Amor Cego

11 Irritação & Desculpas


Me arrependo completamente das minhas ações. Fui convidada (e infelizmente aceitei) a treinar com elas no dia seguinte, ás cinco da manhã. O clima estava tranquilo, eu não havia falado ou gaguejado nenhuma bobagem, então não sabia como recusar um pedido o qual em nenhum ponto se assemelhava ás coisas que faria normalmente. De toda forma, Charlie fica de dormir no meu quarto para poder me despertar cedo amanhã e me levar até o local onde devemos “treinar”.

Sentada no meio da sala, bato o pé de maneira frenética sentindo preguiça adiantada. Merda, penso mais de uma vez. Continuo emburrada, recusando-me a fazer alguma anotação na aula devido os dedos doloridos em carne viva. Passo alguns momentos encarando as pontas rígidas questionando-me se deveria tomar algum cuidado especial com eles.

Cruzo as pernas e apoio o queixo na mão suspirando ao colocar o cotovelo em cima da mesa. Suspiro, entediada sobre o assunto. Mesmo encarando a professora e me esforçando para conseguir compreendê-la ao máximo meu cérebro briga colocando minha atenção na janela mais próxima exibindo as árvores longas e volumosas do pátio, ondulando perante a brisa gélida.

—Parece distraída.

Pisco devagar, umedecendo os olhos secos de distração. Viro para direita. Um cara branco, cabelo castanho, traços triangulares e íris azul está me abordando. Depois do ocorrido no almoço a última coisa que quero agora é fazer mais uma amizade que acabe posteriormente me fazendo sair de casa para qualquer coisa. Pensando nisso, fecho a cara e viro de volta para janela.

—Você... Acabou de me ignorar?

Reviro os olhos. Atenção nas árvores.

—Eu... É... Sou Lion. Lion Cooper.

E daí?

—Estou na mesma turma do Russel que você e vi que marcou um horário pro piano...

Arrumo a postura. Já até imagino o pedido de treinar comigo por falar alguma coisa do instrumento ser muito complicado ou serem muitas teclas, o básico de iniciante covarde. Fico pronta, a resposta negativa na ponta da língua. Encaro a mesa, a professora e por último Lion. Sequer me lembro de vê-lo na aula do Russel.

—O que quer?

Ele sorri. Aparenta estar animado, mas inquieto cairia melhor para defini-lo. Olhos desviando muito, dedos muito parados. Deve estar totalmente desconfortável em falar comigo.

—Pode... Pode me dar aulas de piano?

—Não.

Espera, o quê? Remexo-me na cadeira, espantada e tentando não demonstrar. Cruzo os braços sobre o peito, questionando através do olhar.

—O que te faz crer que eu sei tocar?

—Ouvi sua explicação sobre os sons e as teclas — Lion pressiona os lábios — Eu consegui entender completamente. Explica muito bem. Por isso... Pode... Me ensinar também?

Bufo, quase rindo. Outra pessoa que não aprecia o trabalho em si, mas o teórico. Qualquer pessoa pode entrar na internet e pesquisar os nomes das teclas do piano sem ser chamado gênio da explicação. Porém, raros podem reproduzir o som tendo maestria e perfeição. Ele veio até mim por algo que poderia aprender sozinho, pedindo por algo que deveria ele mesmo se esforçar para descobrir. Me irrita.

—Não.

—Bom, você sai perdendo.

Que desgraçado ousado.

—E novamente, o que te faz pensar isso?

—Estou montando um grupo de gente que saiba tocar para praticarmos fora da aula do Russel. Já temos saxofone, flauta, violoncelo e violão —Lion está analisando minha expressão, esperando espanto, desespero. Talvez até arrependimento — Com você aprenderíamos piano. Mas parece que não quer ajudar, então vai ter que se virar sozinha junto do ceguinho.

Passo os olhos para ele. Trinco os dentes engolindo uma porção de palavras ofensivas, controlando meu tom para não chamar atenção da professora. Pouso a mão na mesa, virando-me totalmente na direção de Lion.

—O que eu quiser tocar, eu aprendo sozinha — sibilo baixo — Não preciso de leigos me aprovando ou ajudando. Ah! E ele tem nome. Noah. Chama ele de ceguinho. Mais uma vez.

Lion não se abala.

—Tá de TPM por acaso?

Posso até escutar o som da minha paciência rachando.

—Recorrendo a fatores biológicos quando não tem mais argumentos. Patético.

—Eu só te ofereci uma oportunidade, você que veio toda estressada.

—Você que veio falar bosta no meu ouvido.

Ele sorri. Parece entretido em me irritar. Isso piora ainda mais meu estado de espírito. Rapidamente passo a alça da mochila por cima da cabeça e me levanto usando movimentos discretos e silenciosos. Percorro o canto mais sombreado da sala até chegar nos últimos lugares no fundo. Escondo-me longe da janela e de Lion Cooper antes de fazer ou falar alguma besteira.

Estou irritadiça. Tento não borbulhar tanto de raiva, entretanto, nada ajuda. Não dormi o suficiente, prometi acordar cedo, prometi fazer exercícios, o idiota elogiou a teórica e não a prática, me ofendeu como mulher e ainda chama Noah de ceguinho. O sentimento parece deslizar pelos meus braços e pernas, enrijecendo músculos e fechando meu punho em cima da mesa.

Apesar de tranquila e apática no ensino médio claro que acabei me envolvendo nas brigas relacionadas a Louis ou alguém de dentro de uma das bandas. Comentavam, fosse sobre a imagem ou o jeito e logo de cara parecia ligar um interruptor na minha cabeça dizendo “SOCA A BOCA DELE AGORA” de letras vermelhas vibrantes. Essa personalidade forte nem um pouco semelhante a como eu era antes de Noah. Passo a mão pelo rosto, usando a memória do festival novamente para me distrair, recluir-me dentro de um ambiente confortável e feliz.

Repito tanto a memória adaptando a sua imagem para o atual Noah que me flagro parando de pensar na sua versão do ensino médio transformando-a nele agora. As palavras agressivas, postura incoerente. Mudou muito. O que será que lhe causou isso? Ou talvez quem. A conversa com Russel pipoca na minha cabeça e questiono-me se Lion não é um dos repetentes e o antigo colega de Noah. Se for, vou me sentir mais orgulhosa do que culpada pelo meu comportamento.

E se ele disse esse tipo de coisa ou até pior para Noah? E se for por esse motivo que ele é tão agressivo verbalmente? Será mesmo algo ocorrido na universidade ou foi algo de fora? De todas as formas, não vai mudar o fato de ter sido errado. Quero entende-lo mais apesar de ainda desejar certa distância. Esse tipo de pessoa acaba magoando rápido falando o que vem na cabeça e deixando emoções tomarem conta ao invés de raciocinar.

Meu celular vibra. Tiro-o do bolso rapidamente respondendo a mensagem de Charlie sobre o horário de ir para o meu dormitório. Aviso sobre meu horário marcado do piano. Ao terminar da aula saio disparada pela porta esbarrando violentamente em Lion sem sequer pedir desculpas.

***

Prefiro esperar dar o meu horário do piano ficando ainda no campus. Parece mais fácil. Sentada na mesa de pedra do pátio escondida pela árvore, massageio o centro da testa esperando evitar uma dor de cabeça. Marco mentalmente as tarefas a serem feitas e relaxo no banco, respirando o ar puro e limpo. Passo a recordar mais sobre a noite. Momentaneamente Ryder volta aos meus pensamentos. Encaro as folhas, imaginando como tudo teria sido se eu não houvesse terminado com ele.

—Ei. Elise.

Meus ombros encolhem. Intimidada, olho para Noah parado na minha frente. Direciono minha atenção para suas costas, notando Tetsuro andando de volta para a sombra do corredor em arco sem chamar atenção a si. Gasto tempo demais quieta e percebo ser grosseria.

—Oi.

—Sinto muito. Fui... Babaca.

Ele dá de ombros. Admiro a expressão cuidadosa no rosto. O cabelo completamente amarrado no topo da cabeça em um coque, os fios bagunçados emoldurando o rosto, a barba recém tirada, a camisa vermelha e bermuda bege exibindo as canelas pálidas. Está com uma das mãos no bolso, a outra segurando a bengala. Sem os óculos escuros, preciso de mais de um minuto para conseguir fazer alguma outra coisa além de admirá-lo. Ele é estonteante. Tão...

—Lindo.

—O quê?

Entro em pânico, enrubescendo.

—Nada! Nada. É que... É que... Nada. Bom. Tudo bem. Não seja mais babaca. Eu... Entendo porque se irritou.

Ele parece desconfiado. Agradeço em silêncio por não conseguir ver o quão vermelho meu rosto deve estar devido a queimação contínua o transpassando. Noah move-se, fazendo com que eu me assuste, atrapalhada em todos os sentidos possíveis. Movo-me sem saber se devo aproximar dele ou abrir espaço para que sente. Noah ergue a bengala e dá alguns passos até ela bater no banco.

Assisto-o sentar-se sem parar de pensar em como sinto vergonha e no tamanho da idiotice que falei. Suas pálpebras estão baixas, quase fechando os olhos deixando ainda mais a ideia de ele estar realmente lendo minhas palavras e suas mentiras.

—V-Você tirou a barba.

Ele ergue a mão até o queixo.

—Ah, é. Só notei hoje de manhã. Vinha esquecendo de fazer ela. Obrigado por falar ontem, Brown.

Arregalo os olhos. Dessa vez não apenas meu rosto esquenta como também todo meu corpo, em especial, o coração. Bate descontrolado no meu peito, tão alto a ponto de me assustar.

—De nada — forço as palavras a saírem. — Veio... Só pedir desculpas?

—Não. Olha, começamos com o pé errado. Eu notei o quanto toca bem piano e violão. Tetsuro me avisou que se acabasse perdendo uma dupla como você talvez não tivesse uma oportunidade melhor de passar na disciplina do Russel.

Encolho as pernas, quase abraçando-as ao escutar e assistir Noah. Sua voz calma é maravilhosa. Sinos ecoando parecem grunhidos perto de como ele soa. Tento me concentrar no conteúdo da sua fala e não apenas no tom, de forma que logo fecho a cara devido a menção a Tetsuro. Porém... Aos poucos associo o que ele disse. Noah... Elogiou. Ele me elogiou. Elogiou como eu toco. Uma cascata de euforia cai sobre o meu corpo e sinto um sorriso idiota pendurar no rosto.

—A gente pode fazer uma parceria —propõe — Me ensina o básico e eu não te faço passar vergonha.