Amor Fati

11 Teoria das Perturbações


Notas iniciais
Boa noite, meus leitores amados! Como estão todos nesse sábado? Eu falei para vocês e estou aqui deixando claro que uma Menta cumpre sua palavra. Falei que em uma semana lhes traria três capítulos novos, para provar a todos os leitores que não abandonei a história e voltei totalmente inspirada. Muitos de vocês ainda nem se atualizaram, então vão poder se esbaldar na leitura. Acho que só consigo atualizar de novo no final de semana que vem, ou na semana posterior. Mas fica aqui essa minha amostra de lealdade! Dedico esse capítulo a duas lindas leitoras velocistas: Gigi V e Tassi Turna, que já correram pra ler os dois capítulos que saíram nessa semana e comentar. Esse é todo de vocês, gatas. Temos mais um capítulo com aquela pegada de desigualdade social que eu tanto gosta de ressaltar nessa história. O Rio de Janeiro é uma terra com MUITA desigualdade social evidente, então é sempre importante retratar isso quando cabe, na história. As turbulências emocionais e parte do passado amoroso da Ciça serão reveladas por aqui também. Quero teorias de vocês, nos comentários, sobre alguns desdobramentos vão descobrir... Beijos e boa leitura!

Onde há meninos, há heróis

A esperança sabe

Como é gostoso passear

Depois da tempestade...

Mallu Magalhães — Linha Verde

Uma lufada de vento assobiou, balançando meus cabelos pelo ar. Coloquei a mão acima da testa, protegendo meu rosto dos raios solares. Esquecera-me de trazer óculos escuros para aquela tarde de sábado.

Mantive meu olhar para o que havia defronte a mim. Avistei a mancha úmida de suor nas costas de Roberto, usando ainda a camisa branca do uniforme escolar. Atrás de mim, Marcos se arrastava subida acima, resfolegante. Mais à frente, Daniel subia a passos impávidos por aquela viela íngreme, guiado por Afonso, que andejava mais ligeiro do que todos nós, liderando nossa vereda. De tempos em tempos, saudava um morador que cruzava o nosso caminho.

— Afonsinho! ‘Tô descendo pra trabalhar, minha patroa me chamou pra uma emergência! Não esquece de dar meus parabéns pro Seu Reinaldo! — Uma senhora mais baixa do que eu descia a ladeira do outro lado da rua, dirigindo um aceno de mão para meu amigo.

— Pode deixar, dona Ercília! Se puder, vê se consegue aparecer de noite. Acho que a festa só termina bem tarde! — convidou-a para os festejos daquele dia. A comemoração de aniversário de seu pai, para a qual nós cinco éramos guiados.

— Vou tentar! Aproveitem, meninos! — despediu-se, já virando a esquina. Dei um sorriso breve para a vizinha de Afonso, enquanto subíamos morro acima.

Eu não podia negar que aquele ambiente, de certa forma, me pressionava. Ao deter o olhar nas casas humildes, as lajes aparentes, os fios elétricos em nós impossíveis de compreender — os chamados “gatos” de energia —, os veículos mais simples e os animais de rua se deslocando de um lado ao outro... Era um choque de realidade maciço.

Afonso era morador do morro do Cantagalo, em uma região próxima do bairro de Ipanema. Por ser uma grande comunidade, era dividida com a favela do Pavão-Pavãozinho, fazendo fronteira não só com Ipanema, mas também com o bairro de Copacabana.

Tal favela fora pacificada tempos atrás, pela 5ª UPP — Unidade de Polícia Pacificadora — instalada no local. Mas, como a maioria das unidades montadas no Rio de Janeiro, isso não significava que seus moradores usufruíam de paz e segurança. Não era incomum que tiroteios e guerras entre facções de tráfico ainda estourassem dentro dos limites destas comunidades, muitas vezes chegando até o asfalto das ruas refinadas de Ipanema.

No fundo, sabíamos que o próprio projeto da polícia pacificadora não deixava de ser, muitas vezes, mais uma propaganda do que um estabelecimento de proteção.

Todavia, eu não me sentia confortável para julgar o assunto, tendo em vista que era apenas uma menina rica moradora do Jardim Botânico, área nobre da cidade. Quem era eu para opinar, se não tinha experiência naquele cotidiano? Apenas escutava os relatos de Afonso, que, apesar de se sentir em casa naquela comunidade, tinha muito a reclamar de seu dia a dia. Da desigualdade, da opressão policial, das dificuldades que sua família e vizinhos passavam.

Por isso, apenas dedicava meu melhor para passar discreta, mais uma visitante qualquer. Eu tinha ciência de que não só eu, como Daniel, Roberto e Marcos parecíamos peixes fora d’água. Garotos mimados, com roupas, mochilas e sapatos de grife, bem cuidados, mesmo que eu, naquele dia, tivesse me esforçado para me vestir de uma maneira comedida.

Estava explícito em nossos rostos joviais e bem tratados pela fartura de dinheiro que não compreendíamos aquela vivência. Não na nossa pele. Assim como Afonso nunca deixava de se espantar com os mimos e facilidades que desfrutávamos.

Sendo jovens mimados da zona sul ou garotos do morro, éramos todos parte da colcha de retalhos de atroz contraste social que formava o Rio de Janeiro. Convivíamos ali, um grudado no outro. O morro descendo na praia, a vista do apartamento caro dando para a casa modesta da favela, e vice-versa.

O mais irônico fora constatar o detalhe mais perverso desse singular retrato carioca: o morro do Cantagalo, como outras comunidades supostamente pacificadas, tinha certos bares e locais reservados a festividades culturais, como feiras literárias, musicais e cinematográficos. Espaços refinados, muitas vezes gerenciados por estrangeiros ou por pessoas que não moravam na favela, que, diferente de uma construção típica de um morador local, recebia investimentos fartos vindos de fora. Serviam de “espaços seguros” para aqueles que não moravam na favela comparecerem, e terem uma experimentação sofisticada do ambiente.

Aquilo me soava como uma piada cruel. Para mim, era uma espécie de safári humano: você poderia chegar perto da toca do leão, tiraria fotos dentro de seu jipe confortável, e no fim do dia voltaria para seu hotel caro. A diferença é que essa toca, na verdade, ficava em um zoológico disfarçado. Uma ilusão de espaço apropriado, quando na verdade não passava de uma guetificação nas alturas. Com alguns poucos “camarotes” para aqueles que podem pagar frequentarem.

Eu não era contra atividades culturais na favela, ou em qualquer outro lugar na cidade. O que me doía, naquilo, era a hipocrisia gritante e simbólica. Enquanto jovens como eu, Daniel, Marcos e Beto poderíamos assistir uma palestra da FLUPP — Festa Literária das Periferias — em nosso tempo livre, sediada em algum bar moderno do Cantagalo, um jovem como Afonso provavelmente estaria exausto depois de trabalhar e estudar o dia inteiro, e iria para casa levando o dinheiro que seria crucial para a subsistência da família.

Com tais reflexões em mente, deixei meu olhar vagar por um desses estabelecimentos, um bar de fachada roxa, cheio de alguns turistas com mochilas imensas nas costas. Depois de ultrapassarmos sua construção, Afonso avisou que já estávamos perto.

Limpei um filete de suor que escorria pela minha bochecha, apertando o passo. Meu amigo que liderava nossa comitiva contornou uma esquina para a direita, e logo antevemos uma vista linda das alturas. Muito abaixo do morro do Cantagalo, podíamos enxergar o mar de Ipanema, e uma fileira de prédios nascendo entre as árvores das ruas do bairro menos elevado.

— Uau — Marcos comentou, ao meu lado, e eu aquiesci com o rosto. Era mesmo deslumbrante. Roberto também elogiou a vista, erguendo o cenho ao fitar aquela linda porção de mar turquesa surgindo por trás dos prédios, metros e metros descensionais.

— Se vocês quiserem, eu levo vocês pro Mirante da Paz depois. É todo moderno, tem uma passarela de vidro, dá pra ver ainda melhor o mar e o morro do Vidigal quase todo — sugeriu Afonso, olhando por cima do ombro para nós, com um sorriso no rosto. Mal suava. Fazia aquele trajeto com frequência, afinal.

— Muito foda, cara — elogiou Daniel, dando um tapinha animado nos ombros de Afonso. Ele concordou com o rosto, ainda sorrindo.

Afonso nos escoltou até a pequena casa de dois andares em que morava, no final de uma viela próxima. Sua família estava em polvorosa lá dentro, alguns vizinhos entrando e saindo, ajudando a levar os preparativos para o local onde seria feita a comemoração dos cinquenta anos de Reinaldo.

— Afonsinho! Pega esse isopor com as cervejas do seu pai. Que bom que trouxe os meninos, tem muita coisa pra levar — a mãe de Afonso, Margarida, que mal tinha feito quarenta anos, falava com propriedade. Deu um beijo estalado na bochecha do filho.

Eram muito parecidos, mãe e filho. O pai de Afonso, Reinaldo, tinha um sorriso torto, o rosto mulato repleto de pintas e sardas e muitas rugas. Era um homem alto, um pouco acima do peso, com ombros largos.

Margarida era uma mulher esguia, também alta, com cabelos negros como sua pele. Costumava usá-los em belos coques, decorados às vezes com flores e laços, como naquele dia. Magra, de ombros estreitos e cintura fina, se arrumara com um bonito vestido floral azul escuro, cinturado. Seu rosto de mesmo tom de pele que o de meu amigo estava delineado por um sorriso idêntico ao dele, olhos amendoados e expressivos como os de Afonso. Falava muito pelo olhar, como seu filho.

Por trás da mãe, saiu Rosélia, a filha de dezenove anos. Era também bonita, tinha os mesmos cabelos da mãe, mas era mais parecida com o pai, da mesma pele e olhos alguns tons mais claros. Seu corpo era mais cheio, e, naquele momento, seus braços fortes carregavam sacolas de refrigerantes.

Andei até ela e a cumprimentei, depois de abraçar a mãe de Afonso. Margarida me avisou que tinha uma conserva de pimenta caseira para que eu levasse, e que não esquecesse disso, enquanto eu me oferecia para ajudar Rose, que aceitou a oferta de bom grado. Segurei uma pesada sacola repleta de garrafas e garanti a mãe de Afonso que a recordaria no final do dia, agradecendo a gentileza.

Daniel, Afonso e Leonel, o filho mais velho de Reinaldo e Margarida, carregavam juntos um enorme isopor. Com vinte anos de idade à época, não pude deixar de notar que ele fora o filho que mais saíra a mistura dos pais. Tinha os olhos castanhos claros e estreitos de Reinaldo, e o sorriso largo e brilhante de sua mulher. Marcos e Beto vinham atrás, levando alguns sacos de gelo. Por último, nos seguiu o irmão caçula de Afonso, Simão, que parecia uma miniatura do nosso amigo.

Tinha doze anos, e gostava de imitar os irmãos. Por todo o caminho, se ofereceu para segurar minha sacola, mas eu lhe dizia que não precisava. Por fim, insistiu tanto que Rose desistiu e quase jogou os refrigerantes dela em cima do garoto. Dei uma risada, enquanto o caçula fitava a irmã mais velha com uma expressão carrancuda, portando sua sacola.

Lembrei-me de Flavia, e meu peito apertou de saudades. Minha pequena família não tinha essa cumplicidade que a de Afonso dispunha. Eu mantinha aquilo para mim, mas não podia negar que invejava essa naturalidade calorosa.

Não tardou muito e chegamos a um barzinho perto de uma quadra que dava vista para o mar e os prédios de Ipanema. Alguns amigos dos pais de Afonso e do meu próprio amigo já jogavam uma partida, eu os vislumbrava correndo de um lado ao outro no chão cinza.

Afonso, Daniel e Leonel deixaram o isopor perto das mesas dispostas pela calçada do lado da quadra. Alguns dos vizinhos de Afonso sentados nas cadeiras próximas tinham violões, pandeiros e outros instrumentos, e arriscavam uma música de pagode que eu não conhecia.

No bar ali perto, Margarida cumprimentou a dona que saiu por detrás do balcão, uma senhora idosa chamada Dulce. Presumi que fora ela quem lhe cedera algumas das mesas e cadeiras para o aniversário de seu marido. Vi que as duas se abraçaram, e depois Dulce nos avisou que poderíamos usar uma das geladeiras para guardar parte das comidas e bebidas.

Era impressionante como a vizinhança parecia ter cumplicidade entre si. Eu morava em um prédio baixo, com muito menos vizinhos por apartamento, e nenhum deles jamais me tratara com metade daquela cortesia.

Após nos oferecermos para ajudar no que mais fosse preciso, Margarida recusou, nos orientando a aproveitar a festa. Logo Reinaldo chegaria do trabalho e poderíamos lhe dar os parabéns.

Daniel, Marcos, eu e Afonso não usávamos mais o uniforme, tínhamos nos trocado na escola, antes de seguir nosso amigo até o morro do Cantagalo.

Roberto olhou de nós para os outros garotos que batiam bola com alguns homens mais velhos, amigos de Reinaldo, e pareceu ficar um pouco constrangido. Eu não disse nada, para não incomodá-lo mais.

Marcos perguntou para Beto se queria beber algo, e meu amigo gaúcho concordou, saindo de perto da entrada da quadra. Tão logo se afastaram, eu deixei de mirá-los e dei alguns passos para perto da cerca curta que havia entre o piso de concreto da quadra e a calçada.

Afonso, usando uma camisa do Flamengo, shorts esportivos e tênis, abriu o portão baixo e saiu entrando na quadra. Alguns amigos vieram lhe cumprimentar. Daniel, que por sua vez vestia sua camisa retrô do Paulistinha, ídolo da defesa do Botafogo, colocou um cotovelo em cima da minha cabeça, se apoiando nos meus cabelos, me fazendo olhá-lo com um encarar irritadiço. Porém, não me fitava. Soltou um sorriso breve ao avaliar o espírito da partida que já começara, e guiou seu olhar para Afonso, que dava uma corrida reduzida para dentro da quadra.

— ‘Tô na de fora? — indagou meu melhor amigo. Nosso amigo flamenguista riu em deboche.

— Para de merda, botafoguense, entra logo. — Afonso fez um gesto com as mãos para que Daniel entrasse na quadra. Depois, dirigiu seus olhos para os meus, ainda sorrindo.

— Não quer jogar também não, Ciça?

Balancei o rosto em negativa.

— Não, tô meio cansada. Tomei uma porrada feia no treino de quinta, e amanhã tem a semifinal — desconversei por meio da desculpa do torneio, mas a verdade era outra.

— ‘Cê que sabe! — Virou-se para entrar em campo na quadra. Um de seus amigos acabara de fazer o travessão do gol adversário tremer. A bola quicara contra a trave e entrara com tudo, depois de uma pancada bem impulsionada.

Afonso comemorou gritando, e Daniel me deu um tapinha de brincadeira na nuca.

— Fresca — xingou e pulou a cerca baixa. Vi seus cabelos balouçando contra seus ombros, os cachos espiralados movidos pelo vento e pelo movimento. Recostei-me na grade, sozinha, observando a partida.

Eu não queria participar para não atrapalhar. Havia uma diferença brutal entre jogar futebol com meus amigos, e jogar com os amigos de Afonso, que poderiam não se sentir à vontade de rachar a bola comigo, uma patricinha recém-chegada. Aquele não era meu espaço, não iria estragar a festa alheia.

Deixei meus dedos deslizarem pelo meu cabelo e depois puxei a gola da minha camisa do Timão. Estava quente debaixo do sol que batia forte no concreto.

— E aí, Bailarina? ‘Tá de Marcelinho Carioca hoje?

Uma voz conhecida, firme e barítono, galhofava perto de meu lado esquerdo. Movi meu rosto nessa direção, e logo o vi se aproximando com uma lata de cerveja na mão.

— ‘Tô. E você, ‘tá de vagabundo mesmo? — retruquei, contendo um sorriso brincalhão em meus lábios.

— Muito tempo que eu não te vejo, hein... ‘Tá sumida — o dono daquela voz descansada e fanfarrona parou ao meu lado, apoiando um braço na grade que cercava a quadra. Eu havia retornado a acompanhar o jogo de meus amigos, mas fui forçada a dar outro sorriso zombeteiro para ele.

— Pode parar por aí, Mazinho — o tratei pelo apelido que tinha na loja de Afonso, do qual não gostava. Usei de uma expressão desaforada, sorvendo sua reação reprovadora. Gilmar, amigo de Afonso, negou com o rosto e me deu outro sorriso convencido.

— Não ‘tô falando nada além da verdade. Eu não te vejo desde... — fingiu não lembrar. Eu tinha certeza de que se recordava.

Afinal, tinha sido eu quem o dispensara.

— Desde agosto do ano passado — pronunciei. — Faz mais de um ano.

— É mesmo... E você não cresceu desde então — brincou, fazendo pouco da minha altura.

— Nem você — retorqui na hora, troçando de seu humor abobalhado.

— Graças a Deus — gracejou, e eu soltei uma risada.

Gil, Mazinho ou Gilmar e eu tínhamos uma breve história. Não sei se acharia interessante, mas vou contar logo de uma vez. Lembram-se dos beijos que troquei com Daniel quando eu tinha quinze anos? Pouco antes deles, eu passei um curto período de tempo saindo com Gilmar.

Conhecemo-nos em uma festa junina do Colégio São Patrício. Sendo uma instituição jesuíta, reportando-se a Igreja Católica, nossa escola tinha inúmeros projetos comunitários pelo Rio de Janeiro. Alguns deles inclusive no morro do Cantagalo. Uma das formas de angariar dinheiro para tais fins — além de sugar as contas bancárias dos pais de seus alunos, com suas mensalidades abusivas — era dar festas pontuais no amplo espaço da escola.

A festa junina sempre era um dos maiores eventos. O pátio esportivo e o campão de areia eram fechados, para montarem barraquinhas patrocinadas por algumas empresas. Cada aluno tinha direito a cinco convites, fora os ingressos que eram vendidos. Naquele ano, Afonso levara seus irmãos, um primo e Gilmar.

Estávamos jogando de improviso, perto de um gol de uma das quadras fechadas do colégio. Afonso tinha tentado tirar a bola de meus pés, mas eu o driblei com um belo travão. Em meio a corrida até o gol, estaquei, e fingi que viraria para meu lado direito, seguindo na verdade pela esquerda. Afonso tropeçou, caindo no drible, e eu segui girando na direção certa. Fora um movimento quase dançarino, segundo quem nos testemunhara, por isso o apelido de “Bailarina”, dado pelo irmão mais novo de Afonso, Simão. Logo depois, mirei a bola perto da trave direita e fiz um gol rápido e rasteiro.

Gil adorara aquilo. Foi perguntar, curioso, de mim para Afonso, achando que eu era mais nova, por minha estatura e rosto juvenil. Ele lhe contou que eu tinha quinze anos, e isso pareceu animar seu colega de trabalho, que tinha recém feito dezoito na época.

Depois de jogarmos um pouco, perto do final da festa junina, Gilmar me chamou em um canto, puxando conversa sobre futebol. Comprou uma cerveja pra mim, e, perto de uma escada escondida que levava para uma sala de artes, me beijou.

Eu ficara fascinada com aquela oportunidade. Jamais imaginaria que um rapaz maior de idade pudesse se interessar por mim, me julgava uma garota sempre vista como masculinizada e excêntrica. Foi um bom incentivo para melhorar minha autoestima.

Fora que me engraçar consigo alimentava minha natureza rebelde. Gilmar era um rapaz de classe média baixa, morador de Vila Isabel, bairro da Zona Norte da cidade. Tinha todo um porte prosa, o típico malandro carioca, um exemplar do estereótipo que revoltaria pessoas elitistas, como meu tio Fred e toda a minha família.

Era um jovem de pele oliva, cabelos ondulados negros, olhos alongados castanhos e lábios compridos. Tinha um ar chistoso e cheio de si, mas sabia ser reservado, se preciso fosse. Não era muito alto, deveria medir por volta de um metro e setenta e alguns centímetros.

— Vai ficar o resto da vida sendo vendedor daquela loja? — provoquei, e ele bebeu um gole de cerveja antes de me responder.

— Enquanto não termino a faculdade, com certeza. O chefe finge acreditar nos meus migués*, não vou ter essa folga fácil em nenhum outro lugar — assumiu, e eu dei uma risada sem som.

— Tá gostando?

— É o que tem pra hoje. Depois que eu me formar eu vejo qual é — alegou, dando de ombros. Gil fazia faculdade de administração. — E você, já escolheu pra que vai prestar o vestibular?

— Coloquei quase tudo o que é opção de humanas — confessei, erguendo uma sobrancelha ao passo que fazia uma careta de incerteza.

— É mais a sua cara mesmo. Mas sei lá... ‘Cê é rica, podia fazer educação física e abrir tua própria escolinha feminina — sugeriu, apoiando a latinha em cima da grade.

— Não fala assim — sussurrei. Eu tinha certa culpa burguesa de ser uma menina cheia de dinheiro em um ambiente menos abastado como aquele. Ele fez um estalo de desdém com os lábios.

— Que bobagem, não tem que ter vergonha disso — afirmou, e foi minha vez de levantar os ombros. Desviei o olhar, vendo Daniel entrando em uma dividida com um amigo de Afonso, pela bola.

Ao fita-lo de novo, o semblante de Mazinho demonstrava presunção.

— Quando vai assumir o namoro?

Pestanejei, atordoada.

— Quê? — devolvi, apertando a grade da quadra com a mão direita. Ele soltou outro estalo desacreditado com os lábios.

— Você e aquele moleque — Apontou para Daniel com a latinha de cerveja. — Tu não desgruda dele. Mesmo na época que a gente saía, essa porra parecia um abutre em volta de você, e olha que o flamenguista da tua roda é o Afonso — debochou.

— Não fala merda, que nojo — revidei, fingindo que eu realmente não tinha ficado com Daniel pouco tempo depois de parar de me encontrar com Gil. — Não tem nada a ver, a gente é tipo irmão, sempre te disse isso — ressaltei, séria.

— Irmãos incestuosos. ‘Cê acha que eu sou otário que nem seus amiguinhos da zona sul, Cicinha? — brincou, e eu torci os lábios, irritadiça. — Esse papo de mulher de “ai, é meu irmão”, é um dos maiores caôs da história — continuou cético.

— Olha, não que seja da sua conta. — Virei-me para ele, nada interessada em prolongar aquele assunto, pois me trouxera a lembrança de Bento e de tudo o que o envolvia. — Mas não tem nada rolando entre eu e ele, e inclusive Daniel tem uma namorada há praticamente um ano — contei, me afastando da quadra. Gilmar me seguiu, parecendo se divertir em me provocar.

— Fica bravinha não, que aí eu não resisto — Gil troçou, e eu girei nos calcanhares, o fitando de novo.

— Para com isso — me queixei, lhe dirigindo um olhar feio. Ele aparentou contrição, erguendo a latinha que quase terminara de beber. Atrás de seus ombros, Afonso xingava alto por ter perdido um gol feito.

— Foi mal, não falo mais nisso. Mas é bom ‘cê saber... Eu não tô com ninguém, ‘cê não tá com ninguém... Ou ‘tá? — insistiu no assunto, enquanto eu cruzava os braços e negava com o rosto, incrédula por ele teimar em flertar comigo.

Aquele barco já tinha zarpado há tempos. Todavia, a pergunta me fez cismar em rememorar a problemática figura de meu professor de exatas. Levei os dedos a testa e meneei a cabeça, de novo.

— Não, não ‘tô.

— Demorou ‘pra falar. Tem certeza disso? — Ele ergueu as sobrancelhas, jogando a lata vazia em uma lixeira pública.

— Tenho, garoto. Me deixa em paz — urgi, esforçando-me para controlar a amargura. Gilmar mexeu nos bolsos da bermuda que usava, até achar um maço de cigarro.

— Fica calma, Bailarina. Tá estressando por tão pouco... — Acendeu um cigarro com o isqueiro, bafejando a fumaça.

Lembrei-me de Bento fumando na quarta-feira, depois de tirar minha virgindade.

— Me dá um — quase demandei, ao invés de pedir, esticando uma mão.

— Qual é a palavra mágica? — Gil deu uma risada incrédula.

— Por favor — proferi o pedido educado, contudo encrespava as sobrancelhas, sem paciência.

— Continua a mesma patricinha malcriada de sempre. Vamos fumar longe da Margarida, ela não ia gostar de me ver desvirtuando uma menor de idade — falou com um olhar malicioso. Crispei os lábios, mas o segui até outra rua, que também tinha vista para Ipanema.

Depois de fumar três cigarros, conversar sobre o Corinthians e o Vasco — time de Gilmar —, o campeonato brasileiro e as novidades de sua faculdade, eu estava mais descontraída. Tinha dado algumas risadas de uma história que ele me contou, sobre ter ficado excessivamente bêbado em uma choppada, quando ele voltou a me inquirir perguntas pessoais.

— E você? Tomou alguma decisão vergonhosa na protegida vida da Cicinha? — troçou, tragando fundo o cigarro. Eu fiz o mesmo, me empenhando para desviar meus pensamentos do que aquele tópico me recordava.

— Não. Só as mesmas besteiras de sempre — mencionava o fato de que eu fumava maconha, de maneira implícita.

— Sei... ‘Cê ‘tá com uma carinha diferente. Tu costumava ter uma puta cara de marrenta. ‘Tá com um jeitão mais humilde... Tomou um pé na bunda?

Fechei a expressão ao fita-lo, a raiva incapaz de ser disfarçada.

— Sabia. Foi o Daniel que te chutou? — Sorriu, repleto de atrevimento.

— Já disse que não tenho porra nenhuma com o Daniel! — praguejei, soltando a fumaça do cigarro na direção de Gilmar, de propósito.

— Tá bom, tá bom — Ergueu as mãos. — E quem foi então? — Pisou em cima do cigarro.

— Ninguém — me recusava a falar no assunto.

— Nossa, te magoou feio hein. Com ele você foi até os finalmentes? — Mazinho me deu um encarar fuzilante. Foi por pouco que não desferi um soco em seu rosto.

— Vai se foder! — insultei-o, saindo de perto. Joguei o cigarro fora, e saí a passos apressurados até a quadra. Gilmar deve ter me seguido, mas não olhei por cima do ombro. Andei até a mesa em que Marcos e Roberto conversavam e comiam cada um seu próprio prato de feijoada. Peguei um guaraná para disfarçar o cheiro de cigarro, e percebi que Reinaldo, pai de Afonso, estava por perto. Dei-lhe um abraço de feliz aniversário e desatei a conversar consigo.

Depois de um bom tempo, notei que Gil entrara em uma roda de amigos que eu não conhecia, e vez ou outra me dirigia um olhar entre o curioso e o culpado. Minha vontade era de lhe mandar um dedo do meio, furiosa.

O aniversário se seguiu sem mais conversas indiscretas. Diverti-me com meus amigos, e logo cantaram parabéns para Seu Reinaldo. Perto do pôr-do-sol, Afonso conduziu a mim e alguns outros amigos até o Mirante da Paz, e assistimos o espetáculo natural. Antes de irmos embora, Mazinho se aproximou e pediu desculpas pelo comportamento folgado, mas eu apenas lhe dei um olhar gélido em resposta.

Era perto das nove da noite quando descemos o morro para pegar o ônibus para casa. Marcos morava perto, foi a pé. Daniel, Roberto e eu pegamos o transporte coletivo, Beto descendo primeiro na Gávea.

Quando chegamos na altura do Jardim Botânico, Daniel falou que me acompanharia para casa. Ao ficarmos a sós no ônibus, ele recebera uma ligação da namorada, e passaram quase meia hora discutindo. Pelo que pude compreender, Sandra estava revoltada por Daniel não tê-la levado ao aniversário, e ter passado o sábado inteiro sem lhe dar notícias.

Saímos no meu ponto de ônibus, e fizemos um caminho diferente, subindo por ruas mais altas do que a da minha casa. Deduzi que Daniel queria ir na pracinha que costumávamos brincar quando crianças.

Dito e feito. Ele contornou a esquina à esquerda, que nos levaria a uma praça circular, com alguns balanços, trepa-trepa, gangorras e banquinhos. Muitas árvores a rodeavam. Era um lugarejo cândido, um pequeno refúgio reservado a brincadeiras infantis.

— Lembra de quando a gente quase derrubou sem querer essas duas árvores? — recordou-me, tocando no tronco de uma árvore que fora plantada quando éramos muito novos, por volta de nossos seis e sete anos de idade. Estava alta, frondosa, tão diferente da muda que era naquelas memórias.

— Foi tenso. Sua mãe deu uma bronca colossal na gente — relembrei do rosto indignado da mãe de Daniel, ralhando conosco por termos usado as árvores recém plantadas como traves de gol improvisadas. Compartilhamos algumas risadas ao recordar dessa desventura.

— E você me fez parar no hospital depois de me convencer a pular desse balanço. — Indiquei o brinquedo em questão com as mãos. Daniel gostava de balançar alto e saltar para longe, caindo em pé. Quando me convenceu a fazer o mesmo, eu tropecei e caí de queixo no chão. O corte foi tão fundo que precisei de pontos.

— Pior que eu ri muito antes de perceber que era sério. Passei uma semana pedindo desculpas e levando esporro em casa. — Fez uma careta, encarando meu rosto como se ainda quisesse que eu relevasse aquilo.

— Meu tio quis te matar quando soube. Sorte que, pra variar, era a babá que ‘tava comigo naquele dia. — Ergui as sobrancelhas em um olhar trocista para meu melhor amigo. Ele concordou com o rosto, soltando um assobio como se tivesse se livrado de algum problema enorme.

Perto dos balanços, havia um escorregador e algumas barras em formato de arco. Embaixo dessas barras, outros gêneros de lembranças estavam guardadas, e não seria eu a levantá-las em voz alta.

Do tempo do que poderia ter sido e nunca foi, envolvendo certa proximidade sentimental entre nós.

Engoli em seco, esquivando o olhar daquele brinquedo, me sentando no balanço. Daniel se sentou ao meu lado, apertando as correntes.

— E aí, o que houve? — interpelei-o. Sabia que meu melhor amigo entenderia o motivo do questionamento.

— A Sandra tá chata pra caralho, cara... — Daniel soltou a expiração, olhando para a rua a frente. As casas ostentosas e prédios baixos seguiam bairro adentro, sem nenhum morador passeando por ali. Tão diferentes da comunidade que tínhamos acabado de deixar.

— Por que ‘cês brigaram? — Movi o rosto para fita-lo melhor.

— Ela é ciumenta demais. Paranóia pura. Parece que nunca sossega, porra, eu só queria passar um dia com os meus amigos sem ela reclamar — desabafou, liberando uma exclamação de raiva. Seu rosto que sempre expressava simpatia e gentileza estava aborrecido. Era bem o gênero de semblante que não combinava com Daniel. Ele tinha traços muito indulgentes para usar daquele tom turrão. Senti uma leve vontade de rir.

— ‘Cê tem que conversar com ela sobre isso — aconselhei, balouçando com suavidade o brinquedo em que me sentava.

— Não é fácil. Ela tenta desconversar, dizer que eu ignoro ela, que eu prefiro meus amigos, que... — Parou de falar, de súbito.

— Quê? — Já balançava mais forte agora, aproveitando a sensação gostosa e gelada perto do ventre que aquele movimento trazia.

— ...Que você me dá mole e tal — contou, e eu outra vez virei meu rosto em sua direção. Parei o balanço com os pés fincados na areia, indignada.

— Sua namorada come merda? — indaguei, revoltada.

Essa determinação que as pessoas ao nosso redor pareciam ter, de que eu e Daniel tínhamos de ter algo mais além de uma amizade sólida, beirava o insuportável de tão fastidiosa.

Meu melhor amigo teve de rir.

— É foda, já falei que te acho uma nojenta que não gosta de tomar banho, mas ela inventa motivo pra brigar. — Dei a língua para ele, ao ouvir o comentário debochado. — Quando não é você, é alguma menina da escola, do curso de inglês, na moral, eu deveria até me achar, porque pelo jeito que ela fala eu sou o cara mais irresistível do mundo. — Saiu de seu balanço e o contornou, segurando as correntes do meu. Movimentei o rosto e o avistei atrás de mim.

— Ela definitivamente come merda — certifiquei-o com um olhar assertivo. Daniel riu seco e começou a me empurrar no balanço.

— Vamos ver se você quebra esse focinho de porca hoje de novo — brincou, me dando empurrões fortes.

— Para! — bradei, enquanto meu melhor amigo seguia me empurrando pelas costas. Acabamos às gargalhadas, debochando de nossos próprios dramas adolescentes.

Era perto de meia-noite quando Daniel e eu decidimos ir para minha casa. Deixamos a pracinha, e tomamos o rumo até minha rua. No meio do caminho, ele tocou no assunto “Gil”.

— Aquele cara que ‘cê saía ano passado veio falar contigo hoje, né não? — perguntou, e eu confirmei com um aceno de cabeça, revirando os olhos.

— Veio encher o saco — comentei, me recordando da breve interação petulante.

— É, mas você bem foi pro cantinho com ele... — Daniel troçou, me fitando com seus olhos castanhos claros cheios de ardil. Era outra expressão que não combinava com seus traços angelicais.

— Fui fumar no cantinho. Cigarro normal — acresci. Eu ficaria preocupada de fumar maconha no morro do Cantagalo. Uma patricinha da zona sul subindo o morro para usar drogas ilícitas era um clichê barato e desagradável.

— Porra, Ciça, e o jogo amanhã? Vai correr mal — repreendeu-me, franzindo as sobrancelhas. Soltei um suspiro exaurido.

— Me deixa. — Comprimi um bocejo com os lábios fechados, e voltei ao assunto anterior.

— Mas ele veio cheio de conversa mole mesmo. Falou um bando de merda, até que eu mandei ele ir se foder — admiti, e Daniel riu.

— Eu sempre achei ele meio folgado mesmo. Até porque né, o que um cara de dezoito anos iria querer com uma pirralha de quinze? Tem que ser muito ruim de jogo — referiu-se à época em que nos encontrávamos. Dirigiu-me outro encarar trocista.

— Cala a boca, Daniel — respondi, tornando minha expressão facial mais irritadiça.

Se ele achava controverso um rapaz três anos mais velho se interessar por mim, eu não iria querer nem imaginar o que pensaria de Bento.

— Mas eu nunca entendi muito bem porque largou o cara. Você parecia amarradona — confidenciou-me, e eu assenti com o rosto.

— Achei ele meio escroto. Aí pensei que seria melhor terminar — falei, e meu melhor amigo apenas balançou o rosto, compreendendo.

A verdade era outra. Eu estava mesmo bem interessada em Gil. O problema foi a minha reação. Algo muito similar à reação que me descontrolou, quando Daniel e eu estávamos ficando muito próximos, em outro sentido de contiguidade.

Eu nunca tinha avançado tanto nos ensaios carnais antes. Experimentei alguns gêneros de deleites físicos pela primeira vez com o Mazinho. Teríamos sim ido até o fim derradeiro, era a intenção dele e a minha, quando, em uma tarde de agosto, ele me levou até um motel perto de sua casa, em Vila Isabel, com o carro de seu pai.

Era uma sexta-feira. Ele falou que eu não precisava fazer nada que eu não quisesse. Tinha concordado, mas, internamente, já havia decidido que aquele seria o ensejo definitivo.

Quando eu estava nua em seus braços, porém, tive uma reação inesperada. Uma vontade desesperadora de fugir, como se algum perigo iminente me aguardasse nas sombras daquele quarto alugado. Suei frio, perdi toda a excitação que sentia, para dar lugar a uma sensação asfixiante de pavor. Minhas pernas tremeram, estava difícil de respirar, e Gil beijava meu pescoço, prestes a se alçar dentro de mim.

Fiquei zonza. Era como se eu estivesse caindo, mesmo que estivesse, em verdade, deitada no colchão da cama de casal. Uma vertigem nauseante tomou conta de mim, e enfim agi.

Eu o empurrei com força, sentindo que lágrimas subiam aos meus olhos. Atônito, ele me questionou o que havia feito de errado. Eu disse que nada, só que precisava ir para casa, um quanto antes.

Tentou me acalmar, foi até compreensivo. Todavia, a sensação de urgência não me deixava. Só me senti um pouco melhor quando ele me deixou em casa, frustrado, e, percebi, um tanto enfurecido.

Nunca contei esses detalhes para Daniel. Apenas para Flavia. Falei que me senti muito criança, e me culpei por reagir assim. Tentamos desvendar o que poderia estar por trás de todo aquele pânico súbito, mas não tivemos sucesso.

Lembro-me de que, nesse dia, meu tio voltou cedo do escritório. Jantamos juntos, e eu desatei a chorar no meio da refeição, sem me controlar. Ele se levantou e me abraçou, e aquilo me deu uma dose de ânimo estranhamente revigorante. Como se eu tivesse procurado por aquele amparo específico, depois de todo o medo experimentado.

Nunca mais saí com Gil. Ele tentou me convidar algumas outras vezes, mas neguei sempre, até que entendeu a mensagem.

Eu tinha aquelas lembranças em mente, distraindo-me pelo que restava do caminho. Daniel falava algo sem importância ao meu lado, sobre nossas próximas provas, e eu fingia que ouvia, absorta em minhas divagações internas.

Era tão curioso pensar que, quando me aproximei de Bento, não senti nada parecido. O que havia de diferente? Eu também desejei Gil. Também queria que ele me tocasse, quando saíamos juntos.

Estava a refletir sobre tal enigma quando atravessamos as grades abertas da portaria. Daniel me dava um abraço de despedida, quando o porteiro me chamou.

— Cecília, mandaram entregar uma coisa pra você — Seu Edu alertou-me. Franzindo o cenho, desconfiada, fui até a mesa da portaria. Daniel me seguiu.

Arregalei os olhos ao ver o que esperava por mim.

Um buquê de rosas, gracioso e ornamentado, embalado com um material delicado. Junto dele, um cartão, sem assinatura, em uma caligrafia que eu conhecia:

“Desculpe. Não me arrependo de nada”

Meus dedos estavam segurando o cartão, fixos. Sequer pisquei, sem desviar meus olhos do papel que eu mantinha em minhas mãos rijas.

Daniel o leu por cima de meus ombros.

— Olha só, acho que o Gil tá querendo um revival... — sugeriu com um riso sardônico.

Pela letra, não fora Mazinho quem me presenteara com tal prenúncio de algo mais.

Fora Bento.

Notas finais
Ciça terminou o último capítulo chorando de se acabar, para terminar esse com cara de tacho. Acho que nosso professorzinho também está com a cabeça bem confusa. O que acham que motivou a Ciça a congelar com o Gil? Eu tenho as razões bem explicadinhas, vamos ver se vocês vão sacar... A mente humana é bem interessante, nossas contradições nos fazem seres sofridos, mas fascinantes. *Migué: é uma gíria carioca para inventar uma desculpa. Aguardo comentários!