Sento-me no banco do auditório olhando sem muito entusiasmo para a organização. A recepção de calouros parece durar a manhã toda e teoricamente deveria ser um momento importante na minha vida, afinal, são meus primeiros momentos estudando nada além de música por quase cinco anos.

Na teoria se aplicava bem: caminhamos pelo campus, recebemos algumas dicas de veteranos, escutamos a baboseira da fundação da universidade. Agora, ao final da recepção, estamos no auditório. Alguns outros alunos novatos espalhados, outros mais velhos parecendo veteranos acompanhando os mais novos e o palco na nossa frente com uma orquestra um pouco adiante, no escuro, e acima deles algumas cadeiras ocupadas por gente que parecia importante.

Duas mulheres, a primeira de cabelo grisalho preso e a outra mais jovem deixando os cachos volumosos chamarem atenção. A pele é da cor de café puro, os olhos miúdos passando por cada um dos presentes, inclusive eu. Desvio o olhar para o instrumento em suas pernas pousado semelhante uma criança. Um calafrio percorre minha espinha ao reconhecer uma das maiores violinistas do país. Engulo o seco, sentindo-me subitamente nervosa.

Apesar de ter escolhido o piano no teste de admissão ainda tenho certa queda pelo violino desde a primeira vez que ouvi um concerto daquela mulher. Desvio o olhar para o único homem no grupo. Cabelo ralo, óculos, blazer e suéter. Não trazia nada consigo.

Pela primeira vez desde a entrada no auditório passo a sentir vergonha por trazer o violão comigo. Achei que daria motivo para conversar com outra pessoa, mas sentindo os olhares curiosos da maior violinista que já vi na vida não posso deixar de sentir intimidação.

Já me questiono se não posso voltar aos dormitórios e esconder os dois instrumentos o mais fundo possível do armário até a mulher sumir. Parece uma boa opção. Levanto-me imaginando um bom lugar para escondê-los quando o homem de óculos ergue-se da cadeira caminhando até a pequena orquestra. Assisto, quieta, ele longamente movimentar as mãos em direções opostas. Os primeiros instrumentos iniciam e desisto da minha ideia.

Sento-me. Aprecio o toque. A música tem uma melodia clássica, acordes tocados hora com leveza e hora com força. Alguém parece estar carecendo de afinar o violoncelo e isso prejudica uma mínima parte da melodia ao atingir um tom mais grave, porém continua bonito. É muito diferente do clube de música do ensino médio.

Ao final da apresentação bato palmas. Uma bela e envolvente forma de dar as boas-vindas aos calouros.

—Agora que consegui sua atenção — o homem arruma os óculos — Gostaria de me apresentar. Sou Edward Russel, professor de Harmonia e Prática Instrumental. Nesse semestre serei o coordenador do curso de vocês.

Edward inspira fundo.

—Eu sei bem o que devem ter passado para chegarem aqui. “Música? Quem vai para uma faculdade de Música?”. “Você precisa ter talento para conseguir ser alguma coisa nesse ramo”. “É isso mesmo o que quer? Não é só uma fase?” — ele passa os olhos pelos presentes — Alguns de vocês vai sair, disso não tenho dúvidas. Saber o que se quer fazer para o resto da vida é muito incerto. Difícil. Não vou mentir. O mercado de trabalho nesse ramo é ainda pior do que imaginam. Mas... Mas se continuarem firmes... Se agarrarem as oportunidades com todas as forças... Ficarei mais do que grato em pagar um ingresso caríssimo para o concerto de vocês.

Alguns dos presentes dão uma risada baixa.

—É minha primeira vez como coordenador — Edward apoia as mãos em suas costas — Dizem que eu sou rigoroso nas aulas e “gente fina” fora delas. Espero que fiquem confortáveis o suficiente para entrarem em contato comigo sempre que lhes existir algum problema relacionado a faculdade ou ao curso. Estarei a sua disposição.

O homem se curva em uma referência. Os presentes lhe batem palmas e faço o mesmo. Seu discurso deve ter sido motivador para alguns. A mulher mais velha se levanta. Ela aproxima-se da beirada, as roupas relaxadas e o sorriso contagiante.

—Victoria Young. Sou a diretora dessa instalação. Venho aqui hoje para dar a todos vocês as boas-vindas e, mesmo que não seja muito boa em música, espero apreciar o talento de cada um de vocês.

Lembro-me vagamente da sua presença na minha entrevista de admissão.

—Sabemos que já passaram boa parte da manhã escutando a história da universidade, sendo apresentados a todos os lugares do campos e receberam a introdução básica do curso. Imaginamos que estejam cansados e loucos para irem comer alguma coisa no refeitório. Mas! Esperem um pouquinho mais. Tomei a liberdade de contatar uma das nossas antigas aulas — ela aponta a mulher com o violino — e pedi que tocasse um pouco. Para animá-los. Summer?

A mulher mais jovem se levanta. Seu cabelo se movimenta e a acho belíssima. As luzes do auditório a tornam quase surreal. Pousa o instrumento na posição correta do ombro e queixo e encosta o arco nas quatro cordas. Novamente, sinto calafrios apenas pelo primeiro som. Aveludado e levemente agudo. Os segundos transformam-se em minutos e a música sai perfeita. Summer fica de olhos fechados, movendo o corpo conforme sente a melodia pedir. Parece que a plateia deixa de existir, o mundo inteiro paralisa e só ela e o violino existem.

Absorta. Concentração e admiração pelo instrumento. Meu peito aperta e tudo o que mais quero é correr para casa e voltar a tocar piano até os dedos ficarem doloridos. Só percebo o fim da apresentação quando as pessoas ao meu redor já estão batendo palmas, de pé, para Summer.

Atrasada, faço o mesmo. Ela nota. Ela me nota. Uma mulher forte e talentosa para seus olhos em mim, ou talvez no instrumento dentro de sua proteção pendurado no meu ombro. De longe talvez confunda com um violino.

Victoria ainda fala algumas coisas sobre sua felicidade em nos receber. Não noto muito. Fico distraída me perguntando se assim que dominar o violino devo mudar para algo mais estridente. O piano sempre fora meu domínio, violão foi algo que com prática ficou mais fácil de tocar. Violino vem sendo uma certa dor de cabeça, mas não é impossível. Posso ser desastrada em muitas coisas, mas minha adaptação para instrumentos musicais chega a ser assustadora.

Saio do auditório arrumando a alça no ombro, me perguntando quanto tempo levaria para ficar ao menos próxima de soar agradável no violino. Passo a me perguntar se minha mãe acharia uma má ideia gastar dinheiro para deixar meu quarto no dormitório a prova de som. Com certeza os outros habitantes não gostariam nada dos meus treinamentos noturnos.

Caminho até a máquina mais próxima sem pretender seguir até meu quarto. Pressiono os botões e deixo o dinheiro pegando dois pacotes de salgadinhos. Enfio-os na mochila de lado e sigo na direção de uma das salas acústicas mostradas pelos veteranos.

Aproveito ainda estar aberta e não ter ninguém dentro. Passo pela cabine da coordenação de som e entro na sala com estofamento. Sento-me no banquinho e tiro o violão de dentro de sua capa. Apoio-o na posição certa e passo a dedilhar algumas notas. Sigo uma melodia incerta até recordar subitamente do som da voz do garoto cego.

Lentamente, mudo o acorde. Deixo o timbre mais delicado sem saber como coloca-lo em um tom angelical. Fecho os olhos, tentando lembrar como a música soava. A voz dele a tornava estonteante, porém, o som dos instrumentos me faziam dar uma careta.

Passo a tocar como faria se fosse eu a compartilhar a música com ele. Repito a letra na mente, visualizando-o do meu lado cantando cada palavra, terminando cada parte da melodia e estourando em uma nova. Talvez o violão não combinasse perfeitamente com a música. O violino acompanharia melhor a voz de Noah.

Paro. Abro os olhos pousando o violão nas coxas para pressionar o centro da testa. Ainda hoje falo com minha mãe. Não vou conseguir dormir até dominar pelo menos duas músicas com o violino. Isso já me dá uma previa da dor de cabeça que terei por ficar virada a noite toda.

Ergo o olhar. Encontro Summer, na cabine. Está com a diretora ao seu lado, ambas encarando surpresas minha audácia. Porém, ao invés de intimidada por Summer, me sinto cúmplice. Sentia nela a ansiedade por melhorar, a insatisfação consigo mesma. Contrariada, guardo atrapalhada o violão dentro da capa e me apresso em sair da sala tendo de atravessar a cabine.

Paro na frente das duas, engulo o seco e curvo-me levemente.

—Sinto muito por entrar sem pedir.

A mão da diretora pausa no meu ombro.

—Você foi incrível. Mas que esse episódio não se repita. Summer queria muito voltar a praticar nesta sala e você talvez tenha atrapalhado a...

—Toca violão muito bem — Summer interrompe.

Ergo a visão para ela. Ainda fixa os olhos em mim.

—Tinha esperanças que tocasse violino.

Me sinto confortável. Ela me reconhece. Alguém que admiro tanto reconhece minha habilidade no instrumento. Meu peito flutua, o estômago borbulhando.

—Eu também toco ele.

Summer ergue as sobrancelhas.

—É multi-instrumentista?

Enrubesço.

—Violão e violino. Imagino como deve sentir a diferença — Summer dá uma risada baixa.

—Achei que tocasse piano — a diretora franze o cenho.

—Ah. É. Aprendi piano cedo, achei melhor usar ele na entrevista. O violão aprendi no ensino médio e comecei violino ano passado.

Summer parece surpresa novamente.

—Toca daquele jeito e aprendeu faz tão pouco tempo?

Vejo-a mover-se pela sala. Passa por mim entrando na sala estofada. Posiciona o violino protegido em cima do banquinho onde sentei. Vira-se, procurando algo pelos instrumentos espalhados no local. Encaro a diretora.

—Realmente sinto muito por atrapalhar —digo.

Ela sorri, afetuosa.

—Qual seu nome?

—Elise. Elise Brown.

Victoria acena.

—Muito prazer, senhorita. Espero ouvir grandes coisas de você.

Encolho os ombros. O desconforto em ser elogiada por pessoas que não entendem de acordes sempre me abate como um touro. Parece que são cegos aos demais detalhes que rodeiam o tocar de instrumentos, por isso tenho a impressão de serem mais elogios educados do que reais.

—Summer também passava o horário de almoço nessa sala — Victoria informa olhando ao redor. — Muita gente riu dela quando disse que se tornaria a maior violinista do mundo.

Assusto-me com o súbito puxar de assunto. Pisco, vendo então a cumplicidade de Summer. Ela me entendia em silêncio da forma como eu fazia a ela.

—Ela está bem perto, não é?

—Passou o concurso nacional sem problema algum. Daqui a alguns meses vai disputar na Rússia o mundial.

Assinto. Vinha acompanhando suas apresentações. Qualquer um que não sentisse vontade de rasgar o peito e começar a cantar seria um idiota. Quero ser capaz de proporcionar essa sensação aos outros. Quero arrancar o melhor de quem quer que me acompanhe na carreira musical. Ou talvez deva prosseguir solista, como Summer.

A única pessoa por quem eu tocaria sumiu faz mais de dois anos. Deveria... Deveria mesmo me tornar solista. Summer, do outro lado do vidro, me chama erguendo um violino velho que acabara de encontrar. Arregalo os olhos. Victoria sorri, empurrando-me na direção da porta.

Entro na sala. Sento-me ao lado de Summer. Seguro o instrumento e escuto suas instruções para a melodia que quer.

—Siga-me.

Ela pousa o queixo. Ergue o arco ao alto e desce em delicadeza pelas cordas. Hipnotizada, faço o mesmo apressando-me em acompanha-la.