Amor Cego
39 Verdade
Notas iniciais
Noah ergue a barra da calça exibindo sua perna direita. A mancha já está ficando azulada desde o joelho até o inicio do tornozelo. Vai ficar bem dolorido e difícil de caminhar se com apenas alguns minutos parece quase roxo. Sento ao seu lado suspirando ao lhe entregar a garrafinha de água gelada que acabei de comprar na máquina na saída da sala.
Ficamos no pátio, eu com o saxofone na minha esquerda e Noah com o violão na sua direita. Vejo relances da tatuagem atrás da orelha e passo a mão pela nuca reconhecendo como venho sendo irracional ao redor dele novamente.
—Elise.
—Oi.
Ele se vira para mim, os olhos opacos e perdidos.
—Me conta o que aconteceu. Você não tá bem, tá?
A mão dele se estende na minha direção, baixa e incerta. Tomo-a com a minha direita, sem entender ao certo o que ele quer ao meu tocar. Seu toque ainda é reconfortante, mesmo gélido. Noah desliza seus dedos pelo braço e arrepios percorrem minha espinha até ele chegar no meu ombro e enfim, pescoço.
—Pode confiar em mim.
Inebriante. Desejo seu toque. Sua atenção. Mas ao mesmo tempo é um sentimento tão viciante que chega a fazer meu estômago gelar. Aproximo-me devagar, sabendo que o contato pode chegar a assustá-lo. Talvez se assustar, seja melhor.
Da mesma forma como faz comigo, ponho minhas duas mãos acima das suas, mesmo a pousada na garrafa gelada na perna machucada. Deslizo-as vagarosamente pelos braços trincando os dentes ao notar que Noah é muito mais forte do que eu esperava. Sinto as veias saltadas sobre a ponta dos dedos e continuo até chegar nas suas costas. Completo o abraço enfiando-me confortavelmente no pescoço dele e sentindo o cheiro que faz meu coração retumbar velozmente na caixa torácica.
—Eu só... É meio estressante ter que cuidar de si mesmo — confesso baixinho, mudando de assunto — Por isso perdi a paciência.
O que estou fazendo? O que está acontecendo? Achei que já havia superado essa fase da necessidade de toque e me rendo a isso novamente? Me irrita. Me agrada. Quero que ele devolva. E Noah o faz. A mão em meu pescoço desliza para minhas costas e a outra larga a garrafa segurando minha nuca. Logo ele está tão submerso em meus braços como me sinto nos dele.
Minhas mãos ficam trêmulas. Meu coração bate tão alto e forte que tenho certeza de Noah senti-lo. Talvez agora ele já saiba. Talvez já entenda. Fecho os olhos, apertando-me contra ele quase sem ar, os olhos lacrimejando.
Eu te amo, quero dizer. Eu te amo, mas por favor, pare de me dar esperanças. Ficamos ainda alguns minutos abraçados. As batidas do órgão afoito em meu peito começam vagarosamente a desacelerar. Sou a primeira a tentar se afastar, fazendo o nariz de Noah roçar no meu pescoço. Quase infarto.
—Está melhor?
—Como pode ser tão paciente agora?
Ele junta as sobrancelhas.
—Por que você me mostrou outro mundo.
Realmente sabe como ser um pé no saco. Me questiono se não faz isso de propósito. É quase tortura emocional. De toda forma, expiro. Se for continuar dessa forma, então quero que ele saiba de tudo.
—Eu conheço você desde Bishop Hill.
Noah parece confuso, os braços sumindo do meu encontro. Ele toma a garrafa no chão, sem saber onde colocou exatamente e encosta seu ombro em mim, esperando que eu continue.
—Não sei se foi mesmo a primeira vez que eu te vi. O festival era muito agitado, tinha barracas e atrações para todos os lados e pessoas de dentro e de fora da escola tentando ver os mais interessantes. Eu... Nunca fui de participar disso. Foi só pela presença. Era final de tarde, minha turma já tinha terminado as atrações na parte da manhã.
“A temperatura não tinha baixado. Era muito quente. Tinha visto umas 5 turmas e a minha amiga, Louis, continuava me arrastando para outras. Mas a última atração era a mais esperada, realizada pelo terceiro ano como um show de talentos. Louis me rrastou até lá. Subimos em uma árvore do pátio e nem a diretora reclamou.
“Depois do discurso de abertura, entrou o primeiro participante. Eu achei que tinha algo errado com seus pés. Cambaleava, as mãos na frente do corpo até encontrar a haste. De olhos abertos, sem pupila. Cabelos desarrumados e escuros. Achei que nunca o tinha visto antes. Ia cantar. Eu perdi a curiosidade. Até que abriu a boca, fechou os olhos e... Cantou.
“A voz massageou minha alma, me causou arrepios e o som dos instrumentos desapareceu na minha cabeça. Só tinha a sua voz, Noah. O toque era medíocre, a letra não era bem elaborada e mesmo assim ficou na minha cabeça por mais de dois anos. Se me pedir para recitá-la agora, eu sei cada acorde, cada frase, cada palavra. E depois que terminou... Eu só queria voltar a tocar.
Noah me escuta, o rosto limpo de qualquer pista de como se sente realmente.
—Eu parei de tocar depois do meu... Progenitor começar a cantar pra filha dele. Perdi a vontade de fazer música aos outros. Até você aparecer. Acha que eu te mostrei outro mundo? Você me fez muito mais.
Noah continua em silêncio. Afasto-me meio centímetro dele, achando que vou começar a tremer como um pinche a qualquer segundo. Não é tudo, entretanto, não consigo passar disso por agora.
—Vou voltar ao dormitório — pontuo, medo e receio me atingindo logo seguido de arrependimento. Uma onda gigante de arrependimento. —Se quiser conversar, me manda uma mensagem. Eu... Vou te enviar os acordes depois. Ainda hoje.
Ele fica impassível. Isso dói. Diabos, o que tem dado em mim? Eu não tinha mudado? Não tinha amadurecido? Então o que acabou de acontecer? Por que sempre sinto que venho continuamente fazendo merda ao redor de Noah? Me sinto idiota. Ainda mais idiota por achar que mesmo minimamente ele poderia corresponder aos meus sentimentos.
***
Limpo meu quarto. Fico inquieta quando tudo dá errado, então faço uma faxina caprichada. Cada cantinho fica limpo, arrumo tudo de acordo com o que parece melhor e ao terminar, sento-me no sofá ligando a televisão em um canal qualquer rezando para esquecer do que fiz.
Tudo bem. Convenço-me. Por mais que demore, se Noah for, vou ficar bem. Vai doer, como dói agora, mas vou superar. Eu consigo. Fecho os olhos, a mão no celular. Envio a ele o áudio com os acordes já arrumados e disco o número de Samir.
—Aloha.
—Posso ir te ver?
Escuto o barulho de algo caro e de vidro quebrando.
—Samir?
—Oi, oi. Desculpe, só me assustei. Tá doente?
—Não, não. Só... Queria conversar.
—... Seu quarto é o 35, não é? Chego em meia hora.
—Avisa seu agente.
—A essa altura ele quer te matar e me esganar. Tudo tranquilo. Já estou indo.
Relaxo os ombros, a chamada terminando. Apoio a cabeça entre os joelhos, enjoada pelas minhas atitudes não pensadas, apesar de saber que a dor é um processo até conseguir finalmente superar Noah.
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