Amor Cego
32 Encontro
Desde o segundo que pus os olhos em Samir, na sala do professor Dixon, sabia que ele seria do tipo extravagante. Uma pessoa com dinheiro e que sabe bem demonstrar a quantidade. Para alguns é deselegante, para outros é arrogância. Eu só o enxergo como um pavão gigante e barbado.
Apesar de aparecer em roupas simples, bermuda de tecido leve e camisa abotoada de mangas curtas, ainda tem que exibir-se de alguma forma. E a forma como encontrou foi chegar em um helicóptero, pousando-o no gramado do campo de golfe alguns bons metros longe da piscina. Continuo sentada na borda, o tornozelo submerso na água.
Samir aproxima-se, o cabelo não mais em gel apontando cachos volumosos e um rosto recém-barbeado. Ergo as sobrancelhas apontando para o meu queixo e depois para o seu. Mesmo á distância, ele sorri e dá de ombros.
Parece muito mais jovem agora. Vejo-o conversando com o piloto antes de correr até mim, dando a volta na água. Ofegante, ele continua carregando a expressão de ter conseguido fazer algo pela primeira vez. Senta-se ao meu lado, encarando-me de cima a baixo.
—Gosto sobre o como seu senso de moda é primitivo.
—Eu sei me vestir, só tenho preguiça.
Samir cutuca meu short laranja, outro presente de Louis, e passa os olhos para minha camisa da banda quase engasgando.
—Era a que você participava, não era?
Semicerro os olhos.
—Como sabe disso?
—Fiz meu trabalho de casa. No primeiro ano você mudou de banda três vezes antes de achar essa, não foi?
—Isso tá começando a me assustar.
—Foi só o básico pra saber se não estou lidando com uma psicopata.
—Parece que é você que tem alguma coisa errada na cabeça.
—Talvez. Enfim, te trouxe presente.
Junto as sobrancelhas virando-me para ele. Samir tira os chinelos e suas pernas entram na água ficando mais submersas que as minhas. Assisto-o retirar algo no bolso da bermuda no lado esquerdo me impossibilitando de ver.
—Ah e sua casa é linda.
—Minha mãe deu maior parte das ideias ao arquiteto.
—Catherine Jones. Ela é tão bonita quanto você.
—Não, não, não. Minha mãe é muito mais bonita.
—Bobagem. Aqui.
Samir me entrega uma caixinha do tamanho da minha palma. Inclino a cabeça. A coloração é escura e em formato de piano. Das teclas, aos pedais e até mesmo um banco fixado a pequena construção. Estou prestes a perguntar se é um chaveiro quando Samir pressiona um botão atrás do objeto e ele passa a tocar uma música. Solto uma risada.
—Isso é você tocando Riopy?
—Achei que não reconheceria, essa é diferente da...
—Eu sei. Pesquisei mais sobre ele.
—Todas as músicas?
—Só o suficiente pra reconhecer a melodia dele.
Analiso a caixinha. É quase idêntico a um real, tirando pelo fato de ser feito inteiramente de plástico. Pouso o presente entre nós dois e avalio de longe sustentando um meio sorriso.
—Adorei. Obrigada.
Quero mostrar a Noah. Penso em lhe dar alguma coisa que o faça se lembrar de mim, mesmo quando nossos caminhos se dividirem. Algo que pressinto acontecer a qualquer momento. Passo a mão pela nuca quase fechando os olhos pela dor no peito, tentando desvendar como vim negando tanto essa profundidade do sentimento que nutri por ele.
—Ei. Tem algo de errado?
Pisco, relaxando a expressão e me voltando a Samir.
—Quer mesmo saber?
—Claro.
—E se isso te machucar?
Samir dá de ombros.
—Como você pode me machucar?
Viro meu corpo na direção dele, forçando-me a olhar em seus olhos. Minha boca seca.
—E se eu te falar que eu amo outra pessoa?
—Então tudo bem. E acha mesmo que eu não notaria?
Bufo, as sobrancelhas erguidas.
—É tão óbvio assim?
—Eu vi gravações de apresentações que fazia com a sua antiga banda, assisti sua admissão na faculdade e em nenhum deles você errou uma nota sequer, a não ser... — Samir tira o celular do bolso da bermuda próximo a mim. —Calma, me dá um minuto e eu acho.
Estranho. Reconheço que venho errando mais nesse último ano do que na vida inteira. Contudo, não sinto regressão. De alguma forma, sinto como se esses erros ainda fossem um marco de como vim mudando, como aos poucos fui me tornando menos mecânica e mais emocional. Só me falta saber se vai fazer bem ou mal.
—Aqui — Samir me mostra a tela.
Faço uma careta. É do dia da boate, meses atrás. Apesar de ser difícil distinguir, consigo me identificar com o violão na frente do corpo, os olhos presos em algum outro ponto, corpo paraliso, mãos deslizando por reflexo pelo instrumento. Erro a nota. A música continua.
—Entendi, você me investigou o suficiente. E agora? Vai continuar chamando isso de encontro?
—Vou sim. — Samir guarda o celular no bolso —Seus olhos brilhavam vendo seja lá quem. E se está aqui, falando comigo sobre amar outra pessoa com uma cara tão acabada assim, duvido muito que seja recíproco.
Pressiono os lábios, sorrindo e desviando minha atenção para a piscina de novo. Balanço as pernas tentando afundá-las mais na água e causando diversas ondas. Círculos propagam pela extensão do oito e morrem aos poucos, esticando-se, separando-se.
—E não é — concordo — Não acha perturbador saber que tem algum esquisito apaixonado por você?
Vejo Samir aproximar-se. Não me movo, esperando sua próxima ação. Pelo canto do olho, noto-o se inclinar. Seus lábios macios pressionam minha têmpora e logo o braço passa até envolver meu ombro. Sem perceber, já estou o abraçando sentindo o cheiro forte de colônia masculina. Não é a melhor coisa do mundo, mas seu abraço é bom, reconfortante.
Não preciso contar tudo a ele. Não preciso dizer todos os problemas que tenho, só aquele que pode chegar a afetá-lo, ou seja, o que envolve meus sentimentos por Noah e sua problemática constância. Sinto-me levemente melhor por lhe contar a verdade. A partir de agora é escolha dele continuar ou não ao meu lado.
—Que tal me ajudar na minha música? — peço contra seu pescoço.
O peito dele treme com a risada.
—Aproveitadora.
***
—Respira fundo e fecha os olhos.
Obedeço. Sinto o tecido cobrindo minhas pálpebras e quase salto pelo susto. A mão de Samir pesa em meu ombro, acalmando-me. Apesar de não concordar muito, deixo-o continuar.
—Ainda não acredito que tem um Fazioli branco no seu quarto.
—Já falei que o som...
—Sei, sei. Mas é bonito, não é? Essa parte também importa.
—Estética não deveria ser um dos charmes para uma arte que envolve uma coisa não visível.
—Só que ela é. Não dá pra negar. Sempre vai ter alguém escolhendo algo por ser bonito. Igual esse piano.
—Pode ser, mas não deveria.
—Bobagem.
Discordo. Muitas pessoas criam problemas devido a ideia da estética. Tão volátil e tão mortal. Afeta até mesmo a mim. Pensando sobre o assunto, me questiono se a aparência de Noah interferiu muito no que sentia por ele. E se da mesma forma que vejo casais apaixonando-se uns pelos outros apenas por rostos e corpos e eu ter feito o mesmo? E se o que eu amo for a voz de Noah e não ele em si?
Estremeço. A ideia me faria doente. Não, recuso-me a aceitar que seja algo tão superficial assim. Mas e se for a verdade... Apenas “e se?”. Após ouvi-lo cantar só queria que cantasse novamente. Em que momento isso difere de apaixonar-se pela beleza de alguém? Meu estômago embrulha, sinto-me horrível. Não posso acreditar que pensei ser diferente quando fui tão hipócrita.
—Elise?
Ofego, assustada. Meus ombros encolhem e sinto as mãos de Samir levarem as minhas até as teclas.
—Tente tocar alguma coisa. Deixe os dedos fluírem, não toque nada padrão se não eu vou reconhecer. Toque sobre... Sei lá, o que sentiu com esse cara.
Não. Não vou tocar sobre Noah. Não conseguiria. Nem mesmo eu entendo completamente meus sentimentos por ele, como diabos então expressaria? Minha cabeça dói. Cegamente procuro o segundo Ré.
Toco com dor. Toco sabendo que não sou diferente, não sou especial. Não sou única a tocar vários instrumentos, nem a melhor neles. Não sou a única no coração de Noah. Não sou a única filha do meu pai. Não sou muitas coisas que gostaria de ser e isso dói meu peito, transforma-me em uma mistura confusa de emoções. Magoa, raiva... E logo escuto o som do meu coração rasgando.
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