Amor Cego
38 Presente
Samir pousa o presente em cima da mesa do professor e me puxa para um abraço apertado. Acostumada com sua afeição, correspondo o feito dando algumas palmadinhas em suas costas. Acabou de tomar banho, o cheiro de seu shampoo invade minhas narinas e inspiro fundo o aroma de castanhas. Ele afasta-se ainda sorrindo e segura meus braços.
—Não te vejo faz quase cinco dias.
—É um novo recorde.
Ele ri, me dando um beliscão.
—Rabugenta. Gostei do cabelo.
—Ficou bom?
—Muito.
—Eu que cortei.
—Ficou horrível, todo torto.
Dou um tapa em seu ombro sem notar que estou sorrindo. Os músculos do meu rosto parecem tão esticados que massageio-os por dois segundos.
—E aí? Gostou do meu estilo?
—Parece uma pessoa normal, finalmente.
—Isso é o máximo de elogio que eu vou conseguir de você, não é?
—É.
—Já basta.
Samir afaga meu rosto. Levo minha mão até a sua, a presença de Noah como um alfinete em minhas costas me fazendo afastar delicadamente o seu toque.
—O que veio fazer aqui?
—Eu pedi ajuda a um amigo e ele me emprestou o antigo saxofone dele com anotações sobre quando ele começou a aprender.
Arregalo os olhos.
—Tá me sacaneando?
—Nem um pouco.
Pulo no pescoço de Samir abraçando-o o mais forte possível, a esperança de passar na disciplina voltando. Agarro suas costas e enfio o rosto no seu ombro, quase me misturando a ele, o cheiro forte de sua colônia impregnando em minhas roupas.
—Você é um gênio! Eu juro que te recompenso!
Solto-o virando para o embrulho acima da mesa. Abro-o sem paciência até encontrar uma capa surrada, feita de material barato, mas que contém o instrumento de sopro dentro. A cor ainda em dourado forte, marcas de usos na parte onde ficam os dedos e brilhando como novo.
—Ah e tá bem limpinho viu? Eu vi na hora que ele fez e depois te ensino.
Pouso o objeto de volta na capa e beijo a bochecha de Samir, estonteada ao ver os papéis cheios de anotação dentro da proteção. Ponho tudo de volta e fecho-a repousando na mesa com cuidado.
—Obrigada, Samir — agradeço olhando-o e rindo de seu modo de vestir — Fica muito melhor assim.
—Sério? Vou te buscar no trabalho assim então.
—Ah. É — coço a nuca — Amanhã vou com um amigo, então... Pode me buscar na quinta.
Ele ergue uma sobrancelha.
—Garante que na quinta vai sair comigo, então?
—Já imaginava. Garanto.
—Ótimo, porque meu agente deve estar tendo cinco ataques de pânico depois que eu desapareci. Te vejo na quinta.
Como de costume, ele beija minha bochecha, mas dessa vez o beijo é mais estalado, o som reverbera pela sala e tenho certeza que Noah ouviu. Forço-me a não pensar sobre.
—Ei. Espera... O papel de presente...?
—Feliz aniversário adiantado, Lizzie.
Samir sai tão rápido quanto apareceu e aceno ao vê-lo antes da porta fechar. Engulo o seco, impressionada por ele ter conseguido lembrar da data de amanhã. Confiro Noah, ainda sentado na cadeira, curvado sobre o violão. Parece até que acabei de traí-lo. Tento não considerar a situação dessa forma e jogo no lixo o papel de presente tomando a alça do objeto e levando até meu lugar sentando-me novamente. Passo a mão pela nuca, subitamente desconfortável. Noah parece concentrado em acertar o acorde C.
—Quem era aquele? — questiona como se perguntasse sobre o tempo.
—Ah... Samir Ali. Meu... Amigo. Ele que me ensinou aquela música do Riopy.
Noah faz uma careta por meio segundo. Volta a ficar com ela indecifrável. Quero saber o que está pensando, mesmo que eu tenha lhe pedido licença foi... Grosseiro. Por isso engulo parte do orgulho e inclino-me na sua direção.
—Desculpe, ele é sempre muito chamativo.
—Parecem se conhecer a bastante tempo.
—Alguns meses.
—Ah. Entendi.
Ficamos em um silencio constrangedor. Quero falar algo, sem saber o que e ele parece lutar com as palavras por si só. Por fim desisto do assunto e volto-me inteiramente para a música outra vez.
—Dedo 3 muito baixo.
—É seu aniversário?
—Hum? Ah, não, não. É amanhã. Acho que ele já ia ficar ocupado durante o dia então...
—Por que não me disse?
Porque a gente nem se fala direito. Você me dá café e rosquinhas achando que isso vai tampar uma ferida que não envolve só a sua pessoa. Se estivesse no meu lugar, iria tratar de assuntos tão banais com alguém que te dá tanta dor e tanta paz ao mesmo tempo?
—Aniversários não me são tão importantes.
—Podem ser importantes para quem fica ao seu redor.
Pressiono os lábios, começando a ficar irritada. Venho perdendo bastante da minha paciência com o comportamento de Noah hoje.
—Se a data é minha, então eu deveria decidir se é ou não importante.
—Depende....
—Não, Noah, não depende de nada — ergo-me da cadeira, impaciente. — Tem coisas que não dá pra olhar por outro ponto de vista e entender. Ou mudar de perspectiva que acabaria resolvendo. Nem tudo é só cinza, tem coisas que são preto no branco.
Ele parece confuso com a última parte. Passo a mão pelos cabelos curtos inspirando fundo tentando me acalmar. Perdi uma parte do controle, admito. Mas... Quem não perderia? Venho estado interessada por Noah desde o segundo em que o vi e mesmo assim nada é tão doloroso quanto ele me dando esses traços de esperança de gostar de mim.
—Foi mal — resmungo — Acho melhor te mandar o resto das notas por mensagem. Minha cabeça não tá muito...
—Espera. Elise.
Pego o saxofone já começando a fazer o caminho na direção da porta, sem me importar com Noah atrás de mim.
—Elise? O que aconteceu? Elise!
Por que a voz dele demonstra mágoa? Diabos, não leia demais onde não tem nada. Ele quer nossa amizade de volta e estou quase arrancando essa possibilidade das mãos dele. Estou sendo insensível. Egoísta. Mas por que egoísmo tem um tom tão ruim? Eu não deveria me importar mais comigo que com os outros? Quando eu estiver sofrendo não vai ser como se algum deles pudesse tirar o sentimento de mim e sofrer por conta própria. E me irrita que eu seja a única sofrendo por ele e seu comportamento mude só por ter estabelecido uma distância segura entre a gente.
Encolho os ombros, quase bufando. Chego a porta e puxo sua maçaneta com força por ser levemente pesada. Paro no meio do passo, impedida pelo barulho alto de impacto de diversos objetos. Viro imediatamente. Meu coração maltratado dói ao encontrar Noah caído, acabara de bater os joelhos no chão e os cotovelos também levantando-se ás pressas. Ao redor dele, uma significativa porção de cadeiras estão lançadas ao piso, abertas quase em roda a sua volta. O clima fica vultuoso. Deixo o instrumento na cadeira mais próxima e me apresso na direção do garoto segurando a própria perna com uma careta de dor.
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