Amor Cego
5 Enxaqueca
Estou com enxaqueca. Uma das pesadas. Curvo-me em cima de uma das mesas de pedra do pátio tendo grande parte do meu almoço perfeitamente intocado na minha frente. Solto uma reclamação baixa através do suspiro e procuro os fones do celular. Apresso em deixa-lo no ponto e reproduzo uma das músicas que conseguem quase massagear meu cérebro de tão envolventes e tranquilas.
O enjoo da enxaqueca passa a melhorar devagar e continuo com a cabeça protegida pelos braços, até ter uma certeza de que está melhorando ao ponto de ficar suportável. Começo a prometer a mim mesma nunca mais virar a noite praticando pelo resto da vida. Penso em mandar uma mensagem para minha mãe perguntando qual é o remédio que ela me dá quando fico nessas situações, porém desisto. Ela deve estar ocupada. Se souber como estou pode atrapalhar sua concentração no trabalho.
Ergo a mão na direção de uma maçã comprada no refeitório e arrumo a postura, ainda fazendo uma careta. Preciso comer alguma coisa antes que meu estômago revire. Mordo um pedaço e encontro um par de olhos escuros me encarando do outro lado da mesa com curiosidade, dois amigos na sua direita, um em pé e outro sentado e Noah na esquerda. Quase o pedaço de maçã vai parar no meu pulmão.
Ainda com os fones, não escuto o que o tal Tetsuro diz a Noah. Tiro o aparelho do ouvido, piscando repetidas vezes para me acostumar com a claridade do local.
—Ei. Qual seu nome? — Tetsuro inclina-se na minha direção, os outros dois amigos também com a atenção em mim.
Faço uma careta. Enfio minhas coisas dentro da mochila perante as presenças zombeteiras. Olho minha comida refletindo se deveria leva-la. Acabo por empurrar na direção deles.
—Pra gente? — Tetsuro sorri — Que gentileza! Se continuar assim posso até pensar em repensar se você é meu tipo.
Levanto, encarando Tetsuro nos olhos.
—É pro Noah.
A surpresa reflete na expressão dos dois. Noah provavelmente identifica minha voz. Tetsuro passa seus olhos arregalados de mim para o amigo e de volta a mim. Quase parece assistir uma partida de tênis. Passo a alça da mochila pelo ombro e saio na direção da sala de Russel massageando minhas têmporas.
Tiro o celular do bolso abrindo o aplicativo do navegador. Tento andar próxima da parede evitando bater em alguém conforme ando. Não sinto tanto nervosismo como sentia antes perto de Noah. Talvez por ele estar acompanhado? Provavelmente. Bato três vezes antes de enfiar a cabeça pela porta de vidro marcando o título de coordenador do curso de música.
—Senhor Russel?
Ele ergue o olhar de uma pilha de papéis segurando a caneta com a mão esquerda. Arruma os óculos, tentando me identificar. Sua sala é simples. O papel de parede é cinza, madeira até metade das minhas pernas, chão do mesmo material escuro, uma escrivaninha espaçosa inteiramente adornada com pastas de diversas cores e um conjunto de instrumentos presos na parede atrás de si. Nenhuma fotografia em família.
—Você é...?
—Novata. Elise Brown. Tive uma aula sua ainda agora de manhã.
O rosto dele se ilumina.
—Ah! Desculpe. São muitos alunos. Prática Instrumental, não é?
—Perdão?
—O nome da disciplina.
—Ah, sim. Essa mesmo. Posso entrar?
—Sinta-se a vontade.
A personalidade dele é totalmente diferente fora de sala. Gentil, caloroso. Sua voz é até mesmo mansa ao invés de autoritária. Entro e sento-me na cadeira na sua frente, sentindo-me ainda em um ambiente hostil apesar da figura na minha frente sustentar um sorriso.
—Como posso lhe ajudar, Elise?
Coço a nuca.
—Quero... Reservar o piano.
—Muito bem — Russel respira fundo, passando alguns papeis até encontrar um amarelado. — Pode pegar no máximo dois horários por dia e só dois dias na semana.
Assinto. Pego o papel tirando uma caneta de dentro do bolso. Vejo os horários preferindo a noite. Terá menos transição pela universidade e uma ideia de paz me abate ao pensar que a sala talvez até esteja vazia nesses momentos.
—Você está junto com o Noah, não é?
Pisco. Olho para o professor.
—Sim. Por que?
Russel pressiona os lábios recostando-se na cadeira.
—Espero que não desista dele como os outros.
Junto as sobrancelhas.
—Os outros...?
—Suas antigas duplas. Na metade da disciplina ou até mesmo antes acabavam por pedir ficarem sozinhos e ele apoiava a ideia. Por isso sempre reprova na minha matéria. O último... Ele sabia tocar tanto quanto Noah e o largou cedo por alguém mais experiente. Se fosse só isso... Enfim, eu o reprovei de toda forma. — Edward passa o olhar para meu rosto — Ele está nessa disciplina de novo. Se ele falar alguma coisa com um de vocês dois, me avise imediatamente.
Assinto, um tanto quanto curiosa e confusa. Reservo o piano por três horas na quinta e na sexta por duas semanas. Agradeço discretamente ao professor e saio. Talvez devesse ter consultado Noah para saber se ele iria querer praticar. Bato na testa.
—Claro que ele tem que praticar, idiota.
Passo pelo pátio e paraliso no meio do caminho, encarando a mesa de onde saí e onde ele está relaxadamente dividindo meu almoço com seus amigos. Talvez devesse convidá-lo. Ou não. Faço careta novamente, indecisa sobre como deveria proceder com ele na minha dupla. Devo chama-lo todas as vezes que for treinar piano? Então deveria ter escolhido um horário mais acessível. Praguejo.
E os outros instrumentos? Devo fazer isso também? Fico indecisa sobre me aproximar e perguntar a ele. Talvez não agora. Tenho ainda outros dois dias antes do horário reservado para o piano. Viro-me, caminho na direção oposta a dele.
Confiro o dinheiro no bolso e saio da universidade caminhando pela cidade até encontrar a farmácia mais próxima. Compro um estoque de remédios para a enxaqueca imaginando que mesmo que prometa mil vezes não virar a noite vai acabar acontecendo em algum momento.
Meu quarto parece abafado no momento da minha volta. Abro as janelas, tiro o violão de dentro do cômodo isolado e saio abandonando minha mochila e os remédios. Sento-me em uma área mais afastada do pátio, perto da sala de limpeza. Aceno para o zelador de sessenta e poucos. Passo a dedilhar alguma melodia tentando tirar Noah e minhas indecisões da cabeça.
Meus dedos estremecem. Paro imediatamente e dou uma olhada na minha mão, trêmula, pairando a alguns centímetros das cordas. Minha enxaqueca volta fazendo o estômago revirar mais uma vez. Guardo o violão dentro da capa e o prendo em minhas costas encolhendo-me novamente, esperando a pior parte da dor passar e me arrependendo de ter saído sem os remédios.
É como antes.
Um calafrio percorre minha espinha. Procuro o celular no bolso, digito rápido os números e respiro fundo. Só preciso ouvir sua voz. Só sua voz. É tudo que basta. Vou me sentir melhor.
—Elise? Está tudo bem?
Quase suspiro de alívio.
—Oi, mãe. Só liguei pra saber se está tudo bem.
—Hum? Ah, está sim. Estou um pouco ocupada, posso te ligar mais tarde?
Apoio a cabeça na coluna atrás de mim, assentindo até perceber estar em uma ligação.
—Sim, claro. Até.
—Até, querida.
Passo a mão pelos cabelos, tentando me lembrar de respirar fundo. Desde o episódio de briga de ambos meus pais tenho acessos de preocupação com ela. Não consigo respirar, mesmo que o pior da briga tenha ido parar em mim, é com ela que me preocupo. Meus dedos ficam rígidos e novamente o medo de estarem perdendo os movimentos me abate. Levanto-me, com medo.
Passo a andar na direção da enfermaria. Primeiro, passos rápidos. Uma corrida lenta. Desespero conforme minhas pernas aceleram e estou disparando pelos corredores, assustada com as lembranças da briga, com a possibilidade de não tocar mais e de decepcionar minha mãe.
Algo errado. Tem algo errado. Sei disso, mesmo assim o escurecimento na minha visão não se torna menos assustador.
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