é uma lembrança ou um pesadelo?

É sempre o mesmo sonho. A mesma ordem, a mesma chacina. Nathaniel, aos oito anos, estava parado no centro da clareira gigantesca. O ar era espesso, carregado com o cheiro de sangue fresco — um odor que se agarrava à garganta, sufocante. O uivo distante dos lobos vibrava em seus ossos, ecoando pela floresta escura. Seu corpo estava coberto de sangue, um contraste visceral com sua pele pálida. Ao redor, corpos humanos e lobos sem vida jaziam espalhados; testemunhas mudas de uma noite de horror. A lua cheia, fria e indiferente, escondia-se pelas copas das árvores, projetando sombras retorcidas sobre o cenário macabro.

Nathaniel estremeceu com o peso da memória.

— Cultri...

O último lobo de pé rosnou seu nome antes de tombar. Sua barriga estava rasgada, as entranhas expostas. Nathaniel apertou o cabo de suas companheiras de toda a vida: Craobh Dùbailte e Taibhsea. As adagas, um presente de seu pai no dia de seu nascimento, foram as responsáveis por aquela carnificina. Ele havia treinado com elas desde que aprendera a correr sem cair.

Ao longe, um grito aterrorizante cortou o silêncio. Nathaniel girou, instintivo. As adagas estavam firmes em suas mãos; os olhos varrendo as sombras, caçando qualquer sinal de perigo.

Então, ele surgiu.

Um garoto emergiu das árvores, correndo em direção a Nathaniel com uma velocidade sobre-humana. Seus olhos selvagens estampavam o desespero de quem lutava contra uma força interna. A cada passo, suas roupas se rasgavam e a pele contorcia-se, transformando-se em um emaranhado de pelos grisalhos.

— Nathaniel Cultri!

O rosto humano deu lugar ao focinho lupino. O garoto não era mais um garoto; era uma besta. Ele avançava com feroz determinação, pronto para retalhar, pronto para vingar os corpos que jaziam no chão.

O coração de Nathaniel disparou. Adrenalina pura pulsando em suas veias. Ele recuou, as adagas erguidas para a defesa. A mente girava, incapaz de processar o caos. Eu vou morrer, pensou. Eu definitivamente vou morrer.

O lobo fechou a distância, as narinas dilatadas bufando ar quente. Os olhos do animal eram perturbadores. A mandíbula rangeu, revelando presas afiadas de onde pingava saliva. A expressão implacável. E então, o lobo invadiu sua mente, ferindo cada neurônio. Uma voz grossa, sombria, ecoou dentro de seu crânio, arrepiando cada centímetro de sua pele:

"Eu vou te matar, Nathaniel Cultri."