Amor Cego
24 Aposta
Samir está chamativo. Sinto meu olho tremendo de estresse só ao vê-lo entrar na sala de terno azul marinho, gravata e sapatos sociais, o cabelo curto perfeitamente arrumado como se tivesse acabado de sair de um salão de beleza. Pele hidratada, peito estufado. Orgulho de si mesmo e sua imagem. Ele e minha mãe se parecem bastante.
—Cheguei na hora? — pergunta se aproximando com um sorriso maroto.
—Atrasado.
Samir baixa os olhos para seu relógio de pulso e solta uma risada.
—Só três minutos e já conta como atraso?
—Atraso é atraso. Agora vai, me ensina.
—Imediatista, hã? Apressada desse jeito não vai conseguir aproveitar a vida direito.
—Isso... É bobagem.
Samir dá uma rápida olhada na sala. Foi o único local que Russel conseguiu arrumar devido os outros estarem ocupados e reservados há alguns dias. Trata-se justamente do auditório onde fomos apresentados os calouros e veteranos no início do semestre. Os bancos na minha direita avermelhados e com seus assentos erguidos, a luz forte exibindo a pequena orquestra logo após o palco e este em si erguido alguns metros sustentando um piano de cauda acústico de uma marca famosa. Curiosamente branco.
—É o mesmo que usou na sua apresentação, não é?
Vejo Samir subir a escadinha do palco discretamente. Aponta na direção do instrumento.
—É.
—Afinado?
—Perfeitamente.
—Brancos são um charme. Quase etéreos, não acha?
—Acho que a única coisa que importa é o som.
Samir analisa meu rosto. De mochila na lateral do corpo, cabelo solto e desgrenhado, roupas reutilizadas duas vezes durante a semana sou um contraste perfeito se posta ao lado dele. Confiro dentro da cauda do piano como estão o estado das cordas e Samir dá a volta, seguindo pelo lado oposto até se sentar no banco.
—O que conseguiu compor até agora? — pergunta enquanto começa a dedilhar Chopin, Ballade No.4—Alguns acordes em mente?
Exibido.
—Nada ainda.
—Melodia?
—Não.
—Já estudou os elementos formais da música?
—Ah.... Não?
—Não.
—É, não.
Desvio o olhar para o auditório sem conseguir sentir um pingo sequer de nervosismo nem mesmo no dia da prova de admissão. Samir passa a me explica o que são e especificar as diferenças de cada um dos elementos formais da música. Ele fala sobre o quão se torna sentimental ignorar esses fatores e simplesmente tocar o que soar melhor. Contudo, tendo atenção a eles pode se tornar mais fácil juntar o que produzo e considero bom até formar uma composição. Durante horas, ele me ensina a fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, conversar normalmente e tocar piano colocando logo em prática.
Samir não canta, mas fala que dividir-se dessa forma serve como treinamento para soltar seus dedos e enlaçar cada acorde como um reflexo. Me sinto uma criancinha aprendendo piano novamente. É algo que me dá prazer, ficar na ponta do banco e empurrar Samir para a outra mantendo uma distância saudável entre mim e o conquistador.
Lembro-me de Summer e como me senti tocando ao seu lado. Era um mar de diferença que só provocava em mim a imensa vontade de continuar, melhorar. De ultrapassar.
—Já escutou Riopy?
—Quem?
Samir ergue um canto da boca.
—Outro compositor. Do Reino Unido. Esse pelo menos está vivo. Ele criou “I love you”.
—Se vier me cantar com isso eu jogo minha mochila na sua cara.
—O quanto do que Dixon disse você acreditou?
—Tudo.
—Tá certíssima. — Samir tira o celular do bolso enquanto seguro um sorriso. Digita algumas coisas e põe a tela na vertical onde deveriam ficar as partituras — Aqui. Consegue me acompanhar?
Bufo. Dou uma olhada rápida, extraindo a suma dos movimentos e sem conseguir parar de sorrir mediante o desafio, olho para Samir.
—Pode apostar.
Ele se vira para mim, analisando meu rosto e tento deixar o sorriso de lado.
—Aceito. Se errar alguma nota, vai ter que jantar comigo.
Lhe dou minha maior expressão de tédio.
—Jura?
—Ahan.
—Então se você errar vai ter que me dar um piano vertical.
Samir ergue as sobrancelhas.
—Perdão?
—Você é rico, não vai ser nada.
—Dessa parte eu sei, mas por que a minha punição é tão grave assim?
—Prefere algo pior?
O homem ao meu lado analisa minha expressão e meneia a cabeça.
—Não vou perder.
Arqueio uma sobrancelha. Duram quatro minutos cada um. Considero ser uma das músicas mais bonitas que ouvi, os dedos de Samir deslizam como fiapos contra o vento pressionando as teclas em velocidade. Não fico para trás. Exibo todos os meus anos de prática, tudo o que recuperei, tudo o que me motiva e me faz dar mais um passo.
E Noah aparece, de intruso. Erro uma nota e faço careta retomando novamente como se nada acontecesse. Empolgada, concentro-me na música e no som, explorando cada acorde, decifrando e apreciando a melodia. Sentindo o gosto. Samir me observa atentamente e continuo tocando, os olhos deslizando por meus dedos. Pressiono levemente a última tecla e ponho as mãos nas pernas.
—Você com certeza é assustadora — ele sorri, sem malícia alguma —Mas eu não errei nenhuma nota.
Solto um muxoxo. Acabo de perder a oportunidade de ter um piano sem ter de pedir minha mãe. Preciso praticar mais.
—Me dá um desconto, eu nunca ouvi a música.
—Por isso disse que é assustadora. Só uma nota errada. Se confundiu na última parte?
Nego com um aceno, por reflexo. Não dá pra falar que errei por pensar em outra pessoa.
—Algo perto disso. Encontro, não é? Quando pode?
Samir baixa a tampa do piano.
—Semana que vem, sexta?
Faço uma careta tendo péssimas lembranças sobre.
—Odeio sextas. Sábado?
—Próximo sábado, então.
Samir se levanta tirando o celular de cima do instrumento. Confere algumas ligações perdidas e o enfia dentro do bolso interno do paletó sem se incomodar muito em conferir.
—Preciso ir — avisa — Na teoria eu deveria estar em uma entrevista agora.
—Oh. Faltou ela pra me ver. Quer tanto assim ser meu professor?
Ele me dá uma piscadela.
—Talvez. Posso até aparecer aqui semana que vem, pra dar uma olhada na minha pupila.
Reviro os olhos. Samir se despede e não demora até ficar inteiramente sozinha no auditório. É mais assustador do que se houvesse uma plateia, justamente por estar apenas comigo.
Quase consigo ver um reflexo meu, encarando-me de frente, mostrando o olhar assustado de alguém incapaz de criar em um ramo onde isso é basicamente tudo para conseguir prosseguir na carreira. E se eu nunca compor nada? E se for impossível pra mim? É perturbador. Agarro a mochila e as chaves do auditório passando apressadamente de dois em dois degraus até conseguir sair do local. Tranco, as mãos trêmulas. Deixo as chaves com Russel e ao sair de seu escritório... Escuto diretamente a voz de Noah.
Ele vem na direção oposta a do corredor. Mesmo visual de antes, a mulher de um lado e Tetsuro do outro. Não quero escutá-los. Não quero vê-los juntos. Devagar e ainda de costas, abro a porta do coordenador entrando sem demora e fechando-a atrás de mim.
—Algum problema? — Russel questiona, preocupado.
—Não, não. Só quero reservar o piano. Sabe, pra não acontecer o que aconteceu hoje.
Ele ergue as sobrancelhas suspirando e voltando aos seus papéis.
—Já sabe onde fica.
Tiro uma caneta da mochila e assino meu nome em qualquer local do horário reservado. Anoto no celular e me despeço do coordenador. Saindo da sala dele, dessa vez não há sinal dos três indivíduos.
Novamente, a memória me trai exibindo em detalhes o quão satisfeito Noah parecia ao lado daquela mulher. Sinto a pontada inicial da dor de cabeça e suspiro, fazendo o caminho de volta para o dormitório sem chamar Charlie para jantar comigo hoje.
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