Não me lembro se foi mesmo a primeira vez que o vi. O festival decorria rápido e agitado, barracas e atrações por todos os lados e pessoas de dentro e de fora da escola tentando estar presente em todas as que pareciam ser interessantes.

Nunca fui muito de participar exatamente dessas festividades, fazia devido o infame festival compor parte da nota. Sempre me cansava na metade dele e começava a me sentar em qualquer banquinho ou escorar as costas em qualquer parede na primeira oportunidade. De manhã já havia sido a atração da minha turma e durante a tarde e início da noite deveria contar apenas como presença.

O sol já estava se pondo e mesmo assim a temperatura ainda não havia baixado. Sentia a camisa grudando nas costas, os sapatos machucando os pés. Havia visto mais de 5 turmas e minha companheira, Louis, continuava me arrastando para outras. Casa assombrada, café, teatro. A última e mais esperada atração seria a da turma do último ano com um show de talentos com participantes de diversas salas.

O cabelo castanho-amendoado de Louis estava ralo e apesar de ser mais alta que ela, continuava entrando na frente do meu campo de visão a cada vez que ela me puxava saltitando pelo pátio de pedras.

—Não podemos ir ver a casa de horrores de novo? Lá tinha ar-condicionado — pedi fazendo uma careta e dificultando seu trabalho em me puxar.

—Não! Foi muito chato. E a primeira apresentação já vai começar. Anda! Me ajuda a subir na árvore.

—A diretora não vai brigar se a gente...?

—Olha direitinho pro pátio. Não tem tanta gente assim na escola desde o episódio de assédio do professor de química, acha mesmo que ela vai notar a gente? Deve tá tirando foto desse povo todo pra se exibir sem ter ajudado em nada.

A lógica dela não me fazia sentido algum. Por outro lado, mesmo sendo covarde, queria ao menos conseguir ver quem estava se apresentando esperando dar de cara com algum conhecido. Ofereci pezinho para Louis e ela subiu no galho mais alto que alcançou puxando-se para cima e se firmando antes de me ajudar a fazer o mesmo.

Alguém começa o discurso de abertura e fico mais concentrada em tirar as folhas da frente do palco alguns bons metros mais á frente de onde estávamos camufladas. Notei o apresentador de dreadlocks, a pele escura e o carisma, mas não lembro seu nome. Ele era famoso no ensino médio. Vários gritaram na sua presença, no discurso e na sua saída deixando o primeiro participante entrar.

Logo achei ter algo de errado com seus pés. Ele cambaleava, as mãos estendidas na frente do corpo até alcançar o microfone em sua haste. Estava de olhos abertos, mas eu não via pupila alguma. Chamou minha curiosidade e sentei de forma a quase passar por cima de Louis reclamando da movimentação.

O participante tinha cabelos desarrumados de uma cor muito escura. Usava o uniforme da escola, porém nunca o havia visto antes. O garoto carismático volta trazendo uma cadeira e toca gentilmente o ombro do participante. Ele se assusta devido o contato e ao escutar a voz do apresentador relaxa e agradece sentando-se e tomando o microfone para si retirando-o da haste.

Ah, ele vai cantar. A curiosidade diminuiu. Acomodei-me de volta no lugar e observei-o. Parecia até mesmo relaxado para alguém se apresentando na frente de tantas pessoas.

—Ah... Oi. Meu nome é Noah e hoje eu... Eu vou cantar uma música que minha mãe criou. É. Bom... Não sei usar instrumento algum então meio que pedi ajuda pro clube de música. Espero que gostem.

A plateia já estava em silêncio. Noah empertigou-se na cadeira. As pálpebras baixaram, sua boca se abriu e o queixo ergueu-se em direção ao microfone. Ele começou na tonalidade baixa e contínua, prolongando a primeira palavra até estourar a segunda. A melodia era medíocre. O toque era medíocre. Até mesmo a letra. Entretanto, sua voz fez meu coração congelar por um segundo e meio. Senti-o vazio e logo adiante pareceu retumbar com força impulsionando-me na direção de Noah.

A voz dele parecia massagear minha alma, causava arrepios pelos braços e aos poucos o som dos instrumentos desapareceu dos meus ouvidos substituído apenas pelo meu batimento cardíaco assimilado a voz dele.

Ao fim da música me parecia que meu peito sentia dor física, uma pedra jogada contra o coração e os seu batimentos descontrolados sem um ritmo a seguir. Coloquei a mão no peito sentindo tantas sensações quanto as descritas na música. Meu corpo ainda sofria de calafrios e desci da árvore, encarando o vazio tentando entender o que havia acabado de sentir.

Voltei os olhos para o palco e Noah já não estava mais lá. Após o festival em alguns dias seriam as férias, então nos intervalos entre as aulas procurava-o sem entender como não havia ganhado o show de talentos. Questionei os criadores da atração e todos diziam as mesmas palavras:

—Noah prefere ficar na sala.

E como diabos iria começar uma conversa? O observei por pela semana seguinte fazendo esforço para não parecer uma psicopata perseguindo o garoto cego da escola. Mesmo assim, notei como era popular. Seus amigos se reuniam ao redor dele no fim do dia e seguiam pela rua oposta a minha. Todos do último ano. Encolhi-me sem saber como arrumar assunto com alguém da turma dele ou de onde iria retirar a coragem para fazer isso.

Dessa forma, o ano letivo se foi perante a chega das férias. Eu iria para o segundo ano e ele seguiria para alguma universidade. Passados algumas semanas, já estava decidida. Consegui convencer meus pais a me matricularem de volta no curso de piano, finalmente chegando a encostar nas teclas empoeiradas presentes dentro de casa. No semestre seguinte já queria o violão novamente. Me acostumava rápido com os acordes, treinava dia e noite sem cansar, a ponta dos dedos endurecidas pelas cordas. No terceiro ano já estava perto de dominar os dois instrumentos pensando no próximo decidida a me tornar a melhor no que fazia, só para poder ficar ao lado de Noah como sua igual.

Não tinha voz. Nunca tive. Nunca fui boa em interações sociais, não me dava bem nas matérias e sequer tinha um sentido para o futuro, até ele aparecer. Até sua voz fazer parte da minha vida. Com apenas o primeiro nome seria difícil de encontra-lo e pedir que o detetive particular da minha mãe o encontrasse com certeza deixaria um clima estranho caso chegasse a falar com ele pessoalmente.

Vendo minha adaptação e o famigerado “talento” que todos viam em mim, continuei no ramo dos instrumentos. Entrei em algumas bandas sem ter muita sorte de encontrar Noah em nenhum dos concertos. Procurava-o, buscava seu perfil pelo rosto dos presentes sem deixar de me decepcionar a cada vez que não o encontrava.

Passava a sonhar acordada imaginando conversas fictícias, admirações mútuas, interesses comuns. Ele havia sido minha maior inspiração para virar instrumentista. Ele me dera um sentido. Objetivo. Mostrara minha razão de vir ao mundo e queria tanto agradecê-lo, dizer que era sua maior fã. Sem conseguir encontra-lo em notícia, concerto ou escola alguma.

—Pretende fazer faculdade, Elise? — minha mãe questiona assim que chego em casa.

Carregava o violino novinho nas costas e havia acabado de sair da aula com os dedos ardidos pretendendo tomar um banho e rabiscar alguns acordes no celular antes de deitar. A mulher alta e imponente estava sentada de pernas cruzadas na enorme ilha da cozinha passando distraidamente entre um dado e outro no dispositivo eletrônico na sua frente sem querer erguer os olhos para mim. Cabelo preto amarrado bebericando chá relaxadamente.

—Acho que consigo uma bolsa. Naquela da capital.

—A estadual ou a federal?

—Federal.

—Quando vai fazer a entrevista?

—Eles ainda não aceitaram minha carta de admissão, mãe.

—Resolvo isso em dois dias. Fique preparada para viajar na segunda.

Gostava da confiança e independência dela tão descaradamente expostas em tudo que fazia.

—Obrigada, mãe.

Pousei o violino no chão e fui abraça-la. Mesmo em uma família rica de pais separados, sentia que havia todo o amor suficiente para crescer. Minha era quase uma força da natureza e por isso preferi ficar com ela no dia da decisão na corte. Claro, meu pai não aceitou tão facilmente e ainda precisava passar alguns dias do mês na sua nova casa diante de sua nova família.

—Quanto afeto — ela disse sorrindo, distraindo-se dos números na sua frente — Vai me chamar pro próximo show da sua banda?

Beijei sua bochecha, apertando os braços ao seu redor aproveitando ela estar de costas para descansar minimamente o rosto no seu pescoço.

—Pode ir. Tenta escutar só a minha parte, tá? Os outros são bem fracos.

Minha mãe riu.

—Essa confiança veio de mim.

Não era mentira.