Amor Faminto
19 Capítulo 18: Sortudo
LYDIA
Lydia fechou a porta com cuidado, e deixou a mala no chão. Olhou à sua volta e logo identificou a sua mãe, de costas, sentada à mesa da cozinha.
Ela aproximou-se e foi quando ouviu um choro.
"Mãe?"
Amelia voltou-se assustada. Os seus olhos estavam vermelhos, parecia estar a chorar há anos, e à sua frente estava uma quantidade exagerada de papéis e fotografias.
"Lydia, querida." Ela limpou a cara e sorriu, "Pensava que vinhas mais tarde."
"Mãe," Jones chegou-a à sua mãe, ainda perplexa, "porque estás a chorar?"
Quando pegou na fotografia mais próxima, percebeu. Era o seu pai, no dia do casamento, provavelmente um dos dias mais feliz da vida da sua mãe. Ele era muito bonito, cabelos claros repousados sobre os ombros e uns olhos de um verde hipnotizante. Lydia já nem se lembrava da sua aparência, já se tinham passado tantos anos.
Amelia tirou-lhe a foto, "Eu não queria que me visses chorar."
"Porque não? Eu sei que não és uma supermulher." Ela encolheu os ombros. "Eu estaria disposta a ouvir-te."
"É só que... Tu falaste naquilo e" A sua mãe fungou, "deu-me uma saudade tão grande."
Lydia sentou-se ao lado da mulher, e agarrou-lhe a mão com carinho.
"Ele deixou-nos." Lembrou.
"Eu sei, querida, eu sei." Amelia assentiu, "Mas eu amava-o."
"Eu não sei como passaste por isto tudo..." Ela olhou-a com admiração.
"Nem eu." A sua mãe forçou uma risada chorosa. "Às vezes surpreendes-te ao perceber o quanto consegues suportar."
Lydia baixou a cabeça.
Lembrava-se do dia em que o seu pai se tinha ido embora. Sabia que Amelia não tinha acordado um dia e ele não estava lá, isso era mentira. Ele estava, ela também e discutiram. Jones tinha acordado com gritos no andar de baixo, e quando saiu do quarto para espreitar entre as aberturas das escadas, encontrou os seus pais a discutir. Depois, Lydia lembra-se de ver o seu pai fechar a porta com força, carregado de malas. Esperou que ele voltasse, e esperou, mas a porta nunca mais se abriu.
"Se ele voltasse..." Lydia hesitou, "Tu perdoava-lo?"
"Provavelmente sim, perdoava." Amelia disse-lhe e então perante o olhar surpreso da sua filha, explicou-se, "Eu ainda o amo, e se ele voltasse eu iria a correr abraçá-lo. É isso que é o amor, faz-."
"Ele deixou-te, isso não é amor!" Ela balançou a cabeça ferozmente.
"Eu sei que tu não o perdoarias, mas-."
"Estás certa quanto a isso, mãe." Lydia concordou, e então suspirou antes de continuar, "O pai partiu-me o coração antes que qualquer rapaz pudesse. Eu posso nunca ter estado apaixonada, posso não saber o que é o amor, mas não acho que seja isso."
"Oh querida, o teu pai teve uma razão para nos deixar, talvez achasse que estaríamos melhor sem ele." Ela olhou a sua filha como se estivesse prestes a contar-lhe um segredo, "É isso que é o amor, sempre querer o melhor para a pessoa que amamos mesmo que isso não nos inclua a nós."
O olhar de Lydia caiu sobre a mesa, sobre as fotografias.
Ela sabia que nunca tinha estado apaixonada, também sabia que davam demasiada importância a isso. Ela tinha tido namorados, muitos amigos coloridos, mas amor? Jones não achava que já havia sentido algo assim. Não como a sua mãe havia sentido, pelo menos.
"Como sabes?" A ruiva divagou.
"O quê, querida?" Amelia olhou-a confusa.
"Quando é amor?"
"Quando te apaixonas, é suposto ser horrível. Horrível, incerto, assustador, maravilhoso, tudo de uma vez." A sua mãe explicou-lhe com atenção, "É quando sabes que é verdadeiro. Apaixonante. Dói."
A sua filha balançou a cabeça.
"Isto é sobre o Alexander Mathews?" Amelia perguntou-lhe curiosa.
"Ah... talvez." Lydia assentiu.
"Ele é um vampiro, sim, mas também é um bom rapaz, Lyds. Nunca nenhum rapaz com quem já estiveste cuidou de ti daquela maneira." A sua mãe lembrou-a.
"Eu sei." Ela suspirou, e olhou as suas mãos. "Há muitas coisas que o Alec faz que nunca nenhum deles me fez."
Um silêncio confortável envolveu-as, e Lydia finalmente levantou-se. Juntou todas as fotografias e cartas, sobre o olhar atento da sua mãe, e puxou a caixa dourada para perto de si também. Guardou os bilhetes, presentes e as fotos. Guardou tudo o que tinha a guardar.
Afinal, é possível guardar até mesmo as pessoas, ainda que seja dentro de nós, percebeu. E que talvez fosse altura de esquecer, deixar no passado.
"Sabes," Lydia tossiu. "Os Mathews convidaram-nos para passar o Natal."
"Sério?" Amelia sorriu.
"Sim, eu estava a pensar... seria bom para nós, certo? Quero dizer, eu sei que eles são vampiros e isso tudo, mas..." Ela explicou. "Temos passado sempre o Natal sozinhas e talvez este ano possamos ter um Natal diferente."
"Hm." A sua mãe olhou a caixa e só então voltou a olhar a sua filha. "Sim, acho que seria muito bom."
Lydia sorriu-lhe, e assentiu.
Tinham o direito de seguir em frente, certo? Afinal, o seu pai tinha.
ALEXANDER
Lily estava deitada no sofá, com as pernas em cima das de Alec, e a sua cabeça estava carinhosamente apoiada no colo de Alycia. Estavam a ver o último episódio de The Vampire Diaries, quando o resto da família rompeu pela porta da frente.
"Não posso acreditar que começaram a ver sem nós." Wes resmungou.
Todos se acomodaram no sofá gigante. Era incomum uma família com seis filhos, mas na altura em que nasceram, era incomum uma família com um único filho. Os Mathews estavam apenas fora de moda.
"Tenho pena da Caroline." Lily chorou quando o ecrã ficou preto.
"Tenho mais pena do Stefan." Mark interveio.
"Talvez." A loira encolheu os ombros.
O telemóvel vibrou no bolso das calças de fato treino de Alexander, e ele rapidamente retirou-o e olhou o ecrã brilhante. Era Lydia. Ele logo se preocupou, eram raras as vezes em que ela lhe ligava, e a última vez ele tinha-a encontrado coberta de sangue no meio de uma chacina.
"Lydia?!" Atendeu com desespero, "Está tudo bem?"
Todos os seus irmãos o olharam alerta.
"Porquê todo esse alarme?" Ela gozou.
"Assustaste-me, porra." Praguejou ele.
Os outros caíram de volta no sofá, e voltaram a tomar atenção à televisão. Estava a começar The Walking Dead e com todos os comentários acerca do Negan, Alec sentiu-se obrigado a abandonar a sala para conseguir ouvir a ruiva do outro lado da linha.
"Achas que só te ligo para te preocupar?"
"Estavas a pensar em mim, então, Lydia Jones?" Alec provocou-a.
"Eu não estava a pensar em ti. Por que raio haveria eu de estar a pensar em ti?" Ela riu do outro lado, e então a sua voz tornou-se mais calma e esperançosa. "Tu pensas em mim?"
Um sorriso surgiu no rosto de Mathews. "A toda a hora."
"Porra." Jones resmungou.
"O que foi?" Alec riu.
"Porque não me dizes isso enquanto me olhas nos olhos, Alexander?" Ela queixou-se, com um humor na voz. "Tu fazes de propósito."
Talvez ele fizesse.
"Então vou ter contigo." Ele propôs.
"Bem, eu não estou vestida." Lydia disse-lhe.
"O quê?" Alec engasgou-se. "Estás nua?"
Um riso histérico rompeu pelo telemóvel, e Alec esperou uma resposta. Ele estava confuso, afinal tinha sido ela a dizê-lo.
"Não estou nua." Ela explicou-lhe. "Só não estou vestida para te ver. Sabes, já estou de pijama."
"Oh." Alec soou desapontado, e então largou uma risada. "Isso não é um problema."
"Ok, então." Lydia parecia estar a sorrir. "Estou à tua espera."
LYDIA
Lydia sentou-se no banco encostado à janela, com um livro nas mãos. E apesar de poder parecer que estava a ler, ela estava a tomar atenção à rua. Ansiosa pela chegada de Alec.
Um barulho chamou a sua atenção, e ela debruçou-se para espreitar para a vegetação. Um sentimento de ameaça apertou o seu coração, era algo aterrorizante. Mas não estava nada lá fora, nem mesmo ele.
Algum tempo depois, algo na árvore encostada à sua janela, chamou a sua atenção.
"Lydia."
Ela identificou Alec, sentado no ramo confortavelmente.
"Ei." Jones sorriu-lhe.
Num movimento rápido levantou-se, e afastou-se da janela, para que Alexander pudesse entrar. Assim que ele atravessou, ela fechou a janela, mas não sem antes deitar um olhar para a vegetação para responder ao seu instinto.
"Sabes que não precisavas de entrar pela janela, certo?" Lydia brincou. "A minha mãe iria deixar-te entrar sem problemas."
"Achei que era mais fácil." Ele encolheu os ombros.
Um silêncio desconfortável e tenso pairou sobre ambos. Lydia olhava Alec e mordia o lábio ao mesmo tempo, enquanto ele se limitava a admirar a cor cinzenta que cobria todas as paredes do quarto. Para surpresa da ruiva, ele quebrou o silêncio.
"Eu estou a sentir."
"O quê?" Ela perguntou-se confusa.
"O teu olhar em mim." Alec disse-lhe, e então encarou-a. "Se não parares de me olhar assim, vou começar a achar que me queres beijar, Jones."
"Achas que não quero?" Lydia humedeceu os lábios.
Mathews riu e agarrou numa fotografia em cima da secretária, era ela e Jason. Ela olhou-o, atentamente, a colocar a moldura no lugar e voltar-se com uma expressão estranha.
"Liguei-te para te contar uma coisa." Ela chamou a sua atenção.
"O quê?" Alec arqueou as sobrancelhas, curioso.
"Falei com a minha mãe sobre o Natal." Jones contou-lhe, com um sorriso. "Ela achou uma boa ideia, passarmos o Natal com vocês."
"Isso é ótimo!" Ele olhou-a feliz.
Quando o silêncio voltou, Mathews voltou a encarar a fotografia na secretária, a mesma que havia segurado nem há cinco minutos atrás. Lydia aproximou-se, envolveu-lhe a cintura com os braços e abraçou-o por trás.
"Não é ele que está no meu quarto." Ela murmurou-lhe.
"Bem, isso não é bem verdade." Alec riu. "Está aqui a foto."
"És um idiota." Jones sorriu.
"O que é ele?" Ele voltou-se, com ela ainda a agarrar-lhe a cintura.
"O meu melhor amigo." Ela então provocou-o. "Hm, ele nunca me viu nua, se é isto que queres saber."
Mathews revirou os olhos azuis, e isso só fez com que Lydia largasse uma risada.
Num gesto de vingança, ele beijou-lhe a bochecha esquerda, depois a direita. Dirigiu-se à sua boca entreaberta, que esperava ansiosamente pelos seus lábios. Mas eles nunca chegaram a tocar-se.
Então olhou-a nos olhos verdes. "Eu penso em ti a toda a hora."
Um sorriso gigante tomou conta da face da ruiva, as suas bochechas doíam de tanto sorrir, na verdade. E ela não se lembrava de estar tão feliz em toda a sua vida, e quando se preparou para responder, Alec já estava com os seus lábios pressionados contra os dela.
E de repente não eram precisas palavras.
ALEXANDER
Era tarde quando Alec voltou para casa, passava das duas da manhã. Não tinha ido de carro, mas com a sua velocidade supernatural. Ele precisava de esfriar a cabeça. Lydia era uma verdadeira tentação e além de ser um homem, ele também era um vampiro.
E foi quando o viu.
Ainda ele não tinha aberto a boca, já Alec tinha sido dominado pelos brilhantes olhos azuis e as assustadoras presas. Queria mata-lo.
"Alexander Mathews." O outro sorriu. "Eu sou o Ethan."
"Eu sei quem tu és." Ele rosnou.
"Certo, temos a Lydia em comum..."
"Eu e tu não temos nada em comum." Alec corrigiu-o. "Tu não tens a Lydia."
Ethan largou uma risada, e quando estava prestes a argumentar, um golpe de Mathews fê-lo cair ao chão. De seguida, agarrou o vampiro pelos ombros e levantou-o. Agarrou-lhe o pescoço com ambas as mãos, não queria ter total controle sobre a força, queria magoá-lo mais do que ele havia magoado a Lydia.
"E agora vou matar-te."
"Força!" Ethan cuspiu sangue. "Mata-me."
A mão direita de Alec largou o pescoço, rasgou-lhe o peito e afundou-se nas estranhas. Só parou quando achou o coração, agarrou-o. O outro gritou de dor.
"Ela nun-nunca te vai perdoar..." O vampiro murmurou entorpecido. "Lydia nunca te va-vai perdoar..."
"O quê?" Alexander olhou-o, cego com raiva. "Ela quer-te tão morto quanto eu!"
"Isso não é verdade." Ethan balançou a cabeça ferozmente. "Ambos sabemos."
Mathews sentiu o seu coração apertar no peito. Então, olhou o céu, à procura de uma força divina, em que ele não acreditava, para o ajudar naquele momento. Ele ficou ofegante, tornou-se difícil respirar, só de imaginar o olhar repugnante de Lydia na sua direção. O medo.
Sem pensar duas vezes, a sua mão deixou o corpo de Ethan. Ele afastou-se. Deixá-lo não implicava que Alec não o quisesse morto, ele queria, e muito. Mas talvez o sinal divino que procurasse no céu, estava na terra, talvez fosse Lydia.
Ethan tossiu continuamente.
"Não te vais escapar desta." Alec assegurou.
"Foi isto que aconteceu quando mataste a Iris?" O vampiro devolveu-lhe, ofegante. "Perdeste o controle?"
"O que sabes sobre isso?!" Aproximou-se.
"O suficiente."
Alec limitou-se a olha-lo do seu lugar, uma expressão séria no seu rosto.
"Olha para ti, sortudo," Ethan balançou a cabeça. "conseguiste uma ajudinha para sair do fundo do poço...." Então olhou-o. "É um lugar escuro lá em baixo, não é?"
Mathews ignorou-o e puxou-o para que se aguentasse de pé. "Vamos."
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