Abro a porta ao ouvir as batidas metódicas. Samir continua com a mesma roupa de mais cedo, porém carregando duas caixas de pizza na mão direita e uma latinha de refrigerante na esquerda. Sorrio, contente por ter alguém como ele. Puxo-o para dentro sem falar nada e o mesmo já vai na direção da mesinha redonda de dois lugares.

—Então. — Samir deixa as coisas em cima da superfície de vidro — O que aconteceu?

Aproximo-me dele e sento na sua frente, os olhos pesados e já me sentindo cansada.

—Lembra que eu te falei sobre amar outra pessoa?

—Não tem como eu esquecer.

—Desculpe.

—Tudo bem. Continue.

—Eu... O conheço desde o ensino médio e ele não sai da minha cabeça desde aquela época. — coço a nuca abrindo a primeira caixa. Meu sabor favorito. Samir é incrível — Contei isso pra ele hoje.

—E qual o problema?

—Depois de falar continuou soando como se fosse uma perseguição. Eu... sinto que menti pra ele desde que nos aproximamos esse ano. Deveria ter falado...

Minha voz se perde. É uma tempestade em copo d’agua, sei disso. Me cansa gastar tanta energia com algo como isso. Samir compreende meu cansaço mais por parte de ter que suportar essas emoções do que elas em si. Ele fica quieto. Aponta o queixo na direção das caixas.

—Vamos comer primeiro?

Assinto. Ele compreende minha não vontade de verbalizar os sentimentos, então passa a falar do que aconteceu no seu dia, conta sobre o agente o arrastar contra a sua vontade para entrevistas e concertos tentando mantê-lo, no mínimo, em um patamar de pessoas importantes com vários contatos.

Não demora a devorarmos tudo. Gosto de escutar suas histórias, a forma como narra empolgadamente. Já passa das onze e ele ainda não dá sinais de ir embora e eu muito menos lhe dou essa opção, atenta ao que diz e a como se comporta.

Apoio a cabeça no ombro de Samir enquanto ele passa pelos canais da minha televisão minúscula. É reconfortante. Nunca gostei tanto de toque humano quanto só hoje aconteceu. Devido a temperatura baixar consideravelmente puxo as mangas da camisa até o meio da palma e me aconchego mais ao lado dele quase abraçando seu braço direito.

—Esse pato tem a sua cara.

—Parou em um documentário sobre patos?

—Qual o problema?

Nego com a cabeça, confortando-me em seu ombro.

—Nenhum.

Samir fica parado alguns minutos. Escuto o seu coração acelerado. Pela primeira vez, quero tanto sentir o que ele sente por mim. Quero corresponde-lo. Samir, apesar de seus defeitos, demonstra ser alguém atencioso e cheio de afeto. Compreensivo. Disponível a todos os momentos. Faço uma careta fechando os olhos. Por que não posso amar ele como venho amando Noah? É tão difícil assim mudar?

—Você é bem frienta, não é?

—Isso é ruim?

Ele move o braço do meu aperto, deixando-me surpresa atenta aos seus movimentos. Devagar ele volta passando dessa vez o braço por minhas costas, acomodando-me melhor, o seu próprio corpo mais voltado a mim.

—Não, não é.

Os lábios dele pressionam meu topo da cabeça. Mãos deslizam até seu pescoço. Meus dedos pausam firmes na nuca dele e abro os olhos encarando os dele de volta. Tem algo a mais, sei disso. Não sinto tudo, porém, quero tentar. Ele mesmo disse que eu não o fazia por não desejar ficar com ele. Agora é diferente. Talvez... Talvez Samir consiga se infiltrar ainda mais na minha vida do que já faz agora.

Fecho o espaço pressionando a boca contra a dele. O beijo de Samir arranha meu rosto. Por isso não sou a maior fã de barbas. Começa devagar, um simples toque, pressionar de lábios. Ele se afasta meio segundo, provavelmente me vendo de olhos fechados, tentando de toda forma sentir algo diferente pelo mesmo. Não demora a voltar para o beijo, dessa vez mais rápido, agitado.

Não dói. Não é ruim. Samir beija bem, chega até a ser prazeroso o movimento de seus lábios contra os meus, o calor de sua boca contrastando a minha. Preciso me concentrar na respiração por alguns momentos quase inebriada pela técnica dele. Acaricio seus cachos, ele toca meu cabelo. Aos poucos, me empurra com delicadeza quase deitando nós dois.

O toque alto do celular atrapalha. Faço uma careta quando o calor de Samir some, provavelmente para tentar alcançar o aparelho. Puxo-o de volta continuando o que comecei. Os toques ficam mais quentes, os movimentos mais agitados. A respiração de Samir chega ao meu pescoço conseguindo uma onda de arrepios pelos meus braços. Há quanto tempo não tenho nada assim?

—Tem alguém muito persistente te ligando — ele sussurra baixo no meu ouvido.

—Quem?

Parcialmente deitado em cima de mim, Samir ergue o tronco inclinando-se para trás até pegar o celular na outra ponta do sofá encarando o identificador.

—“Noah”.

Expiro o ar em meus pulmões sentando-me também. Não tenho ideia o que ele poderia querer me ligando tão perto de meia noite. Recordo-me das bobagens contadas a ele não muito tempo antes, do abraço demorado. Quase gritei a ele meus sentimentos, talvez esteja ligando para esclarecer algumas coisas. Suspiro. Pego o aparelho da mão dele atendendo a chamada.

—Oi.

—Eu não ligo se você me conheceu ontem, hoje ou há mais de três anos. Não importa pra mim. Espero que também não importe pra você.

Ergo as sobrancelhas, surpresa. Samir deve escutar a conversa já que endireita a postura sentando-se comportado na outra ponta do sofá. Passo a mão pela nuca, definitivamente determinada a não perder algo que poderia me fazer tão bem quanto ter algo com alguém como Samir.

—Tá bem. Olha, eu tô meio ocupada. A gente se fala depois, tá?

—Não vai virar a noite, vai?

Espero que sim.

—Melhor conversarmos depois.

—Elise, espera.

Sinto minha testa franzir. A voz dele continua esperançosa, como se quisesse alguma coisa mas lutasse com as minhas vontades e as dele.

—Me levar ao seu trabalho ainda tá de pé, não é?

Pressiono os lábios, Samir na minha frente já parece perceber que quero contar a conversa o mais rápido possível. Ele engatinha até mim chegando a beijar o canto da minha boca antes de descer ao pescoço.

—Claro. Como quiser.

—Certo. E... Eu também conheci você no ensino médio. Lembro de você. Só não imaginava que lembrava de mim também.

O quê?

—Até amanhã. Vou te levar café na sua sala.

—Espera, Noah...

Ele desliga. Que diabos? Perco totalmente a concentração e Samir percebe, imediatamente afastando-se, os olhos no meu rosto. Parece preocupado.

—Tá tudo bem?

—Tá... É que ele...

—É o cara, não é? Por mim tudo tranquilo — ele dá de ombros sentando-se e me puxando para fazer o mesmo. — Pelo menos eu finalmente te beijei.

Inclino a cabeça. Se o clima não tivesse sido estragado por Noah talvez tivéssemos passado a muito além de só beijos. Respiro fundo endireitando a postura e ficando de pé tentando não pensar nem no que Noah disse nem no beijo de Samir.

—Finge que é o seu presente de aniversário adiantado.

—O seu é mais perto — ele abraça minhas pernas — Vai dizer que não gostou?

—Gostei.

As mãos dele me envolvem.

—Queria ter te conhecido antes dele.

Fecho os olhos, o rosto erguido ao teto, dentes trincados.

—Eu também queria.