Amor Cego
33 Carona
Durante o resto do dia, Samir repassa as notas que toquei por reflexo. Demonstra nada além de tristeza e perda. Não gosto de como soa, por mais que ele tente me convencer de estar boa. Sentado ao meu lado, dividindo pacotes de biscoito e rabiscando algumas notas no papel ele mais parece um amigo que um pretendente.
—Você parece bem tranquilo sabendo que não posso ser recíproca contigo.
Samir engole o biscoito e bebe metade do suco em seu copo, o lápis em uma mão e um papel de partitura na outra, avaliando algo sobre meu acorde ter sido elevado a sétima posição.
—Você pode, só não quer — ele fala sem tirar os olhos do que faz — Traz muita coisa dos outros instrumentos pro piano, não é?
—Como pode saber disso? E é, eu levo um pouco de cada.
—Acho que é uma boa oportunidade — Samir levanta o rosto —Gostei de como alguns tons eram bem semelhantes. Dá a ideia de serem um só instrumento. Consegue repetir?
—Não lembro de nem metade do que toquei.
—Ainda bem que eu gravei, então.
Faço uma careta quase imediatamente.
—Você deve ter algum problema.
—Só o áudio. Acha que eu sou psicopata?
—Não precisava me vendar.
—Obstruindo um dos sentidos os outros ficam mais apurados — Samir me passa o papel — Sem a visão, você toca mais com o coração do que de olhos abertos. Sente a música.
—Isso...
Lembro-me de Noah identificando os acordes de prontidão ainda sem saber reproduzi-los. De como suspeita onde estou pelo eco da minha voz, de como ele se assusta quando o toco. Quase aterrorizante ser pego de surpresa tantas vezes. Pressiono o centro da testa encontrando-me cada vez mais egoísta em relação a ele. Nunca me vi como uma pessoa boa, mas não esperava ser tão hipócrita e egocêntrica como percebo agora. Noto tantas vezes minha insensibilidade aos outros através de palavras não pensadas.
—Elise?
Dou de ombros, tentando ignorar minha mente turbulenta por agora. Dou uma olhada no que ele fez e pego a caneta de sua mão para circular os acordes do qual não lembro muito bem a reprodução do som.
—Esses dois são quase a mesma coisa. Não gosto de soarem juntos.
—Pode simbolizar uma regressão. Ou um decrescente.
—Parece complicado.
—Não se deixar nessa ideia de regressão como a melodia. Experimenta.
Aproveito estarmos próximos do piano e estico a mão alcançando as teclas. Reproduzo. Continua parecendo tosco e incompleto.
—Não gostei. Vou procurar mais.
Samir bufa.
—Você é muito rigorosa.
—Talvez.
—E não acredito que transformou nosso encontro em uma aula particular.
Apoio as costas na parede, distanciando-me do instrumento ao meu lado. Venho visualizando Noah cada vez mais, um fantasma exibindo com orgulho os erros e valores hipócritas que venho tendo todos os dias. Minha cabeça ainda dói.
—Queria que fosse útil — respondo massageando o centro da testa.
—A você.
—Exato. Muito egoísta?
—Um pouco. Mas ganha ponto por sinceridade.
—Sinceridade deveria ser tão valorizada assim?
—É óbvio. Prefere mentiras?
—Mentiras sempre soam ruins e verdades soam como boas. Algumas vezes nada é preto no branco como todo mundo pensa.
—Quer dizer que é adaptável?
—Provavelmente. E se a verdade for aterrorizante? Se ficar com a mentira te deixar tranquilo? Tantas pessoas fazem isso descaradamente e ainda falam em um tom hipócrita sobre a sinceridade ser vital.
—Talvez não saibam.
—E se souberem e decidem ignorar?
Samir faz uma careta, confuso.
—Você sempre faz perguntas assim?
Ergo uma sobrancelha o olhando.
—É irritante?
—Confuso, na verdade. Existe alguém capaz de acompanhar esses seus raciocínios?
Quase solto uma risada.
—Existe.
—Deve ser tão maluco quanto você.
Um sorriso dança nos meus lábios. O misto de tristeza e nostalgia. E logo... saudade. Descobri tanto nesses últimos dias que nem sei como vai ser quando me encontrar com Noah de novo.
—É uma questão de ponto de vista.
Samir não entende minha piada, mas cutuca minhas costelas.
—Que tal eu te cozinhar alguma coisa pra jantar? Já nem fala mais coisa com coisa.
Assinto. Continuo sentada no chão do meu quarto mesmo após ele sair, descendo as escadas de forma barulhenta. Apresentando a ele a mansão Samir ficou levemente impressionado, talvez até um toque de inveja ao ver meu piano.
Comemos juntos o frango grelhado que ele prepara só Deus sabe como. Não sou muito boa com cozinha e admiro quem consegue. Por isso grande parte do jantar sou eu elogiando os temperos que ele usou e como diabos ele conseguiu fazer tudo aquilo em tão pouco tempo. Dispenso qualquer tipo de bebida alcoólica sem lhe contar a razão.
Samir é uma pessoa interessante. O imaginei mais egocêntrico e metrossexual, porém apesar de ter realmente um toque de narcisismo em sua personalidade ele é bem mais compreensivo que a maioria dos homens. Vejo-o comentar sobre seus compromissos, contando histórias da faculdade e sobre como assim que lhe surgiu a oportunidade agarrou-a com todas as forças e teve que pedir para adiantarem muitas de suas matérias até conseguir o diploma. Me fez curiosa.
—Quantos anos você tem?
Ele sorri, maroto.
—Vinte e quatro.
Engasgo.
—Vinte e quatro?
—É tão estranho assim?
—Muito! Achei que era perto de trinta.
Samir parece ofendido ao erguer as sobrancelhas.
—Isso foi pior que uma facada. O que te faz pensar que eu sou tão velho assim?
—A barba.
—Eu tirei!
—Eu sei! Mas mesmo assim!
—E você?
Desvio o olhar querendo evitar essa conversa. Levanto-me da bancada pegando meu prato e o dele carregando-os até a pia tentando buscar algum outro assunto.
—Elise se me disser que tem 17 eu fujo antes de alguém chamar a polícia e me acusar de pedofilia.
Solto uma risada.
—Sou maior de idade. Só precisa saber disso.
—Pelo menos não vou preso — escuto-o se levantando — Gostou de hoje?
Começo a lavar a louça, um pagamento por ele ter me ajudando tanto até agora.
—De qual parte?
—Do nosso tempo juntos, talvez?
Apesar de não ter conseguido limpar minha mente de tudo o que queria esquecer, ficar mais no presente ao lado dele foi agradável.
—É, gostei.
Viro-me para Samir. Ele me olha também. Não foi o melhor encontro do mundo, nem o mais envolvente. Foi algo normal, não decepcionante. Talvez por não esperar absolutamente nada dele além de uma amizade. Acredito que seríamos melhores nesse quesito do que em outro. Não consegui sentir atração por ele, por mais que tentasse.
—Isso é bom — Samir comenta aproximando-se.
Ele se inclina e desvio o rosto engolindo o seco. A mão dele pousa na bancada, ao lado do meu quadril. Sinto o corpo dele próximo, porém nada acontece em meu peito. Fico estática, encarando o outro lado da cozinha. Samir entende o recado e afasta-se devagar, sem nada na expressão além de um sorriso.
—Sabia que não seria tão fácil.
—Sinto muito.
—Melhor assim.
Tento decifrá-lo. Samir continua sorrindo e toma meu lugar para lavar a louça. Apoio-me na pia sabendo que qualquer outra pessoa no mundo seria muito bem capaz de apaixonar-se por alguém como Samir, menos eu. Minha atração a ele não passa por nada além da música e até isso não é muito bem desenvolvido.
—Ah, queria te falar — ele começa e me estende os copos limpos para guarda-los — Vou voltar ainda hoje pra capital. Vai querer uma carona?
Penso no preço absurdo das passagens.
—Quero! Claro que eu quero.
Ele solta uma risada.
—Já andou de helicóptero?
—Nunca.
—Agora entendo a animação.
Lhe dou um sorriso amarelo. É melhor deixa-lo acreditando que minha felicidade é pelo passeio e não pelo fato de economizar quase o suficiente para alimentação por uma semana só de não gastar nada com a passagem de volta para a capital. Pretendo avisar minha mãe, Louis e Yuri por mensagem garantindo que nenhuma delas surte ao saber que simplesmente sumi outra vez de Bishop Hill.
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