Amor Cego
54 Juntos
Jantando na casa de Charlie, sento-me ao lado de Noah. Sinto-me satisfeita por ter conseguido pegar no sono durante um curto período da tarde. Lembro-me da vermelhidão no rosto de Noah quando deitamos de novo na mesma cama, abraçados. Tudo bem que o beijo dele no meu pescoço tentando me acordar horas depois quase nos fez atrasar para o jantar e isso ocasionou em ambos de cabelo bagunçado e roupas amassadas constrangedoramente aparecendo na porta do apartamento da irmã dele.
Charlie passa os olhos de mim para Noah a cada minuto, Andrea concentra-se em comer o seu pedaço de pizza, tal como Tetsuro parece inteiramente entretido com o queijo derretido. Desde o momento em que entramos no local parece ter se instaurado um silêncio ensurdecedor. Encho minha boca com um pedaço grande de pizza e mastigo, tentando distrair-me das suspeitas gritantes de todos os presentes.
Será se deveria ser a primeira a falar? Mas talvez Noah se sentisse constrangido. Diabos, Tetsuro parece ter fofocado a todos sobre o ocorrido nessa tarde. Quase um casal velho brigando por uma possível traição. Olhando agora foi algo tão tolo que me dá vontade de bater em nós dois por ter envolvido outras pessoas e ter feito um alvoroço de tal tamanho.
—Eu e a Elise estamos juntos.
Engasgo. O pedaço que estou mastigando quase entra no pulmão e Charlie é quem se levanta para me ajudar a colocar para fora, tossindo como louca e ela batendo em minhas costas com a mão espalmada. Mais dói do que ajuda. Enfim consigo me recuperar e olho imediatamente para Noah.
—Não era melhor esperar um pouco?
—Esperar você pensar melhor e cair fora? De jeito nenhum.
—Finalmente! — Andrea ergue os braços aos céus — Aleluia!
—Tetsuro contou? — pergunto.
—E precisava? Você dois tem uma tensão sexual tão grande que me perguntei como não tinham ficado malucos ainda.
É a vez de Noah engasgar.
—Quase ficaram — Tetsuro pontua. — E Noah tem medo do pianista bonitão.
—Também, falando 24 horas que o bonitão poderia voltar e roubar a garota que ele gosta quem não ficaria?
—Vocês são malucos — Charlie senta-se calmamente.
Tetsuro solta uma risadinha e olha para Noah, observando sua reação ao falar.
—Mas é meio estranho que assim que os dois se juntaram o pianista gatão apareceu de novo.
—Dois minutos mais tarde e Noah continuaria solteiro pelo resto da vida.
Suspiro.
—Vocês dois não prestam.
Aproximo-me de Noah e toco no canto de seus lábios.
—Sujou.
—Tira com a boca! — Tetsuro quase grita.
—Me pergunto por que sou seu amigo — Noah faz uma careta — Obrigado.
Ele mesmo toma o guardanapo e limpa o local que o apontei. Devido a aproximação noto algo que se dá devido uma lembrança do início do ano letivo.
—Impressão minha ou você nunca mais deixou a barba crescer?
Vejo ele enrubescer aos poucos.
—Porque você disse que eu ficava melhor sem.
—Diabos, vou ficar enjoada —Charlie resmunga.
Sorrio. Nunca esperaria ter impactado nele dessa forma.
—Por isso não usa tanto os óculos perto de mim?
Os ombros de Noah encolhem, as bochechas avermelhadas. É a coisa mais fofa que já vi e quero continuar pressionando-o para ver como reage, constrangido e amoroso.
—Também — admite baixo.
Seguro sua mão em cima da mesa, afagando as costas da mesma e comendo a pizza com a direita.
—Meu Deus, como os dois não ficaram juntos antes? — Andrea junta as sobrancelhas, quase injustiçada — Qual dos dois foi o idiota?
—Eu que beijei ele.
—E você, Noah? O que tem a dizer em sua defesa?
—Ela é areia demais pro meu caminhãozinho cegueta.
Tetsuro solta uma risada alta.
—Essa é a pior desculpa que já ouvi na vida.
—Elise, como foi a prova hoje? — Charlie questiona, mudando de assunto.
—Ah. Fui ridícula. Noah foi bem.
—Foi tão ruim assim?
Aperto a mão de Noah.
—Conta pra ela.
—Parecia o Tetsuro bêbado cantando.
—Meus céus. Sinto muito, Elise.
É minha vez de rir. O resto do jantar se passa com eles contando os momentos positivos e negativos do dia e não consigo tirar minha mente sobre o quão estou feliz. Não imaginava a quantidade de endorfina que Noah iria me ocasionar só ao ficar segurando minha mão durante os momentos juntos com nossos amigos. Não há uma necessidade de demonstração de afeto constante, apenas isso. O toque. A forma dele de me ver.
Quando estávamos no quarto ele falou o quanto importava para ele poder me tocar, saber que vou estar lá. Não pode me enxergar, mas pode me sentir. Experimentar a sensação vívida do meu calor passando para si, do coração acelerado até na ponta dos dedos. Os meus sentimentos por ele igualando-se aos seus. Torna-se, no mínimo, o momento mais apaixonante que já tive.
***
De volta ao meu quarto, não faço questão de mencionar a Noah que Samir esteve aqui para buscar o saxofone. Deixo as chaves na porta. Tomo um banho demorado, livrando-me da sujeira e mínimo estresse do dia. Fecho os olhos contra a água caindo e só tenho Noah queimando minha mente. Existir nunca me fez tão bem.
Troco de roupa para algo mais confortável e sento-me na cama, esperando que ele tome o dele. Lembro-me da expressão travessa de Tetsuro quando acompanhei Noah para pegar algumas roupas e passar a noite no meu quarto. “Gastei tempo demais tentando me entender. Quero aproveitar cada segundo com você agora”. Ele parece saber as palavras exatas para me fazer derreter e ficar perplexa, questionando-me como pode haver alguém como ele no mundo.
Recebo uma mensagem no celular. Samir me desejando boa sorte na competição amanhã. Sorrio, agradecendo e deixando o aparelho de lado focando-me no que está passando na televisão, sem conseguir. Lembro a todo momento dos beijos de Noah, do seu corpo contra o meu, do cheiro amadeirado, da voz suave.
Perturbador, no mínimo. Ele sai do banheiro secando os cabelos e senta-se ao meu lado, terminando de escovar os dentes.
—Seu cheiro vem do shampoo, sabia? — resmunga com a boca cheia de espuma — Agora fico com o seu também.
—Gostei dessa ideia.
Engatinho até ele e abraço seus ombros, o coração batendo contra suas costas. Sua pele está fria devido a água. Ele em si me parece gelidamente nervoso.
—Sabe que a gente não precisa fazer nada agora, não é? — sussurro baixo — Só dormir.
—Eu sei — Noah passa a mão pelos meus braços — Só me pergunto se isso é real. Sonhei tanto com você que é meio difícil aceitar isso.
Sorrio.
—Entendo bem como se sente.
Beijo sua nuca, inspirando meu cheiro nele.
—Termina logo. Preciso acordar cedo amanhã.
Ele se levanta, sumindo no banheiro. Rapidamente mando uma mensagem avisando Louis sobre mim e Noah. Faço o mesmo com Yuri. Não falo nada a minha mãe ainda, imaginando que deva estar ocupada com o trabalho ou em um encontro com Joseph. Prefiro apresentar Noah pessoalmente.
Ele volta. Senta-se na cama e desligo a televisão, deitando-me com ele. Encaro seus olhos opacos, desço pelo resto do rosto e toco-o como bem entender. Noah faz o mesmo, o corpo novamente próximo do meu.
—O que te fez gostar de mim? — pergunto baixinho.
—Não sei. Acho que você me apresenta coisas que me fazem... Sentir que não é tão ruim ser cego.
—Bem específico.
—Você não deveria dormir logo?
Pisco, fazendo bico.
—Só se me cantar alguma coisa.
Mesmo no escuro, consigo ver o seu sorriso.
—Quantas vezes você quiser.
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