Amor & Pecado
37 Capítulo 37 - A Verdade - Parte I
Notas iniciais
Vinicius
– Já que meus dois homens estão trabalhando, sobrou para você me ajudar com as compras. – Vanessa ri suavemente ao colocar algumas das sacolas em cima da mesa.
– Sem problemas, Vanessa. – Digo sorrindo. – Estou em sua casa, e isso não é nada comparado ao que você está fazendo, por mim e minha família.
– Sei que fariam o mesmo por mim. – Vanessa sorri para minha mãe, que chega logo atrás com mais algumas sacolas.
– Claro que sim. – Respondo.
– Agora suma daqui e nos deixe trabalhar. – Minha mãe brinca.
– Ok. – Digo ao levantar minhas mãos para o ar. – Estou saindo.
Deixo ambas na cozinha e sigo em direção à sala. Parece que o estado de espírito de minha mãe está melhorando e fico feliz por isso, os últimos dias tem sido muito difíceis, principalmente, para ela.
Ao chegar à sala vejo Letícia sentada no sofá, com o controle remoto nas mãos. Seus olhos estão fixos na tela da televisão, mas é visível a falta de atenção.
– O que foi? – Pergunto ao me sentar ao seu lado. – Letícia! – A chamo ao ver que está totalmente imersa em pensamentos.
– O que foi?! – Seus olhos verdes me fuzilam, como se eu estivesse feito algo muito errado.
– Está tudo bem? – Pergunto cautelosamente. Não estou a fim de brigas e desde que chegamos aqui, mal conversamos.
– Não. – Letícia finalmente responde a minha pergunta, após um longo e pesaroso suspiro. – O que estamos fazendo Vinicius? – Seus olhos estão marejados.
– Como assim? – Pergunto confuso.
– Como chegamos aqui? – Seus olhos estão trêmulos. – O que iremos fazer das nossas vidas? Quais foram os pesos de nossas atitudes? – Letícia passa as mãos por seu cabelo grande, ondulado e loiro, deixando algumas mexas atrás da orelha direita.
– Chegamos aqui através de muitos erros cometidos. – Me aborreço ao perceber, mais uma vez, da situação em que nos encontramos. – Eu não deveria ter feito aquele maldito acordo com você.
– Então a culpa é minha? – Letícia arregala os olhos e mesmo estando vulnerável, ela consegue transmitir sua raiva através deles.
– Não estou dizendo isso. – Respondo seco.
– É o que parece. – Letícia revira os olhos.
– Eu deveria ter deixado meu egocentrismo e arrogância de lado e ter ouvido mais o Marcos. Com toda certeza, ainda estaríamos juntos.
– Mas foi exatamente isso que nos uniu e nos faz tão parecidos, meu caro. – Letícia parece ter recuperado sua confiança, mandando sua vulnerabilidade para longe. – E duvido muito dessa sua conclusão. Accetti é o cara perfeito. Não só comparado a você, mas a 99,99% da população masculina do planeta. De uma maneira ou de outra ele cruzaria a vida de Marcos e abalaria as estruturas do relacionamento de vocês.
– Cale a sua boca! – Estou irritado. – Eu fui obrigado a deixar Marcos, por causa da sua chantagem envolvendo as fotos, que ele beija o Accetti.
– Sim, você tem razão. Mas se você realmente o amasse, Vinicius, não teria se importado tanto com isso. Teria agido como homem e assumiria o garoto como seu namorado. – Letícia semicerra os olhos enquanto fala. – Marcos pode ser pequeno e ter aparência frágil, mas tem mais atitude do que você. – Seus lábios se repuxam em um sorriso.
– Do que você está falando?
– Na noite da nossa única e última vez, Marcos me confrontou. Me deu um tapa na cara, que doeu bastante e afirmou que cada toque feito por você, seria totalmente dedicado a ele.
– E o que você fez para deixa-lo tão irritado? – Estou realmente surpreso com tal atitude e por dentro meu peito aquece, deixando-me esperançoso quanto ao sentimento de Marcos por mim.
– Eu só fui esfregar na cara dele a nossa linda aliança de namoro. – Letícia sorri. – Depois do tapa ele ainda me ameaçou, dizendo que se eu abrisse a minha boca imunda para alguém, ele esfregaria a minha cara de vagabunda no asfalto. – Letícia agora solta uma pequena risada. – Fiquei um pouco intimidada, mas também fui tomada pela raiva. Por isso te obriguei a transar comigo naquela noite. Para elevar o meu ego após aquela humilhação e ter a certeza de que quem estava no controle do nosso “joguinho” ainda era eu.
– Minha vontade nesse exato momento é de fazer exatamente o que Marcos disse a você. – Meu sangue ferve. – Como você pôde ir provoca-lo? Hein?!
– Não acredito que você ainda tem a cara de pau de se ficar com raiva das minhas atitudes. – Letícia fala com certo tom de incredulidade. – Realmente... Você não deveria ter feito aquele acordo comigo. Você é apenas um amador Vinicius. Só tem tamanho e beleza, nada mais.
– Realmente, eu não deveria. Hoje prefiro ser um amador a ser parecido com você. – Digo com repugna.
– Não se faça de coitado, isso não cola. – Reviro os olhos. – Quando pedi Marcos, a você, em troca da vaga de emprego, era porque eu realmente alimentava certo sentimento por ele. Fiquei muito frustrada ao descobrir que ele é gay e mantinha um romance secreto com o garoto mais gato da Igreja, que também é filho do Pastor. Eu simplesmente uni o útil ao agradável. Confesso que sou o tipo de pessoa que quando é desapontada, faz da desgraça alheia sua felicidade. Talvez seja por isso que chegamos aqui. – Letícia da de ombros.
– Você é uma...
– Fique quieto e deixe que eu termine de falar. – Letícia me repreende. – Sempre me orgulhei de ser assim. De conseguir manipular as pessoas e conseguir delas o que queria. Quando você saiu da minha casa, na noite em que transamos, demorei a dormir e pela primeira vez em muito tempo minha consciência pesou. Percebi que essa aliança – Letícia levanta a mão que se encontra a argola prateada e lisa – não significa nada. Como eu nunca me dei bem com minha avó e sempre desejei estar longe dela, eu acharia uma maneira de me beneficiar com a situação, afinal de contas eu estava namorando o filho do Pastor, que tinha muito dinheiro.
– Por isso você engravidou! – Minha cabeça está um turbilhão.
– Não, isso foi obra do destino. – Letícia sorri. – Fiquei muito feliz, pois assim eu sairia de casa e iria ser “obrigada” a casar com você. Que trágico! Não é? – Seu tom irônico me irrita cada vez mais – Mas Deus, tirando uma da minha cara, fez com que a vida secreta e suja do seu pai fosse descoberta, deixando não só você e sua mãe, mas a mim também, na merda. Posso ter feito muita coisa errada Vinicius, mas esses dias aqui nessa casa me fez refletir muito. Cheguei à conclusão de que sou invejosa, até mais do que eu imaginava. Marcos tem tudo o que eu gostaria de ter: Família que o ama, um namorado rico que também o ama e uma autoconfiança invejável. Percebi o quanto sou fraca, ao analisar minhas atitudes. Como eu pude interferir na vida das pessoas, apenas por me sentir “frustrada”? – O semblante de Letícia de repente começa se transformar. – Esse bebê está me transformando antes mesmo de nascer. Quero dar a ele todo o amor que eu não tive e não quero que ele seja parecido comigo. – Lágrimas começam a brotar em seus olhos. – Por isso não quero te obrigar a mais nada. Você está livre Vinicius. Quero algo verdadeiro para minha vida, não um namoro de fachada. Apenas exijo que cumpra com suas obrigações de pai e me ajude a cria-lo da forma certa.
Letícia passa as mãos pelo seu ventre, ao e referir ao filho e mais lágrimas escorrem pela sua face. Estou incrédulo com o rumo que nossa conversa tomou. Fico feliz em saber que ela se importa com a criança e consigo sentir certa compaixão por esta garota, que apesar de eu não saber sobre o seu passado, sei que foi difícil.
– Talvez nosso namoro possa se tornar algo verdadeiro. – Sussurro em seu ouvido ao abraça-la. – Nosso filho merece uma família de verdade.
– Não prometa o que você não pode cumprir, por favor. – Letícia diz com a cabeça encaixada em meu ombro.
– Irei cumprir. Poderemos recomeçar do zero e consertar nossos erros. – Falo ao liberta-la dos meus braços.
Seus olhos verdes me fitam transbordando expectativa e felicidade. Retribuo o gesto com um beijo em sua bochecha.
– Espero que esteja falando a verdade, senão acabarei com você garoto. – Letícia sorri.
– Após essa demonstração de vulnerabilidade, ter exposto seus sentimentos e intenções, você não põe mais medo em mim, garota. – Sorrio de volta. – Faremos isso pela criança, se não der certo, teremos tentado, certo?
– Certo. – Letícia concorda ao me abraçar.
X
– Acorde dorminhoco. – Os lábios de Marcos roçam nos meus.
– Hmm... – Resmungo.
– Acorde, já é noite e temos visitas.
– Visitas? – Pergunto sonolento ao abrir um dos olhos.
– Sim. – Marcos sorri. – Meus pais chegaram e Deborah virá com Jonas para um jantar em família.
– Daqui a pouco eu levanto. – Murmuro ao fechar meus olhos novamente. Seus braços me envolvem carinhosamente, me erguendo e deixando-me sentado na cama.
– Tome um banho para acordar. – Marcos beija minha bochecha. – Sei que você vai querer me matar, por te avisar agora em cima da hora, mas hoje é aniversário da minha mãe. – Sorri timidamente. – Apenas deseje feliz aniversário a ela, pois o presente eu já comprei por nós.
– O que?!
– Te espero lá embaixo. – Marcos se retira do quarto.
Com muito pesar, me levanto e sigo para o banheiro. Tomo uma ducha quente e visto uma das roupas caras, que Marcos comprou para mim. Me olho no espelho e percebo que estou “diferente”. Não sei expressar exatamente o porquê de achar isso, mas estou.
– Boa noite. – Digo ao descer as escadas e chegar à sala de estar.
– Boa noite! – Sr. Lauro e Beth me recepcionam calorosamente. Cumprimento Sr. Lauro com um aperto de mão e abraço Beth, depositando um beijo em seu rosto.
– Feliz aniversário. Muita saúde e tudo de bom. – Digo receoso. Nas festas de aniversário que costumo ir, independente da idade do aniversariante sempre tem bolos, docinhos, litros de refrigerante e cerveja. Porém não imagino Beth envolta de uma mesa, com nenhuma destas coisas.
– Muito obrigada meu querido. – Beth sorri. – Percebemos que estamos ficando velhos, quando a pessoa ao invés de lhe desejar “muitos anos de vida”, lhe deseja “muita saúde”. – Sua risada é doce e contagiante. Sr. Lauro e Marcos riem da pequena piada, enquanto permaneço sério. – Estou brincando, meu querido. Fico muito lisonjeada com seus votos.
– Que bom. – Digo sem graça, já sentado ao lado de Marcos no grande sofá.
A campainha toca e Cleuza, a governanta, logo aparece para atender a porta.
– Boa noite, família! – Reconheço o tom de voz de Deborah antes mesmo de olhar em direção à porta. Rapidamente ela entra no meu campo de visão e fico mais uma vez deslumbrado, com sua graça e beleza. – Parabéns mamãe! – Deborah beija Beth no rosto e a abraça. – Muita saúde e...
– Você também?! – Beth pergunta a interrompendo.
Marcos, Sr. Lauro e eu gargalhamos alto com a brincadeira de Beth e a feição confusa de Deborah.
– Eu disse algo de errado?
– Não minha querida, apenas uma piadinha que acabei de fazer. Depois lhe contamos.
– Acho bom, viu?! – Deborah sorri ao entregar uma pequena sacola à mãe. Ela beija e cumprimenta o pai com um abraço e faz a mesma coisa comigo e Marcos.
– Eu adorei, meu amor! Muito obrigada. – Beth exibe a gargantilha de ouro branco, dada pela filha.
– De nada.
– Muito legal da sua parte Deborah. Me deixar sozinho do lado de fora, enquanto tento arrumar o motor do carro, que te trouxe até aqui.
– Como você chama “aquilo” de carro, Jonas? – Deborah revira os olhos. – Só vim com você porque o meu está na revisão e o pegarei amanhã. Arrependo-me profundamente em não ter pegado um táxi.
– Não fale assim do Herbie. O tenho desde os dezessete anos, poxa! – Jonas fala como se estivesse magoado, por Deborah ter se referido ao seu carro daquela maneira. – Parabéns, mamãe! – Jonas sorri. – Quantos anos? Oitenta e dois?
– Não ouse tocar em mim com essas mãos cheias de graxa e oitenta e dois, será o número de tapas que darei em você, se insinuar mais uma vez que estou velha. – Beth sorri.
– Tá bom. – Jonas caminha para o lavabo, próximo às escadas.
– Qual carro Jonas tem? – Pergunto a Deborah que se sentou ao meu lado.
– Um Fusca, oitenta e seis. – Deborah responde com uma expressão engraçada. – Por isso o demente o chama de Herbie.
– Meu Deus! – Digo rindo da situação. Imaginar Jonas, lindo e másculo dentro de um fusquinha chamado Herbie, é muito para a minha cabeça.
– Pronto, voltei. – Jonas fala ao sair do lavabo. – Parabéns, mamãe! – Beth é abraçada pelo filho.
Jonas faz o mesmo ritual que Deborah. Cumprimenta o pai com um beijo no rosto e o abraça, cumprimenta Marcos e ao se virar para mim, me puxa pelo braço, me deixando de pé e me aperta com seus braços grandes.
– E aí cunhadinho! Beleza? – Jonas se diverte com a minha feição de surpresa.
– Estou bem, Jonas. – Sorrio educadamente ao me sentar novamente.
– Mas que você está bem é visível. – Jonas sorri. – Atrevo a dizer que pela sua felicidade, a tarde foi “muito boa”.
– Jonas! – Beth, Sr. Lauro e Deborah o repreende, pelo comentário. Enquanto Marcos revira os olhos e sorri. Eu, mais uma vez, fico desconcertado.
– Tinha bebidas no carro dele Deborah? – Marcos pergunta rindo.
– O pior é que não. – Deborah mede Jonas dos pés a cabeça. – A capacidade, do Jonas, de ser ridículo é natural. A bebida apenas intensifica. – Todos riem, inclusive Jonas.
– Cadê o meu presente, Jonas? – Beth pergunta.
– Hã... Trago amanhã mãe. Na correria esqueci-me de trazer. – Agora quem parece desconcertado é ele.
– Esqueceu-se de comprar, não é? – Deborah o entrega, sem piedade.
– Bom, já que estamos falando de presentes, quero dar o meu e do Marcos, mãe. Beth fica deslumbrada ao abrir a caixa entregue por Marcos e percebo que o vestido que ela acabou de ganhar do filho (e de mim), deve ser mais que exclusivo, pois Deborah da um salto do sofá e corre em direção à mãe.
– Meu Deus! – Deborah está chocada. – É um legitimo Carolina Herrera. Nunca ganhei um desses. – Ambas permanecem paradas, contemplado tal perfeição.
– Obrigada, meus lindos. – Beth agradece ao filho e a mim, mesmo sabendo que metade do valor desse vestido, compraria minha vida, de tão caro.
– De nada. – Respondemos em uníssono.
– O jantar será servido agora. – Cleuza avisa, ao aparecer de surpresa.
Seguimos para a sala de jantar agradecidos pelo aviso. Aparentemente todos estão famintos. Ao sentamos nos deparamos com um enorme banquete de pratos finos e sofisticados, que nem sequer sei os nomes. Não é a toa que eu não consegui imaginar um bolo de aniversário para Beth.
Meu celular toca, peço licença ao me levantar da mesa e ao me afastar atendo a ligação.
– Oi, mãe. Tudo bem? – Aguardo sua resposta e sua pergunta. – Acabei de sair do trabalho, daqui a pouco estarei em casa. Beijos, até mais tarde.
– Sua mãe? – Marcos pergunta, quando retorno à mesa.
– Sim. – Afirmo. – Queria saber onde estou.
– Se quiser, posso te levar agora.
– Não. Espere todos terminarem a refeição.
O jantar segue tranquilamente. É visível a satisfação de Beth em ter os filhos por perto em uma data tão especial. Por um minuto me senti um intruso, em tal ocasião, mas logo a sensação se dissipa ao ouvir de sua boca, que já faço parte da família. Fico lisonjeado com a declaração e percebo o quanto sou importante para Marcos. Afinal de contas, ele nunca apresentou ninguém aos seus pais. Não por vergonha da sua orientação sexual, mas por nunca ter encontrado alguém, que como ele mesmo diz: “Valesse a pena”.
– Acho que já está na hora de irmos. – Digo.
– Mas já cunhadinho? Fique aqui conosco. – Jonas já está alterado.
– Não, obrigado. – Respondo educadamente.
– Já está dando a minha hora também. – Deborah fala. – Por favor, Marcos. Me de uma carona, por que não quero voltar naquela coisa que o Jonas chama de carro, ainda mais com ele desse jeito.
– Tudo bem, pode vir conosco. – Marcos concorda.
– De que jeito eu estou, Deborah? – Jonas pergunta.
– Bêbado. – Deborah responde o óbvio. – Você só tem tamanho Jonas, nunca vi ninguém se embebedar com vinho.
– Ah! Qual é! Nem estou bêbado. – Jonas se levanta da cadeira, tropeça ao se afastar da mesa de jantar e acaba caindo no chão.
– Imagine se não estivesse, hein!? – Deborah fala ao encarar o irmão caído no chão, cruzar os braços e revirar os olhos.
Beth levanta-se da mesa e ajuda o filho a se levantar.
– Estou bem, mãe. – Reclama.
– Suba para um dos quartos, tome um banho e pare de me fazer passar vergonha. – Beth parece estar irritada com a situação.
Jonas a obedece e sobe as escadas sem se despedir de ninguém. A situação chega ser engraçada, porém todos permanecem sérios ou tentam. Despeço-me de Beth e Sr. Lauro, agradeço pelo jantar e seguimos para o carro.
As ruas estão vazias, dando a sensação de que a cidade é nossa. Poucos carros circulam. São quase meia noite de um domingo quente.
– Liguem o rádio. – Deborah fala do banco detrás. Marcos atende ao pedido da irmã e as batidas de Heroes do David Bowie, tomam conta de nossos ouvidos. – Caralho! Adoro essa música! Lembra-se dela Marquinhos?
– Com certeza. – Marcos concorda e gargalha com a irmã. De certo, esta música faz ambos partilharem memórias em comum.
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can be Heroes, just for one day
We can be us, just for one day
Ambos começam a cantar em plenos pulmões. Percebo que a recordação é muito boa e forte. Para não ficar para trás, também canto a música.
– Você conhece essa música? – Marcos pergunta, surpreso.
– Mas é claro! É um clássico! – Reviro os olhos ao responder.
– Mas você é tão novinho, cunhadinho. – Deborah sorri.
– Ah! Fiquem quietos. No ano de lançamento dessa música, nenhum de vocês dois eram nascidos. Se vocês conhecem, por que eu não conheceria?
– É verdade. – Marcos fala.
– Faz sentido. – Deborah da de ombros.
– Posso saber o que de tão bom, essa música remete a vocês? – Pergunto.
– Um baile do ensino médio. – Deborah sorri. – O tema era anos 70 e nessa mesma noite, comecei a desconfiar a masculinidade do meu irmãozinho.
– Por quê? – Pergunto curioso a Marcos.
– Sou dois anos mais novo que Deborah. Eu estava no primeiro colegial, enquanto ela estava no terceiro. O sonho dos garotos da minha classe era ficar com uma das veteranas e para minha “sorte” uma delas estava de olho em mim.
– Fernanda. – Deborah sorri ao lembrar. – Minha amiga até hoje. Ela estava me enchendo o saco para “mergulhar” de cabeça nesses olhos cor de mel. – Risos. – Marcos sempre teve um poder de sedução incrível, desde adolescente. As garotas viviam atrás dele e não as recrimino por isso. Alto, loiro e capitão do time de futebol da escola, era impossível não se apaixonar por ele.
– Capitão do time de futebol? – Pergunto empolgado.
– Sim. – Marcos responde com um sorriso torto.
– Mas meu irmãozinho despedaçava os corações das meninas, por nunca ficar com nenhuma delas. Mas no dia deste baile, minha amiga Fernanda foi audaciosa e mostrou que o queria. Estava tocando esta musica na quadra, quando ela pegou o microfone da mesa de som e exigiu a presença de Marcos na pista de dança, dizendo que não se formaria no final daquele ano, sem provar do sabor do Marcos Accetti. – Marcos ri ao lembrar e Deborah mais ainda.
– E então? – Pergunto com uma pontada de ciúmes, que logo passa.
– Fui obrigado a ir. Toda a escola parou para assistir o “tal beijo”. Fernanda passou suas mãos pelo meu pescoço e automaticamente pousei as minhas em sua cintura. Essa música embalou um dos momentos mais tensos da minha vida. – Marcos sorri. – Ela me beijou com vontade e correspondi na mesma intensidade. Decidi que se ela queria tanto aquilo, daria o meu melhor para agrada-la. Todos gritaram quando nos beijamos, foi uma loucura. A ousadia dela foi incrível.
– Então vocês se casaram e viveram felizes para sempre? – Pergunto ironicamente, agora com um ciúme latente.
– Olha que ciumento! – Deborah gargalha. – Não meu querido, esse foi o primeiro e último beijo dos dois. Claro que Fernanda quis repetir a dose e provar, muito mais de Marquinhos, mas ele não quis e deu um fora nela. Com muita educação, obviamente.
– Certo. Mas como você começou a desconfiar dele? Para todos os efeitos, ele beijou a garota. – Pergunto.
– Mais tarde, naquela noite, escutei Marcos em uma ligação. Ele se desculpava pelo beijo dado em Fernanda e pedia para a pessoa não ficar com ciúmes.
– E finalizei a ligação dizendo: “Te amo, Léo”. – Marcos conclui.
– Então eu descobri. Porém, mantive segredo e me fiz de desentendida, até Marcos contar a família sobre sua sexualidade.
– E quem era Léo, um ficante? – Pergunto.
– Meu primeiro namorado. – Marcos responde.
– Não fique com ciúmes, cunhadinho. Isso é passado e você é o presente, ok? – Deborah me adverte. Com certeza minha feição não está nada amigável. – Foi um amor de adolescência, relaxa.
– Tudo bem. – Digo.
Após o término da música, tocam mais três até chegarmos a minha casa.
– Obrigado pelo dia, incrível. – Agradeço Marcos com certa malícia nas palavras e o beijo calorosamente.
– Hey! Estou aqui garotos! – Deborah brinca. – E você ainda consegue sentir ciúmes do pobre Leonardo de duzentos anos atrás, não é?
– Não é ciúmes, Deborah. Apenas cuido do que é meu. – Digo ao olhar para trás.
– Senti firmeza. – Risos. — Boa noite.
– Boa noite. – Desejo a ambos e desço do carro.
Ao entrar em casa, passo pela sala, onde Vinicius se encontra dormindo e sigo para a cozinha onde a luz está acesa.
– Boa noite, mãe.
– Boa noite, meu querido. – Ela me abraça. – Até que enfim, hein!
– Depois do expediente sai com...
– Marcos. – Minha mãe me interrompe e completa minha frase. – Eu sei disso. Sei também que ele acabou de te trazer em casa. – Sorri. – Meus ouvidos já decoraram o som do motor do Mitsubishi dele.
– Caraca! Já sabe até a marca do carro? – Pergunto, retribuindo o sorriso.
– Sei mais do que você quer aparentar, meu lindo. – Minha mãe me beija carinhosamente na bochecha. – Confio em você e nele, ok? – Minha mãe pisca para mim. – Boa noite.
– Boa noite. – Digo ainda assimilando as informações em minha cabeça. – Eu te amo, mãe.
– Eu também, meu querido. – Ela fala ao se afastar – A propósito, adorei a roupa. Diga a Marcos que ele tem muito bom gosto.
– Irei avisa-lo. – Falo timidamente.
Definitivamente minha mãe sabe de nós. Por incrível que pareça não estou apavorado e sim aliviado.
X
Ao contrário de ontem, o dia de hoje está fechado e chuvoso. Estou aproveitando meu dia de folga, na ausência de todos, para ficar um pouco no meu quarto. Falei com Marcos, somente pela manhã e agora são quase seis da tarde. Não quero parecer pegajoso ou repetitivo, embora eu tenha absoluta certeza de que ele nunca me classificaria dessa maneira. Quero dar um tempo para sentirmos saudades um do outro. Eu estava precisando de um dia como este. Um dia exclusivamente meu. Passei a maior parte do tempo aqui no meu quarto, organizando algumas coisas, me desfazendo de objetos sem mais utilidade ou apenas deitado em minha cama fitando o teto. Diane e meu pai estão trabalhando, minha mãe foi ao médico com Letícia em uma consulta de rotina da gravidez e Vinicius foi procurar emprego.
Ainda estou pensativo sobre a conversa, que tive ontem à noite, com minha mãe após chegar da casa de Marcos. Embora ela não tenha dito com todas as letras sobre meu namoro com Marcos, ficou mais do que subentendido. Será que meu pai também sabe? Acho que não. Dou mais um gole no chocolate quente que preparei e me sento em minha cadeira giratória. Automaticamente vem a minha memória, às vezes em que eu brigava com Vinicius e ele sentava aqui, enquanto eu ficava emburrado na cama e como ele sempre conseguia amolecer meu coração, com seus olhos verdes pidonhos e lábios sedentos pelo meu beijo. Parece que faz anos, sendo que na verdade passaram-se apenas meses. Meses turbulentos, mas também felizes. Digo isso por mim. Marcos entrou na minha vida para me mostrar possibilidades antes nunca vistas e também mostrar que é possível encontrar alguém que te ame e corresponda suas expectativas. Ouço o som do portão sendo aberto e por um minuto minha alegria por estar sozinho, vai por água abaixo. A porta se abre.
– Oi. – Vinicius sorri ao me ver. – Tudo bem?
– Sim. – Respondo secamente ao me levantar e caminhar para o meu armário. Quero separar algumas roupas que usarei esta semana.
– Ontem conversei seriamente com Letícia. Acho que estamos começando a se dar bem. – Vinicius fala ao sentar em minha cadeira, como de costume.
– E o que tenho haver com isso? – Indago grosseiramente.
– Estou apenas comentando, Marcos. – Vinicius da de ombros. — Sinto falta de você e gostaria que me ouvisse às vezes. Ontem ela me disse que se eu te amasse de verdade, eu não teria cedido às chantagens feitas por ela.
– Concordo com a vadia neste ponto. – Falo ainda sem olhar para ele.
– Isso não é verdade, cedi às chantagens dela para nos resguardar, ou melhor, te resguardar.
– Me resguardar? – Pergunto agora o encarando, enquanto meu sangue começa a ferver. – Após a nossa primeira vez, você me chutou não só da sua casa, mas também da sua vida. Fez as coisas a sua maneira e ainda por cima a engravidou, então, por favor, não me diga que fez isso por mim.
– Mas eu fiz! – Vinicius se levanta e segue em minha direção. – Você não vê? Eu queria distraí-la e encontrar uma forma de acabar com suas más intenções. Mas ela engravidou, meu pai foi preso e chegamos onde estamos.
– Vinicius, me poupe dessa conversa. Ela não nos levará a lugar algum.
– Você está mesmo decidido a me tirar da sua vida, não é? – Vinicius pergunta. Seus olhos verdes me fitam de uma maneira que há muito tempo eu não via.
– Sim. – Respondo e sinto um frio na barriga ao perceber que meu coração está acelerado involuntariamente.
– Ontem acabei sento tomado pelo momento e prometi a ela que daria uma chance para o nosso relacionamento, pois nosso filho merece uma família de verdade.
– E? – Pergunto com desdém.
– E eu me arrependi disso, Marcos. – Vinicius parece estar agoniado. – Meu coração pertence apenas a você. – A distância entre nós diminui e nossos rostos estão a centímetros. – Eu te amo. – Suas mãos envolvem minha cintura.
– Agora que estou com outra pessoa, você resolve se redimir Vinicius. – Digo o encarando, mas sem afastar suas mãos de mim. – Apesar das chantagens, das fotos e de eu ter ficado com Marcos, eu implorei para você não me deixar. Mesmo assim você me colocou para fora daquele quarto e da sua vida. – As lágrimas chegam aos meus olhos, mas as contenho. Não posso chorar! – Agora que segui em frente, você me diz que sentiu minha falta todo esse tempo.
– Marcos me escuta! Eu te amo! – Vinicius me aperta contra o seu corpo e as palavras saem da sua boca de forma suplicante.
– Você não me ama de verdade Vinicius. – Involuntariamente uma lágrima escorre pela minha face e minha voz embarga. – Você apenas gosta de saber que pode ser aquele que me machuca.
– Eu nunca te machucaria intencionalmente, meu pequeno.
– Mas é isso o que você faz. – Digo entre dentes. – E é exatamente o que você vai fazer com Letícia caso ele descubra que você ainda corre atrás de mim, não que eu me importe com os sentimentos daquela vaca, mas é isso o que vai acontecer.
– Minha promessa a ela foi coisa de momento, é você quem eu quero. – Vinicius beija meu rosto e eu o afasto no instante em que seus lábios encontram minha pele.
– Você não sabe o que quer garoto! – Cuspo as palavras. – Um dia promete algo, no outro se arrepende. Cresça, Vinicius! Cresça!
– A única certeza que tenho, é que te quero e lutarei por você a partir de hoje. – Seu tom de voz é voraz e seus lábios encontram os meus bruscamente. Luto com todas as minhas forças, contra este beijo, mas perco a luta física facilmente para Vinicius. Já na luta emocional, a vitória é minha. Percebo que Vinicius está dando o melhor de si, me beijando de forma enlouquecedora, enquanto retribuo o beijo de forma automática, pelo menos, tento retribuir dessa maneira. Marcos não merece que eu faça isso com ele, pois ele sim me ama. Não tem vergonha de me assumir como namorado. Ouço o som da maçaneta do quarto se abrindo e instintivamente nosso beijo termina.
Os olhos verdes de Letícia nos fuzilam, com um ódio palpável. Eles pousam rapidamente sob mim, mas são demoradamente fixados em Vinicius.
– Vocês vão se arrepender, por isso! – Letícia bate a porta ao se retirar.
– Vai atrás dela, agora! – Ordeno. – Se essa vaca prejudicar de alguma maneira meu relacionamento com Marcos ou com a minha família, eu juro por tudo Vinicius, eu acabarei com vocês dois. – Pela primeira vez um beijo dado por Vinicius, não me causa “efeitos colaterais” do tipo: Pernas moles, coração palpitando e suspiros aleatórios. Desta vez ele me despertou o mais puro ódio, em saber que esse ato pode acabar, mais uma vez, com a minha felicidade.
Vinicius, sem olhar para trás, deixa o quarto apavorado ao correr atrás de Letícia e perceber que desta vez eu não estou falando da boca para fora, ao ameaçar essa vagabunda.
X
Vinicius
– Letícia! Volte aqui! – Digo ao descer as escadas.
– Me deixe em paz, Vinicius! – Letícia rosna.
– Me escuta! – A pego pelo braço. – Vamos dar umas voltas pelo bairro e conversar.
– Não quero! – Letícia cospe as palavras. – Você é um traidor Vinicius, ontem mesmo disse que iríamos recomeçar, que daríamos um novo rumo em nosso relacionamento, pelo nosso filho e quando chego aqui, você está aos beijos com o Marcos.
– Shh... – A repreendo. – Fale baixo. Vanessa pode escutar.
– Ela não está em casa, disse que passaria no supermercado para comprar ingredientes para o jantar, mas foda-se se alguém ouvir. – A face de Letícia está vermelha. – Você não tem palavra Vinicius e quando eu disse que eu acabaria com você, caso não cumprisse com o nosso combinado, era a mais pura verdade.
– Então mostre do que você é capaz sua cretina! – A encaro e seguro seu braço com toda a minha força. – Só não te parto em duas por carregar meu filho, dentro de você. – Os olhos de Letícia tremem. – Chega! Cansei de me esconder. Cansei de ser chantageado. O porquê disso? Hein?! – Tento transmitir toda a minha angustia e raiva através do olhar e das palavras. – A partir de agora lutarei pelo que é meu! Já perdi muita coisa nos últimos tempos e não vou perder uma das pessoas que mais me ama. – As lágrimas escorrem pelo meu rosto sem que eu perceba. – Eu amo o Marcos, entenda isso de uma vez por todas. Ontem você me disse que se eu o amasse de verdade, lutaria por ele e é exatamente isso que estou fazendo. – Solto seu braço e Letícia se afasta. – Não faltarei com minha obrigação de pai, mas me deixe ser feliz! Estou perdendo quem amo para outra pessoa, você não entende?! – Passo minhas mãos freneticamente pelos cabelos, como se isso ajudasse a limpar minha mente. – Me ajude e eu te ajudarei.
– Então é isso? – Letícia me encara. – Mesmo eu estando grávida, Marcos ganha mais uma vez?
– Não é questão de ganhar ou perder, garota! – Digo suplicante. – É questão de sermos nós mesmos e encontrarmos a felicidade. Estou voltando atrás na minha promessa com você, pois eu não quero te enganar, não quero me enganar! Nunca mais! – Meu peito dói de tão acelerado que meu coração se encontra.
– Lembra-se de que eu disse, que quando estou frustrada acabo descontando minha raiva nas pessoas? – Letícia ergue seus olhos verdes de forma doce e inocente. – Estou me sentindo muito frustrada agora. – Sua feição passa de criança tristonha para um tigre selvagem.
– Faça o que tem que ser feito, estarei preparado. – A encaro.
– Espero que esteja mesmo. – Letícia fala ao se afastar e bater a porta.
X
O silêncio pesa enquanto o jantar se arrasta. Estou tão irritado por Vinicius ter me beijado e Letícia ter nos flagrado, que permaneço de boca fechada para não falar nada que nos comprometa. Minha mãe não para de me analisar do outro lado da mesa, ela sabe que algo aconteceu e só está esperando uma oportunidade para perguntar. Meu pai está animado, como de costume. A situação tem que estar muito “feia” para ele ficar carrancudo ou irritado. A cada três segundos os olhos verdes e pidonhos de Vinicius encontra os meus, como se estivem suplicando por algo. Já sua mãe está cansada pelo dia de trabalho, mas esperançosa com o futuro. Instintivamente todos nós, nos assustamos com o relâmpago do lado de fora.
– Onde Letícia está Vinicius? – Meu pai pergunta.
– Não sei Claudio. Mais cedo estávamos conversando e ela disse que iria dar umas voltas e logo voltaria.
– Com um tempo desses? – Meu pai pergunta desconfiado.
– Talvez ela tenha ido até a casa da avó. – Digo. – Afinal de contas, uma é a família da outra, independente das diferenças.
– Se ela tiver ido até lá, espero que se entendam. – Diane diz.
– Espero que sim. – Digo antes de dar mais um gole na minha água.
– Aproveitou o dia de folga, filho? – Meu pai pergunta a mim.
– Aproveitei pai. Passei a maior parte do tempo no meu quarto, sinto falta do meu canto. – Digo ao encarar Vinicius.
– Não se preocupe, Marcos. Logo mais você o terá de volta. – Diane percebe minha indireta e me responde irritada.
– Que ótimo, Diane. – Digo com um falso sorriso. Pouco me importa se ela está achando ruim ou não. Cansei de ver as pessoas fazendo o que querem e interferindo na minha vida, enquanto permaneço calado.
– Letícia! – Meu pai exclama ao vê-la chegar. – Sente-se e jante conosco. Estamos quase no fim.
– Que ótimo, Sr. Claudio, porque eu trouxe a sobremesa. – Letícia me encara e ergue um envelope branco que está em suas mãos.
– Como assim? – Meu pai pergunta.
– Logo o Sr. entenderá. – Letícia joga os cabelos loiros e ondulados para trás. Com a maior pose de quem está no controle da situação. – Mas antes gostaria de contar uma historinha e ficaria muito grata com a atenção de todos.
– O que você está fazendo? – Vinicius se levanta com os olhos arregalados fixos no envelope, nas mãos de Letícia.
– Fique calmo Vini. – Letícia sorri largamente. – Sente-se e ouça. Afinal, Marcos é o protagonista.
– O que você tem para falar de mim, garota? – A encaro. Meu coração está na boca e desconfio das pretensões de Letícia, mas tento manter a calma.
– Bem... A história que irei contar pode ser comparada, de certa forma, com Romeu e Julieta de Shakespeare. Amor proibido, às escondidas...
– Mas em Romeu e Julieta não têm acordos secretos, chantagens e vadias grávidas, não é? – A interrompo. Percebo exatamente o que Letícia quer fazer e o que ela carrega no envelope. Tremo por dentro e tento não me importar. Mais cedo ou mais tarde essa hora iria chegar.
– Não, não há. – Letícia diz me fuzilando com olhar penetrante.
– O que está acontecendo aqui? – Meu pai começa a perder a paciência. – O que você tem a dizer Letícia? E que insultos são esses Marcos?
– O conteúdo deste envelope falará mais do que mil palavras. – Letícia estende o envelope ao meu pai.
Neste momento meus nervos congelam e parece acontecer o mesmo com Vinicius. Minha mãe se levanta e para ao lado do meu pai. Diane observa, rapidamente, a feição de cada um envolta da mesa.
– O que tem dentro? – Meu pai pergunta ao erguer uma das sobrancelhas.
– Abra e descubra. – Letícia diz suavemente ao sorrir para mim.
Ao encarar, por alguns segundos, o envelope médio e branco, meu pai o abre e tira pequenos pedaços de papéis retangulares. Fotos!
Meu pai fecha, com força, os olhos. Como se assim, o que ele acabou de ver, desaparecesse. Minha mãe mantém suas mãos, apoiadas em um dos ombros do meu pai. Ela não fecha os olhos e tem a confirmação do que já sabia. Um soco atinge a mesa, fazendo alguns copos caírem, derramando seus líquidos e assustando a todos. Minha mãe leva às mãos a boca, devido ao susto e sussurra algo no ouvido do meu pai. Aos abrir os olhos, ele não consegue conter as lágrimas. Seu olhar é de puro desgosto. Isso me atinge de forma inimaginável.
– O que significa isso?! – Meu pai grita de forma estrondosa, jogando as fotos pela mesa. Tiradas em uma sequencia muito bem focada, mostram o beijo entre eu e Marcos, no dia da reunião do Pastor André e da minha primeira (única) vez com Vinicius.
– Significa que estou beijando meu namorado. – As palavras saem pesadas da minha boca e atinge cada um no ambiente de forma diferente.
– Seu namorado?! – Meu pai continua gritando, porém agora seus olhos estão fixos nos meus. – Você não tem vergonha de me dizer isso? – Meu pai avança em minha direção, minha mãe tenta impedi-lo, mas é inútil.
– Não, eu não tenho vergonha disso. – Falo com um tom de voz baixo, porém firme. – Por que “isso” é quem eu sou de verdade.
– Não! Filho meu não é “isso”! – Meu pai aponta para as fotos espalhadas pela mesa e percebo que Diane segura, uma delas, horrorizada.
– Sinto lhe informar pai, mas eu sou “isso” que acabou de ver. – Involuntariamente as lágrimas começam a descer pelo meu rosto.
– Não me chame de pai! – Me assusto com o grito, que faz minhas pernas tremer. – Nunca! Eu disse NUNCA mais, me chame de pai! – A ênfase dada por ele nas palavras, atinge meu peito como adagas. Sinto como se algo estivesse atravessado em minha garganta e meu coração estivesse dando seus últimos batimentos cardíacos, devido à dor do momento.
– Não fale assim Claudio! – Minha mãe o segura pela blusa aos prantos, enquanto olhar do meu pai me intimida. – Ele continua sendo nosso filho, nosso menino, que amamos tanto.
– Ele pode continuar sendo SEU filho, não meu. – Ele agora a encara, como se minha mãe tivesse culpa no ocorrido. Letícia se delicia com o momento de dor e tensão. Seus olhos ardem de satisfação em me ver dessa maneira. Vinicius está estarrecido ao seu lado. Sinto que ele quer intervir, porém lhe falta coragem. – Quero você fora desta casa imediatamente. – Meu pai refere-se a mim novamente.
– Não! Você não pode o expulsar! – Minha mãe chora.
– Posso e vou. – Meu pai afirma.
– Tudo bem, pai. – Falo com a voz embargada. – Daqui apouco desço com meus pertences. – Digo indo à direção do meu quarto.
– Pertences? – Meu pai repete a palavra com desdém. – Você irá apenas com a roupa do corpo.
– O que?! – Começo a perder a paciência. Até agora permaneci quieto, mas isso já é demais. – Eu trabalho duro, compro minhas coisas, ajudo nas despesas de casa e agora não posso levar minhas roupas comigo?
– Eu vi como você trabalha duro. – Meu pai me encara. – Dando para o seu patrão! – O insulto me faz tremer de ódio. Encaro Letícia e Vinicius, percebendo que há muito mais a ser falado. Se estou sendo lesado, eles também terão que ser.
– Claudio, não diga isso. – Minha mãe implora.
– Cala a boba, Vanessa! – Meu pai grita.
– Ok. Estou indo embora, mas antes contarei alguns fatos. – Caminho de volta a mesa e encaro Letícia e Vinicius. – Gostaria de ter a atenção de todos, principalmente a sua Diane, pois a minha mãe não será a única a chorar por um filho hoje.
– Do que você está falando? – Diane se levanta.
– Era uma vez um garoto lindo, de pele morena pelo sol e olhos verdes instigantes. Com estilo marrento e sedutor fazia todas as meninas caírem de amor por ele. Seu poder de persuasão era muito bom. Afinal de contas, seu pai era Pastor de uma Igreja, um Pastor corrupto, diga-se de passagem. – Os olhos de Vinicius parecem que irão saltar do seu rosto de tão assustado que está. Porém não me interrompe. Já Diane presta muita atenção nas minhas palavras. – Dentro da Igreja ele era um exemplo para os demais jovens e enchiam seus pais de orgulho, mas o que ninguém sabia é que ele mantinha um romance secreto com o melhor AMIGO. – Dou ênfase na palavra e percebo a surpresa de todos. – Isso mesmo pessoal, este garoto também é gay como eu. Quem será ele, hein?!
– Vinicius? – Diane o encara, com as lágrimas brotando dos olhos.
– Como você é esperta Diane! – Falo em tom irônico e ácido. – E eu sou, ou pelo menos era, o melhor amigo.
– Não acredito que isso esteja acontecendo! – Meu pai fala.
– Acredite papai. – O chamo desta maneira, justamente para irrita-lo. – Ainda não terminei a história. – Agora eu me sinto no controle da situação. – Vinicius e eu nos mantemos as escondidas por um ano e meio. Nos beijando e nos amando debaixo do nariz de cada um de vocês e ele nem sequer se importava. Enquanto eu me sentia mal com a situação. – Todos estão petrificados. – Morríamos de medo de sermos pegos, mas também não queríamos nos separar. Eu sempre quis assumi-lo, me assumir, mas ele nunca se importou em ser santo na Igreja e pecador fora dela.
– Marcos... – Vinicius me interrompe, quase chorando.
– Cala a boca! – Grito. – Cala essa sua boca maldita! – Meu corpo treme de tanta tensão. – Em meio a uma crise, no nosso namoro, conheci Marcos e mais tarde descobri que ele seria o meu mais novo patrão. Na mesma época, Diane e André cobravam atitudes adultas de Vinicius, como arranjar um emprego. Convencido, do jeito que é, pediu ajuda a Letícia, uma das garotas que mais davam em cima dele. Eles fizeram um acordo. Letícia faria com que Márcia lhe desse a vaga de emprego na Delicatessem, enquanto Vinicius planejaria, de alguma forma, com que ela tivesse uma noite regada a sexo comigo.
– Meu Deus! – Diane parece que terá um infarto.
– Obviamente Letícia não conseguiu o que queria, pois Vinicius não a deixaria se aproximar de mim de verdade, ele estava apenas a usando para conseguir o que queria. – A encaro. – Mas como Letícia é o tipo de pessoa que se não consegue as coisas da forma fácil, ela parte para a forma difícil. Ela então resolveu me encontrar, sem que Vinicius soubesse, na cafeteria e assim me “seduziria”. Para a sua tristeza, ela acabou me flagrando com Marcos. Talvez vocês estejam se perguntando, como eu estava com Marcos, enquanto namorava Vinicius? Sim! Eu o traí. – A reação dos meus pais e Diane são das mais variadas ao decorrer das minhas revelações. Incredulidade, nojo e confusão. – O traí porque ele só se preocupava com ele mesmo, enquanto Marcos me dava todo o suporte que eu precisava e me oferece até hoje, um amor puro e incondicional. Sem traições, de ambas as partes, e manipulações. Mas isso não vem ao caso. Letícia me flagrou com Marcos e tirou estas fotos que todos acabaram de ver. Nesse mesmo dia ela as mostrou para Vinicius, que desmoronou ao saber da minha traição e começou a chorar. Como Letícia é esperta, ao se tratar dos sentimentos alheios, logo percebeu a conexão entre eu e Vinicius, descobrindo toda a verdade sobre nosso relacionamento. Começando a partir daí um jogo de puro interesse e chantagens. Vocês acham que Vinicius pediu a mão de Letícia em namoro e se afastou de mim por quê? Porque ela sempre esteve com essas fotos e ameaçava nos colocar na berlinda toda vez que Vinicius tentava pular fora e enquanto ela namorasse o filho do Pastor teria destaque, status e dinheiro. Porém o destino acabou com seus planos quando André foi preso e foi mais do que irônico, quando ela descobriu sua gravidez em um dia e Vinicius e Diane ficaram falidos no outro. Portanto não julguem somente a mim. Vinicius e principalmente esta vaca loira estão sujos até o pescoço. – Não tiro meus olhos dos de Letícia um segundo sequer. – Se me dão licença tenho que ir embora, fui expulso de casa.
Sigo em direção à porta da sala, atravesso a garagem e abro o portão.
– Não! – Minha mãe grita, vindo atrás de mim.
– O deixe ir Vanessa, não o quero mais aqui dentro! – Meu pai fala.
– Você ouviu tudo o que foi dito? – Minha mãe pergunta ao meu pai. – Letícia e Vinicius estão condenados iguais a Marcos. Se meu filho irá embora, eles terão que ir também.
– Vinicius não é problema meu. Diane que se resolva com ele e Letícia, embora tenha errado, precisa de cuidados e não sairá daqui antes de arrumar um lugar digno para morar. – Meu pai responde.
– Vá à merda Claudio! – Minha mãe grita com meu pai e ouço seus passos acelerados, até o portão.
A noite está fria e uma chuva torrencial cai do lado de fora.
– Marcos você não precisa ir meu filho, daremos um jeito nessa situação. – Minha mãe suplica.
– Ficarei bem mãe, eu prometo. – Digo. – Vou para a casa de Marcos e quando chegar, ligarei para avisar. – Seus olhos me contemplam com uma ternura infinita. Sinto seu amor encontrando meu peito.
– Se cuida meu amor, eu te amo, nunca se esqueça disso. – Ela fala ao me abraçar.
– Eu também te amo. – A liberto dos meus braços. – Ficarei bem, eu prometo.
Os pingos grossos e frios atingem minha pele com uma força inacreditável. Minha visão é bloqueada devido à intensidade da chuva, mas sigo em frente. Encontrarei um telefone público e ligarei para Marcos vir me buscar, por meu celular ter ficado no meu quarto. Ouço passos largos em minha direção, mas não olho para trás e então minha cintura é envolvida por braços fortes e mãos grandes. Minha boca é invadida, pela segunda vez neste dia terrível, por sua língua sedenta. Algo está diferente neste beijo, sinto determinação e coragem, combinado com ternura e amor. Mesmo com a dificuldade de enxergar, pelo volume de água caindo do céu, percebo o rosto másculo de Vinicius em meio às gotas.
– Eu te amo, Marcos! Não importa o que aconteça, sempre irei te amar. – Seus lábios vêm de encontro aos meus novamente, porém não preciso impedi-los, outra pessoa o faz por mim.
Marcos?! O que ele está fazendo aqui?!
– Você pode ama-lo, mas no momento ele pertence a mim, seu babaca! – Marcos rosna para Vinicius e logo em seguida da um soco de direita em sua face. Vinicius cambaleia, mas logo se recompõe, partindo para cima de Marcos.
– Parem! – Grito.
Vinicius acerta um soco na boca do estômago de Marcos, que se mantém forte e encontra forças para dar uma rasteira em Vinicius, fazendo com que ele caia no asfalto. Para ter certeza, de que seu rival não levantará facilmente, Marcos chuta a região pélvica, de Vinicius, atingindo seu saco escrotal. Ele urra de dor e Marcos me toma em seus braços.
– O que está fazendo aqui? – Pergunto confuso.
– Longa história. Vamos, te levarei para minha casa.
Seu Mitsubishi está parado do outro lado da rua e ao entrar, agradeço mentalmente, pela temperatura estar mais alta do que do lado de fora. Fiquei chocado com todos os acontecimentos de hoje, até o momento. Mas o fato de Marcos ter batido em Vinicius me chocou mais. Confesso que seu beijo foi bom, mas vê-lo apanhar do meu namorado foi muito melhor.
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