Amor Cego
13 Transbordar
Sento-me no piano mais perto da parta, facilitando para Noah. Ele novamente apoia a bengala na cauda e sinto arrepios de desrespeito ultrapassando meu corpo.
—Tem alguma aula amanhã de tarde? — questiono massageando os olhos agora que secaram.
—Não. Aconteceu alguma coisa?
—O quê? Por quê?
—Parece decepcionada. O piano não está bom?
Desvio o olhar do rosto dele para as teclas.
—Não é nada. Amanhã posso te ensinar um pouco de violão. Acordes básicos. Tudo bem?
Noah dá de ombros. Quero ver sua expressão, porém me contenho encarando o instrumento. Tento me lembrar sobre como foi quando aprendi e resumir tudo em alguns minutos.
—Põe as mãos nas teclas.
Ele obedece.
—Vai até a primeira da sua mão esquerda. Essa aí. Sente as mais saltadas depois dela? Mais pra cima. Isso. Essa tecla mais alongada antes de duas elevadas são sempre Dós. Me diz quantos tem.
Noah desliza as mãos pela estrutura passando o braço direito pelo meu lado. Aconchega-se mais perto e estremeço, sentindo seu cheiro pela primeira vez. É fraco, quase reservado só para ele. Um misto de loção pós barba e shampoo com aroma de pinho. É inebriante.
—Quatro.
Desperto da minha distração.
—Certo. Sabe a ordem das notas musicais decoradas?
—Claro.
—O piano segue essa mesma ordem. Depois do Dó vem Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si. Pressiona as teclas. Tenta conhecer o som.
Ele o faz. Meus olhos se concentram nos dedos dele, hesitantes, alongando-se para atingir outras notas.
—E essas de cima?
—Calma, não tenta colocar a carroça na frente dos burros.
—Que tipo de gíria é essa?
Enrubesço.
—Não se apressa — resmungo fazendo-o rir — Aqui. Atenção. A posição dos dedos. Polegar no Dó. Indicador no Ré. Isso. Se completam, tá vendo? Geralmente se inicia com uma mão. Não precisa ter pressa em aprender com a outra.
—Eu quero, Brown.
Bufo.
—Se quer tanto, a posição é o contrário. O polegar fica no Sol. É, desse jeito. Que tal tocar só com a direita por agora? Aqui. Tenta identificar essas notas.
Inicio repetindo o Mi. Toco apenas o trecho da música conhecida. Faço devagar, tendo cuidado para não parecer muito pausado e horrendo.
—Bethoveen.
—Exatamente. Acha que consegue repetir as primeiras notas?
—Eu preciso?
—Grande parte de aprender um instrumento é praticar.
Sinto-o se remexer ao meu lado. Seu braço toca o meu e ele segue a posição dos meus dedos. Onde quer que nossas peles se encostem meus pelos ficam eriçados. É um choque mínimo de contato fazendo novamente o infame dentro do peito agitar-se.
—E se eu não conseguir?
—Tenta de novo.
Noah novamente hesita em pressionar uma das teclas.
—Não é fácil fazer isso sem enxergar nada.
—Eu sei. Mas não é impossível.
Devagar, em dúvida, direciono minha mão na direção da sua e paro no meio do ar. É muito evasivo fazer isso. Seguro levemente seu pulso e paro na frente da primeira tecla correta.
—Vai conseguir.
Noah quase ri, ultrajado.
—Vai. Uma nota de cada vez, depois te ensino o acorde. Tenta as 3 primeiras.
Ele consegue, errando apenas no Sol ao trocá-lo pelo Lá.
—De novo.
Noah acerta. Não esboça emoção.
—Agora vou te ensinar o Dó Maior. Geralmente o nome dos acordes é de acordo com a nota mais grave deles. Sabe que acordes são...
—Um conjunto de notas.
—É. Aqui. Me diz quais são.
Faço rapidamente.
—Dó, Mi e Sol.
Sorrio.
—Agora repete elas.
Noah é bastante inseguro no começo. Erra algumas teclas. Lhe recomendo que use as superiores como orientadoras para o resto. Se adapta rápido e em poucos minutos já decora pelo menos dois acordes, mesmo que erre uma ou outra nota devido a falta de costume.
—Junta os dois que aprendeu e esse último.
—Sol Maior?
—Ahan.
Mais confiante, ele toca. Fico satisfeita ao vê-lo errar apenas o Ré no último acorde. Estou prestes a lhe evidenciar isso quando Noah subitamente solta um grito de alegria fechando a tampa do piano e quase decepando meus dedos no movimento.
—Brown, você é uma ótima professora. Pode me dar licença?
Ele bate o quadril contra o meu de uma forma brincalhona. Tomo como deixa para deixa-lo se acostumar ao instrumento.
—Tenta conhecer a posição de todas as notas e repassa os acordes. Vou ficar no outro piano.
Noah sequer me escuta, totalmente concentrado nas teclas. Pego minha mochila com algumas partituras velhas e amassadas cheias de anotações sobre a transferência de sons de um instrumento para o outro. Percorro a sala até o outro piano encarando minhas coisas sem conseguir entender a própria letra. Enfio-as de volta na mochila e beberico o café frio na garrafa, os olhos pesando.
Estico os dedos pelo teclado. Dentre tantas melodias prefiro ficar presa a uma que criei. Não é uma das melhores, não estou satisfeita. Não é boa e isso me irrita. Como posso tocar tantos instrumentos sem criar algo só meu? O que eu vou ser, uma copiadora pelo resto da vida? Admirada por repetir notas feitas por outros?
A raiva transpassa demais pelas teclas e de alguma forma acaba se transformando em sofrimento. Deixo lágrimas invisíveis deslizarem pelas cordas do piano prolongando a dor suprimida, o arrependimento, a culpa. Coisas que não verbalizo e demonstro pela música. Coisas que tento esquecer, não pensar e voltam a mim como medos ou pesadelos no presente. Por que eu desisti da música? O que me fez querer tanta distância disso e por que foi Noah a me colocar de volta nela? Por que a voz dele despertou de novo essa sede pelos sons? Por que eu não consigo desistir dele depois de tanto tempo?
É expressivo demais. Largo as teclas baixando a tampa com violência de volta para o seu lugar. Encolho-me, encarando meus pés. Essa tem sido uma semana difícil ao meu coração. Não sinto tantas emoções faz um bom tempo.
—Brown?
Estremeço. A voz dele é tudo o que menos quero e o que mais desejo. Levanto pegando minhas coisas e deixando-as aos pés dele, andando de um lado para o outro conforme tento massagear meus ombros.
—Desculpe — murmuro depois de um tempo — Atrapalhei você.
—Não tem problema. Na verdade... Uau. Você...
—Conseguiu decorar Sol Maior?
Não me elogie, quero dizer. Não estou satisfeita. Não quero falar sobre. Muitas negativas em desviar o assunto. Pressiono os lábios, fingindo me ater apenas ao que ele tenta tocar. Diferente do que espero, Noah não expressa indiferença. Está sério sem se mover em seu lugar, o corpo virado na minha direção.
—Seja lá o que está te incomodando, vai ficar tudo bem.
Relaxo minha expressão enfiando as mãos nos bolsos.
—Eu sei. Mesmo assim, não ajuda muito a melhorar o agora, não é?
Noah dá de ombros.
—É uma questão de pontos de vista.
Cruzo os braços sobre o peito.
—Repassa o que aprendeu. Quero ouvir.
—Depois do que fez no outro piano? É um milagre que eu não tenha ido na sala do Russel cancelar minha inscrição na disciplina dele.
Sorrio. Idiota.
—Afasta.
Sento-me ao lado dele. Devagar, me acalmo e transmito isso ao lhe ensinar os acordes seguintes.
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