Amor Cego

55 Manhã suave


O sol se infiltra pela janela. Mas não é ele quem me desperta primeiro e sim o afago suave na lateral do meu rosto. De primeira não faço a ligação de quem é, aproveitando o conforto do corpo quente e a palma protetora na base da minha coluna. Não achei que seria tão bom dormir assim.

—Elise.

Faço careta. Aconchego-me mais próxima do pescoço sentindo uma pulsação suave. Recebo uma risada melodiosa em resposta. É um ótimo som pra se ter logo ao acordar. Abro os olhos devagar, deixando-os ainda parcialmente fechados. Noah beija minha testa, abraçando-me um pouco mais forte.

—Ei. — resmungo notando como minha voz sai rouca. — Acordou faz muito tempo?

—Uns dez minutos.

—Sabe que horas são? — estendo o braço por cima da cabeceira, tendo de me afastar dele.

Noah me puxa de volta, seu corpo indo de encontro as minhas costas. É uma sensação boa. Tomo o celular quase sendo cega pela iluminação intensa. O beijo suave na minha nuca me faz querer voltar a dormir. O homem passa os braços pela minha cintura e respira fundo.

—Seis da manhã. Sempre acorda assim tão cedo?

—Hm. Geralmente preciso colocar colírio nesse horário.

—Despertador natural.

—Deve ser. Eu lembrei de pegar ontem?

—Não sei. Como um colírio deveria parecer?

—É maldade perguntar isso pra um cego.

Seu tom brincalhão me faz rir. Beija perto da minha orelha até me deixar ir. Fico de pé, coçando a nuca e sentindo um leve arrepio pela saliva que Noah deixou para trás, uma brisa repentina gelando-a. Um conjunto de imagens indecentes sobre essa técnica na cama me fazem sentir que sou um leão pronto para devorar o cordeirinho inocente deitado na minha cama.

—Deve ter deixado no banheiro. Você o usa antes de dormir?

—Uso um diferente.

—Tá. Espera aí.

Infiltro-me no cômodo. Encontro dois frascos pequenos, um azul e outro verde escuro. Tem alguns pontos saltados no lugar das letras. Deve ser braile. Faço a higiene básica antes de sair do banheiro, o rosto lavado e sentindo-me até renovada. Talvez devesse tomar um banho.

—Achei.

Noah vira o rosto na minha direção. Talvez por reflexo. Está apoiado nos cotovelos, o tronco relaxado. O cabelo solto cai pelo rosto, emoldurando-o como a uma pintura. Paro no meio do caminho, encarando a visão. Lábios cheios, traços amadurecidos, queixo triangular. O pomo de adão, a clavícula evidente na abertura da blusa. O sinal no queixo e outro perto dos olhos. Céus, como ele é bonito.

Noah se senta, o corpo virado para mim, mas sem saber onde estou. Aproximo-me entregando os dois frascos na sua mão. Ele faz careta por um segundo, sentindo com a ponta dos dedos o dizer do primeiro e passando ao outro. Relaxa a expressão.

—É esse. Ainda bem, sou um cego preparado.

—Você é horrível.

Noah sorri e estende os braços, capturando meu quadril outra vez. Enfia o rosto no meu estômago, apertando-me. Deslizo os dedos pelos seus cabelos, meu peito de alguma forma cheio do que imagino ser algum tipo de felicidade. Parece tão natural estarmos assim, tão comum ter ele de manhã ao meu lado que sequer lembro ser a primeira vez que acontece.

—Não precisa se esfregar na minha barriga como se fossem meus peitos.

—Não são? Achei que eles fossem pequenos.

Dou um tapa no seu ombro e ele dá outra risada. Pensando em provoca-lo, espio se as suas mãos estão ocupadas com os frascos. Só uma está. Tomo a esquerda livre e estendo seus dedos como se fosse envolver os meus. De última hora, pressiono-a no seio direito fazendo Noah arrumar a posição em tempo recorde. Faço seus dedos apertarem uma vez e sorrio.

—Não são.

Vejo o rosto dele adquirindo uma coloração de vermelho vivo. Minha vez de soltar uma risada, afastando-me na direção da cozinha. Volto os olhos para o homem sentado, estático, na minha cama ainda duas ou três vezes antes de amarrar o cabelo curto como posso e tirar as panelas dos armários querendo fazer o café da manhã.

—Elise.

Seu tom de voz é quase frustrado. Noah solta um muxoxo e cruza as pernas cobrindo o meio delas com a camisa. Minha risada fica ainda mais alta. Parece piorar ainda mais a vermelhidão no rosto dele.

—Isso é crime! Assédio!

—Eu que fui assediada.

—Mas eu que me sinto violado. Para de me olhar!

—Como sabe que ainda tô te olhando?

—Sei quando fica me secando, Brown. E por sua culpa vou precisar tomar um banho gelado.

—Vou fazer o café da manhã. Tudo bem ser torrada?

—Adoro torrada. Sua criminosa.

Ele anda quase curvado tentando chegar ao banheiro da maneira mais discreta que consegue. Prendo o riso na garganta, mas vejo o sorriso no rosto dele.

—Você realmente vai pro inferno por fazer isso com um cego.

***

Andando com Noah semicerro os olhos a quem passa encarando-o ou nossas mãos juntas. Realmente se usam da sua cegueira para transmitirem olhares de piedade tanto a mim quanto a ele. Me deixa irritada. Balanço a cabeça uma vez tirando da cabeça a mínima ideia de entrar em alguma briga por isso. Algumas vezes eles só não sabem como agir ficando entre ignorar completamente a existência e sentir pena.

—Por que seu celular fica vibrando a cada cinco minutos? — Noah questiona fazendo careta e o tirando de seu bolso.

Nem notei que havia lhe entregado. Confiro a tela. Ponho no silencioso e enfio de volta no bolso.

—Louis. Tá surtando depois que eu falei que estamos juntos.

—Isso é tão inacreditável assim?

Reflito momentaneamente, nos puxando pela avenida até uma rua mais quieta, sem tantos olhos, na direção do auditório municipal onde deve ocorrer a competição.

—Se tratando de você, sim. Quase uma ilusão. Ela já me perguntou seis vezes se eu não bati a cabeça.

—Jesus.

—Oh. Tem poucas pessoas ainda. Quer arrumar um lugar logo ou passar mais um tempo comigo?

—Não importa se eu estiver na frente ou na última fileira. Não consigo te ver, esqueceu?

Dou um peteleco na sua orelha. Noah aperta minha mão. A construção se assemelha a um teatro, mas aberto. Lembra um anfiteatro grego. Passando as portas de metal o resto é aberto ao público, uma plateia disposta em meia lua ao redor do centro carregando no palco um conjunto de instrumentos. Não há nada muito decorado além de uma faixa falando sobre o evento como o vigésimo segundo ou terceiro. Não fica fácil de distinguir números romanos depois de um tempo.

Algumas pessoas já pintam a plateia, vozes altas e risadas animadas tentando acalmar seus respectivos parentes que vão competir. Parentes ou amigos, namorados, ou sejam lá quem for. Não me importam muito. Confiro o horário no celular e penso em ir para a parte de trás do palco suspeitando que deve ser lá onde os competidores devem se apresentar ao organizador.

—Vou lá. Não tenho ideia se vou ser a primeira ou última. Tem certeza que quer ficar aqui sozinho esperando e mofando até minha vez?

—Tenho. Adoro mofar. E vou saber quando for você.

—Hm? Por que? Já decorou meu modo de tocar, foi?

O sorrisinho no canto dos lábios dele faz meu coração acelerar.

—Vai ser óbvio. O organizador vai falar seu nome antes de começar, Brown.

—Ah, é.

Noah solta uma risada pela minha falta de atenção. Mesmo assim, abraça-me novamente e usa a mão livre para encontrar uma parte no meu rosto. Beija minha testa, minha pálpebra e enfim minha boca, demoradamente. Fico de olhos fechados, apreciando a sensação.

—Boa sorte. Toque com tudo.

—Vou me quebrar pressionando as teclas. Fingir que elas são o Tetsuro e esmagar com toda força.

—Emocionante. Te espero por aqui.

—Ok.

Afasto-me de Noah, descendo os degraus, mas olhando para trás outra vez. Calças jeans, camisa de botões azul marinho e sandálias, óculos escuros no rosto além do cabelo parte solto e parte amarrado, do jeito que mais adoro. Desço alguns outros degraus, ainda o olhando. Sorrio. Viro de costas, sentindo a cada segundo uma emoção nova. Todas elas parecem me fazer bem.

—Noah! — chamo sem encarar seu rosto — Vai namorar comigo quando eu ganhar, não vai?

Escuto sua risada animada.

—Vou fazer isso até se perder!

Pressiono as bochechas, o sorriso tão forte no rosto que chega a deixa-las doloridas.

Notas finais
Hehehe eu sei que sumi. Mil desculpas. Aconteceu muita coisa na faculdade e esse semestre to tão atolada que fiquei imensamente cansada, até ver de novo essa história. Tinha esquecido o quanto era apaixonada pelo Noah e a Elise, então quando me sentei pra escrever, só fluiu. Eles me salvaram de um cansaço mental tremendo e espero que façam o mesmo por vocês!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.