Amor Cego
27 Fuga
O cabelo dela cai na forma de ondas na frente de seu peito e desce pelas costas até quase chegar na base de sua coluna. Novamente, suas roupas parecem muito bem escolhidas dando-lhe um ar semelhante ao de Samir, um profissional. Pele bronzeada e saudável, olhos azuis brilhantes e maquiagem leve. As unhas são pintadas na mesma tonalidade das roupas, um colar de ouro pendurado no pescoço combinando a pulseira.
—Trouxe a Kya? — Noah anima-se, erguendo-se do banquinho.
É inevitável comparar a quando apareço na sala de música e ele sequer esboça outra emoção se não ansiedade pelas aulas. Recordo-me de em algum ponto afirmar que minha relação com Noah baseava-se apenas no interesse dele sobre aprender instrumentos e na minha habilidade para ensinar. Nunca me pareceu tão cruel e verdadeiro como agora.
Escutando seus passos, ponho a atenção no carpete notando como Noah se aproxima rapidamente da garota e ela faz o mesmo. Os dois param na frente um do outro. Recuso-me a ver o abraço passando os olhos para a sacola na mão dela, a dor aguda dentro do meu peito ficando mais forte.
—Isso é ótimo! — a voz dele continua animada — Eu tinha acabado de falar pra Elise que queria apresentar vocês duas.
—Oh. Nos apresente, então.
Junto as sobrancelhas. A voz dela é magnifica. Suavizada, grave, mas ainda sim feminina de uma forma que chega a ser perturbadora. Por que está doendo tanto? Ergo o rosto sabendo que a atenção está em mim agora. Tetsuro movimenta-se atrás dos dois sendo discreto para chegar até a mesinha, constrangido. É a primeira vez que o encontro dessa forma.
Passo a atenção de volta para os outros dois. Posso escutar claramente o som do meu coração magoado apertando-se em meu peito. Meus olhos vão desde a expressão animada de Noah para a da mulher, curiosa, desce lentamente até alcançar as mãos dos dois juntas. Essa imagem queima a memória de quando segurei a mão dele no jardim, quase séculos atrás. Inspiro fundo, controlando tanto a expressão quanto o comportamento.
—Kya, essa é a Elise, minha professora. Elise, essa é a Kya. Minha... amiga próxima. Ela pratica violão comigo. Por isso melhorei tanto.
Ergo as sobrancelhas. Sei ser errado a sensação de que ela está tentando roubar algo meu, por isso engulo essa ideia estúpida e vejo a mulher a partir de suas ações direcionadas a mim.
—Elise Brown — estendo minha mão esquerda.
Não quero tocar na mão dela que segura a de Noah. Não entendo como fico com raiva mais dele do que dela. Kya sorri, seu sorriso é amável e acolhedor. Passa a ideia de que toda sua personalidade é dessa forma.
—Kya Dixon.
—Seu sobrenome... É o mesmo de um dos professores.
—O velhote reclamão? É meu pai.
Assinto, percebendo alguns traços semelhantes entre os dois. Não sei como continuar a conversa e baixo o olhar, incomodada de tantas formas diferentes que parece que o próprio ar está me sufocando. Rapidamente a alça da mochila vai ao meu ombro e me levanto, apressada.
—Preciso ir — digo tentando não prender o ar — Uma amiga minha precisa de ajuda.
—Charlie? — Noah questiona.
—Ah... Não. É uma de Bishop Hill. Preciso ir. Mesmo.
Desvio dos corpos dos dois e fecho a porta, tremendo. Continuo tremendo até o elevador onde pressiono o botão do meu andar tendo de fingir normalidade para outras duas garotas subindo junto comigo.
Dentro do meu apartamento continuo ofegando, estremecendo pelo ambiente em que estive. Sei ser só da minha cabeça a hostilidade, sei que o nervosismo e a angustia sequer tinham motivação, mas o desconforto era extremo. Sequer consigo analisar tudo separadamente de tanta raiva. Enfureço-me com Noah. Emprestei meu violão a ele e ele pede a outra pessoa para ensiná-lo? Sinto que meu pertence foi violado. É exagerado, contudo isso não muda muito minha ideia.
E por que me apresentar a ela? Que diabos de ideia estúpida. Pego o celular dentro da mochila, irritada pelo som de notificação. Paro ao notar não ser de Louis e sim Yuri. Leio a mensagem devagar e repito-a mais de uma vez tendo certeza de que não entendi errado.
Louis tá grávida.
Merda. Engulo o seco tirando o caderno e as canetas de dentro da mochila substituindo-os por algumas roupas e barrinhas de dentro do armário. Saio do apartamento novamente, conferindo se está tudo trancado.
***
Após horas no ônibus sentindo todos os tipos de enjoo possíveis, saio da rodoviária e ligo para Yuri sabendo que se ligasse para minha mãe ela iria fazer um escândalo por não ter avisado antes de voltar para a cidade.
Agradeço por estar de tênis e caminho devagar pela calçada com o celular perto da orelha. Mastigo o pedaço da minha última barrinha e me pergunto se fui muito impulsiva comprando a primeira passagem vinda para cá. Não só isso como também pelo fato de fazer isso em prol de ajudar Yuri. E se eu estiver fazendo demais?
—Credo, Elise. Nunca me ligou tanto.
—Onde você tá?
—Em casa chorando até desidratar. Por que?
—Tá bom.
Desligo. Não faz mais do que oito ou nove meses que fui embora de Bishop Hill e de alguma forma a cidade parece ter se modificado ao meu redor, mais fria, solitária e antiquada. Os prédios são os mesmos, as lojas são as mesmas, as ruas, restaurantes e até o único cinema continuam iguaizinhos. Então... Como me sinto em uma cidade completamente diferente?
Caminho apressadamente, a mochila parecendo leve sem nada além das roupas e alguns papeis que rabisquei notas no caminho de ônibus até aqui. Meus pés parecem um tanto pesados, arrastando uma cama fina de lama devido ao aguaceiro leve iniciado a alguns minutos. Deveria ao menos ter pego um casaco. Enfio as mãos debaixo dos braços pretendendo proteger meus dedos da insensibilidade do frio.
Fui muito impulsiva. Muito. Bato na testa por gastar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Rapidamente digito uma mensagem avisando minha mãe que estou de volta na cidade e vou para casa na manhã seguinte.
Enfio o aparelho no bolso da calça apressando-me até a casa amarelo-fosco de porta azul claro. Bato três vezes na porta e espero, estremecendo devido baixa temperatura inesperada. Yuri abre a porta. Calças de moletom, camisa da banda com o nome vergonhosamente estampado: YTRA. Tento esquecer o máximo possível por ter sido minha sugestão juntar a inicial dos nossos nomes. De cabelo amarrado inteiramente bagunçado, a mulher me olha inicialmente com espanto passando logo a preocupação, como uma mãe faria.
—Tá me sacaneando.
—Como você tá?
—Como eu tô? Que merda tá fazendo aqui, Elise?
Yuri estende o braço, puxando-me para dentro e fechando a porta. Estremeço outra vez e a agradeço tirando os sapatos para coloca-los perto da saída. Seus cabelos azulados somem de vista. Dou uma olhada no chalé que ela conseguiu, papel de parede renovado na base do preto contrastado nos detalhes brancos, o teto de madeira clara, chão do mesmo material correndo pela sala até chegar onde seria a cozinha em conceito aberto, ilha com banquinhos e uma porta para o quintal. Na sala de estar contém um sofá repleto de migalhas, o cobertor de Shrek que Yuri sempre usa quando está de mau humor e o filme em questão pausado na televisão.
Ela volta, vinda do corredor próximo a cozinha de onde imagino levar aos quartos e ao banheiro. Yuri me joga a toalha felpuda branca e apoio a mochila no chão, um tanto distante dos sapatos para secar o cabelo e tirar a camada de água no resto do corpo.
—E aí? Não me respondeu.
—Vim te ver.
—Por que razão?
Suspiro. Ela sempre se faz de durona. Ergo o olhar na sua direção e Yuri engole o seco, desviando-se para o sofá, os olhos inchados e brilhantes. Senta-se abraçando o cobertor. Não quer falar sobre isso ainda.
—Toma um banho — fala baixinho —Não quero ter que cuidar de você doente.
Pego roupas limpas da mochila e faço o que ela ordena. Termino rapidamente e volto para me sentar ao seu lado. Yuri compartilha seu cobertor comigo e a abraço afetuosamente da forma como gostaria de ser abraçada caso estivesse em seu lugar. Apoio a cabeça no topo da sua e a mesma me devolve o afeto, os olhos presos no filme reproduzindo novamente.
Ficamos em silêncio. Sinto as lágrimas dela caindo na pele do meu pescoço e a aperto um pouco mais buscando reconforta-la. Afago suas costas. Apesar de ser do meu tamanho as mãos dela são consideravelmente pequenas envolvidas uma na outra em seu colo. Espero, assistindo o maldito desenho, aceitando seus costumes estranhos como parte dela e ainda sim querendo que não sofresse tanto.
—Sabe por que eu gosto tanto desse filme?
Surpreendo-me ao escutar a voz dela tão rouca.
—Ah... Não. Quer me contar?
Yuri funga.
—É esse impulsividade do Shrek. Ele se precipita demais, não acha? Isso acaba resultando nele antecipando julgamentos. Igual eu.
Quieta, aguardo ela continuar.
—Mas também acho ele parecido com você, sabia? Sempre teve essa ilusão de autossuficiência. Achaque ficar no pântano sozinho vai eliminar problemas, só que ele nem tinha ideia do que é amor ou amizade antes do Burro.
Faço uma careta.
—Isso é uma ofensa ou um elogio?
—Isso é pra te abrir os olhos também.
Junto as sobrancelhas.
—Ah... Tá?
—Eu queria ter sido o Burro na sua vida — Yuri me aperta — Queria ter feito você descobrir como estava perdida. Sozinha.
Passo a mão pelos seus cabelos.
—Pelo menos eu percebi. E tô aqui agora, não é? Justamente porque não tô sozinha. Tenho você também, igual você tem a mim.
Vejo o canto do lábio dela erguendo, ainda tristonha.
—Finalmente tá se importando com os outros, é?
Semicerro os olhos.
—Eu sempre me importei.
—Não, não se importou não. Noah deve ter mesmo te mudado.
—Sabe que não foi ele.
Yuri aconchega-se no meu pescoço.
—Especifique, Elise.
—Eu sei que ele meio que foi a razão no inicio, mas não foi ele quem me mudou — inclino-me para ver seu rosto — Eu me mudei. Me mudei pra conseguir ser feliz.
Lentamente, ela começa a sorrir.
—Me sinto orgulhosa de você.
—Eu sei.
Voltamos os olhos para a televisão. Passa o momento da foto dos dois. A cada segundo concordo mais e mais com o comentário de Yuri sobre ter mudado. Por isso a cidade parece tão diferente. Antes sequer a olhava como é agora, parecia presa na ilusão de Noah constantemente.
—E você, Yuri?
Ela puxa mais o cobertor em cima de nós duas.
—Eu vou ficar bem — fala ainda sorrindo — Só preciso passar pelo meu próprio processo de separação e vai ficar tudo bem. Principalmente depois de saber que a pirralha rica e arrogante finalmente virou gente.
—A pirralha sou eu, suspeito.
Yuri solta uma risada baixa.
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