Sua mão está fria. Sua expressão, como em outras situações angustiantes, fica impassível, indeterminável. Não sei dizer se está entre curiosidade e neutralidade ou simpatia e educação. O celular perde a graça em pouquíssimo tempo. Ergo o queixo, meus olhos passando novamente pelo rosto dele.

Devagar, Noah ergue sua outra mão, pousando-a logo do outro lado da minha face. Sinto-o tenso, estremecendo ao se aproximar um pouco mais. Curvo mais meu corpo na intenção de ajuda-lo. Novamente, iluminado pelo sol se pondo, o considero lindo.

—Tá com febre, Elise?

—Hã? O que? Não, não. Meu rosto... Meu rosto sempre é quente.

As sobrancelhas dele relaxam um pouco. Devagar, as mãos gélidas e congeladas passam a se mover. Os dedos dele deslizam pela extensão da minha bochecha chegando a dar uma volta na minha cabeça, sentindo o meu cabelo. Arrepios percorrem todo o meu corpo quando Noah passa a mão pelos fios, consta seu tamanho e volta a analisar o formato da minha cabeça. Sinto sua pele encostando e desenhando o formato das orelhas, percorrendo cada curva mínima na lateral até voltar novamente a frene do rosto.

—Seu cheiro é muito bom, Elise — Noah fala baixo.

Por que ele falou baixo? Que diabos, está me deixando nervosa.

—É? Você... Comentou antes.

—Parece morango.

—Morango?

—É. Vai me dizer que usa shampoo de criança pra ficar com esse cheiro?

—Claro que não.

Sua mão passa pelas minhas bochechas. Noah usa a ponta dos dedos para subir pelos ossinhos, contorna a bolsa inchada debaixo dos meus olhos e o nariz. Fecho-os antes que Noah continue a subir em direção a minha testa.

—E o que é então?

—Não tenho ideia. É a primeira vez que me dizem que eu cheiro a morango.

—Usa perfume?

—Não.

As mãos descem ao meu queixo. O delineiam. Apesar do coração estar batendo afoito em meu peito, não sinto tanto nervosismo como antes. Conversar com ele sobre as mais triviais idiotices ajudam a esquecer qualquer fator negativo que possa chegar em minha mente.

—Então morango deve ser o aroma natural de gente rica.

—Idiota.

—Falando nisso, queria te apresentar alguém.

Deve ser a moça que estava com ele. Respiro fundo, abrindo os olhos. Apesar da sensação do toque dele passar uma onda de choque térmico por todo meu corpo ainda sinto-me parcialmente anestesiada tanto sentimental quanto fisicamente.

—Tá bem.

—Ei, Elise.

—Hum?

—Eu ainda tenho aquela flor de lótus.

Não consigo sorrir muito, mas não parece incomodá-lo ao continuar percorrendo meu rosto com a ponta dos dedos.

—E a rosa?

—Ah... Uso como marca página. Sabe o significado dela?

—Nem tenho ideia.

—Imaginei. Pedi a Andrea pra cuidar da flor de lótus por mim.

—Cuidadoso.

—Eu? E você? Ainda me assusto que soubesse que eu fosse gripar no dia seguinte.

—Eu noto muita coisa de você.

Noah passa sua atenção ao meu pescoço. Ambas suas palmas pousam nele, delicadamente sentindo o formato, a largura. Então ele para, sentindo meus batimentos acelerados debaixo de seu toque. O clima muda significativamente e as mãos de Noah tornam-se muito mais suaves ao voltar a traçar meu rosto.

—Sabe aquele filme antigo... “O Pianista”?

—Aquele sobre a Segunda Guerra?

—É.

—O que tem?

—Assisti ele quando ainda enxergava. Desde que te conheci na aula do Russel te imaginei como a versão feminina daquele ator principal.

Meu olho treme. Ele me imaginava assim? Cabelo curto, magra e sôfrega? Não sei dizer se me sinto honrada ou ofendida por me pintar tão genericamente. Impressionantemente, Noah sorri de novo.

—O que foi?

—Você muda muito de expressão.

Só perto de você.

—Não é tanto assim.

—É sim. Você é bem bonita, na verdade. Mesmo que o elogio de um cego não valha muita coisa.

Correspondo o sorriso no rosto dele. Não sou de me importar com elogios referentes a qualquer outra coisa senão meu modo de tocar algum instrumento. Contudo, sinto-me risonha com o elogio dele. No embalo, continuo a olhá-lo e solto:

—Você também é bem bonito, Noah.

As mãos dele param. Deslizam devagar do topo da minha cabeça para as bochechas e para. Tão perto, tão acessível. Noah inclina-se um pouco mais em direção a mim, os lábios desmanchando o sorriso. A aproximação é vagarosa e já passo a sentir sua respiração batendo no meu rosto.

—Por causa da tatuagem? — questiona baixo.

Nego levemente.

—Só é bonito.

—Talvez depois eu te mostre uma imagem de como eu me lembro ser.

—Ainda tem fotos assim?

—Tenho até da minha mãe. Esses olhos ainda são meus e mesmo tremendo ainda acredito ser capaz de enxergar de novo.

—Cirurgia?

—É. Mas a medicina ainda não avançou tanto. E eu precisaria ser rico, de toda forma.

Uma ideia passa pela minha cabeça.

—Se você tentar os concursos de canto...

—Eu sei. Talvez passe. Mas quero terminar a faculdade primeiro. Não quero escutar ninguém falando que só consegui chegar onde cheguei por ser cego ou por sorte. Ninguém pode falar mal de você se é especializado nesse quesito.

—Não acho — estremeço sentindo a ponta de seus dedos tão próximas logo dos meus lábios que ele evitou tanto — Talvez já estivesse rico a essa altura se tivesse tentado.

—E não seria feliz.

—Não tem como saber.

—Nem você.

Suspiro. As vezes ele pode ser bem cabeça dura.

—Amanhã, no mesmo horário no piano?

—Sim. Terminou?

—Basicamente.

Noah afasta duas mãos e começa a movimentar a argila. Continuo sentada esperando o calor da minha face evaporar para pelo menos sair sem parecer que levei um tapa ou fui assediada. Coço a nuca, querendo ir embora. Confiro as mensagens de Louis considerando seriamente se deveria mesmo voltar para Bishop Hill no fim de semana.

Suspiro, sem ter ideia do que ainda estou fazendo aqui. Meus olhos param no meu violão, do outro lado do quarto. Parece ser um local isolado de Tetsuro, o que já gosto bastante. Levanto-me indo na direção do instrumento.

—O que está fazendo? —Noah questiona.

—Vou avaliar meu violão mais de perto. Se tiver um arranhão eu te mato.

Mesmo estando de costas para ele, já sei que está fazendo uma careta. Espero ainda alguma piada sobre sua cegueira, mas me surpreendo em seu silêncio. A cama de Noah tem seu cheiro. É inebriante, convida-me a deitar no travesseiro dele. Engulo o seco, tomando o instrumento e dedilhando algumas notas tentando pensar na cifra para minha música.

—Você gosta mesmo dele, não é?

Viro o pescoço na direção de Noah. Escutando sua voz dessa forma quase me enganei pensando que referia a si mesmo, como se já soubesse que meu apaixonei por ele. Contudo, não fico nervosa, desesperada ou temerosa com relação a isso. Venho estado bastante calma, racional até. Posso ver nossa relação claramente: dois amigos envolvidos na música.

—Do violão? É. Não é meu som favorito, mas é o instrumento que eu tenho mais afeto — paro de tocar, sem ter ideia alguma — Esse eu comprei com o dinheiro de quando trabalhava fazendo entregas.

—Você trabalhou?

—Por que a descrença?

Guardo o violão de volta na capa e o deixo no mesmo local de antes.

—Porque sua mãe é rica. Se quer alguma coisa é só pedir, não?

Passo os dedos pelos cobertores de Noah, seu cheiro subindo ás minhas narinas a cada leve movimentar.

—Você respondeu sua própria pergunta. Minha mãe é a rica, não eu. Sou só a pessoa de quem ela cuidava. Ou cuida. Ainda dependo muito dela. Mas esse não é o ponto, eu também tive minha fase rebelde e queria muito meu próprio dinheiro. Com meu primeiro salário comprei o violão e um tempo depois comprei o violino.

—Você também toca violino?

—Achei que tinha te contado.

Salto, tal como Noah. Ambos nos assustamos devido o som alto da porta batendo ruidosamente contra a parede, exibindo um Tetsuro segurando uma caixa pesada, uma mulher ao seu lado carregando algumas sacolas com a expressão constrangida. Reconheço-a imediatamente.

—Noah! — Tetsuro entra no quarto seguido da mulher — Eu trouxe mais argila. E a Kya também.

A urgência de ir embora aumenta. A mulher corpulenta muito bem vestida me dá vontade de fugir imediatamente. Não quero ver ela e Noah trocando afeto, não quero assisti-los juntos como várias vezes evitei presenciar no campus. Meu estômago embrulha.