Amor & Preconceito
5 Capitulo IV - Sonhos são apenas sonhos?
Notas iniciais
– Quantos anos você tem, senhorita Carter?
– Dezesseis.
– Você gosta de garotos?
– Toda garota gosta, né?
– Já esteve com algum garoto?
– Não...
– Você gosta de garotas?
– O quê?!
– Você é lésbica, Norah Carter?
– Querida, acorda!
A voz de mamãe interrompe meu sonho, abro os olhos lentamente e resmungo um bom dia repleto de preguiça. Mamãe me encara com carinho e se aproxima.
– Eu vou sair agora pela manhã – mamãe me dá um beijo – deixei o café para você e seu irmão pronto. Eu e seu pai pretendemos voltar ainda hoje de Salem. Mas se caso não acontecer, prepare algo rápido e leve para o jantar.
Abro um meio sorriso.
– Tudo bem.
– Amo você, querida.
– Amo você.
Mamãe sai.
Mensalmente meu pai e minha mãe viajavam até a cidade de Salem – capital de Oregon – para resolver algum assunto referente ao trabalho social que eles faziam. Normalmente eu me virava bem sem a presença deles, e aquele dia não seria diferente.
Deixo minha cama pontualmente atrasada, certamente eu não teria tempo de sentar-se à mesa e saborear meu desjejum, então, apenas apanhei uma maçã e deixei a minha casa.
O carro de Valentina se encontrava em frente a minha casa, de repente, lembro-me do sonho que tivera pela manhã, e por algum motivo sinto uma sensação de desconforto.
– Bom dia. – Ela diz em um tom amigável assim que adentro o carro.
Abro um leve sorriso.
– Bom dia. Obrigada por esperar – agradeci por conta da demora a vim ao seu encontro.
Valentina dar de ombros.
– Tudo bem. Eu nunca gostei de chegar pontualmente na aula.
Rimos.
Valentina arranca com o carro.
O percurso até a escola se torna silencioso, talvez nenhuma de nós tivéssemos muito o que falar. A final, éramos duas estranhas dividindo um carro. E talvez, nunca seriamos muita coisa, além disso.
Você é lésbica, Norah Carter? A lembrança do meu recém-sonho volta a assombrar meus pensamentos.
Sinto um cala frio percorrer meu corpo.
Que droga estava acontecendo comigo? Penso constrangida.
– Norah? – A voz de Valentina me causa susto, como se eu tivesse longe – Nossa – Valentina sorri – por um momento pensei que tinha se desligado desse mundo.
Balanço a cabeça e só então percebo que estávamos no estacionamento da escola.
Caminho ao lado de Valentina cruzando o estacionamento podia notar olhares em nossa direção. Comentários vindos de toda parte.
“Aquela não é filha do Pastor Gilbert?”
“Ela é amiguinha da lésbica?”
– As pessoas por aqui costumam ser tão receptivas com alunos novos? – Valentina indaga com tom de indignação e irônica na voz.
Nego em silencio.
– Não. Acho que as pessoas daqui são ovelhas de um rebanho de preconceituosos.
Valentina fica em silencio.
– Você faz parte desse rebanho?
Ela me encara nos olhos, e naquele instante não sei o que responder. De fato eu fazia parte daquele rebanho, mas eu não era como eles. Talvez eu fosse à ovelha negra.
Valentina parece esquecer-se do assunto quando adentra a sala do professor Osias.
– Elas chegaram juntas – pude ouvir o murmuro de Angelina para Belinda que me encara incrédula.
Sento em meu lugar habitual, e Valentina senta-se em minha frente.
Os cochichos só aumentam com o decorrer da aula, era tão estranho como as pessoas se preocupavam com questões tão pessoais. Por exemplo, qual é o problema de andar com a Valentina, as pessoas reagiam como se aquilo fosse o fim dos tempos.
Exagero eu sei. Mas era exatamente isso que as pessoas faziam. Elas exageravam.
– Abram o livro na página 98.
Sonhos
Hoje pela manhã tive um sonho incomum – na verdade, não sei dizer que foi incomum — foi algo longe da minha realidade. Talvez por isso eu esteja tão perturbada. Mas uma vez, minha mãe disse que os nossos sonhos são nada além de um reflexo da nossa realidade. Por exemplo; se eu vivo ou escuto determinada coisa, a chances de sonhar com algo relacionado a isso elevam bem mais. Por isso, o sonho talvez fosse uma reflexão dos últimos dias. Eu não devia minha preocupar com um sonho. Sonhos são apenas sonhos, afinal.
***
O dia na escola passou rapidamente, por mais incrível que pudesse parecer àquela manhã Belinda não me enchera a paciência com piadas ou insinuações – talvez estivesse ocupada demais com os ensaios do time de lideres. O que foi um alivio.
Só encontrei Valentina na hora do almoço, tivemos a refeição juntas e então nos despedirmos já que ela teria uma prova de Inglês e precisaria estudar.
O restante do dia fora banal; matemática, Educação Física, Física e grupo de leitura.
Caminhava apressada na direção ao carro de Valentina que já me esperara quando Belinda me abordou.
Talvez eu não tivesse tanta sorte assim.
– O que você quer? – Começo impaciente.
– Calma, Norah – Ela responde com um sorriso – eu só vim lhe avisar que meus pais ligaram. Eles passaram a noite em Salem, assim como os seus. Bem, eles pediram para você dormir na minha casa. Então, eu vim fazer o convite.
Por um instante a minha vontade foi vomitar boas verdades para Belinda. Quem ela pensa que é? Para Belinda as pessoas eram fantoches. Penso embravecida.
– Eu não quero. Vou estudar. – Falo secamente.
Belinda dá de ombros.
– Tudo bem. Até logo, Norah.
Belinda gira seus calcanhares e segue para o outro lado do estacionamento.
Suspiro.
Continuo meu percurso em direção ao carro de Valentina.
Adentro ao carro, Valentina esta ao telefone, então apenas sorri para mim. Retribuo.
– Sim pai, eu sei – Seu tom de voz é divertido, ela parecia estar tento uma conversa agradável – você sabe o quanto eu gosto de comida japonesa, mas eu me contento com um suflê com legumes. Tudo para impressionar sua nova namorada. Eu sei.
Ela ri.
– Tudo bem. Eu preciso desligar, a Norah chegou.
Ela me encara com um sorriso.
Retribuo sem jeito.
– Beijo. Te amo.
Ela desliga e coloca o celular no bolso da blusa.
– Era meu pai ao telefone – explicou-se enquanto dava a partida no carro – ele estava no supermercado indeciso sobre o que comprar, já que a namorada dele é vegetariana.
– Jantar de apresentações?
Valentina me olha com um sorriso.
– Sim. Exatamente isso. Você gosta de suflê?
– Sim. Eu adoro. Minha mãe faz um suflê delicioso.
– O meu pai também. Eu não sou muito boa nessa coisa de cozinhar. Então ele é minha salvação.
Valentina suspira aliviada.
– Eu cozinho bem até. Aprendi muita coisa com minha mãe. Hoje eu vou colocar minhas habilidades em pratica. Meus pais estão fora da cidade.
Valentina me olha enquanto cruzamos um farol.
– Seus pais não voltam hoje?
Nego em silencio.
– Você quer jantar conosco? – Ela pareceu animada com o convite – meu pai cozinha muito bem. Eu tenho certeza que você irá adorar.
Abro um sorriso.
Claro que o convite me deixara surpresa, de fato não esperava ser convidada para um jantar, ainda mais por Valentina – mal nos conhecíamos – sei que poderia ser gentileza da sua parte.
Mas, não seria nenhum problema aceitar, afinal, nunca gostei de fazer minhas refeições sozinhas, e se bem conheço meu irmão, ele não estará em casa para o jantar.
E meus pais só voltariam pela manhã.
Sorrio.
– Pode ser.
Valentina me olha, parecia feliz por minha concordância.
Mudando o percurso Valentina começo a seguir ruma a sua casa.
Quinze minutos após, paramos em frente a uma aconchegante casa na cor areia, tinha uma vegetação viva ao seu redor – logo se nota o bom gosto para decoração – cadeiras de balanço e um pufe decoravam a varanda.
Valentina parou seu carro ao lado de uma BMW na cor preta — seja lá o quão falido seu pai fosse seu padrão de vida certamente ainda era alto.
Saímos do carro e seguimos em silencio para dentro da casa, quando Valentina abriu a porta e me convidou para entrar, certamente me faltou o ar, sua casa era magnífica. A sala era ampla e bem arejada, havia pinturas nas paredes – contemporâneas, presumo – uma linda lareira revestida com granito, um piano branco no centro da sala, um sofá também na cor banca e um lustre elegante, e uma escada – estilo colonial – certamente quem decorara aquela sala gostava de misturar o contemporâneo com o clássico.
– Fique a vontade – Valentina sorri colocando sua bolsa no sofá – pai? – Ela chama pelo homem. Mas não obtém resposta.
– Você toca? – Indago me referindo ao piano.
Valentia sorri.
– Eu costumava tocar quando mais nova – ela parece ir longe com as lembranças – mas hoje eu não toco mais.
– Que pena. Eu iria adorar ouvi-la tocar.
Sorrio para Valentina, alisando o piano com as pontas dos dedos.
Sinto o olhar quente de Valentina sobre mim, meu corpo arrepia-se – e eu não consigo entender o porquê.
Sento-me no sofá e passo a contemplar a casa em silencio, pela vidraça da sala eu posso notar a grande piscina aos fundos da casa, iluminada por luzes acessa ao seu redor. Certamente era uma bela piscina, uma bela casa.
– É. Acho que meu pai ainda está perdido no mercado – Valentia sorri – vamos comer algo.
Ela caminha para cozinha e eu faço mesmo.
A cozinha era ainda mais luxuosa que a sala, uma ilha em granito preto encontrava-se no centro da cozinha, panelas em inox penduradas alinhadamente em cabos de metais, uma pequena bancada com bancos em inox, um armário embutido nas cores preto e inox fazia parte da decoração, geladeira também em inox, certamente era um belo cômodo. Muito mais luxuoso que minha modesta cozinha.
– A casa é herança do meu avô – começou a explicar Valentina enquanto pegava algo na geladeira – com a morte do meu avô, meu pai herdou sua pequena fortuna, sua casa fora e um pequeno negocio de carros.
Valentina sentou-se ao meu lado na bancada, serviu-me com suco natural sabor laranja.
– O que foi uma salvação para meu pai – Valentina suspira – Meu pai estava passando por um momento difícil. Estamos praticamente falidos.
– Eu sinto muito pelo seu avô.
Valentina meneia a cabeça em silencio.
– E a sua mãe?
Naquele instante noto o brilho no olhar de Valentina se apagar, como se falar sobre sua mãe a trouxesse lembranças ruins.
Sinto-me uma estúpida por perguntar.
– Ah, me desculpa. Eu... Nossa.
– Não – começou ela – está tudo bem. Minha mãe é uma idiota, mas ainda sim é minha mãe.
Ela parece realmente tristonha.
Alguém mexe na fechadura, logo depois a porta abre e fecha. Seu pai havia chegado.
– Querida? – Ele indaga da sala.
Valentina levanta-se e me convida para ir ao encontro do seu pai.
Mesmo sem jeito a sigo.
Minha única preocupação era se seu pai era tão rígido quanto o meu, eu esperava mesmo que não.
Quando cruzamos o corredor em direção à sala, nos deparamos com uma figura jovial, olhos azuis cabelo em um loiro revolto com alguns fios brancos indicando a idade avançada, o rosto era quadrado com leves rugas ao redor dos olhos.
Em uma das mãos ele trazia as sacolas de compras.
– Olha só – o sorriso do homem é amigável – temos visita para o jantar.
Sorrio.
– Prazer, senhor Hentz. Sou Norah Carter.
O homem em minha frente olha para Valentina com um sorriso surpreso nos lábios, Valentina desvia o olhar, mas logo a atenção do homem se volta para mim.
Seus grandes olhos azuis me fitam fixamente. Ele parecia realmente surpresa.
– Mas que prazer em tê-la aqui, Norah – ele estende sua mão livre – sou Paul Hentz, mas me chame apenas de Paul. Valentina falou muito sobre você. Fico feliz em ter vindo.
Encaro Valentina por um instante.
Ela falou de mim para seu pai? Penso surpresa.
Sinto meu rosto corar.
– É um prazer conhecê-lo.
– Pai, estamos com fome. – Começa Valentina interrompendo o nosso dialogo.
– Prazer em conhecê-la, Norah. Sinta-se em casa, logo o jantar estará pronto.
Paul se afasta indo em direção à cozinha.
Valentina me encara e por um instante e sinto algo no ar, um clima talvez estranho.
– Então você falou sobre mim para seu pai? – Começo em um tom descontraído a fim de amenizar o clima estranho que ficara.
Valentina desvia o olhar.
– Vou te apresentar o restante da casa. – Ela ignora minha pergunta.
Fico sem jeito e apenas concordo em silencio.
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