Amor & Preconceito

6 Capitulo V - Just Love


Notas iniciais
Espero que gostam. Obrigada a todos pelos comentários. Uma boa leitura!

Todos estavam sentados diante da mesa – um verdadeiro banquete na verdade – suflê, variedade de saladas, aspargos grelhados, pão, vinho e suco.

A namorada de Paul era maravilhosa; lindos olhos castanhos intensos, pele aveludada e morena, cabelos ondulados para baixo do ombro, sua beleza era de origem brasileira – isso explicara suas curvas de causar inveja – seu sorriso era simpático, e sua companhia agradável – como todos ali na mesa.

Encaro por um tempo àquelas pessoas junto a mim, penso por um segundo se aquela fosse minha família – certamente algo distante da realidade, eu sei – eles conversavam sobre tudo, desde política até como o prato que Paul preparara estava saboroso – de fato, era o melhor suflê que já comera – eles tinham uma forma espontânea de conversar, eles tinham liberdade uns com os outros – algo que não existia em minha família.

– O que achou, Norah? – O olhar sereno de Paul estava sobre mim.

Estava no fim do meu prato, e certamente aquele era um jantar dos deuses, como diria minha falecida avó.

– Está tudo delicioso, senhor Paul – limpo minha boca com o guardanapo – Paul. – corrijo-me.

Ele abre um sorriso gigantesco e encara Valentina que estava ao meu lado, ela sorri concordando em silencio.

Cibele a namorada de Paul concorda e ainda acrescenta.

– Quando me mudo para cá? – todos riem – você está pronto para casar, baby.

Cibele lhe beija de forma afetuosa.

Respiro fundo.

Quantas vezes eu vi meus pais se beijarem diante de um jantar? Acho que nunca. As refeições lá em casa costumavam ser resumidas a breves diálogos.

Encaro Valentina e percebo que ela acabara sua refeição também, agora se servia de mais um pouco de vinho.

– Você quer? – Ela me oferece.

Nego com um leve sorriso.

– Onde você aprendeu a cozinhar bem assim? – Cibele alisava a mão de Paul de uma forma lenta, seus olhos o encaravam com carinho.

Paul assume um semblante pomposo, tentando parecer uma figura superior, o que causou risos de todos.

– Valentina odiava a comida da mãe, e eu fui obrigado a aprender – ele para por um instante e parece lembrar-se de algo engraçado – então, eu como um bom pai entrei em um curso de culinária, o que resultou essa alma culinária.

Ele ergue a taça em um brinde.

Sorrimos.

– Você é um artista em todos os sentidos – o olhar de Cibele tem malicia, meu rosto cora – meninas tampem os ouvidos.

Valentina sorri dando de ombros.

Por um momento penso se deveria mesmo tampar os ouvidos, me sinto uma idiota por pensar isso, mas lembro-me quando tinha oito anos e minha mãe me mandou tampar os olhos para não ver um casal se beijando no ônibus. Naquela época achei que o casal estava cometendo o pecado. Mas hoje eu sei que o pecado estava nos olhos de quem via em um gesto tão simples como o beijo algo ruim.

– Valentina já teve mais namoradas que eu, Cibele. Provavelmente ela é bem mais experiente que o velho pai.

Engulo a seco.

– Sério, Valentina?

– Sim. Algumas.

– Quantos anos tinham quanto namorou a primeira vez?

– Acho que doze anos. Era uma garota da equipe de natação.

O suco para em minha garganta, engasgo. Posso sentir as batidas de Valentina em minhas costas, meu rosto arde. Naquele momento sinto-me envergonhada pelo assunto.

– Você está bem? — Indagou Valentina preocupada.

Concordo em silencio.

– Valen, como era o nome daquela sua namora que sua mãe odiou?

Valentina abriu um sorriso e me encarou. Seus olhos estavam cautelosos em mim, como se esperasse qualquer reação minha.

Desvio o olhar.

– Era Yoga.

– Yoga? Tipo Yoga?

Todos riam, mas eu permaneci séria.

– Sim.

– Os pais eram orientais? – Cibele parece curiosa.

– Não. Eram apenas malucos. Mas ela foi uma boa namorada.

Valentina beberica seu vinho.

Encaro o relógio, já era quase nove da noite, eu precisava ir embora. Eu sei que estaria sozinha em casa essa noite, mas eu conhecia meus pais o suficiente para saber que me ligariam a cada cinco minutos. E se eu não atendesse eles voltariam para casa.

– Eu preciso ir embora. – murmuro sem jeito no ouvido de Valentina.

Ela me encara, sinto desapontamento em seu olhar.

– Aconteceu alguma coisa?

Nego em silencio. Mesmo sabendo que algo me incomodara naquela conversa, só não conseguia entender o quê exatamente.

– Já está tarde. Meus pais sempre ligam antes de irem dormir. – Explico com um meio sorriso.

Valentina empurra sua cadeira em silencio.

Encaro Paul e Cibele com um sorriso, aquelas pessoas eram tão diferentes de mim, da minha realidade certa demais. Ao mesmo tempo eu sentia afinidade com eles, como se no meu subconsciente eu quisesse pertencer aquele lugar.

– Obrigada pelo jantar, Paul – dou a volta na mesa e ele levanta-se para se despedir – foi um prazer conhecê-lo. – Ele beija meu rosto.

– Volte sempre querida. Amiga da Valentina é minha amiga também.

Cibele também se despediu, seu abraço era afetuoso e acolhedor. Por um instante pensei em não ir embora. Queria permanecer naquele mundo.

– Até logo!

Anunciou Paul e Cibele acenando da porta.

Desvio o olhar e sigo para o Mustang de Valentina, entro logo depois dela.

***

A noite era negra e fria, a lua estava escondida por trás da neblina gelada e sombria.

Enquanto Valentina guiara o carro em silencio em direção a minha casa, permaneci calada, meus pensamentos estavam confusos e distantes.

Sentia uma sensação estranha, nada do tipo “premonição” algo mais relacionado a um incomodo, mas eu não sabia dizer o que era.

Encosto minha cabeça contra o encosto do banco do carona e passo a observar Valentina, cabelo loiro levemente revolto, franja, olhar centrado no caminho escuro pela noite, seu corpo parecia relaxado enquanto guiava o carro.

Por um momento eu pensei sobre aquilo que seu pai falara “suas namoradas”, ela devia ser mesmo experiente.

Será que ela já tivera feito sexo com alguma delas? Mas é claro! Que pergunta boba, Norah.

Aperto meus dedos contra minha nunca.

– Quando você descobriu? – não encaro Valentina nos olhos.

– O quê? – Indagou sem saber.

– Você sabe – a encaro e naquele momento sinto-me uma intrusa – que gostava de – engulo a seco – garotas.

Valentina suspira. Aperta as mãos no volante e naquele instante sinto vontade de abrir a porta e me jogar para fora do carro.

Por que eu Norah Carter sempre faço as melhores pergunta?

– Eu sempre soube de alguma maneira...

– Como? – A interrompo.

Valentina dar de ombros.

– Sei lá. Todo mundo sabe, alguns são claros desde pequenos, já com outros levam um tempo – Valentina dá uma pausa – eu tinha sete anos quando tive minha primeira experiência homossexual.

Valentina me olha, minha surpresa estava estampada em meu rosto.

Sete anos? Naquele instante me sinto a santas das santas.

Valentina riu ao perceber meu espanto.

– Calma. Não é nada do que está pensando. Eu apenas tive uma paixonite por uma garota da pré-escola.

Engulo a seca e desvio meu olhar para as ruas escuras e silenciosas.

– Você se incomoda?

– Com o quê? – Indago.

– O fato de gostar de garotas. Isso afetaria nossa amizade?

Engulo a seco.

Não sei. Talvez meus pais me comeriam viva, ou me queimariam em uma fogueira ardente se descobrissem.

– Claro que não.

Suspiro.

Sinto algo estranho invadir meu peito, era agonizante.

Respiro fundo.

Valentina volta a dirigir.

Quinze minutos depois estávamos em frente a minha casa, a fachada estava escura, provavelmente nem Jordan ou meus pais estavam em casa – o que fora um grande alivio.

– Então, nos vemos amanhã?

Concordo em silencio enquanto alisava meus dedos na barra da camiseta.

– Obrigada por hoje. Pelo jantar.

Valentina sorri.

– Não precisa agradecer. Você tem sido legal comigo, Norah.

Pressiono os lábios encarando-a, seu olhar transmitia sinceridade.

– Boa noite, Valentina.

– Boa noite, Norah.

Sinto seus lábios tocarem meu rosto, seu beijo me causa aceleramento cardíaco, sinto que meu coração vai sair pela boca.

Afasto-me abrindo a porta do carro.

– Até logo.

– Até.

Desço do carro e corro em direção à entrada da minha casa, olho para trás e posso notar ela dando ré em seu carro. A noite havia chegado ao fim, mas a sensação estranha no peito não.

Como já era esperado, ninguém em casa, mas isso não significava que mamãe não havia se preocupado, havia milhares de mensagem no correio de voz do telefone.

“Querida atende!”

“Você já se alimentou?”

“Fez o dever?”

“Estamos com saudade.”

“Norah, não vai dormir tarde.”

“Você já deve estar dormindo. Boa noite. Amamos você.”

Assim que termino de ouvir as mensagens, subo para meu quarto. Precisava descansar o dia amanhã seria longo. E minha cabeça estava confusa demais por hoje.

Como podemos saber se gostamos de meninas ou meninos?

Quer dizer, desde que nascemos isso já sé pré-determinado em nossas vidas. Meninas usaram vestidos e gostaram de meninos. Meninos brincaram de bola e gostaram de meninas.

Mas e quando alguém não se encaixa nesse patrão estabelecido? Quando alguém se sente atraído por alguém do mesmo sexo, será mesmo pecado? A minha vida inteira me ensinaram que garotas deveriam se comportar como garotas, isso significava gostar de garotos e serem moças direitas para que pudessem ter um bom casamento futuramente.

Mas será mesmo que toda garota almeja o casamento? Minha mãe sempre disse que certas coisas nunca mudariam. Mas quem poderia ter certeza? O mundo esta em plena mudança o tempo todo. E porque padrões não podem ser mudados? Seria tão errado assim não gostar de garotos? Valentina era uma pecadora aos sete anos? Quando descobriu que se sentia atraída por garotas? Eu serei uma santa por nunca ter beijado ou transado com um garoto? Quem poderia dizer? Eu não me considero uma santa por nunca ter me deitado com um garoto. Isso só me torna uma garota menos experiente. Não uma santa. Gostar de pessoas do mesmo sexo, não deveria ser pecado.É apenas amor.

Just Love.

Norah, Carter.

Notas finais
Eai? O que acharam? Até o próximo capitulo!