Amor Cego

22 Mudança


Após a primeira semana as coisas finalmente parecem acalmar. Ao final do mês ainda ensino apenas piano para Noah. Visito Charlie e Andrea constantemente e evito Tetsuro com caretas sempre que possível. Continuo a sentir-me mais em consenso comigo mesma. De alguma forma, passar aquele noite no jardim pareceu esclarecer minha mente.

Catherine, vulgo mãe, passa a me ligar todos os fins de semana conferindo se me alimentei bem e não virei muitas noites. Tento normalizar meu sono devido os treinos de Charlie passarem a moer meus ossos e me derrubarem na parte da noite. Durmo melhor. Esqueço de Ryder, mando mais mensagens a Yuri e Louis (que finalmente volta da viagem e está estabelecida em Bishop). Passo até a me esforçar em matérias estranhas das quais cruzo as mãos aos céus para entender como que se trata de música.

—Elise.

—Sim?

Andrea cruza as pernas, os olhos diminutos. Ela é outra mulher admirável, apesar de ter um temperamento tão sarcástico quanto o irmão.

—Você parece ter virado amiga do Noah.

Meu coração não acelera, não fico vermelha. Após alguns meses de convivência essas reações parecem exageradas. Claro, ele ainda me chama atenção de formas das quais não compreendo completamente.

—Também acho — Charlie faz bico virando o omelete na frigideira — Estão se dando muito bem.

—Discordo — apoio-me na cadeira passando atenção de uma para a outra — Noah fala comigo por eu lhe ensinar piano e ser sua dupla em uma matéria difícil. Só.

—Colegas de classe, então? — Andrea pesca sua xícara de café bebericando lentamente.

—É.

—Que pena. Acho que você alcançou o coração dele.

Engasgo com o leite. Ponho o copo de volta na mesa e tenho uma crise de tosse sem conseguir impedir o líquido de tomar um caminho diferente do devido. Sabia que ao dormir na casa de Charlie, Andrea iria falar de seu irmão em algum momento, só não esperava ser assim.

—Ué, o que quer dizer? — a cozinheira questiona.

—Não te contei? Ele se interessou por alguém. Uma garota da aula de Arranjos Vocais. Ao que parece ela tem “a voz de anjo” que ele procura.

Dói. Sabia que chegaria uma situação assim, mas não tão cedo. De certa forma, estava preparada para o impacto da ideia de Noah gostar de alguém, só não o suficiente para sofrer a dor logo nesse momento. Engulo o seco, minha garganta parecendo lixa. Meu peito dói, porém... De que adiantam os meus sentimentos se eles não alcançam os de Noah? Foco-me na ideia de que ele pode se apaixonar por quem entender. Só tenho de ficar feliz por isso.

—Elise. — Charlie chama — Tá tudo bem?

Ergo um meio sorriso.

—Tá sim.

Andrea continua me olhando curiosa.

—Achei que ele nunca mais iria nem pensar em falar com outras pessoas na vida dele. Agradeço a você por ter ajudado nisso.

Amarro o cabelo de forma apertada tentando ignorar o incômodo no coração.

—Eu não fiz nada.

—Bom, se fez eu não sei, mas ajudou — Charlie põe a omelete no prato e me dá metade — Noah é bem cauteloso com as pessoas ao redor dele.

—Principalmente depois do que aconteceu ano passado.

Passo minha atenção de Charlie para Andrea.

—E o que aconteceu?

Andrea encosta as costas na cadeira, fechando os olhos e respirando fundo.

—Sempre me faz raiva lembrar disso — resmunga — Um babaca na sala dele junto com um grupinho contratou uma atriz que se fingiu interessada no Noah por dois meses. Ela era grudenta, irritante e de alguma forma acabou fazendo ele gostar dela. Gravaram um vídeo e enviaram pra todo mundo no dia que ele pediu ela em namoro e a atriz falou que era só uma pegadinha.

—No vídeo eles focam o rosto do Noah — Charlie engole uma garfada do omelete — Foi pura maldade. Ele nem imaginava.

—E não era mulher, era homem — Andrea resmunga — Primo de um dos babacas.

—Noah ficou arrasado.

—E bem agressivo.

Isso explica seu comportamento. Massageio a nuca, passando a atenção para o prato na minha frente. A irritação sobre o que aconteceu com ele é inevitável, contudo, tento me controlar. Vem ficando cada vez mais fácil domar as emoções, senti-las sem reagir e então deixa-las irem embora. Admiro meu autocontrole ter permanecido mesmo após o ocorrido no mês anterior.

—Qual o nome do cara?

Andrea que me responde.

—Um tal de Daniel. Não lembro o sobrenome.

Então não era o Cooper. A criatura irritante que me pedira para lhe ajudar com piano. Termino o café da manhã e espero as outras duas fazerem o mesmo.

***

Seguro a mão de Noah usando a tesoura para contornar a unha bem próximo da carne. Ele faz uma careta, a segunda mão dedilhando teclas aleatórias no piano. Vem ficando cada vez melhor, diminuindo o tempo entre um acorde e outro.

—Lembra — chamo sua atenção — Essa é a parte que toca a corda, tá? Ela é que deve criar calo, não necessariamente toda a ponta dos seus dedos.

Noah bufa, impaciente.

—O que foi?

—Você. Eu fiz algo de errado? Tá soando cada vez mais distante quando fala comigo.

Junto as sobrancelhas. Faz mais de semanas que soube do seu interesse pela menina de sua sala e venho utilizando isso como outra razão e peso significativos para conseguir superá-lo sem mudar minha atitude ao seu redor. Como é possível ele ter notado algo assim?

—Coisa da sua cabeça — guardo a tesoura no bolso tocando a área avermelhada na ponta de seus dedos — Sensível, não é?

—É. Só não sei por que você que teve que cortar minhas unhas, não é só pegar a tesoura e...?

—Iniciantes não sabem como cuidar disso de primeira, por isso estou te ensinando, ingrato.

Tiro meu violão da capa e pouso no seu colo.

—Lembra da posição?

Noah assente. Seus dedos se colocam próximos ás cordas, sua coluna fica reta e ele relaxa os ombros deixando sua pose confortável.

—Faz o acorde D.

Pressionando os lábios, ele obedece. Sua presença não é mais causadora da queda do meu QI. Me acostumei a sentir calor no peito ao tocá-lo ou quando acontece o inverso, já é normal me distrair só de ouvi-lo falando, a voz envolta em tédio, animação ou calmaria. Parecem ser as três emoções mais frequentes nele. E um de seus costumes é deixar o rosto inexpressivo logo quando mais quero saber o que pensa.

Escuto-o falar bastante de sua mãe, de como era bonita e reclamar como eu pareço saber quando ele vai ficar doente (devido ter realmente ficado resfriado após o dia do jardim). Conta sobre seu dia, as pessoas que continuam a ser babaca com ele desconfiando de sua cegueira. Fala sobre não cantar tanto desde o ensino médio por detestar multidões. Até comenta a vontade de fazer esculturas sobre como imagina o mundo sendo um cego. Quer que os outros vejam como ele vê. É perturbador o quão encantador ele se torna ao falar coisas desse tipo carregando uma expressão tão séria e de meio sorriso erguido.

—Soou certo?

—A corda 3 ficou estranha. Aperta mais.

—Ok.

Sento-me na sua frente, em uma cadeira de plástico. Noah é muito bonito. Os cabelos caem na forma de ondas pelo seu rosto, fios finos e escuros emoldurando o rosto afinado. Algumas vezes fica de óculos, outras deixa os olhos opacos e sem vida levemente a mostra com suas pálpebras baixas. Suas roupas quase sempre são na mesma paleta de cores claras, raramente havendo um escuro. Tetsuro lhe descreve as cores e ele mesmo escolhe suas roupas. Seu celular é outra história, funciona com comando de voz o que quase me fez chama-lo de rico.

—E agora?

—Perfeito. Faz o C.

Ele é engraçado, algumas vezes. Fala pouquíssimo dos pais adotivos, gosta de comer qualquer coisa frita e detesta refrigerante. Apesar da personalidade ser arrogante aos exteriores, ele sorri bastante ao lado de conhecidos. Até mesmo ao meu lado. Usa palavras doces ou ácidas (em tons curiosos de sarcasmo) com a irmã e Tetsuro.

Nas nossas conversas, sempre quando discordamos sobre alguma coisa, ele fala “É uma questão de ponto de vista” sustentando um sorriso satisfeito. Suspeito que gosta dos assuntos tanto quanto eu. Nunca chega a mencionar nada sobre a menina a qual se interessa, mas ao ficar mais atenta, noto como ele se distrai fácil sorrindo para o nada. E dói, mas não me mata.

Terminando de lhe ensinar violão guardo o instrumento na capa e empurro em suas mãos subindo no banco do piano ao seu lado.

—Por que tá me fazendo segurar suas coisas?

—Estou te emprestando — dedilho algumas notas — Trinta minutos todos os dias. Precisa praticar mais do que eu.

—Confia tanto assim em mim?

—É, talvez.

Noah bufa. Ele segura a alça pousando o instrumento com cuidado ao lado do piano e se vira erguendo as pernas para entrar no banco do piano. Sorrindo, ele põe as mãos nas teclas.

—O que quer que eu toque?

—Já ouviu Ludovico Einaudi?

Noah faz uma careta de confusão. Solto uma risada.

—Acho que não. Tá bem.

Tiro os fones do bolso do casaco e conecto no celular procurando o nome do pianista. Tenho várias de suas músicas. Paro na Night e coloco um lado do fone no meu ouvido.

—Vou te mostrar, tá?

—Tá bem.

Noah fica paralisado quando o toco. Ponho seu cabelo atrás da orelha e arrumo o aparelho de forma correta. Ao afastar minha mão ele mesmo o arruma e desvio o olhar para o celular, envergonhada sem motivo algum. Deixo a música iniciar. Noah fica concentrado, esperando decifrar as notas.

—Sabe esses dois acordes iniciais que se repetem?

—Ahan.

—Pode repetir eles?

—Acho que sim.

—Eu toco os mais complicados. Consegue me acompanhar?

Pelo canto do olho, sei ele estar sorrindo.

—Vou tentar.

Ponho a música para repetir e após ouvir a terceira vez, Noah começa a tocar. Desajeitado, apressado. Digo para seguir o ritmo do toque e aos poucos ele relaxa, sincronizando-se. Meus dedos esbarram nos seus na troca de acorde e retiro quase imediatamente, ele quieto por mais dois segundos.

—Seus dedos são diferentes.

Arregalo os olhos. Engulo o seco, ignorando minha reação apressada e relaxo, tentando manter o ambiente neutro.

—Eles são... Como é o nome? Delgados.

—E o que isso significa?

—Me dá sua mão.

Hesito. Avalio o rosto de Noah, virado para o piano. Sinto as bochechas formigando e passo a mão pelo rosto entregando a outra nas suas. Os dedos dele viram a palma para cima, deslizando o indicador pelo centro.

—Delgado se refere a algo fino e alongado — ele comenta e seu indicador passa pelos meus dedos até sua mão inteira tocá-los — Igual aos seus dedos. Deve ser graças ao piano.

Desvio o olhar, controlando-me para não fechar a mão e acabar segurando a sua.

—Deve ser.

—A propósito, mãos macias demais. Burguesa.

—Do que tá falando? As suas também são.

—Sou deficiente, não conta.

—Conta sim.

—Quanta maldade, Brown.