Amor Faminto

31 Capítulo 30: Sentido Da Vida


CAPÍTULO 30

Lydia havia voltado para a Sopa dos Pobres no fim de semana seguinte, estava a começar a sentir-se claustrofóbica dentro da sua casa, parecia que o ar se ia esgotar a qualquer momento. A sua mãe tentou impedi-la, estava preocupada, mas não havia muito que pudesse fazer para pará-la. E Amelia sabia.

"Olá, Lydia."

A rapariga de cabelos vermelhos voltou-se, piscou algumas vezes antes de cair em si. A rapariga à sua frente continuou a sorrir-lhe, para grande surpresa de Jones.

"Candice?" Lydia arqueou as sobrancelhas.

"Sim, sou eu." A loira assentiu.

Candice Queen era o braço direito de Alfie, junto com Alexis. Infelizmente, ou felizmente, ele tinha muitos, um para cada país. Ela devia estar nos seus vinte e poucos anos, talvez menos. Mas ninguém o diria, a vida parecia ter-lhe devorado qualquer vestígio de juventude.

Candy levantou os olhos, "Como estás? Pareces bem."

"Eu estou bem." Jones respondeu e então, engoliu, "Pensava que se tinham ido embora depois da morte da vampira..."

"Nós fomos." Ela confirmou, "Mas o dever chamou-me."

A expressão de Lydia transformou-se, pânico apoderou-se dos seus sentidos. Candice percebeu a respiração acelerada da rapariga e afagou-lhe o ombro, com carinho.

"Não te preocupes. Não é nenhum vampiro maluco à solta, é só papelada dos Conselhos." Candy explicou-lhe, com paciência.

Jones suspirou, em alívio. Uma nova questão assombrou-a e achou melhor deitá-la fora e acabar logo com toda aquela aflição.

"Nunca soube o que aconteceu aos outros vampiros, ela não estava sozinha." Lydia comentou.

"Eles foram-se embora. Alguns foram levados pelo Robert, pediram perdão e juntaram-se ao Conselho Vermelho. Outros, apenas... se foram embora." A loira disse-lhe, com um leve encolher de ombros no final.

"Ok."

"Bem, foi bom ver-te." Candice sorriu-lhe uma última vez, "Cuida-te, Lydia Jones."

E voltou-lhe costas. Passou despercebida entre os sem abrigo e desapareceu. Lydia não demorou muito tempo a olhar para a multidão agitada, rapidamente voltou ao trabalho. Tinha muito para fazer, Jason não havia aparecido e Elena precisava de ajuda extra, por isso não era realmente uma boa ideia perder-se no nada. O que acontecia cada vez mais regularmente.

"O Jason não te ligou ainda?" Lydia perguntou.

"Não, estou preocupada com ele." Elena confessou, "Pensava que ele te tinha dito alguma coisa, afinal vocês são melhores amigos, não é mesmo?"

Melhores amigos. Jones já não tinha a certeza se esse era o termo correto para eles os dois, pelo menos não naquele momento. Não depois da forma como ela o havia tratado. Mas Jason não havia se comportado muito melhor, o que, de alguma forma, a tranquilizava.

"Não acho que sejamos, Elena." Lydia murmurou, "Não mais."

Alexander, por outro lado, estava rodeado pelas suas melhores amigas. A sua irmã mais nova e a sua irmã mais velha, ambas carregavam uma expressão séria e ausente de ânimo. Isso preocupou-o, principalmente Lily, que era sempre saltitante e cheia de vida, mesmo após setecentos anos de existência.

"O que aconteceu?" Alec perguntou.

"Algo aconteceu." A loira aproximou-se, os seus olhos fixavam as suas mãos, "A Candice, do Conselho Azul vem a caminho."

Ele franziu o sobrolho. A vampira estava morta, os outros vampiros tinham-se ido embora, ou se subjugado ao Robert. Quanto azar poderiam eles ter que nunca tinham direito a mais de um mês de sossego? A julgar pela sucessão dos acontecimentos, muito.

"É a lista, Alec. Alguém escreveu o nome da Lydia." Alycia foi direta, "Na lista do Conselho Vermelho e o Robert foi obrigado a avisar o Alfie, afinal, ela é humana."

Naquele momento, Alexander sentiu o chão desmoronar-se debaixo de si. Ele olhou o escuro buraco que agora se encontrava por baixo, preso na imaginação, e o abismo olhava-o de volta, queria engoli-lo e Alec quase deixou.

"Lamento." Lily finalmente, olhou o seu irmão, lágrimas formaram-se nos seus olhos, "Sei que não querias fazer isto, mas não acho que tenhas uma escolha agora."

"Não!" Alexander exaltou-se, "Quem foi?! Quem escreveu o nome dela naquela estúpida lista?!"

"Nós não sabemos." A morena suspirou, "Apenas estava lá esta manhã."

"Teve de ser o Conselho!" Ele acusou, "Só o Conselho pode escrever naquela lista!"

"Ontem à noite ouve uma reunião com todos os membros, pode ter sido qualquer um, Alexander." Lily lembrou-o, "Não há maneira de saber."

Ele, em desespero, olhou a sua irmã mais velha. Ela estava calma, reta na sua posição e apenas levantou o queixo quando ele se aproximou.

"Alycia, tu estavas lá, por favor."

"Eu não vi nada, mano. Lamento." Ela afagou-lhe o ombro.

"Faz algo, então. Por favor, por favor, eu não posso deixar a Lydia ser vendida como uma prostituta para um vampiro qualquer!" Alec balançou-a, pelos ombros, "Por favor."

"Eu faria, se pudesse." Alycia garantiu-lhe.

O dever vem sempre primeiro, não era apenas uma frase que os membros dos Conselhos gostavam de repetir uma ou outra para enfatizar as conversas, era um mantra. Era a verdade. Eles juravam comprometer-se com nada mais que o dever e assim era, como num casamento, até que a morte os separasse.

"Ela não precisa de fazer nada se tu fizeres, Alec." Lily conseguiu a sua atenção, "Marca-a e ela é tua."

"Não! Eu já te disse, não vou condená-la a uma vida dessas!"

A loira encolheu-se, ouviu o coração de Lydia partir-se, viu um futuro de sofrimento. Viu o fim, o fim de muita coisa. O fim da rapariga dos cabelos vermelhos. E ali estava Lily, imóvel, sem poder fazer nada contra a decisão que viu Alec tomar diante dos seus olhos húmidos. Ele não se havia pronunciado, mas Lily conhecia o seu irmão, conhecia-o melhor do que ele se conhecia a si mesmo. E condenava cada palavra que ele estivesse a pensar.

"Então, vamos embora." Ele arfou.

O peito de Alec ardia, ele sentiu o calor subir-lhe pela garganta junto com aquelas palavras. A sua respiração estava encurtada, acelerada, como se interrompida pelos pequenos lamentos de dor dentro de si. Não era tristeza, era dor, era real. Doía-lhe e não era eufemismo algum, doía-lhe como se lhe estivessem a arrancar o coração.

"O quê?" Alycia franziu a testa, "Vais deixá-la?"

"Sim, ela está em perigo por nossa causa, certo? Essa é a razão de nomes serem postos naquela lista, então vamos dar-lhes uma razão para o tirarem." Explicou, ofegante.

Lily baixou a cabeça, uma dor aguda no peito levou-a a fechar os olhos também.

"Entendes, Lily, certo?" Alec buscou o apoio da sua irmã.

A loira levantou o olhar, vazio, "Estou fora."

"O q-que queres dizer?" Ele engoliu.

"Eu não vou ficar aqui e ver-te partir o coração da Lydia apenas porque és demasiado egoísta. Pensei que quando se tratasse dela, tu irias reconsiderar as tuas prioridades, mas não." Lily fungou, "Vais perdê-la e, ao contrário de nós, ela não vai estar cá quando quiseres voltar para casa, Alec."

"Eu vou partir-lhe o coração para lhe salvar a vida!" Alexander argumentou, com lágrimas a inundarem-lhe os olhos azuis, "É tudo por ela, não entendes?!"

A loira não disse mais nada, não entendia. Voltou costas ao seu irmão mais velho e bateu com a porta de vidro, e só então deixou uma lágrima escorrer pela sua pele quente.

"É a tua escolha, Alexander." Alycia sorriu de leve, e reconfortou-o, "Eu estou contigo."

Naquele mesmo dia, Mathews falou com os seus pais, logo após Candice pegar no caderno vermelho, a lista, da mão de Robert e sair da mansão. Não haviam trocado muitas palavras, afinal, a rapariga ainda não sabia de quem era o nome escrito, não havia muito para dizer. Andrea e Thome olharam-se, nenhum deles sabia muito bem o que pensar.

"Eu estou a salvá-la."

"Estás?" Tom franziu a testa, "Como exatamente?"

"Lydia pode viver uma vida humana feliz." Alec disse-lhe.

"Feliz?" Lily tossiu no seu canto, "Engraçado como tu podes decidir como é que as pessoas são felizes."

Andrea lançou um olhar à sua filha, um olhar que lhe pedia silêncio. E isso era a última coisa que Alexander queria, para dizer a verdade, silêncio. Isso fazia todos os seus medos mais altos, reais.

Então ela olhou o seu filho, "Bem, eu só sei que tu tens de amar quem tens de amar. Isso é tudo o que podes fazer, Alec. Deixa-os ir quando tiveres de o fazer. E se tu achas que-."

"Eu tenho de o fazer." Disse-o, como um mantra, "Tenho de saber que fiz os possíveis para a poupar. Preciso de saber que tentei."

"Ok." Foi tudo o que o seu pai disse.

Alexander foi deixado sozinho com a Lily, nenhum deles se moveu, nem emitiu qualquer som. Ele limitou-se a engolir os soluços que ameaçavam trepar-lhe a garganta e ela deixou-se olhá-lo, perguntando-se como alguém era capaz de desistir do amor, assim, tão facilmente.

"Vais dizer-lhe adeus?"

"S-sim." Alec respondeu com a voz a falhar.

"E ela vai dizer-te adeus?" Lily engoliu.

"Não acho que vá." Ele fungou.

"Não consegues olhá-la nos olhos não é mesmo?" A loira acusou.

O seu irmão não respondeu, sabia que ela estava certa. Uma terceira pessoa entrou na pequena sala, olhou os presentes e largou um longo suspiro.

"Estamos de partida amanhã, certo?" Ryan perguntou.

Alec levantou a cabeça e olhou o irmão, "Sim."

"Eu não entendo," O outro encolheu os ombros, "eu sei que marcar toda aquela parte horrível, mas não é assim tão mau. Porque não lhe perguntas?"

"Ela iria dizer que sim." Alexander disse, com toda a certeza.

"E então?" Ryan franziu a testa, "Sabes quão sortudo és por a teres? Sabes o que eu dava para ter a Iris aqui comigo?"

"E ela? Ela é sortuda por me ter?"

O seu irmão desviou o olhar por uma fração de segundos, e só então voltou a encarar o outro.

"Vês?" Alec suspirou, "A Lydia merece melhor do que o que eu lhe posso dar."

"Porque não deixas ser ela a decidir isso?!" Lily cuspiu, "Olha bem para ti! Sempre tu a decidires tudo por toda a gente. A Lydia sabe o que quer."

"Às vezes, o que as pessoas querem não é o que elas precisam." Ryan disse à irmã.

A loira ficou horrificada com as palavras de Ryan, em defesa de Alexander. Não queria acreditar que, numa família tão grande, era a única a tomar o partido da rapariga dos cabelos vermelhos. Wesley e Mark haviam-se limitado a acenar com a cabeça, sem muito alarido, já estavam a empacotar todas as coisas em caixas de cartão enormes, não pareciam muito preocupados com o porquê ou com o que iria acontecer a seguir. Mas Lily não conseguia se conformar.

Quando escureceu, Alec encaminhou-se, pela floresta densa, para a casa amarelinha nos subúrbios. Não precisou de se aproximar muito para saber que Lydia estava sozinha, a sua mãe havia ficado no trabalho a fazer horas extras.

"Alexander Mathews." Ela abriu-lhe a porta, com um largo sorriso.

Ele instantaneamente sentiu-se culpado, uma guinada forte quase o fez levar a mão ao peito. A sua dor não era literal, era bem real.

"Estás bem?" Lydia perguntou-lhe, já dentro de casa.

"Como é que tu estás?" Ele desviou a questão.

Jones aproximou-se e beijou-lhe de leve os lábios, "Melhor agora que estás aqui."

Alec tentou sorrir, "Ainda bem."

"Mas o que te trouxe cá?" Ela olhou-o, curiosa, "Parece que tens alguma coisa para me contar..."

Mathews abriu a boca inúmeras vezes, a rapariga dos cabelos vermelhos inclinou a cabeça para o incentivar a falar, mas as palavras apenas pareciam escapar-lhe. Tentou dizer-lhe, tentou mesmo, mas não era capaz. Tentou com que Lydia lhe dissesse adeus, mas no fim seria ele o único a fazê-lo. E talvez fosse uma coisa boa, pelo menos ele esperava que fosse.

"Não me vais dizer nada?" Ela arqueou as sobrancelhas.

"Vim só para te ver, Lydia Jones." Alec sorriu-lhe.

"Ok, isso parece-me uma boa desculpa." Lydia assentiu.

Deitaram-se juntos na relva do quintal da frente, estava praticamente uma noite de verão, passaram-se horas. Lydia sentiu o olhar do Mathews e voltou-se para o encarar também.

"E agora é quando falamos sobre o sentido da vida."

Ela riu e olhou para os lindos olhos azuis, contemplando o tópico, "Eu já sei o sentido da vida."

A resposta flutuou entre ambos, entre a luz da lua que salpicava ambos os corpos.

"E então?" Alec perguntou-lhe, curiosidade nos seus olhos.

Tu és, Lydia queria dizer-lhe. Ele era o porquê de ela se levantar tão cedo todos os dias e o porquê de ela não conseguir dormir a maior parte das noites. A sua esperança em cada situação, a sua salvação. Lydia queria dizer-lhe. Mas não conseguiu.

Ela olhou a lua e depois fechou os olhos, "O amor."

Quando voltaram para dentro, ele deitou-se com ela na larga cama. Envolveu-lhe o pequeno corpo, encostou-o ao seu, mas não se atreveu a fechar os olhos. Era a última noite de ambos e ele não queria dormir, porque sabia que assim que acordasse tinha de se ir embora, tinha de deixar a Lydia. E isso era algo para o qual Alec nunca estaria pronto, não importa quantos anos vivesse, ele nunca iria estar pronto para deixar a mulher que amava.