toda a minha vida eu me sentia livre, pelo menos livre dos olhos severos de papai.
Eu não sabia ao certo o que aquela noite estava reservando para mim, de qualquer forma eu sentia que o destino estava ao meu favor.
Pelo menos aquela noite.
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