Amor Faminto

30 Capítulo 29: Sou Tua


CAPÍTULO 29

Lydia sentia-se num palco, o holofote, todos os olhos em si. Observavam, julgavam. Como se ela estivesse a um segundo de se desmoronar. Como se estivesse a um segundo de um desastre total. Entorpecida, a dor interminável.

A rapariga dos cabelos vermelhos foi parada por Ryan Mathews, ele não a havia visitado no hospital. Talvez fosse por causa da Octavia, ou talvez por simplesmente não se importar.

"Como estás?" Ele evitou olhá-la nos olhos, "Desculpa não te ter ido visitar, sabes, eu-."

"Estou bem." Lyds assentiu.

"Isso é bom." Ryan sorriu de leve.

O olhar de Jones caiu e o pequeno sorriso forçado, que havia rasgado na sua cara antes de sair de casa, havia-se apagado. Ryan percebeu a mudança da rapariga e engoliu em seco.

"Podes responder-me a uma pergunta?" Lydia levantou a cabeça.

"Sim, eu acho."

"A vampira... ela estava na minha casa para me matar ou para matar a minha mãe?" Ela perguntou, os seus olhos verdes brilhavam.

"Eu acho que ela estava lá por ti, Lydia." Ryan disse-lhe, com sinceridade.

"Mas porquê?" Ela balançou a cabeça, confusa, "Ela precisava de mim!"

"Eu não sei." Mathews deu um descuidado encolher de ombros, "Mas isso não importa agora, certo? A vampira está morta, Lydia. Garanto-te."

Uma nova questão assombrou a rapariga dos cabelos vermelhos, ela mordeu a sua língua, esperneou dentro de si, tentou convencer-se de que fosse qual fosse a resposta não importava, porque a vampira estava morta. E, ainda assim, todo o seu esforço não foi suficiente.

"Quem a matou, Ryan?"

Ele olhou à volta, desconfortável, "Isso importa?"

"Eu quero saber." Lydia não desviou o olhar.

"Não foi o Alec, se é isso que te perturba." Assegurou-a.

"Quem foi?" Ela franziu o sobrolho, "Quem a matou?"

Ryan respirou fundo, memórias daquela noite vieram à tona. Lembrava-se de estar lado a lado com os seus irmãos, os Conselhos não muito atrás. Haviam-na encurralado no canto Este da floresta, nada arrependida, sozinha. Lembrava-se.

"Eu. Eu matei-a." Ryan confessou.

"Tu?" Lydia respirou.

"Octavia merecia melhor."

Jones não sabe muito bem de onde veio a necessidade, a vontade, mas quando percebeu estava a abraçar o vampiro. Um gesto de agradecimento e compreensão. Sabia, no fundo, que Ryan não estava apenas a referir-se ao facto de Octavia ter partido demasiado cedo, ou partido de todo. Estava a falar também de si, estava a admitir que Octavia merecia mais do que ele. E continuou a abraçá-lo, a embebedá-lo na sua pena.

"Desculpa." Ryan sussurrou-lhe, "Ela era a tua família e eu-."

Finalmente, Lydia conseguiu ver a culpa do rapaz.

"Tu és a minha família, também."

Separaram-se, os olhos azuis de Ryan estavam inundados em lágrimas. Nunca o havia visto tão frágil, tão vulnerável, e certamente nunca pensou que ela, logo ela, veria essa faceta dele. Era a primeira vez que ela via Ryan chorar; na verdade, era a primeiríssima vez que via um Mathews a chorar. Algumas vezes, Lydia tinha de admitir, esquecia-se que eles ainda eram algo humano e que quebravam, assim como ela. Era reconfortante, não se sentir sozinha.

"E se fizermos um pacto?" Lydia tentou sorrir.

"O quê?" Ele sorriu de volta.

"O que quer que te tenha preocupado assim que acordaste, deixa para lá. Faz paz contigo mesmo e segue em frente." Ela estendeu-lhe a mão, "Eu vou tentar o mesmo. Prometo."

Ryan olhou-a por alguns momentos, um olhar estranho, ela não conseguiu perceber muito bem. O seu sorriso alargou-se e então ele apertou-lhe a mão, ambos nunca desviaram o olhar.

"Ok." Ele assentiu, "Prometo."

Lydia foi a primeira a soltar a mão, gesticulou com a cabeça e ambos seguiram caminho pelo longo corredor da escola. A campainha havia acabado de tocar e eles tinham aulas para ir. Ryan deixou a rapariga dos cabelos vermelhos à porta da sala de Biologia Aplicada, e seguiu para a sua sala, com um peso a menos nos ombros. E ela entrou na aula, com um alivio no peito.

Alexander foi ao encontro de Lydia no final da aula, e não a largou o dia todo. Depois de quase a perder, ele respirava culpa, bebia-a e vestia-a junto à sua pele como roupa interior. Naquele dia até se havia sentado com ela e as suas amigas, Amber e Malia, semelhanças a um encontro duplo. Horrível, pensou.

"A Lily pode levar-te a casa." Alec disse-lhe, enquanto caminhavam pelo pátio, prontos para abandonarem a propriedade da escola, "Ela não se importa, de certeza."

"Ok." Lydia não ofereceu muita resistência e isso deixou-o confuso.

A viagem de carro foi tensa.

Lily não se sentia bem na presença dos dois, não sabendo os pensamentos do seu irmão, não sabendo o quanto Lydia o amava. Alec, por outro lado, limitava-se a olhar a rapariga de cabelos vermelhos pelo espelho, não se cansava de a olhar, empenhado em decorar cada detalhe da sua face. Lydia havia percebido o ambiente desconfortável e, pelo contrário, ela era, realmente, a única que manteve a conversa durante todo o caminho.

Lily parou o carro, a casa amarela encontrava-se logo à sua direita.

"Bem, aqui estamos."

Lydia manteve-se imóvel, encolhida no seu banco, ainda com o cinto colocado. Alexander e Lily olharam-se, confusos, algo estava, sem dúvida, errado.

"Estás bem, Lyds?" Alec voltou-se para trás.

"Eu- Eu estava a pensar..." Ela mordeu o lábio, "Se podias ficar comigo?"

Os olhos azuis arregalaram-se, ligeiramente. Olhou para a rapariga e viu um reflexo de medo nas suas esmeraldas, ela estava assustada. E ele não a culpava, ele culpava-se a si.

"Claro, vamos." Olhou apenas a sua irmã, mais uma vez, "Falamos mais logo."

"Sim."

Lily arrancou com o carro assim que o casal pisou a calçada do jardim. Ambos seguiram, em silêncio, até à porta. Lydia já tinha a chave na mão, então, abriu-a num rápido movimento. Deixou-o entrar primeiro, como sempre, e só então fechou a porta atrás de si.

"Queres alguma coisa?" Ela perguntou com a voz fraca.

Alec abriu um largo sorriso despropositado, sem qualquer intenção de o fazer, e Jones limitou-se a rolar os olhos, mais para si do que para ele.

"Desculpa, é o hábito." Ela encolheu os ombros.

Deixou a mala no chão, como de costume, e ainda viu Alec sentar-se no sofá e acender a televisão, antes de se dirigir para a cozinha. Precisava de um chá de camomila, precisava de acalmar as suas entranhas, rapidamente. Com as mãos trêmulas, tentou alcançar a chávena na prateleira superior. A sua perna, apoiada na bancada, escorregou e a sua mão trouxe a chávena para baixo consigo. O som estridente alarmou Alexander, na divisão ao lado.

"O que aconteceu?" Ele já se encontrava na cozinha.

Pela primeira vez, Lydia olhou a suas mãos, algumas gotas vermelhas escorriam dos recentes cortes na sua mão direita. Procurou escondê-los, imediatamente.

"Deixa-me ver."

"Estou bem." Jones encolheu-se.

Alexander, com um olhar desesperado, aproximou-se, deu a volta à mesa e alcançou a rapariga dos cabelos vermelhos, tomou a mão dela nas suas e observou os recentes ferimentos. O cheiro delicioso entrenhou-se nas narinas e foi preciso todo o seu esforço para que não se transformasse ali mesmo.

"Deixa-me, eu estou bem, Alexander." Lydia afastou-se.

Ela baixou-se e procurou apanhar os pequenos cacos de barro nas suas mãos, já magoadas. Alec tentou pará-la, implorava-lhe para que parasse. Foi, então, com um último grito que Jones se acalmou e caiu em si, olhou a sua mão ensanguentada.

"Eu estou tão cansada." Lydia disse.

Cacos estavam espalhados à volta deles, no chão. Alec desviou o olhar até ela, nunca deixou a sua face, nem mesmo quando ela colocou uma mecha vermelha atrás da sua orelha.

"Vai dormir. Eu limpo, Lydia." Alec ofereceu, esperançoso.

Um leve e quase despercebido, mas tão triste sorriso abriu-se nos lábios dela.

"Não é desse tipo de cansaço que estou a falar, Alexander."

O rapaz dos olhos azuis ficou imóvel, o nó na sua garganta era impossível de engolir. Ele viu-se impotente, incapaz. E era horrível, a rapariga que amava estava mesmo ali, implorava por sossego e paz. E Alec sabia, melhor do que ninguém, que Lydia não teria nenhuma dessas coisas enquanto estivesse com ele.

Como é suposto olhar-se nos olhos da pessoa que se ama e dizer que não somos suficientes? Que está melhor sem nós? Que talvez, talvez, seja altura de seguir em frente?

Alexander não sabia, andava a perguntar-se essas mesmas questões há demasiado tempo para se lembrar exatamente há quanto e, ainda assim, não havia chegado a uma resposta. Sabia que, provavelmente, não chegaria a nenhuma. Era algo com que ele tinha de lidar.

"Eu consigo arrumar isto." Lydia levantou-se.

Alec agarrou-lhe o pulso, num impulso, não a deixou afastar-se. Olhou-a nos olhos verdes, tão fundo que Lydia podia jurar que ele estava em busca de todos os seus segredos, os seus medos. Mas nenhum deles desviou o olhar.

Num movimento suave e, quase, despercebido, Alexander puxou-a para si, o seu queixo assente, carinhosamente, no topo da cabeça dela. As mãos de Lydia mancharam a camisola azul do rapaz, que a abraçava. Ela limitou-se a fechar os olhos, enquanto ele procurava controlar a sua respiração.

"Desculpa-me." Murmurou-lhe, em desespero, "Desculpa-me, desculpa-me, desculpa-me."

Lydia afastou-se para o olhar, "Porque é que te estar sempre a desculpar?"

"Eu continuo a magoar-te e vou continuar... até que não reste nada de ti, Lydia." Alec disse-lhe, com o tom mais sincero que ela já havia ouvido.

"O-O q- Não!" Jones balançou a cabeça, "Tu não me magoas! Tu és a razão porque eu ainda aqui estou!"

"Não digas isso, não é verdade." Ele baixou a cabeça, "Tu sabes que não é verdade."

"É pois. Deus, desde que te conheci, é a primeira vez na minha vida que me senti inteira, viva, livre." Ela disse-lhe, com um leve sorriso, "É a verdade."

Alexander deu um aceno fingido, queria pará-la. Não queria saber tudo de bom que ela achava que ele lhe havia trazido, porque no fim, era Lydia quem estava iludida na imagem que tinha de Alec e não ao contrário. A verdade dela estava errada, era assim que ele via as coisas, e isso era suficiente, pelo menos para si era.

Mathews levou a mão ao bolso de trás das suas calças de ganga escuras, trouxe na sua mão direita um colar comprido, com uma pequena pedra, brilhante, mas simples. Assemelhava-se a Lydia, frágil, mas fascinante.

"Este colar... É o meu talismã." Alec começou, "E eu quero que tu fiques com ele, para que ele te dê a força de que eu precisei uma vez, e de que tu precisas, neste momento."

Lydia franziu a testa, ignorou a dor no seu corte, "Isto não é um pedido ou-."

"Não, não!" Ele sorriu, "É apenas uma forma de te lembrares de mim."

"Lembrar?" A raparigas dos cabelos vermelhos olhou-o, assustada, "Porque eu haveria de ter de me lembrar de ti, Alexander?"

"Quando vais dormir, não estás sozinha." Deu-lhe o seu melhor sorriso.

Os lábios de Lydia curvaram-se, em agradecimento. Voltou-se de costas para o rapaz, afastou os cachos vermelhos e esperou que ele acabasse de lhe colocar o colar.

"Fica-te bem." Alec admirou-a, "Tu és linda, Lydia Jones."

"Era de alguém?" Ela perguntou, curiosa, "Parece de mulher."

"Da minha avó paterna." Ele assentiu, "Ela era uma vampira, também. O meu avô não era, esse colar foi-lhe oferecido por ele. Foi a única coisa que lhe restou."

"Onde está ela?" Lydia inclinou a cabeça.

"Matou-se, arrancou o seu próprio coração e-." Mathews não conseguiu acabar.

Alexander era muito próximo da sua avó, havia sido ele a encontra-la morta, tinha apenas dez anos e ainda se lembrava de cada detalhe. Sentia falta.

"Oh, Alec, lamento." Ela procurou amenizar-lhe a dor.

Lydia alcançou as mãos do rapaz à sua frente, e, no mesmo momento, arrependeu-se. Um grito agonizante escapou-lhe pela garganta, retirou as suas mãos, imediatamente, os cortes ardiam-lhe na mão.

"Temos de tratar disso." Alexander disse-lhe.

Um segundo olhar nos cortes e as presas de Alec começaram a aparecer, os seus olhos tornaram-se mais brilhantes. Lydia observou a transformação do vampiro, deixou-se olhá-lo, não lhe disse nada, não sentiu qualquer medo.

Alec não fez nada por algum tempo, apenas oscilou entre as manchas vermelhas na mão pequena de Lydia e os olhos verdes. Ela gesticulou-lhe com a cabeça, aproximou a sua mão direita dele, sem receio algum.

"Lydia-."

"Tudo bem."

Alexander tentou lutar contra a sua natureza, tentou lutar contra a rapariga dos cabelos vermelhos, também. Mas sabia que não era forte o suficiente. Agarrou-lhe o pulso, com delicadeza, e beijou-lhe a palma da mão primeiro, os seus lábios tocaram-lhe nos cortes recentes. Ela não se mexeu, não emitiu nenhum som. De seguida, com a sua língua húmida, deliciou-se com todo e qualquer vestígio de sangue. Lydia limitou-se a fechar os olhos.

Foi rápido, demasiado rápido.

"Vamos desinfetar?"

Quando abriu os olhos, Lydia viu o seu Alec, com os dentes perfeitos e olhos de um azul profundo. Totalmente humano, normal. Sentiu-se tentada a pedir por mais, mordeu o lábio, humedeceu-os. Observou-o tratar dos seus ferimentos, com carinho, enquanto se afogava em pensamentos seus. Nunca havia desejado ninguém daquela forma, não apenas como seu corpo, não apenas com o seu cérebro, mas com toda a sua alma. E era assustador.

"P-Podes, sabes-." Lydia começou, atrapalhada.

"O quê?" Ele aproximou-se, curioso.

"T-Talvez morder-me?" Ela desviou o olhar, imediatamente.

"Morder-te?" Alec arregalou os olhos, "Lydia isso é- eu só fiz isso da outra vez porque tu estavas em sofrimento. Eu não-."

"Tu não queres? É isso?" Jones engoliu.

"O quê?" Ele não sabia bem o que dizer, "Não!"

"Então, tu queres?" Ela arqueou as sobrancelhas.

"E-Eu não posso, Lyds." Alec tentou resistir.

"Porquê? Eu sou tua."

Alexander agarrou-a naquele momento, as pernas delaenvolveram-se imediatamente na cintura dele. Os dois estavam ofegantes, olhosfixos uns nos outros. Todos os pensamentos que tanto preocupavam Alecdesapareceram, tudo o que importava naquele momento era Lydia, dar-lhe mais doque o simples prazer de uma mordida. Dar-lhe tudo o que tinha.