Amor & Pecado
38 Capítulo 38 - A Verdade - Parte II
Notas iniciais
Vanessa
Estou em estado de alerta, desde os acontecimentos da noite anterior não consigo me acalmar. Claudio saiu para o trabalho como se nada tivesse acontecido. Ontem após a saída de Marcos não trocamos uma palavra sequer, muito menos olhares. Meu peito está pesado como chumbo, uma parte de mim foi arrancada sem piedade. Sempre desconfiei da sexualidade do meu filho, porém jamais o trataria daquela maneira. Estou tentando manter a calma, pois tenho certeza de que ele está a salvo e confortável. Sinto que terei um confronto com Claudio, mais cedo ou mais tarde. Sou sua esposa e também tenho o direito de opinar, ainda mais em tal circunstância. Saio do quarto e dou uma volta pela casa para ter certeza de que Diane e Vinicius saíram, e como esperado, não encontro ninguém. Volto a subir as escadas e cuidadosamente abro a porta do quarto de Marcos. Letícia dorme profundamente em sua cama, com a feição tranquila, nem faz ideia de que estou ao seu lado. Abro lentamente as cortinas, deixando a luz natural do dia, banhar o ambiente. Paro ao lado da cama, novamente, e encaro a responsável de tudo o que aconteceu ontem. Levanto o edredom a deixando descoberta.
– Hmm... – Letícia resmunga.
– Letícia querida. Acorde. – Digo com meu tom de voz meigo.
– O que? – Ela pergunta ao franzir seu rosto angelical e abrir seu lindo par de olhos verdes.
– Levante. – Repito. Pouso minha mão delicadamente em sua nuca, afastando seus cabelos loiros.
– Está um pouco cedo, não acha? – Letícia fala sonolenta.
– Eu mandei levantar! – Grito ao puxar os cabelos longos da sua nuca, fazendo com que fique de pé rapidamente.
– Mas o que... – A interrompo com um tapa certeiro na face, a derrubando na cama.
– Levanta sua vadiazinha! – Grito. – Agora o acerto de contas é comigo! – Meu sangue ferve. Lentamente Letícia se levanta e no mesmo instante acerto seu rosto novamente, porém do lado oposto, fazendo com que ela caia de novo na cama. – Agora você vai aprender a ser gente, sua cretina. – A seguro pelo braço, o torcendo com força. Ouço gemidos baixos. – Não reclame da dor, senão farei pior! Você pensa que é quem, garota? – A encaro. – Te recebi em minha casa, cuidei de você e por sua causa meu filho é escorraçado pelo pai. – Solto seu braço e a puxo, novamente, pelos cabelos. Seu olhar transmite ódio puro, mas pouco me importa. Se ela está com raiva, eu estou com muito mais. A arrasto até o banheiro e abro o chuveiro na água fria. – Entre neste box e tome banho, você irá embora.
– Como assim? Claudio disse que eu ficaria aqui. – Seu tom é petulante. E mais uma vez acerto seu rosto com um tapa.
– Não perguntei a sua opinião, tampouco a de Claudio, afinal ele não está aqui. Entre logo! – Aponto para o box.
– Então saia. – Letícia diz em voz baixa.
– Não sairei. Ficarei aqui para ter a certeza de que você tomará banho frio. – Letícia hesita. – Anda logo, não tenho dia inteiro! – Grito.
Lentamente Letícia se despe e entra no box. Seu corpo estremece ao entrar em contato com a água.
– Cabeça debaixo d’água. – Ordeno. – Este seu cabelo está imundo. – Minto. Seu cabelo está extremamente limpo, cheiroso e macio. Mas quero contraria-la. A esponja com o sabonete é passada rapidamente pelo seu corpo. Sinto sua pressa em terminar o banho, pois a água está fria. Suas mãos encontram a embalagem de xampu. – Você pensa que irá lavar os cabelos com xampu? – Pergunto irônica. – Suas regalias nesta casa acabaram, minha querida. – Digo sorridente. – O sabonete em barra serve muito bem para lavar cabelo de vagabunda. Da um brilho “Ó” – Faço um gesto positivo com a mão. – Maravilhoso! – Minha ironia a afeta e pelo seu olhar, sinto o quanto está me amaldiçoando mentalmente.
Após o pior banho de sua vida, Letícia se enrola na toalha e volta para o quarto.
– Te espero lá embaixo. – Digo seriamente. – Não pense em fazer nada imprudente, como ligar para alguém ou tentar algo conta mim, pois tenho duas mãos com cinco dedos cada uma, para enfiar na sua cara e deixa-la do avesso. – Seus olhos se arregalam. – E não demore! – Bato a porta com força ao sair.
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– Nossa, que café forte! – Reclamo ao fazer cara feia e passar a mão nos lábios. – Preciso acordar e não ficar com dor de estômago.
– Nem está tão amargo. – Marcos ri suavemente.
– Enfim... Anda logo e me fala como chegou, ontem, na minha casa. – O encaro.
– Como havíamos nos falado apenas na parte da manhã, você estava de folga e eu com saudades. – Marcos me encara com um olhar doce. – Resolvi passar na sua casa, tinha certeza que seria bem recebido. Até eu chegar lá.
O céu está escuro e um temporal está se formando. Nunca pensei que passar um dia longe do Marcos me deixaria tão “depressivo”, espero que ele fique feliz em me ver, da mesma maneira que ficarei ao vê-lo. Viro a esquina de dois quarteirões abaixo da sua casa e a chuva começa a cair. Estaciono meu carro e desço.
– O que aconteceu Vanessa? – Pergunto preocupado. – Por que está chorando?
– Marcos! – Vanessa exclama e me abraça.
– Venha para dentro e me diga o que está acontecendo. – Envolvo Vanessa em meus braços e a levo para a garagem.
– Claudio expulsou Marcos de casa, ele sabe sobre vocês! – Tomo um choque de imediato, porém logo volto ao normal.
– E como isso aconteceu? – Pergunto tentando manter a calma, mas imaginar meu namorado ser escorraçado pelo pai, para fora de casa, me deixa muito irritado.
– Não interessa como aconteceu e sim que eu descobri essa pouca vergonha! – Claudio aparece aos berros. – Suma da minha casa seu viado desgraçado!
– Como é?! – O fuzilo com o olhar, já serrando meus punhos.
– Isso mesmo que você ouviu! VIADO! – Claudio grita mais uma vez ao acertar seu punho direito em meu rosto.
– Pelo amor de Deus, Claudio! Pare com isso! – Vanessa grita.
– Não faça com que eu perca a paciência Claudio! O que você fez com o Marcos? – Pergunto furioso, porém sem a intenção de revidar o golpe.
– Fiz o que deveria ser feito. Agora suma da minha casa, seu merda! – Claudio golpeia novamente, porém consigo desviar.
– Onde está o Marcos? – Grito. Neste momento observo Diane e Letícia observando a cena pela janela da sala de estar. Diane está aos prantos e Letícia com um leve sorriso de “vitória” no rosto. Vinicius passa por mim, correndo e sai chuva afora.
– Foi embora, vai atrás dele! Tenho certeza de que o viado do Vinicius também foi. – Claudio grita e seu punho vem em minha direção novamente.
– Em consideração a Vanessa e ao meu namorado, relevarei tais ofensas. – Falo tremendo ao segurar o braço de Claudio. – Qualquer coisa me liga Vanessa, acharei Marcos e o levarei para casa. – Solto o braço de Claudio, que decide não tentar me agredir novamente.
– Tudo bem. – Vanessa fala ao enxugar as lágrimas.
Entro no meu carro e subo a rua. Provavelmente Marcos está há alguns minutos à frente. Rapidamente, em uma esquina, avisto Vinicius segurando alguém. Marcos! Puxo o freio de mão, do veiculo, bruscamente e desço. Meu sangue está fervendo e sinto o martelar do meu coração nos ouvidos, ao ver tal cena. Vinicius beijando Marcos.
– Eu te amo, Marcos! Não importa o que aconteça, sempre irei te amar. – Vinicius diz.
– Você pode ama-lo, mas no momento ele me pertence, seu babaca! – Rosno ao afasta-lo de Marcos e acerta-lo com um soco.
– Parem! – Marcos grita.
Vinicius se recompõe e me acerta com um golpe, forte, na boca do estômago. Mantenho-me firme e rapidamente lhe dou uma rasteira, o deixando no asfalto. Para garantir que ele não levantará, tão facilmente, chuto sua região pélvica, atingindo seu saco escrotal. Ele urra de dor e tomo Marcos em meus braços.
– O que está fazendo aqui? – Marcos pergunta confuso.
– Longa história. Vamos, te levarei para minha casa. – Respondo.
O levo para o meu carro e seguimos em direção a minha/nossa casa.
– Deseja mais algum detalhe? – Marcos me fita.
– Não, chega desse assunto. – Me levanto da mesa e sigo em direção a pia. – Não acredito que meu pai te bateu. – Meu coração está em migalhas pelo acontecido e por imaginar minha mãe chorando.
– Eu relevei Marcos. Você deveria fazer o mesmo. – Sou tomado, por trás, por seus braços longos e fortes. – Deixe essa louça ai, tenho empregadas exatamente para lava-las. – Seus lábios encontram meu ouvido.
– Isso soou de forma rude, mas mesmo assim gostei. – Viro-me para trás para ficar de frente com Marcos. – Agora temos que nos arrumar para o trabalho.
– Não iremos trabalhar hoje. – Marcos afirma.
– Quem disse? – Pergunto.
– Eu, meu amor. – Marcos me aperta contra seu corpo e me rende com um beijo cheio de posse e sedução.
– Se não iremos trabalhar hoje, o que faremos então? – Pergunto com certa malicia ao término do beijo.
– Exatamente isso que a sua mente “suja” pensou. – Os olhos de Marcos escurecem ao terminar a frase.
– Olha só! Meu namorado está muito “safadinho” hoje. – Rio.
– Você não viu nada. – Marcos diz ao morder o lábio inferior, me colocar em seus ombros e sair em direção ao seu quarto.
– Me coloque no chão! – Grito, rindo, e batendo em suas costas. Estou perplexo com sua força, eu não sou tão leve assim, para me colocarem nas costas e saírem andando. Ao passarmos pela sala de estar, Cleuza me olha de forma engraçada, do tipo “Hoje tem...” e esboça um sorriso. Em retribuição, apenas reviro os olhos.
– Só te colocarei no chão quando eu quiser. – Marcos gargalha ao subir as escadas. Confesso que estou ansioso pelo que está por vir, afinal, nunca vi Marcos tão determinado como agora.
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Vanessa
– Traga suas malas. – Digo rispidamente ao descer do carro.
– Não posso carrega-las. Estão pesadas e estou grávida. – Letícia argumenta.
– O problema é único e exclusivamente seu. As tire do meu carro, pois se estiverem aí quando eu voltar para casa, pode ter certeza que as atirarei na primeira caçamba de entulho que eu ver no caminho. – Retruco. Abro o portão da casa de Márcia, passando pelo pequeno jardim e toco a campainha, ao lado da porta. Olho para trás e me certifico que Letícia está trazendo suas malas.
– Vanessa?! Bom dia! – Márcia me recepciona calorosamente. – Que surpresa!
– Bom dia! – Digo secamente. – Podemos entrar?
– Podem. – Márcia desmancha o sorriso ao ver Letícia, que está vindo em nossa direção.
A casa de Márcia está com os móveis cobertos por plásticos grandes e grossos. Algumas ferramentas estão espalhadas pelo cômodo e me deparo com dois homens de roupa surrada e suja subindo as escadas.
– Está em reforma? – Pergunto automaticamente.
– Sim, aproveitei que Letícia estava fora de casa, com Vinicius, e decidi fazer algumas mudanças.
– Vim falar exatamente sobre sua neta, Márcia. – Mais uma vez olho para trás e vejo que Letícia já trouxe todas as suas malas e encontra-se com a feição séria. – A trouxe de volta.
– Como assim, você a trouxe de volta? – Márcia parece confusa. – Quem a levou foi Vinicius. Ele pediu que eu permitisse que ela ficasse alguns dias na casa dele, enquanto eu faço minha reforma.
– Você está tentando enganar quem? – Pergunto irritada. – Você sabe muito bem que os bens dos Carminatti foram bloqueados devido à prisão do André e que Diane, Vinicius e Letícia estão na minha casa.
– Não! Eu não sabia de nada disso. – Márcia parece surpresa. – Você está bem minha querida? – Ela pergunta a Letícia.
– Está vendo Vanessa? É por isso que a odeio tanto, ela me expulsou desta casa. Obrigou a Vinicius me levar e agora se faz de desentendida. – Letícia passa as mãos pelos cabelos loiros impacientemente.
– Fique quieta. – Respondo. – Vim aqui para falar com Márcia e deixa-la avisada de que para minha casa você não volta.
– Não estou entendendo nada. – A feição de Márcia é de quem realmente está confusa e isso me irrita cada vez mais.
– Vou explicar para você Márcia. – Digo a encarando. – Não sei por qual motivo você odeia esta garota. – Aponto para Letícia. – Confesso que eu também a odeio e que nesses poucos dias que ela ficou em minha casa, ela conseguiu destruir minha família, literalmente falando. O que aconteceu lá, não vem ao caso. Não a quero com minha família e como Diane e Vinicius estão temporariamente em minha casa, estou a trazendo para cá. A obrigação também é sua, e o fato dela estar grávida não lhe da o direito de expulsá-la de casa, mesmo ela não valendo nada.
– Eu não a odeio. – Diz Márcia. – Eu não sabia da situação de Vinicius e Diane, jamais deixaria minha querida neta, assim a “Deus dará”.
– Ótimo! Recado dado e muito bom dia para ambas. – Caminho firme em direção à porta.
– Vanessa, por tudo o que é mais sagrado não me deixe aqui. – Letícia agarra o meu braço com força. – Essa velha maldita vai acabar comigo, você sabe disso.
– O que acontecerá com você daqui para frente não é da minha conta. – Digo ao colocar a mão na maçaneta.
– Sua velha desgraçada, mentirosa! – Letícia grita. – Você me colocou para fora desta casa, é impossível agora me querer de volta.
– Por que está tão exaltada minha querida? – Márcia pergunta a Letícia. – Se acalme, cuidarei de você.
– Mentirosa! – Letícia grita cada vez mais alto. – Você nunca, nunca, cuidou de mim. Sua velha dissimulada e nojenta! – Letícia começa a desabotoar a pequena camisa que está vestindo e a tira, ficando apenas de soutien, da cintura para cima. – Veja isso Vanessa! Essas marcas nas minhas costas. – Letícia chora. – Essa velha é a culpada. Aos meus oito anos, ela me prensou em uma cerca de arame farpado, apenas por ter deixado cair sopa em seu sofá novo. Imagina o que ela fará comigo grávida!
– Como assim?! – Pergunto espantada com as marcas. Quando ordenei que Letícia tomasse banho, eu estava tão cega de raiva, que não as reparei.
– Ela que fez isso comigo Vanessa! – Letícia fala em meio às lágrimas. – Por favor, não me deixe aqui. Perdoe-me por ontem, farei qualquer coisa para trazer Marcos de volta, mas não me deixe aqui.
– Lave essa sua boca suja antes de falar o nome do meu filho, sua nojenta! – Meu corpo treme ao falar.
– Essa garota desde pequena tem o dom de acabar com a vida das pessoas. – Márcia fuzila Letícia com o olhar mais carregado de ódio e desprezo que eu já vi na minha vida. – Tudo o que fiz com essa peste foi por merecer.
– Não! Eu não mereci! – Letícia chora cada vez mais. – O que eu te fiz? Me diga o que eu te fiz?
– Você matou o meu único filho! – Márcia grita como se estivesse descarregando um peso mantido por anos dentro dela. – VOCÊ MATOU MEU FILHO, SUA PESTE! – Márcia da mais ênfase ao repetir a frase, me deixando arrepiada.
– A culpa não foi minha vovó! – Letícia chora e ao dizer “vovó” nos remete há anos atrás, na época em que seus pais morreram no acidente de carro. Confesso que ao presenciar essa cena, meu coração lateja por Letícia. Ela era apenas uma criança.
– Se você não tivesse pedido para ir para aquele maldito Parque Aquático, com toda certeza meu filho estaria aqui comigo, sua praga! Sua praga! – Márcia aponta o indicador para Letícia, a acusando. – Você e sua mãe deveriam ter morrido no lugar dele!
– Márcia, não diga uma coisa dessas! – A repreendo. – Letícia é uma parte viva do Guilherme, você deveria trata-la como uma filha.
– Nunca que essa praga é uma parte do meu Guilherme. – Márcia fecha os olhos com força e pousa a mão direita em seu peito, como se acalmasse a dor. – Letícia é igualzinha a Daniela, sempre pensando em si própria. Passando por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer.
– Márcia, vamos respeitar a memória de Guilherme e Daniela. – Digo calmamente. – Tente reconstruir uma relação com sua neta, afinal, vocês só tem uma à outra e pense que um bisneto está por vir, uma criança sempre traz alegria. Como eu já disse, Letícia é uma parte do Guilherme que está aqui com você.
– Cale a boca Vanessa! – Márcia abre seus olhos ao gritar. – Você sabe muito bem que essa praga não é filha do Guilherme e somente daquela vaca da Daniela.
– Como é? – Letícia pergunta atordoada.
– Você só pode estar brincando comigo, não é Márcia? – Meu coração se aperta e um turbilhão de memórias, que eu havia demorado anos para se apagar, volta a minha mente.
– Não estou brincando Vanessa. – Márcia me encara. – Você com certeza está se lembrando de alguns fatos, não é? – Márcia abre um meio sorriso.
– Márcia se isso for realmente verdade, porque está contando tanto tempo depois? – Pergunto atordoada.
– Porque ainda eu não havia sentido a necessidade. Mas a hora chegou e posso afirmar que o lugar da Letícia é na sua casa, Vanessa, juntamente com o pai dela. – Márcia me encara.
– Como é? – Letícia pergunta. – Alguém me explica o que está acontecendo?
– Irei explicar minha querida. – Márcia encara Letícia. – Sua mãe era uma vagabunda, que traia meu filho. Faltando um mês para o casamento de ambos, Guilherme descobriu a traição e também o fruto dela, uma gravidez, que no caso é você. – Meu corpo enrijece e Letícia parece perder o ar, de tão imóvel que se encontra. – Porém Guilherme a perdoou e acabou assumindo o filho de outro homem.
– Então eu não sou filha do meu pai? – Letícia pergunta ao encarar um retrato de Guilherme, em cima da mesa de centro da sala de estar. – Quem é o outro homem? Quero dizer, meu pai?
– Acho que você sabe quem é não é mesmo Vanessa? – Márcia pergunta petulante.
– Talvez... – Minha voz fala. Estou extremamente fraca, com tal situação. – Talvez seja o Claudio.
– O Claudio? – Letícia pergunta incrédula.
– Mais ou menos dois anos após meu casamento, quando eu e Claudio já estávamos aqui em São Paulo, descobri que ele me traiu com a sua mãe, Letícia. – Digo secamente. – Porém o perdoei e tenho plena certeza de que essa foi a primeira e última vez que isso aconteceu. Mas não passava pela minha cabeça que você poderia ser filha dele, pois quando sua mãe casou-se com Guilherme, ela não aparentava estar grávida.
– Não aparentava, pois a gravidez era de semanas e aos olhos dos demais, Daniela engravidou logo quando se casou.
– Claudio sabe disso? – Pergunto a Márcia.
– Sim. – Responde.
– Por isso ele disse que eu ficaria em sua casa, mesmo depois de tudo o que aconteceu. – Letícia refere-se a mim.
– Ele se desfez de um filho para acolher outro. – Cuspo as palavras. – Isso é inadmissível. – Meus olhos enchem d’água.
– Isso quer dizer que eu e Marcos somos irmãos?
– É o que parece. – Digo.
– Não é o que parece. Letícia e Marcos são irmãos sim. – Márcia afirma. – Se ambas poderem se retirar, eu agradeceria. Tenho muito que fazer.
– Não pense que tudo será esquecido Márcia. – Digo. – Letícia é filha do Guilherme no papel.
– Não por muito tempo. – Diz Márcia. – Duvido que após tudo isso, Claudio não irá querer declarar sua paternidade.
– Não mesmo.
– É o que veremos. – Márcia sorri.
– Vamos Letícia. – Digo pesarosamente. – Te odeio, mas essa louca te odeia mais. Se tudo isso for verdade, terei que me acostumar com a sua presença em minha casa. – Letícia me segue ao sair pela porta com suas malas na mão.
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Sua última estocada é forte e faz meu corpo todo tremer. Sinto não só o seu corpo grande, forte e suado grudado no meu, mas também seu membro dentro de mim, despejando todo o seu desejo e prazer. Marcos ofega de forma sexy em meu ouvido, mostrando que está no comando. Os movimentos rápidos, de uma de suas mãos, em meu membro, me faz alucinar quando chego ao clímax. Sem dúvida alguma, hoje ele acordou safado e com muita vontade de mostrar quem manda na cama. Admito que ainda estou surpreso, pois sou acostumado com seu lado gentil e compreensivo. Mas esse seu lado selvagem também me excita e me leva a loucura. Marcos sai de dentro de mim e cai na cama. Faço o mesmo.
– Ter você de quatro é bom demais. – Marcos diz, entre beijos.
– E esse seu lado pervertido também. – Rio. – Sem dúvida alguma, essa foi a melhor transa da minha vida.
– Lhe darei várias melhores transas da sua vida ainda, meu príncipe. – Marcos sorri.
– Estou ansiando por mais. – Digo corando.
– Que ótimo. – Marcos me puxa para si e apoia seu queixo em minha clavícula, fazendo com que fiquemos de “conchinha”. – Quer fazer o que mais tarde?
– Tenho que ligar para minha mãe. – Digo.
– Eu sei. Mas eu quis dizer, o que você quer fazer a noite. Sair, ficar em casa, transar? – Marcos ri suavemente.
– Poderíamos ir ver a Deborah, no restaurante, e jantar por lá. O que acha? – Pergunto.
– Boa ideia, mas gostaria de fazer algo somente com você.
– Então escolha o lugar e me surpreenda. – Falo.
– Pode deixar.
Ficamos em silêncio, por alguns minutos e logo adormecemos.
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Vanessa
O “Tic tac” do relógio é tudo o que se pode ouvir na casa toda. Letícia fita o nada e a cada três segundos, uma nova lágrima escorre pela sua face. As minhas já secaram há anos atrás, ao descobrir a traição de Claudio. Neste momento o que me resta é ódio. Sim! Puro ódio! Descobrir que Letícia é o fruto de tal traição e saber que ele sabia disso, faz com que eu reviva a dor do passado, ampliada mil vezes. Diane e Vinicius ainda não chegaram e realmente não me importo com isso. O acerto de contas é com o meu marido, se é que posso ainda chama-lo dessa maneira. Desde que voltamos da casa de Márcia, eu e Letícia não trocamos uma palavra sequer e após toda essa confusão, passei a observa-la de maneira diferente. Não estou falando de simpatia, mas compaixão. O que ela fez com Marcos ontem não tem perdão, porém tento afastar tal ressentimento porque sei que ele está bem. Ao falar com ele no começo da noite, foi perceptível sua tranquilidade com a situação e sua preocupação comigo. Marcos é um filho adorável e nada fará com que eu mude de opinião. O som do portão se abrindo me deixa alerta e Letícia arregala os olhos automaticamente.
– Boa noite! – Diane e Vinicius falam em uníssono.
Eu e Letícia permanecemos quietas, ignorando totalmente ambos.
– Vanessa, quero avisa-la que nós três estaremos nos mudando amanhã pela manhã. Consegui alugar dois cômodos perto do trabalho e gostaria de agradecer sua hospitalidade. – Diane fala educadamente, porém em um tom seco.
– Tudo bem. – Respondo.
– Que malas são essas Letícia? – Vinicius pergunta.
– Longa história. – Responde abatida.
– O que está acontecendo? – Diane pergunta.
– Por favor, Diane. – Letícia pede. – Deixe eu e Vanessa em paz.
– Tudo bem. – Diane responde com um tom ofendido. – Já vi não somos mais bem vindos nessa casa. Vamos arrumar nossas coisas Vinicius. – Ambos sobem as escadas cochichando. Estou pouco me importando com eles. Minha vida virou de ponta cabeça nas últimas vinte e quatro horas. Ainda não parei para imaginar a reação de Marcos ao descobrir que Letícia é sua irmã. Meu Deus! Marcos sempre teve aversão a essa garota.
Sem que percebêssemos a porta da sala de estar se abre e Claudio aparece.
– Boa noite Letícia. Tudo bem? – Ele pergunta como se eu não existisse.
– Pergunte a Vanessa. – Letícia responde ao esconder a face entre as palmas das mãos.
– O que você fez com ela? – Claudio me pergunta.
– E o que você fez com a nossa família? – Respondo o questionando.
– Não é hora para questionamentos relevantes Vanessa. – Claudio parece impaciente. – A garota está grávida. O que aconteceu?
– Aconteceu que a verdade veio à tona Claudio. – Digo ao me levantar do sofá.
– Do que você está falando? – Claudio me encara.
– De que você é pai desta garota! – Grito. Meu sangue está quente e o sinto passar pelas minhas veias em uma velocidade incrível. Já Claudio fica pálido no instante que eu fecho a boca. Seus olhos se arregalam e percebo que está engolindo em seco. – Fale alguma coisa! – Grito mais alto. – Percebo Diane e Vinicius no topo da escada, ligados em cada palavra dita por mim.
– Quem te disse isso? – Claudio pergunta.
– Márcia! Quem mais? – De certo minha feição deve estar assustadora.
– Vanessa, me escute. Na época eu tentei te falar e...
– CALA A SUA BOCA! – Grito o mais alto possível. – Você colocou o nosso filho para fora de casa, pelo simples fato dele ser gay, mas escondia uma bastarda como filha há anos! – Aponto o dedo para Claudio que se afasta. – Você é baixo e nojento! – Cuspo as palavras.
O silêncio pesa e em fração de segundos os olhos de Claudio enchem d’água. Letícia não se contém e começa a chorar desesperadamente e não a culpo. Ela pode ter todos os defeitos do mundo, porém foi muito maltratada pela avó durante a sua infância e tinha a certeza de que Guilherme era o seu pai.
– Posso falar? – Claudio diz pausadamente, medindo as palavras. Eu apenas faço um movimento afirmativo com a cabeça, pois estou tão nervosa que minhas cordas vocais estão congeladas. – Eu sabia que Letícia era minha filha, porém o acordo entre eu e Guilherme me proibia de trazer isso à tona e após a morte dele não quis descumprir minha parte do acordo, pois o levei muito a sério.
– Você fez um acordo com Guilherme e não me falou? – O fuzilo com os olhos.
– Você não poderia saber da gravidez, Vanessa. – Claudio segura as lágrimas. – Nosso casamento quase acabou por causa dessa traição. Não poderia correr o risco de te perder dizendo que a filha de Daniela também era minha! – Claudio agora chora.
– Que acordo?! – Letícia se levanta e para entre eu e Claudio. – Me expliquem, pelo amor de Deus!
– Eu vou te contar Letícia, porém desde o começo. – Digo. – Eu e Claudio vivíamos no Espírito Santo. Casamos-nos em Maio de noventa e dois. Como nossa vida estava complicada em nossa terra natal, nos mudamos aqui para São Paulo em noventa e três, no mês de Fevereiro. Em Maio do mesmo ano descobri que estava grávida. Comecei a fazer o meu pré-natal no Hospital São Luíz, aqui perto de casa. Lá conheci Diane que coincidentemente morava na rua debaixo. Entre várias afinidades, nossos filhos terem a data de nascimento para o mesmo mês e eu não ter ninguém da minha família aqui, ficamos amigas. Marcos nasceu em Janeiro de noventa e quatro, já em uma época boa, pois Claudio já estava trabalhando em um bom emprego e estávamos bem financeiramente. Vinicius também, fazendo com que eu e Diane ajudássemos uma à outra, na tarefa de ser mãe. Eu e Claudio começamos a frequentar a Igreja onde André era Pastor, no começo eu não gostava muito de ir, mas como Claudio insistia em não faltar aos cultos eu ia mesmo sem vontade alguma. Lá conhecemos Guilherme e Daniela, um casal de noivos prestes a casar no final do ano. Logo fizemos amizade com eles e consequentemente com Márcia. Com o passar dos meses comecei a notar que Claudio estava mais distante e muito fervoroso a Igreja. Não foi difícil descobrir o motivo. Em novembro do mesmo ano, um mês antes do casamento dos seus pais, flagrei Daniela e Claudio, juntos, em um barzinho do outro lado da cidade. Enquanto eu carregava meu filho de apenas nove meses no colo. Foi um baque terrível, não só descobrir que estava sendo traída, mas também por descobrir que envolvia uma “irmã” da nossa Igreja. Minha indignação foi tanta que não me resignei a contar para Guilherme que sua noiva era uma biscate. Porém seu amor por ela era tão grande que mesmo traído casou-se com ela. Acabei perdoando Claudio pela traição e deixamos de frequentar a Igreja, voltando, apenas, após a morte de ambos. – Ao terminar de contar os olhos de Diane, Vinicius e Letícia estão vidrados em mim. – Agora é a sua vez de contar os fatos Claudio. – Digo exausta ao sentar-se no sofá.
– Após Vanessa descobrir tudo e contar a Guilherme. – Claudio parece constrangido em tocar no assunto na frente de todos. – Ele me proibiu de se aproximar de Daniela, que descobriu sua gravidez, semanas após o ocorrido. Garantiu-me que mesmo a criança não sendo dele, assumiria e daria todo o amor, já que havia perdoado a traição também. Tentei contar a Vanessa, mas não quis por meu casamento em risco novamente. Ambos criaram muito bem você Letícia, até o dia do acidente. – A feição de Claudio se contorce levemente. – Meses depois Márcia me procurou, alegando saber de que você era minha filha e que era obrigação minha assumi-la, uma vez que seu filho não estava mais aqui. Eu disse que tinha medo da reação de Vanessa e chegamos a um acordo. Eu daria uma quantia “X” para a sua educação, enquanto ela te criava.
– Você pelo menos sabia dos maus tratos que eu sofria? – Letícia encara Claudio. – Você sabia que minha vida sempre foi um inferno ao lado daquela velha?
– Como assim? – Claudio pergunta.
– Veja. – Letícia desabotoa sua camisa e mostra as marcas finas e claras nas costas.
– Meu Deus! – Os olhos de Claudio estão como cachoeiras novamente. – Eu sabia que Márcia não gostava muito de você, mas não ao ponto de maltrata-la.
– Mas ela me maltratava e muito. – Letícia o encara.
– E como vocês descobriram isso? – Claudio me encara.
– Vanessa foi me “devolver” a ela hoje pela manhã e o assunto veio a tona. – Letícia murmura.
– Você estava colocando Letícia para fora de casa, mesmo sabendo que eu a queria aqui? – Claudio semicerra os olhos ao me encarar.
– Sim eu estava! – Me levanto. – E não ouse me repreender, pois você não está nestas condições. Foi por causa dela que você jogou nosso filho na rua. Nada mais justo de eu fazer o mesmo.
– Seu filho é um viado! – Claudio cospe as palavras.
– E sua filha uma biscate manipuladora. – Digo ao acertar seu rosto com um tapa carregado com toda a minha força. Seu corpo cambaleia e seus olhos fixam nos meus. – Não ouse revidar ou falar nada. Marcos voltará para essa casa amanhã.
– Não enquanto eu estiver aqui. – Claudio retruca.
– Então sinta-se a vontade para ir embora. Leve junto sua filha bastarda. – Digo ao me dirigir a escada. – O show acabou! Pode cada um caçar o que fazer, pois amanhã quero minha casa “limpa”. – Diane e Vinicius se entreolham e vão em direção ao quarto de Marcos e eu para o meu.
X
Vinicius
Não estou acostumado a morar em um lugar tão pequeno, mas não posso reclamar. Saímos da casa de Vanessa e Claudio há dois dias e estou aliviado por não estar mais lá. Depois de toda a reviravolta que aconteceu nos últimos dias às coisas estão meio que “estranhas”. Minha mãe está tentando me tratar normalmente, após a descoberta do meu namoro com Marcos, porém ainda não estamos como antes. Acredito que levará um bom tempo para que isso ocorra. O fato de saber que Marcos está com outro me corroí por dentro e se aquele babaca mauricinho pensa que me intimida por ter me deixado no asfalto, está muito enganado. Lutarei pelo que é meu. Mas hoje estou tentando deixar esses pensamentos afastados. Irei visitar meu pai no presídio e estou apreensivo quanto a isso. Como ele está? Como ele me tratará?
Estou me sentindo dentro de uma série de TV ou novela. A fila para entrar no presídio é imensa e formada, principalmente, por mulheres. O CDP (Centro de Detenção Provisória) é dividido em quatro blocos. A informação dada pelo defensor público, é que meu pai estará na unidade quatro. Passo exatamente por quatro revistas, uma por bloco, as mãos dos policiais são ágeis e sem pudor, esfregando literalmente seus dedos em nossa genital, em busca de qualquer tipo de arma, entorpecentes ou aparelhos celulares. Sinto-me constrangido, mas é o preço a ser pago pelo erro do meu pai. Sem dúvida alguma este presídio sofre com a superlotação. A lei da física que nos ensina que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, não existe nesse lugar. A maioria dos detentos está sem camisa, descalços e apenas com uma calça bege, puída e suja. Vários me encaram e me medem dos pés a cabeça.
– Com essa carinha de putinha te esfolaria todinho, neném. – Um cara com o dobro da minha altura fala enquanto cruzo o pátio.
Negro, com os dentes, visivelmente, estragados, magro, sendo possível contar suas costelas e com a barba grande, ele passa suas mãos sujas pelo seu membro. Arrepio-me de tanta repugna e nem olho para trás ao passar por ele. Meu coração começa a martelar e oro para encontrar o meu pai o quanto antes. Aparentemente Deus ouviu minhas preces, já o avistei.
Ele está sentado no chão, encostado em uma parede encardida e com os olhos fechados. O sol banha o seu corpo, visivelmente, magro e maltratado. Paro na sua frente, bloqueando a luz do sol.
– Vinicius?! – Meu pai pergunta assustado ao abrir os olhos.
– Oi pai. – Meus olhos involuntariamente enchem d’água.
– Meu filho! – Sou tomado por seus braços ao se levantar. Sinto-me realmente querido, pela primeira vez na vida, por parte do meu pai. – Não acredito que você está aqui.
– Eu também não. – Digo baixinho em seu ouvido.
– Me perdoe. – Meu pai chora. – Me perdoe meu filho. – As súplicas de meu pai amolecem, de certa forma, meu coração. Vim até aqui, certo de que lavaria a alma ao dizer tudo o que estou sentindo, mas percebo que quem precisa falar é ele.
– Se acalme pai. – O afasto, podendo olhar no fundo dos seus olhos.
– Aqui não é lugar para você Vinicius. – Meu pai arruma a gola da minha camisa, Polo, azul claro. – Me desculpe fazer com que venha até aqui.
– Precisava saber como o Sr. está. – Digo com a voz embargada. – Tanta coisa aconteceu depois do ocorrido pai.
– Me conte, por favor. – Seus olhos decoram cada movimento que faço. – O que aconteceu? Como está sua mãe?
– Minha mãe está “bem”. – Digo ao fazer um gesto de mais ou menos, com uma das mãos. – Trabalhando em dobro para nos manter, enquanto procuro emprego.
– Você não está trabalhando na Delicatessem da irmã Márcia?
– Não mais. Muita coisa mudou pai. – Digo calmamente procurando o inicio de tudo. – Todos os nossos bens foram bloqueados. Imóveis, veículos e contas bancárias. Passamos alguns dias na casa de Claudio e Vanessa que nos receberam de braços abertos, até... – Interrompo minha própria frase.
– Até o que Vinicius? – Meu pai pergunta aflito.
– Longa história pai. – Respondo ao suspirar. – O que o Sr. precisa saber é que estamos “bem” e que logo mais o serei pai.
– Pai?! – Meu pai exclama ao repetir a palavra. Sua feição está com uma mistura de alegria e repreensão. – Como?
– Letícia está grávida. – Digo. – Gostaria de te contar tudo, mas sinto que ainda não é a hora.
– Pelo visto muita coisa aconteceu. – Meu pai parece pensativo.
– Preciso te fazer uma pergunta. – Falo olhando para os seus olhos, novamente.
– Faça.
– Por que o Sr. enganou tanta gente fiel a você? Inclusive sua própria família?
Instantaneamente seus olhos começam a fitar o chão. Como se não tivesse coragem de olhar para mim.
– Por ganância. – Responde baixinho. – No inicio eu realmente queria passar a mensagem de Deus para as pessoas. – Meu pai agora ergue a cabeça, timidamente. – Mas eu vi a oportunidade de ter tudo o que eu queria, materialmente falando, e não poupei esforços para conseguir.
– Pai! O Sr. já tinha um patrimônio muito bom com sua formação e profissão. Não tinha necessidade de ter mais nada! – Digo com a indignação destacada em minha voz.
– Eu sei, mas o dinheiro vinha tão fácil e a sensação de ter tudo do bom e do melhor me encantava. Casa grande e luxuosa, carros do ano, roupas de marca e liderança. Isso me cegou! – Os olhos do meu pai transmitem sinceridade. – Eu me arrependo do que fiz filho.
– Espero que tenha se arrependido de verdade pai. Pelo bem da sua alma. – Digo pesaroso.
– Sim e estou disposto a pagar pelos meus erros. Não tenho a intenção de sair daqui tão cedo.
– Não fale assim, vamos conseguir tira-lo daqui.
– Eu não quero. Minha prestação de contas começa aqui, meu filho.
Neste instante, um sinal agudo e ensurdecedor toca, avisando que o horário de visitas acabou.
– Está na sua hora. – Meu pai da um leve sorriso torto. – Diga a sua mãe que sinto muito e traga uma foto do meu neto, quando nascer.
– Trarei pai. – O abraço fortemente. Peço a Deus para ter piedade da sua alma, como peço para Ele ter da minha. – Até mais. Eu amo o Sr. – Digo ao depositar um beijo em sua testa.
– Eu também, meu querido. – Nos separamos e sigo de volta para o lado de fora do presídio. Meu coração pesa como chumbo. Acredito no arrependimento do meu pai e espero que ele sobreviva a essa vida miserável que ele está levando.
X
– Pra falar a verdade, não sei o que você, ainda, está fazendo atrás deste balcão. – Mariana revira os olhos. – Você é namorado do patrão, precisa de um cargo de destaque. – Sorri.
– E que cargo seria este? – Pergunto cruzando os braços. – Thiago já é o gerente e se estou aqui é porque quero continuar sendo quem eu realmente sou. Não quero me vislumbrar ou coisa parecida. Quem garante que meu namoro com Marcos dará certo?
– Tenho absoluta certeza de que dará. – Diz Mari empolgada.
Como de costume, observo o movimento da rua através da porta de vidro e como Marcos saiu mais cedo para uma reunião com fornecedores, meu hábito fica ainda mais forte, esperando com que ele volte.
– Mãe?! – Me surpreendo ao vê-la entrar no estabelecimento. – Mãe! Que saudades! – A abraço.
– Meu querido! Como está? – Seus olhos negros me fitam carinhosamente.
– Estou bem. – Sorrio. – Aconteceu algo? Meu pai está bem?
– Está tudo “certo”. Mas precisamos conversar a sós.
– Tudo bem, vamos ao escritório de Marcos.
Mostro o caminho a minha mãe e rapidamente estamos a sós.
– Sente-se mãe. – Aponto para uma das poltronas.
– Quando você voltará para casa? – Minha mãe pergunta ao se sentar.
– Quando meu pai permitir.
– Já lhe disse que ele não está na posição de opinar Marcos. – Minha mãe coloca uma das mechas do seu cabelo, atrás da orelha. – Eu quero que você volte e pronto.
– Não mãe! Quem me expulsou de casa foi ele. Portanto ele tem que pedir para que eu volte e desde quando a Sra. passa por cima das decisões do meu pai? – Pergunto intrigado.
– Aconteceram algumas coisas que fizeram com que eu questione a índole do seu pai, Marcos. Estou contando com isso para te trazer de volta.
– O que aconteceu? – Pergunto curioso.
– Vou ser direta. – Minha mãe se acomoda na poltrona. – Fui traída pelo seu pai.
– Como?! – Pergunto incrédulo. – Quando? Com quem?
– Isso faz muito tempo, querido. Você não tinha nem um ano de idade e na época eu o perdoei.
– Nossa! – Estou perplexo. – Mas como você vai usar algo que aconteceu há tanto tempo contra ele? Afinal de conta a Sra. o perdoou.
– Acontece que essa traição gerou uma criança, que hoje tem um pouco menos que a sua idade e ele a escondia de nós.
– Meu Deus! – Me arrepio. – Eu tenho um irmão ou irmã?
– Sim. E ela está na nossa casa.
– Ela? – Pergunto com as pernas tremendo. – É uma garota? – Não sei o porquê, mas estou “feliz” com a notícia. Sempre fui filho único e ter uma irmã parece ser muito bom, mesmo a essa altura do campeonato. – Como ela se chama? Como ela o encontrou?
– Na verdade nós já a conhecíamos, porém eu nunca desconfiei de nada. – Minha mãe fala cautelosamente. – Preciso que você mantenha a calma após eu falar quem ela é.
– Prometo. – Digo rapidamente. – Sei que estamos falando a respeito de uma traição, mas o fato de eu ter uma irmã me deixou alegre. Quero muito saber quem ela é. Tenho certeza que seremos ótimos amigos. – Agora me fala quem ela é.
– Bem... Ela... É... – Minha mãe gagueja.
– Fala logo! – Solto uma pequena risada nervosa, ao falar.
– É a Letícia. – Minha mãe fala rapidamente e fica apreensiva quanto a minha reação.
– Quem? – Pergunto ao ter a certeza de que não escutei direito.
– Sua irmã é a Letícia, neta da irmã Márcia, mãe do filho do Vinicius.
– Mas que merda é essa que você está me falando, mãe? – Meu mundo parece congelar ao tentar fazer com que meus neurônios assimilem tais informações. Como aquela biscate, filha de uma puta é minha irmã? COMO?!
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