Amor Cego
4 Dupla
Pareço quase uma piscina de suor e isso me deixa irritada e constrangida conforme a aula progride. Olho constantemente para o piano e para Noah. Um me dá a familiar sensação de segurança e casa, me lembra os dias com meus pais antes do divórcio. O outro me deixa tão nervosa que pareço esquecer do sono.
Pressiono o centro da testa, irritada e confusa. Quero escutar sua voz e dizer que é um babaca. São dois opostos me deixando curvada em uma das cadeiras de plástico no centro da sala, longe dos instrumentos como o professor pediu. Ele passa alguns conceitos sobre a necessidade da prática na questão da música. Nos passa superficialmente as características e sons de cada um dos instrumentos na sala. Me interesso levemente por algo semelhante a um violão, mas com tantas cordas que sequer conseguia contar de longe.
—Estamos na metade do horário. Já tiveram conceitos o suficiente por hoje. Vou lhes dizer logo cedo: No fim da nossa disciplina farão uma apresentação, em dupla, no instrumento que eu escolher. Será a nota final. Se forem horríveis, reprovarão não importa o quanto tenham sido bons em outros instrumentos. Se forem ruins, reprovarão. Se forem regulares, passam. Se forem bons, lhes darei crédito extra. Se forem perfeitos, coisa que não vai acontecer, levarei quem tiver sido o talentoso até uma orquestra profissional.
Orquestra profissional? Já assisti algumas.
—Só para assistir? — uma menina questiona na frente.
—De participer, mon cher.
O francês dele é bom. Cantado, mas muito bom. Russel nota a expressão de confusão em alguns. Outros parecem fixados em encarar os instrumentos. Uma menina duas cadeiras na minha frente já virou mais vezes que o necessário espiando o piano. Talvez tenha de discutir sobre ele.
—Parker. Entendeu o que eu disse? Deve ter aprendido ao menos francês de tantas vezes que assistiu minhas aulas.
Noah estala a língua.
—Ele disse que é para participar e não só assistir.
A voz dele é bastante expressiva. Demonstra não querer se prolongar na conversa ou sequer ser inserido nela novamente. Não gosta da disciplina apesar de nesse momento estar sendo a que mais desejo prosseguir. Lembro-me dele falando no festival que havia pedido ajuda ao clube de música. Deve ser por não suportar ter de tocar e cantar ao mesmo tempo.
—Exatamente o que ele disse — Russel força um sorriso — Escolham suas duplas para esse semestre e os respectivos instrumentos. Os pianos ficam para os dois, o resto das duplas pode pegar mais de um.
Ergo-me. Sento no banco do piano, quase contente. Ergo a tampa do teclado e pressiono levemente, sem descer, uma das teclas. Estão um pouco rígidas, mas não é muito importante. Acostumada a pressionar as cordas do violão e violino, a delicadeza do piano é quase angelical. Tento uma melodia fraca que vem ficado constante na minha cabeça. Sem perceber, toco uma parte do refrão da música de Noah no festival.
Encolho os ombros. Passo os olhos diretamente a ele, de braços cruzados e olhando para frente enquanto outros conversam entre si. Parecem já ter formado seus pares, a menina de antes me fuzila por estar sentada no piano, apesar de estar sozinha. Baixo os olhos para as teclas dedilhando novamente, outra melodia dessa vez.
—Ei! Eu ordenei tocar alguma coisa?
Paro. Não me sinto oprimida por Russel, só o considero babaca. Suspiro e baixo a tampa demorando a encontrar os olhos dele escondidos atrás dos óculos. Ele não parece satisfeito e é realmente um saco dentro de sala de aula.
—Qual seu nome?
Quase bocejo.
—Elise Brown.
—Brown, fique com o Parker. Já que nenhum dos dois escolheu um par, parece perfeito, não?
Meu cérebro se arrasta. Parker? Procuro outra pessoa que esteja desacompanhada. Me sinto ainda mais suada ao ver Noah. Ele é o outro que está sozinho. Foi chamado de Parker pelo professor. Um arrepio percorre minha espinha ao ver Noah se levantar batendo a bengala na sua frente.
—Onde diabos ela está? — pergunta.
Deve estar falando de mim.
—Piano, fundo da sala — Russel continua autoritário— Se vire 30ºgraus para a esquerda. Isso. Só ir reto.
Meu coração parece estar saindo pela boca. Escuto-o tão alto que tenho medo dos outros poderem escutar também. Noah veste jeans e suéter de manga longa branca com camiseta azul escura por baixo. Sapatos rasteiros, o cabelo no mesmo estilo do dia anterior. Ao bater devagar no banco do piano procura com as mãos a superfície e em seguida o banco.
Abro espaço, ainda nervosa. Meus dedos pairam trêmulos em cima da tampa, sem saber se deveria ou poderia olhá-lo fixamente. Quero, mas imagino ser desrespeitoso me aproveitar da sua cegueira para poder admirá-lo em silêncio.
—Você é muda ou o quê?
Direciono o olhar para ele. Nunca o vi de tão perto. Noto a pele aveludada, a pelugem no rosto, os dentes retos. Uma tatuagem atrás da orelha esquerda que não consigo discernir. Me pergunto se ele poderia escutar meus batimentos afoitos. Parece quase idiotice iniciar uma conversa e sequer sei como poderia começar uma.
—Se eu sou cego e você é muda nosso trabalho não vai funcionar muito bem, vai?
Noah bufa, preparando para se levantar. Seguro sua mão antes de ir. Preciso de muita coragem e alguns calafrios até conseguir formular alguma coisa.
—Eu... Não sou muda.
—Finalmente.
Ele põe os pés de volta. Não sei se continuo a olhá-lo ou não. Difícil dizer entre a confusão da ofensa pelo seu tratamento ou pelo fato de sua voz soar como sinos tilintando ao meu lado.
—Todas as aulas a partir de hoje serão feitas nessa sala sobre a minha supervisão da disciplina — Russel põe as mãos atrás de si — Vão passar por todos os instrumentos, ver o que lhes falta. Devem saber ao menos as notas básicas em dois ou três deles. Não irei ensinar nada, vocês devem aprender sozinhos. Deixarei na porta os horários disponíveis dessa sala. Precisam reservar um instrumento com pelo menos dois dias de antecedência na minha sala.
Os presentes continuam em silêncio.
—Podem começar a praticar.
Cada dupla se volta ao seu respectivo instrumento.
—Acho que deveria saber que essa é a terceira vez que repito essa disciplina. Sou horrível com minhas mãos e pior ainda em tocar alguma coisa.
—Tudo bem. Eu te ensino.
Vejo sua expressão confusa, quase debochada.
—Sabe que eu sou cego, não é? É impossível pra mim.
—Isso não tem nada a ver. Qualquer um pode aprender.
—Que tal facilitar pra mim e tomar toda a responsabilidade da dupla em instrumentos já que te parecem tão fáceis?
—Não são fáceis. E não vou carregar você nas minhas costas. Pode conseguir tranquilamente tocar sozinho.
Noah parece quase surpreendido.
—Não tem medo de queimar no inferno por não ajudar um pobre aleijado?
Coço a nuca, o nervosismo está sendo substituído por impaciência.
—Por que está se rebaixando? — murmuro irritada — Ser cego não te faz um pobre aleijado.
Noah ergue as sobrancelhas.
—E faz de mim o quê?
—Precisa fazer? Não dá pra ser só você? Por que inferir o cego na frente?
—Porque é o que eu sou. E todo mundo vê isso.
Quero estrangulá-lo.
—Não enxergar não te faz menos capaz que eu pra tocar — finalizo, desviando os olhos e pressionando o centro da testa — Ao menos já tocou as teclas de um piano antes?
—Semestre passado. Durante uns 20 segundos antes do meu parceiro perder a paciência e começar a tocar sozinho.
—Autodepreciativo. Tá bem — ergo a tampa, relaxada em entrar no assunto onde domino —Põe as mãos nas teclas.
Noah pousa a bengala com a curva dentro da cauda do piano. Meu corpo inteiro sente calafrios mediante o desrespeito.
—Teclas... Ok. E agora?
—Sente que tem essas mais longas? A cada oitava do piano são sete dessas mais alongadas e cinco dessas elevadas — Noah junta as sobrancelhas, sem achar. Minha mão estremece no momento que tomo a ponta dos seus dedos e os direciono ao local certo — As mais longas são Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si. As elevadas são Dó sustenido-Ré bemol, Ré sustenido-Mi bemol, Fá sustenido-Sol bemol, Sol sustenido-Lá bemol e Lá sustenido-Si bemol.
—Cristo, dá pra ir mais devagar?
Não tiro minha mão da dele. A sensação é quente, receptiva. Direciono sua mão até o início de uma das oitavas e pressiono a tecla.
—Sol.
Pisco. Não esperava Noah distinguir tão nitidamente.
—Seu ouvido é bom. — elogio.
—Compensando pela visão péssima.
Novamente quero mata-lo. Tiro a mão da sua e endireito a posição.
—Vai com a sua mão direita até a última tecla. Não pressiona nada ainda.
—... Certo.
—Inicia decrescente. Não use as elevadas. Conte até a sétima tecla e volte para a primeira duas vezes.
Noah não diz nada. Percorre o caminho que lhe sugeri e o som percorre a sala atormentando os outros presentes. Sai infantil, mas limpo.
—Tenta não pressionar com tanta força, o som sai agressivo.
—Notei — Noah murmura, mas tenta esconder um sorriso — Deve ser a primeira vez que toco alguma coisa que não soa como um pássaro engasgado com alpiste.
Solto uma risada. Cubro a boca até o som abafar. Volto-me para o piano de novo.
—Conhece o som das notas, não é?
—Pode se dizer que sim.
—Ok. Me diga quais são essas.
Só consigo pensar em músicas envolvendo o violino. Faço uma careta procurando na minha mente cansada uma sinfonia de piano comum, lenta e antiga. Opto por Satie. Gosto sobre como sua música transmite tranquilidade e arcadismo. Dura apenas vinte segundos e Noah fica ao meu lado, a expressão concentrada.
—Agora ficou mais difícil. Reconheço o homem, mas não as notas.
—Mesmo?
—Erik Satie.
—Exato. Música?
—Não sou muito dos clássicos, não sei dizer. Mas entre os velhotes prefiro Schubert.
Faço uma careta. Aprender Schubert foi interessante. Sempre pareciam ter mais teclas no trecho do que deveriam e minhas mãos acabam se atrapalhando e errando alguma nota.
—Péssima escolha.
—Digo o mesmo sobre o instrumento.
Faço uma careta.
—Qual seu problema com o piano?
Noah dá de ombros. O sinal toca alto nos meus ouvidos quase me fazendo dar um salto. Massageio as têmporas sem ver o momento em que Noah vai embora levando a bengala consigo. Esfrego meus braços e procuro a garrafa de café pretendendo passar o resto do dia atrás de um piano.
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