Amor & Facas & Lobisomens
2 capítulo I
um chamado distante
Nathan Anthony acordou. Ele estava assustado, acordara com o coração batendo a mil por hora e sentia uma terrível dor de cabeça se aproximando; sua mão tateou a estante ao lado da cama, abriu a gaveta e pegou um remédio, jogando um comprimido seco na garganta. Nathan estava completamente suado. Há um mês, suas noites eram um ciclo de horror e exaustão. Ele não conseguia dormir e tinha medo de fechar os olhos, porque sabia que aquele lobo viria novamente.
Era um verdadeiro massacre, e tudo apontava para o seu eu de oito anos.
— É só um sonho — ele repetia para si mesmo todas as manhãs quando acordava.
Seu desempenho no time no último mês caíra porque ele não estava dormindo bem e estava se atrasando para os treinos. Mas aquele era um dia extremamente importante; haveria uma partida de futebol contra a escola do condado vizinho. Nathan tinha em mente que nos últimos nove anos sua prioridade na vida era tirar boas notas e impedir todas as bolas do time adversário, já que era goleiro.
Mesmo assim, ele se mantinha em forma, treinava sempre que tinha tempo, vagava pela floresta da reserva, e suas adagas, Craobh Dùbailte e Taibhsea, que ele carinhosamente chamava de Timão e Pumba, estavam sempre prontas em um coldre que ele guardava no tornozelo.
— Aqui, tome isso antes de deitar — disse sua tia Brie, colocando um comprimido fraco na mesa enquanto ele tomava café da manhã.
— O que é isso?
— Vai te ajudar a dormir, a manter os nervos calmos.
— Eu estou bem.
— Não é o que seus gritos noturnos dizem.
— São apenas pesadelos, tia Brie. Não é nada demais.
— Pesadelos que te assombram há um mês, Nate.
— Como eu disse, estou bem. Mas se isso vai te acalmar, eu tomarei um hoje à noite.
— Por favor, não beba hoje à noite.
— Eu não bebo.
— Então não fume — ela olhou para Nate e sorriu. Era difícil guardar um segredo perto dela, ela sempre parecia saber tudo apenas olhando fundo nos olhos da pessoa.
Nate não disse nada, beijou a testa da tia e saiu de casa. Seu jogo era no final da tarde, então ele faltou às duas primeiras aulas de matemática e foi direto para a enfermaria. Ele fugiu da sua melhor amiga Nel, porque eles tinham tido uma briga feia na noite anterior. Ele decidiu deixá-la sofrer um pouco. Ou talvez muito, porque ficara verdadeiramente chateado.
— Você não pode dormir aqui todos os dias — disse Graham, o enfermeiro da escola, assim que Nate entrou e se jogou em uma das camas.
— Meus pesadelos estão me desgastando.
— Eu te disse, você deveria ver um profissional.
— Eu pensei que você fosse um profissional. Onde você se formou?
Graham revirou os olhos e voltou para o computador; Nathan tinha aparecido todas as manhãs para um cochilo há duas semanas; o enfermeiro da escola se tornara um amigo de Nate e o deixava ficar lá porque sabia como os pesadelos tinham sido atormentadores. O garoto nunca deixara claro o conteúdo dos sonhos, apenas que havia muito sangue e desespero, e que era sempre o mesmo. Nate morria todas as noites da mesma forma.
Graham não disse mais nada e Nathan acordou três horas depois, no início da última aula da manhã. Ele acordou com uma dor de cabeça incrível, muito mais forte do que a que tinha antes. Graham lhe entregou um remédio forte e um copo d'água.
— Eu já te disse que esses cochilos não te fazem bem, você não recupera o sono perdido. Esses cochilos só vão te deixar mais cansado.
Nate tomou o remédio e respirou profundamente. Ele sabia que não podia discutir com Graham, porque sabia que o amigo estava certo, embora não quisesse ceder. Nate agradeceu e saiu, fechando a porta atrás de si enquanto esfregava o rosto, batendo nas bochechas para fazê-las corar.
O dia passou lentamente; Nate colocou sua máscara de pessoa alegre e extrovertida. Ele sorriu, fofocou, jogou bola e contou piadas. Nathan Anthony era um dos garotos mais populares da escola e estava sempre rodeado de pessoas.
Uma hora antes do jogo, Nate estava largado em um banco no vestiário, o único que ainda não se trocara para o aquecimento. Ele se deu ao luxo de deixar todos saírem antes de finalmente começar a se trocar. Nathan estava cansado, mas precisava aguentar, pelo menos até o jogo, e então talvez o remédio fizesse efeito e ele poderia ter uma boa noite de sono.
Ali, o silêncio era um luxo, então ele aproveitou o pouco tempo que restava antes de se juntar aos outros.
Depois de se trocar, ele se sentou e calçou as chuteiras, inclinando-se para amarrar os cadarços corretamente. De repente, ele sentiu um vento correr pelo vestiário, que ativou seus sentidos de caçador. De onde veio, Nathan não sabia, mas isso enviou um arrepio pela espinha e pelos da nuca. Algo que ele só havia guardado em sua memória, algo que não sentia há anos.
Ele olhou ao redor, o vestiário estava vazio. As portas estavam fechadas e não havia janelas... de onde vinha o vento?
"Me... ajuda..."
Nate congelou.
— Quem está aí?!
Mas não havia ninguém. De onde vinha aquela voz?
Ele se assustou ao ouvir a porta se abrir. Eram seus companheiros de equipe. Três ou quatro deles estavam falando alto e chamando por Nate.
— Cara, você não vem?
— O que está fazendo aí sozinho?
Eles não tocaram em Nate, mas estavam todos lá, ao seu redor, esperando uma resposta. Nate não gostava de ser tocado, então as pessoas geralmente respeitavam isso à risca.
— Nate?
— Estou bem... é só dor de cabeça — ele se apressou em dizer. — Vamos.
• ♦ •
Os Falcons avançavam com determinação, passando a bola com precisão de pé em pé, tendo a posse por quase todo o jogo. O capitão deles, um atacante grande e bruto chamado Sinéad, driblou dois defensores antes de fazer um passe rápido para o meio-campista que se aproximava rapidamente da área. Nathan sentiu o coração bater mais rápido. Ele respirou fundo e manteve os olhos na bola, ignorando o barulho ensurdecedor da torcida e concentrando-se apenas nos movimentos dos jogadores adversários.
Além disso, tentando ignorar o fato de que havia algo muito errado não muito longe, ele continuava tremendo e seus instintos naturais de caçador estavam mais afiados do que o normal. Ele sacudiu a cabeça, tentando focar no meio-campista dos Falcons, que chutou a bola com força, mirando no canto inferior esquerdo do gol. Nathan reagiu instantaneamente, mergulhando para a esquerda. Seus dedos roçaram a bola, desviando-a ligeiramente e fazendo-a bater na trave antes de sair pela linha de fundo. A torcida explodiu em aplausos e gritos de alívio.
Os Falcons eram insistentes e irritantes. No próximo escanteio, o atacante subiu mais alto que os defensores e cabeceou a bola com precisão. Nate saltou novamente, suas luvas amortecendo o impacto da bola antes de segurá-la firmemente.
Com um longo lançamento, Nate encontrou o meio-campista de sua equipe, que avançou rapidamente pelo campo. A bola passou por vários jogadores até chegar ao atacante principal, que se viu cara a cara com o goleiro adversário. Com um chute, ele mandou a bola para o fundo da rede, colocando a equipe de Nathaniel em empate, e mais alguns segundos depois, o árbitro apitou.
Nate permitiu-se jogar no chão enquanto descansava por alguns segundos. Ainda haveria pênaltis. Ele estava respirando, esperando o próximo apito, ainda sentado no chão quando ouviu novamente.
"Alguém me ajude!"
O garoto tremeu, encolheu os ombros e olhou ao redor. A multidão estava vibrando, as líderes de torcida estavam a todo vapor, o público estava pulando nas arquibancadas; o vento açoitava as árvores e, ao passar por ele, um cheiro peculiar foi absorvido por seu nariz. O mesmo odor que ele sentia em seus pesadelos todas as noites. Ele teve que cobrir o nariz porque o cheiro era quase insuportável.
— Você está bem? — perguntou um companheiro de equipe. — Tem certeza?
— Só um pouco enjoado.
— Precisa trocar?
Nate negou.
— Vamos ganhar. Eu fico. — Ele engoliu seco. Podia sentir o gosto do sangue, de onde quer que viesse.
O garoto acenou com a cabeça e logo o árbitro apitou novamente. Os pênaltis começaram. Cinco cobranças de cada lado para desempatar o 2-2. A tensão no estádio era insuportável, com os fãs segurando a respiração em antecipação. Nathan se posicionou na linha do gol, luvas firmemente nas mãos e olhos focados no oponente, embora sua cabeça estivesse em outro lugar.
Era fácil. Ele só tinha um trabalho a fazer.
E ele fez isso com maestria. Seu time já marcara dois gols. O time adversário não marcara nenhum. Se ele segurasse aquela bola mais uma vez, a vitória seria completa. A torcida estava em êxtase, em silêncio, esperando o resultado. O jogador avançou com passos pesados. Ele chutou com força, mas Nathaniel, em um movimento ágil e decisivo, se esticou completamente e fez uma defesa espetacular, desviando a bola para fora do gol, trazendo a vitória para o time.
A torcida explodiu em uma celebração ensurdecedora, mas Nate tinha outros planos. Ele passou pelas líderes de torcida, que pulavam ao seu redor, alguns jogadores gritando seu nome, mas ele atravessou as arquibancadas e foi direto para os vestiários, passando entre os armários, indo em direção ao seu.
Ele abriu o armário número 47.
Tirou sua mochila e a abriu; Timão e Pumba estavam lá, apenas esperando o dia em que seriam usados novamente. Nate engoliu em seco, lembrando-se de como estavam banhados em sangue em seu sonho. Seria um presságio? Ele não sabia, apenas segurou as alças da mochila, onde colocou suas roupas e saiu.
"Socorro!"
Desta vez, a voz era mais alta. Ele finalmente conseguiu sentir a angústia em sua voz, como se soubesse que sua vida estava escapando.
— Pare de chorar, estou chegando! — Nate gritou. — Merda!
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