Amor Cego

12 Respostas Lógicas


Momentaneamente, fico paralisada. São informações demais, uma confusão de emoções estourando no meu peito. Primeiro, nervosismo frente ele. Segundo, dúvida pelas suas ações descontraídas não combinarem com a seriedade do assunto. Terceiro, felicidade pelo elogio. Engulo o seco, sem saber por onde começar nem o que deveria falar.

—Eu realmente odeio esse silêncio estranho — Noah resmunga e ergue mais a voz — Pode dizer alguma coisa? Vou acabar pensando que estou conversando com as pedras.

—Desculpe — respiro fundo algumas vezes esperando ajudar a clarear minha mente — É... Você.... Não parece levar a sério essa parte de aprender instrumentos.

—Sinceramente, não é minha praia.

—E então o que quer fazer?

—Já disse. Me ensina o básico. O suficiente pra passar na matéria do Russel antes que eu desista e tranque o curso.

Sorrio. Cubro a boca, me repreendendo por já estar assim perto dele mesmo após a grosseira da noite anterior. Um pensamento passa pela minha cabeça e subitamente o nervosismo fica mais aflorado.

—Sabe que se for assim, vai ter que passar muito tempo comigo... Certo?

Noah suspira.

—Eu sei. Melhor se acostumar logo a falar bastante na minha presença, Brown.

Passo a mão pelo rosto. Se meu coração continuar me maltratando desse jeito perto dele nem imagino a tortura que possa ser me aproximar dele. Não só isso. Quanto mais ele fica comigo, menos me recordo da sua imagem do ensino médio. Não sei o que fazer. Estou confusa, mas... Mas quero estar ao lado dele. Isso me perturba.

—Tá bem — digo mais para mim que para ele — Você tem tempo livre agora?

Noah assente.

—Tenho horário reservado no piano daqui alguns minutos. Quer ir?

Ele umedece os lábios, um meio sorriso estendendo-se pelo rosto. Meu coração falha uma batida. Amaldiçoo Noah por ser tão bonito em aspectos que me forçam a desviar o olhar dele para não ficar ainda mais vermelha.

—Claro. Tenho que te chamar de mestre?

—Por favor, não.

Noah ri. Ele mesmo pede que o acorde assim que chegar a hora. Acho estranho até ele deitar-se por cima da mesa e simplesmente tentar começar a dormir. Passo alguns bons cinco minutos encarando seu couro cabeludo, questionando-me se foi ele quem amarrou o cabelo tão apertado. O braço direito está estendido, a cabeça no bíceps, sua outra mão ocupada abaixo do queixo deixando-o em uma forma interessante.

Sua respiração torna-se mais calma. A brisa suave atravessa o pátio movendo as folhas numa música natural e tranquila, uma mais forte derrubando folhas de seus respectivos galhos e caindo em pingos perdidos pelo local. Quero ver o rosto dele.

Deito minha cabeça de frente para a sua. Sinto o rosto vermelho, a vontade de tocá-lo e a repressão do meu próprio orgulho traído. Eu sei que ele me tratou mal. Sei que deveria trata-lo da mesma forma, mas ainda não consigo. Ainda não. Quero ficar perto dele mais um pouco. Só mais alguns segundos.

Noah está de olhos completamente fechados e continua bonito. Uma folha pousa na sua bochecha e estendo minha mão para pegá-la sem ter de tocá-lo. A atrevida desce pousando no seu nariz, fazendo-me segui-la, porém meus olhos param nos lábios de Noah. Estão vermelhos. Convidativos. Abandono a folha, hipnotizada ao levar minha mão na direção da boca dele e parar a alguns centímetros dele.

Que diabos eu tô fazendo?

Afasto-me. Ponho-me de pé por garantia. Começo a andar em círculos, sem entender o que estava prestes a fazer. O que sou? Pré-adolescente? Por que ele me causa tantas reações estranhas? Por que eu sinto que perdi tanto da minha vida quando deixei ele ir? Agacho agarrando minha cabeça, tentando eliminar esse pensamento.

Eu não o deixei ir, Noah não é meu. Noah tem sua própria vida, não importa quantas vezes a memória da dele tenha mudado a minha. Não importa esses sentimentos confusos rondando meu peito e nublando a cabeça, eles são ineficazes e impossíveis serem correspondidos por Noah.

Ergo-me de novo e encaro o garoto deitado na mesa, a bengala apoiada em suas pernas. Contar a ele o que penso dele ou como o conheci parece inteiramente fora de cogitação. Vai acabar pensando que o persegui até aqui. Sento-me de costas para Noah. Quero escutar sua voz. Quero compará-la com a mesma cantada anos atrás. Sei que mudou e ficou melhor. Espero ter ficado melhor também.

Passo as mãos pela nuca. As vezes sinto saudade do cabelo curto. Enrolo uma mexa grossa no dedo do meio e afago meu couro cabeludo. Não posso interferir na vida de Noah. Nem me aproveitar dele dormindo para matar minha curiosidade sobre o seu corpo, afinal, foi exatamente por essa razão que ele se irritou da ultima vez. Também não gosta que eu o encare, então devo parar. Tenho que parar.

Vivi ao redor da imagem dele por muito tempo. Sem isso agora, vejo um branco na minha frente. Pra onde ir? Como seguir? O que eu devo fazer? Suspiro. Não achei que o encontro com ele fosse me fazer pensar tanto, muito menos doer tanto. Meu coração já não bate tão alegre quanto da primeira vez, dói em seu ínfimo sem que eu consiga ao menos entender.

Meu celular vibra no bolso. Uma chamada. Fecho os olhos imaginando se tratar de Yuri após ter dado a ela meu novo número na vã. Tiro o aparelho do seu local e deslizo para atender sem lembrar de ver o identificador.

—Eu disse que só deveria me ligar em emergências.

—Desculpe. Yuri disse que tudo bem.

Mordo a língua. Abro os olhos, levantando e andando perto da mesa tentando não falar muito alto e ao mesmo tempo me xingar por ser grosseira novamente.

—Foi mal, não sabia que era você.

—É um mau momento?

—Não, não. Foi mal mesmo. Achei que a Yuri fosse me ligar pra alguma idiotice.

Ouço uma risada sem graça do outro lado.

—Isso meio que é idiotice também. Olha, tudo bem se não aceitar. Entendo, mesmo. Quer... Sair alguma hora?

Paro. Ergo as sobrancelhas.

—Só nós dois?

—É. Mas se quiser, podemos chamar a Yuri e o Tyson.

Respiro fundo. Passo a mão no rosto, impressionada pela atitude. Não esperava que depois daquele simples gesto antes de nos apresentarmos Ryder acabaria me chamando pra sair. Memórias felizes sobre nosso primeiro encontro passam na minha frente e noto o sorriso no canto da minha boca.

—Não, tudo bem — pressiono os lábios — Pode ser amanhã?

—Oito?

—Isso.

Quase escuto o sorriso na voz dele.

—Te vejo amanhã.

Ryder desliga. Sorrio para a tela escura e guardo o celular no bolso.

—Seu namorado?

Encolho os ombros. Passo os olhos para Noah ainda na mesma posição, os olhos fechados, porém os lábios em um sorriso leviano.

—Eu não namoro — digo com convicção e me estico sobre a mesa para pegar a mochila. — Anda. Precisamos ir até a sala de música.

Noah solta um gemido recusando-se a levantar. Toma a bengala em mãos movendo-a no ar, não sei se para tentar me acertar ou para espantar a preguiça. Mantenho uma distância segura do objeto e acabo ficando ao lado de Noah.

—Me diz, Brown — ele arruma o cabelo atrás da orelha e estica as costas — Por que não namora?

Por sua culpa.

—Não me dou bem com relacionamentos. É estranho satisfazer os desejos de outra pessoa se eles são diferentes dos meus.

—Não é só namorar alguém com gostos similares?

Faço uma careta. Começo a andar e Noah faz o mesmo utilizando-se da bengala para determinar se deve andar ou mudar a rota.

—Ainda não funciona.

—Por que?

—Eu não sei. Talvez eu fique melhor sozinha.

Noah prolonga o “Hum” em sua garganta, analisando minhas respostas sem um sorriso dessa vez.

—Meio egoísta da sua parte pensar assim.

Arqueio uma sobrancelha.

—O que quer dizer?

—Quero dizer que se ficar se fechando assim talvez perca alguém que poderia te fazer feliz.

—Acho que a única pessoa que pode me fazer feliz sou eu — passo a mão pelo braço, desviando uma curva e cutucando Noah para seguir meus passos — Colocar a ideia de felicidade em cima de outra pessoa é mais egoísta do que pensar que fico melhor sozinha, não acha?

Noah sorri.

—Questão de ponto de vista, Brown.

—E você? Por que não namora?

—Quem disse que eu não namoro?

Meu peito aperta.

—Você...?

—Brincadeira, Brown. Ninguém quer um cara cego. As que querem fazem isso pra se sentirem bem consigo mesmas sobre estarem fazendo o “bem” para a sociedade ou se preparando pra me tornar um palhaço publicamente.

—Isso não é verdade.

—Não? Como pode ter tanta certeza?

Minha boca fica seca. Engulo o nó na garganta.

—Agora é você que tá se fechando — desvio da pergunta, o coração acelerado — E se tiver alguém que queira ficar do seu lado não por causa da cegueira...

—Aí ela teria de ter uma voz muito bonita — Noah para quando faço o mesmo — O que foi?

—Voz bonita?

—Sou cego. É uma resposta praticamente lógica. Iria detestar ter que escutar uma voz enjoativa pelo resto da vida.

Sinto estar caindo de um penhasco. Em alguma parte de mim eu realmente achava ter alguma chance com Noah? Desvio os olhos sentindo-os ardendo. Volto a andar e Noah me segue, muito provavelmente devido sua atenção ao som dos meus passos. Entramos na sala de música.