Amor Cego

23 Rabiscos


No pátio, rabisco algumas notas tentando pensar como chegaria a produzir toda uma música só com o que tenho. Mesmo já tendo começado antes, ainda é difícil criar algo bom do zero. Prefiro não me basear em nenhum dos outros pianistas que escutei temendo acabar copiando algum deles.

Cruzo as pernas, encarando o caderno diante de mim durante o horário de almoço. Passo a considerar seriamente pedir um piano vertical para minha mãe, sabendo do sermão que viria em seguida, talvez até me ameaçasse se ao menos sonhasse quantas noites de sono perderia praticando.

—Isso é idiotice — resmungo.

Afasto o caderno e tiro o celular do bolso iniciando uma música instrumental qualquer. Junto as sobrancelhas, concentrada em apenas notar qual dos acordes me chama mais atenção. Depois de ficar horas sem nada, quero ao menos começar por um que eu goste e dele compor a melodia. Passo direto pela música “Ondas” fazendo uma careta ao lembrar do compositor.

Encolho as pernas, escutando com atenção. Apoio a cabeça em cima da mesa de pedra, quase fechando os olhos. Venho ficando cada vez mais agoniada com o professor Dixon, o velho já me inscreveu no concurso municipal mesmo diante da minha insistência para fazer isso eu mesma. Ele parecia um avô ridiculamente satisfeito de ver o neto seguir seus sonhos.

Puxo o caderno de volta escrevendo o nome do acorde que gostei e ao lado sua cifra lutando para lembrar como se desenha os símbolos. Nunca foram muito a minha praia apesar de conseguir lê-los. Pressiono o centro da testa usando a tampa da caneta.

Do outro lado do pátio vejo uma movimentação de dois corpos. Um homem e uma mulher. Sento-me, tentando distinguir seus rostos de longe. Meu coração cai aos meus pés ao perceber se tratar de Noah, ao lado de uma menina de cabelos cacheados e castanhos sorrindo a ele. Deve ser a... A que ele está interessado. Os dois estão sentados, falando sobre alguma coisa divertida pelo notado em suas expressões. Ela é corpulenta, usa um vestido leve com decorações em dourado e constantemente toca o ombro de Noah enfatizando algo. Ele está bem próximo dela, a mão na mesa inclinada na direção dela. O cabelo solto, óculos escuros, a bengala ao lado do corpo.

Tiro os fones, subitamente a música parece sem graça. Meu estômago embrulha. Guardo o caderno dentro da mochila desajeitadamente. Enfio o celular no bolso fazendo meu máximo para ficar de costas a eles. Seguro a alça da mochila, o peito ainda em batidas doloridas. Sigo o caminho mais longo evitando passar perto do casal ou ao menos próxima de ouvir o que dizem.

E como antes, continua doendo. Diabos, queria ser ela. Queria ter uma voz boa. Queria, mas também sei ser outra idiotice desejar algo desse tipo só para ficar com Noah. Atravesso o corredor em passos vagarosos, uma mão na testa e a outra dentro da mochila. Tento ser racional. Claro que de início sentiria ciúmes, só não esperava ter essa dor em conjunto também.

—Tenho mais o que fazer — resmungo desviando uma curva — Preciso terminar essa música. Preciso começar essa música.

Solto um suspiro frustrado e paro, sentindo algo estranho dentro da mochila. Curiosa, dou uma olhada temendo ser algum inseto. Estremeço mediante a ideia e envolvo meus dedos ao redor da superfície lisinha puxando-a de súbito para fora. É o cartão de Samir, de cabeça para baixo.

Pressiono a testa. Não tem nada útil na internet sobre como compor músicas do zero. Minha ideia de antes já não parece tão boa. Decepcionada comigo em níveis diferentes, disco o número na parte de trás do cartão e espero chamar, ainda parada no meio do corredor.

Por longos segundos a coragem vai diminuindo e passo a me arrepender de ter ligado. Tiro o celular da orelha já com o dedo acima do botão para desligar quando Samir atende, sua voz saindo baixa e cansada do outro lado.

—Ei.

—Quem...?

—Elise. Elise Brown. Da aula do professor Dixon, lembra?

Passo a mão pela nuca. Se ele não lembrar bloqueio o número e finjo que nada aconteceu.

—Achei que nunca fosse ligar. — o tom de voz dele é risonho — O que deseja da minha pessoa?

Volto a andar, passando por alguns outros alunos até a sala de Russel apoiando-me na soleira esperando terminar a ligação para entrar.

—Pode me ajudar?

—Com o que desejar, querida.

Faço uma careta.

—Tá. Seguinte, eu não tenho ideia de como é compor alguma coisa. Tudo parece só repetição pra mim. Como é que chamam aquilo? Eu não tenho... Criatividade. Isso, me falta criatividade. Como você faz?

—Ah... Conhecendo o Dixon ele já te inscreveu no concurso, não foi?

—Basicamente.

—Velho ansioso. Elise, geralmente eu pego o que me inspira. Pensa em alguma coisa que você queira transformar, pôr na música. Uma memória, uma pessoa, um sentimento.

—Foi assim que fez?

—Começou assim — ele ri do outro lado — Fazer sobre algo pensando no que gosta ajuda muito a te dar criatividade. Meu irmão mais novo adora a praia, fiz muitas músicas até conseguir a Ondas.

—Levou quanto tempo?

—Cinco, seis meses? Não lembro. Se quiser, te ajudo a compor.

—É.... Não é necessário, obrigada. Posso perguntar a algum dos sêniores se eles podem me ajudar.

—Mas nenhum deles vai ter um prêmio nacional. Qual é, Elise. Juro que vou me comportar.

—Por que quer tanto me ajudar?

O outro lado da linha fica em silêncio por alguns meros segundos. Percebi o olhar dele de segundas intenções direcionado a mim quando nos encontramos, só não conseguia entender a razão dele para tal.

—Eu vejo muito de mim em você. Ninguém me ajudou quando precisei e foi angustiante. Sinceramente, quando te ouvi tocar piano senti tanto... Vazio. Você parecia ter visto o paraíso e agonizar por estar no inferno. É... único.

—Mesmo sendo uma cópia?

—Você não copia totalmente. É difícil de explicar pelo telefone. Precisa ouvir. Tá na universidade agora?

—... Talvez.

—Chego em dez minutos. Consiga um piano. Vou te ensinar.

—Não precisa...

—É uma oportunidade em um milhão, garota. Só aceite.

Sento-me no primeiro degrau da escadaria. Fiz todo meu caminho até aqui buscando melhorar. Não hesitaria em deixar todos para trás só para conseguir aprender algo de mais valioso na música. Deixaria Ryder, Yuri, Louis. Até minha mãe. Apesar de me apegar a eles, ainda é nos instrumentos que me sinto completa. É tocando onde sinto meu coração bater alegre. Acredito ter algum tipo de talento, talvez algo bruto e não bem direcionado como o de Samir, porém que ainda existe. Ainda não é tarde para moldá-lo.

—Te mando a mensagem de qual sala vou estar — aviso.

—É disso que eu gosto de ouvir.

Desligo a chamada. Encaro o celular por alguns segundos, pensando ter esquecido de levar algo em conta na minha motivação para aceitar Samir me ensinando. Parece algum fator importante... Algo... Me incomoda. Não é o fato dele ser um conquistador barato ou algo do tipo, até Ryder era um, então tenho certo conhecimento sobre como lidar com machos desse tipo.

Bato antes de entrar no escritório de Russel.

—Professor?

—Senhorita Brown. Algum problema?

Piso levemente ao me aproximar da sua mesa.

—Preciso muito da sua ajuda.

Russel ergue os olhos dos papéis que assinava e inclina a cabeça, arrumando os óculos.

—É algo ao meu alcance?

—Espero que sim. O senhor... Conhece Samir Ali?

O homem concorda. Respiro fundo antes de iniciar meu discurso sobre a emergência de recebe-lo e que seria eu a ajudá-lo a reconhecer o campus. Enquanto argumento, percebo um fator intrigante.

Esqueci de Noah novamente. Na hora em que Samir me falou sua proposta de ser meu professor, esqueci completamente dele. Esqueci que foi por ele que vim melhorando esse tempo todo, esperando alcança-lo. Meu cérebro então também percebe o alívio em meu peito.