Amor Faminto

20 Capítulo 19: Sempre


LYDIA

"Quando perdemos..., e nós vamos perder, tu" A ruiva apontou para a morena. "vais me pagar um bom almoço."

"Quão pessimista." Octavia revirou os olhos.

"Sim, costumavas ser sempre a otimista." Amber comentou.

Lydia encolheu os ombros, e continuou o exercício de aquecimento. Quando a bola aterrou perfeitamente nas mãos, em forma de losângulo, de Malia, a ruiva permitiu-se distrair. Os seus olhos verdes cruzaram-se com uns olhos azuis muito familiares nas bancadas, ao seu lado estava Lily. Um sorriso rapidamente surgiu na sua face.

"Já venho."

Deixou as suas amigas para trás e atravessou o campo, para sua sorte eles estavam logo na primeira fila. Ela aproximou-se.

"Ei." Sorriu.

"Ei, Lyds." A loira saudou entusiasmada. "Já não vejo um destes há... hm, anos."

Jones riu com a hesitação de Lily. E rapidamente desviou a sua atenção para Alec, que manteve o seu olhar no chão.

"Está tudo bem?" Lydia tocou-lhe no ombro. "Alexander?"

Ele levantou a cabeça, e então olhou-a com um sorriso forçado.

"O que se passa?" Ela estreitou os olhos.

"Bem, eu vou buscar pipocas." Lily levantou-se, "Até já."

Mathews seguiu a sua irmã com o olhar, e ao sentar-se ao seu lado, a ruiva impediu-o de continuar a fazê-lo. Olhou-o preocupada.

"Não se passa nada." Alec assegurou.

"Não faças isso..." Ela fechou os olhos.

"O que queres que eu diga?" Ele encolheu os ombros.

Alec limitou-se a olhar para o chão, parecia incapaz de a olhar nos olhos. Ela não se lembrava de o ver assim desde o dia em que ela o viu a transformar-se no meio da floresta. E desta vez, de alguma forma, parecia pior. Bem pior. Os seus olhos azuis pareciam estar em sofrimento.

"Alexander," A ruiva disse calmamente. "eu nunca te vou julgar pelo que quer que seja que tu faças, sabes disso não sabes?"

Ele manteve-se quieto, não proferiu uma palavra.

"Lydia! O jogo vai começar!" Octavia gritou-lhe do outro lado do campo.

Jones olhou o rapaz mais uma vez, esperou que num momento de realização ele percebesse que a estava a expulsar, outra vez. E que ela só queria o seu bem.

E ele finalmente falou.

"Devias ir. O jogo está a começar, Lydia Jones."

O seu nome saiu gelado dos lábios de Alec, o que lhe causou um arrepio.

"Mas-." Ela tentou.

"Vai." Ele insistiu.

E Lydia foi.

ALEXANDER

O jogo começou e Lily voltou. Alec ignorou a presença da sua irmã, limitou-se a olhar a rapariga cujo cabelo parecia em chamas. Ela estava a sair-se bem, estavam todas, e ele não tinha qualquer dúvida de que o jogo estava ganho.

No intervalo, uma senhora sentou-se ao seu lado e só quando esta se dirigiu a Alec é que ele a olhou, identificou-a como sendo a mãe de Lydia.

"Está tudo bem?" Cumprimentou com um sorriso. "Só consegui chegar agora."

"Não se preocupe," Lily inclinou-se. "a Lydia está a sair-se lindamente."

"Ótimo." Amelia devolveu entusiasmada. "Amelia Jones."

"Lily." A loira apresentou-se. "Irmã do Alec."

"Oh, bem os vossos genes são bons." Sra. Jones piscou o olho.

Alec largou uma pequena risada, "Temos de agradecer aos nossos pais, então."

"Deviam." Ela concordou.

Começou a segunda parte do jogo. A equipa da casa tinha vantagem, o que fez com que fosse demasiado fácil aguentarem o resultado até ao fim do jogo. Octavia e Lydia abraçaram-se numa imensa felicidade quando o jogo foi dado por terminado.

Tinham ganho.

"Lydia!!" Amelia levantou-se com entusiasmo.

A ruiva reconheceu a sua mãe de longe e largou a sua melhor amiga. Aproximou-se do pequeno grupo, e Alec quis levantar-se e sair, mas isso seria errado. E talvez ele quisesse vê-la a sorrir de perto.

"Tu conseguiste vir!" Ela abraçou a sua mãe.

"Saíste-te tão bem!" Sra. Jones sussurrou-lhe, carinhosamente, no ouvido.

Quando se afastaram, Lydia olhou os irmãos Mathews.

"Vejo que estiveste bem acompanhada."

"Sim, muito bem!" A sua mãe concordou. "Já conheci a Lily."

"Parabéns Lyds!" A loira aproveitou para congratulá-la.

"Obrigada." Jones sorriu-lhe largamente.

"Bem," Amelia olhou o rapaz de relance. "eu vou esperar por ti lá fora, querida."

"Ok." A ruiva assentiu.

Restaram apenas os três. O silêncio entre eles era tenso e desconfortável, e a inexistência de contacto visual estava a enlouquecer Alec, mas ele não conseguia olhá-la nos olhos. Não depois do que tinha acontecido na madrugada desse mesmo dia, não quando ele tinha quase morto alguém. Outra vez.

"Achas que já estás calmo para podermos falar?" Lydia tinha os braços cruzados.

"Não há nada para falar." Ele limitou-se a encolher os ombros.

"Tens a certeza?"

E aquilo soou como um aviso, estou a dar-te uma segunda chance tipo de aviso. Mas também havia esperança na sua voz, algo similar a súplica por favor.

"Eu acho que-." Lily começou, mas o braço de Alec agarrou-a e impediu-a de o deixar.

"Devias ir ter com a tua mãe, Lydia." Ele disse, sem a olhar.

"Afastares-me não vai diminuir o que sinto por ti." Jones avisou e então olhou-o com raiva. "És um cobarde, Alexander."

Ele aceitava ser um cobarde. Desde que isso implicasse que Lydia não estivesse amarrada a ele quando ele fosse ao fundo do poço novamente.

LYDIA

Amelia abriu a porta principal e entrou primeiro, esperou que Lydia entrasse para poder fechar a porta. E foi o que aconteceu.

"Então," A sua mãe começou. "notei uma pequena tensão..."

A ruiva apenas encolheu os ombros.

"Ele continua a afastar-me e eu continuo a voltar para mais."

"Talvez ele esteja com medo, não sei." Amelia disse-lhe. "Ele tem séculos e quem sabe-."

"Eu também estou com medo!" Lydia gritou-lhe, e quando se apercebeu da expressão preocupada na face da sua mãe, acalmou-se. "Ele é apenas um cobarde. Ou talvez seja eu que sou uma idiota."

"Então desiste." A sua mãe aconselhou-a.

"O quê?" Ela olhou-a confusa, perplexa. "Desistir?"

"Sim. Dele, de vocês. Se te causa assim tanto sofrimento-."

"Não. Não consigo desistir." Lydia confessou. "Não dele. Não quando eu já vi um lado dele que... merece ser salvo, que tem de ser-."

"Não é tua responsabilidade salvá-lo." Amelia disse-lhe.

"Então de quem é?"

Lydia tinha a cabeça inclinada, um sorriso triste no seu rosto, esperança nos seus olhos verdes e ingénuos. A sua mãe sorriu para si mesma, não era um sorriso preocupado, nem acusador. Era um sorriso de compreensão, entendimento, apoio.

"Eu tenho de ir falar com ele." Lydia falou em voz alta.

Ela precisava de ter a certeza que Alec sabia que ela estaria ali, sempre, por mais vezes que ele lhe voltasse as costas, a mandasse embora. Ela iria acabar por voltar, sempre.

"Leva-me."

"Desculpa?" A ruiva franziu a testa.

"Preciso de falar com os pais dele." Amelia explicou, "Sobre o Natal."

"Oh."

Lydia já se tinha esquecido do Natal. E do vampiro. Mas de repente tudo voltou, e a sua cabeça transformou-se num turbilhão de lembranças e o seu coração de sentimentos, especialmente medo.

"Estás bem, querida?" A sua mãe preocupou-se.

"Sim." Sorriu forçado e então pegou a chave do carro da mão da sua mãe. "Vamos?"

"Vamos." Amelia assentiu.

E ambas saíram de casa, juntas.

O caminho era fácil e ela era boa a decorar caminhos. Tinha ido à mansão poucas vezes, mas tinham sido vezes o suficiente para que encontrasse a residência com bastante facilidade.

"Uou."

Lydia olhou a sua mãe com um sorriso. "Eu sei."

"Eu calculava que fosse grande, mas... meu deus." Ela riu.

"Não é a característica que mais sobressai na família, mas..." A ruiva insinuou. "sim."

Amelia saiu do carro e ela, rapidamente, fez o mesmo. A sua mãe seguiu-a, dirigiram-se à escadaria e quando chegou ao cimo. Lydia ajeitou o seu rabo de cavalo primeiro e só então bateu na porta de vidro. Não via ninguém do outro lado, a sala estava vazia, e só então ela identificou Ryan a aproximar-se da porta.

"Lydia." Saudou e então notou a sua mãe, "Sra. Jones, suponho. O que fazem aqui?"

"Hm, quero falar com o Alexander." Ela explicou, desconfiada.

"Está tudo bem?" Ele ignorou a pergunta.

"Isso pergunto eu." Lydia procurou espreitar para dentro. "Está tudo bem?"

"Claro!" Ryan respondeu, um pouco alto de mais.

"Ok, deixa-nos passar."

E empurrou o corpo do rapaz para o lado, passou pela sala e seguiu as vozes que vinham do corredor aparentemente escondido. Não se preocupou particularmente com a sua mãe, se ela a seguia ou se tinha limitado a ficar à porta. Mas sabia que Ryan corria atrás de si, embora o ignorasse. Continuou. Até que finamente chegou a uma segunda sala, quase idêntica à outra, mas com uma televisão muito maior e sofás de um tom castanho, em vez de preto.

Os Mathews estavam reunidos, numa longa linha. Depois estava Alycia. Mas Alec não estava, o que deixava um lugar vazio entre Lily e Wes.

"O que se passa?" Lydia estreitou os olhos.

"O que fazes aqui, querida?" Andrea aproximou-se da pequena, com cautela. "Algum problema?"

"Onde está o Alexander?" Ela olhou à volta.

"No quarto, claro." A única loira na sala respondeu-lhe.

O aglomerado parecia concentrar-se num local muito específico da sala, todos pareciam bastante nervosos. Ela atreveu-se a romper pela linha defensiva, empurrou Alycia que inutilmente a tentou parar. E ali estava. Um homem deitado no longo sofá, sangue em todo o lado. A sua face estava praticamente irreconhecível, mas então, por baixo de toda a sujidade, Lydia reconheceu-o.

Era Ethan, o vampiro.

"Lydia..."

O olhar da ruiva desprendeu-se do corpo inanimado e encontrou os olhos azuis de Alec, na pequena entrada que ela conseguiu perceber levar à cozinha. Ela balançou a cabeça, desiludida era um adjetivo um pouco desadequada para o que ela estava a sentir. Ele baixou a cabeça.

"Há quanto tempo ele está aqui?!" Lydia olhou à sua volta.

"Desde esta madrugada." Alycia aproximou-se. "O Alec trouxe-o."

Esta madrugada, aquela em que ele tinham trocado os mais variados beijos e carinhos, aquela em que a ruiva realmente achou que eles tinham uma chance de resultar.

"Eu posso explicar, eu-."

"Ele não fez nada." Tom interrompeu Alec. "Foi o Ethan que o encontrou e o meu filho apenas se defendeu."

Isso não importava para Lydia. Ele tinha mentido, esse era o verdadeiro problema ali. Alexander tinha dito que não se passava nada, permitiu que ela continuasse a sentir-se aterrorizada com a possibilidade de ser atacada a qualquer momento.

"Filha?"

Amelia estava na entrada da sala, a mesma pela qual a sua filha tinha encontrado a família Mathews, com os olhos esbugalhados, fixos no corpo danificado e magoado de Ethan, uma expressão aterrorizada. E Lydia entendia.

"Sra. Jones, este é o vampiro que magoou a sua filha." Andrea procurou aproximar-se, "Agora ele já não vai magoá-la mais, nós apanhámo-lo."

A mãe de Lydia levou algum tempo, então desviou os olhos do corpo desanimado e encarou a mãe de Alec.

Deu-lhe um pequeno sorriso. "O-obrigada."

"É a tua mãe?" O Sr. Mathews aproximou-se.

"Sim..." Lydia respondeu, confusa. "Porquê?"

"Porque eu conheço-a."

"O quê? De onde, pai?" Ryan interveio.

"Eu não o conheço." Amelia apontou, confusa.

"Eu apaguei-lhe a memória há muitos anos." Tom explicou, e então sorriu. "Nós eramos grandes amigos e então... pediu-me um grande favor e-."

"O Senhor é-." Lydia começou com os olhos arregalados.

"quem apagou o Ethan da memória da tua mãe." Alec completou a frase.

ALEXANDER

Não havia estrelas no céu, estavam escondidas por detrás da escuridão, para lá das nuvens. Não era uma boa noite, não que o dia tivesse sido melhor, não tinha.

A porta abriu-se, mas Alec não se voltou. Continuou sentado na relva, com as pernas esticadas e os olhos azuis fixos no céu, ainda tentava encontrar uma estrela, qualquer uma.

"Ela já está a dormir." Lydia sentou-se ao seu lado, com um longo suspiro. "Ela ficou um pouco... incomodada."

Ele não disse nada, parecia não estar a respirar, mas estava. Baixinho, calmamente como se não tivesse muita vontade, mas fosse obrigado.

"Eu estava ali, por ti, e tu mandaste-me embora." Ela disse-lhe.

"Eu sei." Alec não a olhou. "As palavras nem sempre querem dizer o que nós queremos dizer."

"Eu não entendo," Lydia voltou-se para ele, de joelhos. "podias ter-me contado. Devias ter-me contado."

"Eu quase o matei, sabes?" Ele fechou os olhos por uns momentos. "Existem coisas que eu prefiro esconder de ti. Eu sei, sei que era meu dever contar-te, mas-."

"Mas o quê, Alexander?!" Ela gritou-lhe. "Já não te dei suficientes provas de que nunca vou desistir de ti?!"

"Mas..." Mathews continuou a sua última frase. "Eu não sei se me irias entender, apoiar, se me irias dar a mão. Honestamente, eu não sabia."

"Porra, Alexander." Jones praguejou, e então agarrou a mão fria dele. "Se eu gosto, gosto como tu és, mesmo que sejas um chato ou um... vampiro. Se eu quero, quero mesmo, mesmo que todos digam para não querer. Mesmo que tu digas para não querer."

Alec finalmente olhou-a, viu nos olhos tanto carinho e aceitação que se sentiu culpado pelas suas prévias ações, mais do que já se sentia.

"O que eu alguma vez fiz para te merecer, Lydia Jones?"

Ela apenas sorriu, um sorriso cansado. E então quando ele lhe sorriu de volta, ela voltou a falar, ainda com uma mão entrelaçada na sua.

"Então, nunca mais me vires as costas, porque eu nunca vou desistir, vou estar sempre disposta a trazer-te de volta. Não importa quantas vezes forem." Jones avisou-o. "Sempre."

"Vais acabar por te magoar." Alec balançou a cabeça.

Lydia largou-lhe a mão e levantou-se num movimento repentino, assustou-o. Claro, ele também se levantou, olhou-a confuso e preocupado.

"Eu não quero saber," Ela devolveu com sinceridade.

Jones preferia ter o coração partido a não ter isto? Quão louca era a rapariga à sua frente, disposta a esquecer as consequências, só desta vez. A dar-lhe a ele, um monstro qualquer, a possibilidade de a arruinar, não era justo. Não para ela.

"Só estou a tentar proteger-te, Lydia." Ele então apontou para a casa. "Vê o que aconteceu à tua mãe."

"Eu não sou a minha mãe!" Jones tentou dizer-lhe. "Sou eu! E eu não te quero esquecer!"

"Lydia..."

"Eu estou dentro, ok," Ela admite. "mas eu não sei se tu estás. Estás?"

Alec congelou, os seus olhos arregalaram-se perante as palavras da ruiva.

"Eu preciso que me digas" Lydia disse-lhe. "porque de outra maneira estamos ambos a perder o nosso tempo, e só um de nós é imortal. Então se tu estás apenas um pouco indeciso, diz-me agora."

Ele continuou em silêncio, dormente. Não conseguia respirar. E ela suspirou perante a sua inexistência de palavras.

"Por outro lado, se estiveres nisto, o que quer que isto seja, com todo o teu coração, é melhor dizeres-me. Porque neste momento, acho que o teu silêncio me está a dizer tudo o que tu queres."

Alec engoliu e então conseguiu falar novamente.

"Eu sou egoísta, Lydia." Ele disse-lhe.

"Estás a tentar impedir-me de me apaixonar por ti?" Ela perguntou-lhe e ele assentiu-lhe com sinceridade. "Para de tentar."

O coração de Alec não sabia se devia saltar de alegria ou mirrar com tristeza, e pela mal disposição que sentia parece que ele realmente estava a ter problemas em decidir como isso era possível. Estar-se triste e feliz, tudo ao mesmo tempo.

"Eu tenho cicatrizes do meu passado." Alec tentou acabar com a teimosia dela, mais uma vez.

"Eu também. Todos nós temos. Não apenas vampiros ou tu. Todos temos os nossos demónios. A vida é precisamente isso," Lydia aproximou-se. "encontrar alguém que luta contra eles contigo ou que apenas... os aceita."

Mathews baixou a cabeça, estremeceu quando sentiu as mãos geladas da rapariga lhe tocarem na face e obrigarem-no a levantar o olhar. Encontrou os olhos verdes, e de repente, a mal disposição passou. O coração, morto por décadas, parecia desesperado e confuso sobre o que fazer com tanta alegria.

"O que me dizes, Alexander?" Ela sorriu-lhe, esperançosa. "Pronto para começar a viver?"

E que oferta tão tentadora. Não era agora a oportunidade dele? Ethan estava preso, Ryan tinha-o perdoado e ali estava Lydia, dando-lhe uma oportunidade de verdadeiramente viver.

"Eu já tive demasiado sofrimento na minha vida. Mais do que suficiente." Alec envolveu-lhe a cintura, e pressionou as suas testas juntas. "Agora quero ser feliz."

E beijou-a.

Lydia Jones era como o luar, simples. O foco brilhante na escuridão que era a existência de Alexander, mas, talvez, não mais assim tão escura.