Amor Cego

3 Noah Parker


Meus dedos estão doloridos ao voltar para casa. As cordas de aço haviam ficado muito rígidas sem o uso. Flexiono pacientemente os dedos voltando devagar para o dormitório. Tiro o celular do bolso discando o número da minha mãe e apoiando o aparelho entre o ombro e o rosto enquanto tiro os salgadinhos de dentro da mochila.

—Catherine Jones. Diga rápido o que quer ou desligo. — o tom de voz era autoritário e ameaçador.

—Oi, mãe. Está muito ocupada?

—Elise! Jesus, não vi seu nome no identificador. Não estou. Algum problema?

Como imaginado, o tom volta a ficar doce como ela fazia apenas comigo.

—Não, tudo bem.

—E como vai o seu primeiro dia?

—Foi tranquilo. Só a introdução. Toquei com a Summer Rivera, acredita? Aquela moça bonita dos concursos que eu via na televisão.

—Parece importante. Você tocou bem?

Nem um pouco.

—Não como queria. Preciso praticar mais. Você pode me conseguir estofamento?

—Se quer isolamento acústico em um dos cômodos do seu quarto nem precisa pedir, já fiz isso. Natasha me disse que os instaladores acabaram de sair.

Ergo os olhos na direção da entrada dos dormitórios vendo um conjunto de homens vestidos de azul saindo em direção uma vã estacionada do outro lado da rua. Sorrio, quase satisfeita demais de ter uma mãe tão preparada.

—Obrigada. Isso vai me ajudar muito.

—Também pedi que a Natasha enchesse sua geladeira e armários. Sabe cozinhar, nem pense em ficar vivendo de salgadinhos e fast food.

Encaro o pacote na minha mão. Faço uma careta.

—Tá bem, mãe.

—Já almoçou?

—Ainda não.

—Faça comida e me mande foto senão eu vou na capital te dar uns cascudos.

Solto uma risada.

—Tá bem. Tenho que ir. Muito obrigada de novo.

—De nada. Te amo.

—Eu também.

Coloco o celular de volta na mochila e encaro os salgadinhos na minha mão. Praguejo, sem querer desobedecer minha mãe. Arrumo o violão nas costas de novo e entro no salão de entrada caminhando até o elevador. Devo ter colocado o horário das aulas dentro da mochila, então não me incomodo em pensar como vou resolver as coisas no dia seguinte.

—... Idiota, isso sim.

Arregalo os olhos. As portas do elevador já estão se fechando quando coloco a mão no caminho, puxando-as de volta ao seu lugar conforme enfio o rosto do lado de fora da caixa metálica, procurando a fonte da voz.

—Qual é, Noah. Não ser bom em instrumentos é normal aqui.

—Então por que eu sou o único que repete a maldita aula do Russel?

—Quer mesmo saber a resposta?

—Vai pro inferno, Tetsuro.

Uma risada. Encaro, sem piedade alguma, o garoto de olhos arregalados vidrados e cabelo arrumado com gel e o outro ao seu lado. Usa óculos escuro, o cabelo bem maior chegando a passar do queixo fino. Noah é muito mais bonito do que eu me lembrava. Está caminhando, vindo na direção do elevador com o tal Tetsuro ao seu lado.

—Ah, sorte — o garoto me vê segurando as portas.

—O que foi agora?

—Uma moça segurou o elevador pra gente.

Noah faz um muxoxo.

—Não vai cantar ela também, vai?

—Ela não faz meu tipo.

—Não?

—É, ela tá com um violão.

Poderia estrangular ele, mas minha mãe não gostaria de ter que me buscar na delegacia. Pressiono o botão para as portas se fecharem, o orgulho ferido apesar da falta de expressão no rosto e a atenção voltando constantemente para Noah. Ele parece mais alto e carrancudo. Até mesmo sua voz parece ter mudado.

Tetsuro suspira, percebendo a irritação no meu ato antes das portas se fecharem. Meu coração continua acelerado. Não entendo o nervosismo, nem o suor grudando na palma das minhas mãos. Não ficava assim nem mesmo antes de me apresentar com a falecida banda do ensino médio. O órgão dentro da minha caixa torácica continua afoito parecendo pedir para sair do meu peito.

Minhas pernas estão trêmulas. Apoio-me na haste do elevador, tentando respirar fundo. Pressiono o botão do meu andar e fico, atônita, tentando aceitar o fato de que encontrei Noah novamente e ele está aqui. Nessa universidade. Nesse dormitório. As portas do elevador se abrem. Saio para o corredor praticamente correndo na direção do meu quarto. Pressiono minha identificação na entrada da porta e fecho-a atrás de mim.

Não sei dizer se estou nervosa ou apavorada. O rosto de Noah constantemente aparece ao fechar os olhos, a voz ainda ressoando pelos meus ouvidos junto às batidas do meu coração. Ele sempre foi tão bonito? De longe no festival não tinha discernido seus traços muito bem, mas de perto se perguntava se sempre foram daquela forma. Traços normais demais. Comuns demais. Um sinal no canto da boca e outro na bochecha esquerda. Cabelo parte preso no alto e parte solto.

Meu celular vibra e quase salto. Ofegante, pouso o violão com cuidado ao lado da porta e procuro o aparelho na mochila. Uma mensagem da minha mãe.

Foto. Almoço. Agora.

Sento-me no chão, recuperando o fôlego e tentando entender minhas próprias reações. Puxo o violão para o colo e o abraço, me questionando o que diabos pode ter errado comigo.

***

Saio do quarto com isolamento e fecho a porta bocejando. Dou uma olhada no horário imaginando ser quatro da manhã, mas o sol escapando pela janela discorda de mim. Sendo sei e meia, suspiro e caminho até a cozinha. Faço café puro sem adicionar açúcar ou leite. Mastigo algumas torradas que fiz de madrugada como lanchinho e sento-me na sala.

Graças à minha mãe, apesar de estar com meia bolsa, ela conseguiu me proporcionar um dos melhores quartos dos dormitórios. Dentro funciona quase como um verdadeiro apartamento. Um cômodo fechado onde deveria ser meu quarto, mas substitui a cama por um sofá cama de frente para a televisão comum e a janela ao meu lado tomando grande parte da parede e exibindo o sol nascer atrás de outro conjunto de prédios. Nem mesmo fechei as cortinas antes de me trancar no quarto para praticar violino.

Com relação a instrumentos, não pude trazer o piano. Quase quiser praticá-lo vai ter que ser durante algumas horas em uma das salas no campus. O violão e violino ficam dentro do quarto. A cozinha, de frente para o mesmo, é pequena, mas bem eficiente.

Termino de comer e tomo um banho gelado sentindo-me ainda sonolenta. Troco de roupa, passo a mão pelo cabelo curto e arrumo a mochila. Confiro o horário e o mapa do campus. Visto um suéter e penduro a bolsa na lateral enfiando uma marmita pronta na noite anterior dentro de um dos bolsos da mesma. Jogo mais café na garrafa térmica e saio fechando a porta atrás de mim.

Continuo pressionando o centro da testa e tomando longas goladas de café conforme desço pelo elevador até o térreo. Não vejo ninguém, não olho ninguém, apenas sigo devagar até o outro lado do campus para assistir a primeira aula sobre História da Música. Apesar de história sempre me ser intrigante, pretendo pelo menos recuperar vinte ou trinta minutos de sono.

Durmo a aula inteira. Acordo com o sinal para troca de salas e levanto em um salto, correndo para a próxima sala e ignorando a vermelhidão no rosto ao perceber que já perdi a primeira aula do dia. Pelo menos a próxima vai ser mais interessante.

Sorrio, tomando mais uma golada de café já frio. Entro na sala. Também tem isolamento, de uma tonalidade mais clara que o que uso no quarto. O piso é de madeira brilhante e exibe uma janela larga atrás do local. A iluminação exibe perfeitamente os dois pianos de cauda, um em cada ponta da sala, os cinco violões presos em hastes nas paredes, os violinos apoiados no chão com suas proteções fechadas, violoncelos, baixos, outros instrumentos que sequer me lembro o nome.

Apresso-me em sentar de frente para o piano mais distante, dedilhando as teclas e apreciando o som. É límpido. Foi um instrumento bem cuidado.

—Fiquem de pé. Longe dos instrumentos, agora.

Ergo a cabeça para o professor Edward Russel. Uma vaga memória do dia anterior circula meu cérebro embriagado de sono, café e cansaço. Não entendo minha ansiedade até minha atenção se prender na figura entrando na sala com a sombra de um Tetsuro correndo para a sua própria na outra direção.

—Finalmente decidiu aparecer, não é Parker?

Noah nem tenta esconder o muxoxo. Percorre a sala usando-se de bengala para conseguir alcançar uma das cadeiras próximas da porta. Russel suspira, claramente tão insatisfeito quanto o aluno.